
MENSAGEM DO VIETNAME

Danielle Steel


OS RAPAZES QUE COMBATERAM NO VIETNAME

Passaram de mo em mo, os desejos, os sonhos, as esperanas de toda uma gerao, toda uma nao mandada para a guerra, com um punhado de velhos conduzindo os nossos 
rapazes para a morte, enquanto ficvamos a ver com horror, dor e com tristeza a descrena de termos de perder tantos dos nossos rapazes, ainda quase presos aos brinquedos, 
com olhares de criana cintilantes, to cheios de esperana, um combate to longo, to triste, uma dor to imensa, feridas to profundas at que, finalmente,
os nossos jovens dormem de novo nos braos do criador, com os nomes gravados na pedra para nunca mais voltarem, para nunca mais tocarem o nosso choro...
mesmo que esqueamos, mesmo que envelheamos, os nossos coraes no podem esquecer, no devemos fugir e enterrar, devemos recordar os rapazes que morreram... que 
no seja em vo, no devemos esquecer a dor, os gritos, as agonias, as ousadias, os heris e os sorrisos, o tempo perdido no tempo, a tantos quilmetros de distncia, 
num pas to verde e to brilhante apanhados num lugar entre mentiras e esperana, no devemos esquecer, devemos prometer t-los no corao at no mais poder, lembrem-se, 
amigos, lembrem-se... dos rapazes que morreram, que viveram, que choraram dos rapazes que lutaram no Vietname.


PARTE 1

ESTADOS UNIDOS:
SAVANNAH BERKELEY.
Novembro de 1963-Junho de 1968

CAPTULO 1

Estava um dia cinzento e frio em Savannah e uma brisa spera soprava do oceano. Havia folhas pelo cho de Forsyth Park, alguns casais passeavam de mo dada e algumas 
mulheres conversavam e fumavam o ltimo cigarro antes de voltarem ao trabalho. E no liceu de Savannah os corredores apresentavam-se desertos. A campainha tocara 
 uma hora da tarde e todos os estudantes estavam nas salas de aula. De uma delas vinham risos e de outras o silncio. Havia o chiar do giz, as expresses de desespero 
e aborrecimento nos rostos dos estudantes mal preparados para um teste surpresa em Educao Cvica. E enquanto os alunos mais adiantados ouviam falar das iniciativas 
para antes do Dia de Aco de Graas, l longe, em Dallas, soaram disparos. Num cortejo de carros, um homem foi catapultado para os braos da mulher, enquanto a 
cabea explodia horrivelmente atrs dele. Ainda ningum percebera o que tinha acontecido e, em simultneo com a voz que continuava a leccionar em Savannah, Paxton 
Andrews tentava lutar contra as ondas de sono e de tdio. E, de sbito, na sala tranquila, sentiu-se incapaz de continuar de olhos abertos por um momento mais que 
fosse.
Piedosamente,  uma e cinquenta e cinco, a campainha tocou, as portas abriram-se e os estudantes saram em massa para os corredores, libertos de testes, preleces, 
literatura francesa e faras do Egipto. Todos avanaram para a aula seguinte, parando ocasionalmente junto a um cacifo para trocar de livros, um breve gracejo, uma 
gargalhada. E, em seguida e repentinamente, um grito. Um longo e angustiado lamento, um som que trespassou o ar como uma seta disparada de uma grande distncia. 
Um troar de passos, uma corrida precipitada at uma sala de canto habitualmente usada apenas por professores, o televisor ligado, e centenas de jovens rostos preocupados 
aglomerando-se junto  ombreira da porta, e pessoas exclamando: "No!", gritando, chamando e falando, e ningum conseguia ouvir o que se dizia na televiso, enquanto 
outras pediam silncio.
- Calem-se! No conseguimos ouvir as notcias!
- Ele est ferido?... Est?... - Ningum se atrevia a pronunciar as palavras e atravs da multido, uma e outra vez, as mesmas palavras: - O que aconteceu? ... O 
que aconteceu?... O presidente Kennedy foi alvejado ... o presidente... No sei ... Em Dallas... O que aconteceu?... presidente Kennedy ... No est... - De incio, 
ningum acreditava. Todos optavam por pensar que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. - Ouviste dizer que o presidente Kennedy foi alvejado? - Sim... e da? 
Conta l o resto da anedota, p! - No havia anedota. Havia apenas conversas frenticas, perguntas infindveis e nenhuma resposta.
No ecr, apareceram imagens confusas, com replay do cortejo de automveis que se dispersava e avanava a toda a velocidade. Walter Cronkite era o locutor de servio 
e tinha o rosto cor de cinza.
- O presidente foi gravemente ferido. - Um murmrio geral perpassou em Savannah e, aparentemente, todos os alunos e professores do liceu de Savannah se comprimiam 
naquela pequena sala, surgindo dos corredores.
- O que  que ele disse?... O que  que ele disse? - perguntou uma voz  distncia.
- Disse que o presidente est gravemente ferido - responderam-lhe da frente, e trs das alunas mais jovens comearam a chorar, enquanto Paxton se mantinha, com uma 
expresso sombria, a um canto, no meio dos corpos que a apertavam, observando-os.
Fez-se repentinamente um silncio etreo na sala, como se ningum quisesse mexer-se, como se tivessem receio de perturbar qualquer delicado equilbrio do ar, como 
se o mnimo movimento pudesse alterar o curso que a vida tomaria... e Paxton viu-se a pensar num outro dia, seis anos antes, quando tinha apenas onze... " O pap 
foi ferido, Pax. "
O irmo George tinha-lhe dado as notcias. A me estivera no hospital com o pai. Ele gostava de pilotar o seu avio sempre que ia assistir a reunies no mesmo estado 
e tivera de aterrar devido a uma repentina tempestade prximo de Atlanta.
- Ele est... Ficar bem?
- Eu... - A voz de George morrera-lhe na garganta, e os olhos reflectiam uma terrvel verdade de que quisera fugir e esconder-se.
Tinha, nessa altura, onze anos, e George vinte e cinco. Estavam separados por catorze anos e vrias pocas. Paxton fora um "acidente"... Era o que a me continuava 
a sussurrar aos amigos: um acidente por que Carlton Andrews nunca deixara de agradecer e que ainda parecia sobressaltar a me de Paxton.
Beatrice Andrews tinha vinte e sete anos quando o filho George nascera. Levara cinco anos a engravidar dele e, tanto quanto lhe dizia respeito, a sua gravidez fora 
um pesadelo.
Sentiu enjoos dirios durante nove meses e o parto foi um horror que sabia no mais ir esquecer. George nasceu, finalmente, de cesariana, aps quarenta e duas horas 
de trabalho de parto e, embora fosse um grande e bonito beb de cinco quilos, Beatrice Andrews prometera a si prpria que no voltaria a engravidar. Tratava-se de 
uma experincia que no queria de forma alguma repetir e tomou as maiores precaues para que tal no acontecesse.
Carlton denotava a pacincia de sempre e adorava o filho. George era o gnero de filho que qualquer pai gostaria de ter. Era um jovem feliz, calmo, razoavelmente 
atltico, com gosto pelos estudos, o que tambm agradava  me. Levavam uma vida tranquila e feliz.
Carlton era um advogado bem-sucedido, Beatrice desempenhava um papel importante na Sociedade Histrica, Liga Jnior e Filhas da Guerra Civil. Tinha uma existncia 
preenchida. E jogava bridege todas as quintas-feiras. Foi a que teve a primeira suspeita, que sentiu violentas nuseas pela primeira vez.
Pensou que tinha comido qualquer coisa estragada no pequeno-almoo da Liga nesse dia e foi para casa deitar-se logo a seguir ao jogo de bridege. E, trs semanas 
mais tarde, soube. Aos quarenta e um anos, com um filho de catorze, j no liceu e um marido que nem sequer tinha a delicadeza de esconder a sua satisfao, estava 
grvida.
Essa gravidez foi-lhe mais fcil do que a primeira, mas nem parecia importar-se. Estava furiosa com a indignidade, o embarao de estar novamente grvida, numa altura 
em que as outras mulheres j pensavam em netos. No queria outro filho, nunca quisera outro filho e nada do que o marido disse pareceu apazigu-la. At mesmo a bebezinha 
loura, perfeita e de ar angelical que lhe puseram nos braos, ao acordar, pouco a animou.
Durante meses a fio, s conseguiu falar de quanto se sentia idiota... e deixava permanentemente a criana na companhia da enorme e meiga ama negra que tinha contratado 
quando estava grvida.
Chamava-se Elizabeth McQueen, mas todos a tratavam por Queenie. E no era, de facto, ama de profisso. Criara onze filhos seus, dos quais apenas sete haviam sobrevivido 
e era a mais rara daquelas raridades do Sul, a adorada "me" negra. Transbordava de amor por todos, mas sobretudo pelas crianas e bebs e amava Paxton. com uma 
paixo e um arrebatamento que nenhuma me que a tivesse dado  luz poderia superar e muito menos Beatrice Andrews. Sentia a mesma atitude de desconforto face  mida 
e, por razes que era incapaz de explicar, sempre manteve a distncia. A criana tinha sempre as mos peganhentas ou queria tocar nos frgeis frascos de perfume 
arrumados no toucador de Beatrice e entornava-os invariavelmente; fosse como fosse, me e filha estavam sempre nervosas quando na companhia uma da outra.
Era Queenie quem a confortava quando chorava e em cujos braos se refugiava quando se sentia magoada ou receosa... Queenie, que nem por um momento a deixava.
Na vida de Queenie no havia folgas. No havia nenhum lugar para onde quisesse ir num dia de folga, pois agora os filhos tinham a sua prpria vida e era incapaz 
de imaginar o que seria de Paxxie, se ela no estivesse ali para a ajudar.
O pai fora sempre bom para ela e amava muito aquela filha, mas a me era outra histria.  medida que Paxton foi crescendo, o abismo entre as duas aumentou e, aos 
dez anos, Paxton j conclura que quase nada tinham em comum. Era difcil acreditar que houvesse laos familiares a uni-las.
Para a me, os clubes eram tudo, as suas amigas, auxiliares, os dias de bridege e doaes s Filhas da Guerra Civil: a sua vida com essas mulheres constitua a razo 
da sua existncia. Quase parecia desinteressada quando o marido voltava a casa e ouvia delicadamente as suas palavras  noite durante o jantar, mas at Paxton notava 
que a me dava sensao de entediada com a companhia do marido.
E Carlton tambm se apercebia. Embora nunca o tivesse confessado a algum, dava-se conta de um gelo emanado pela mulher, tal como Paxton o sentia h anos. Beatrice 
Andrews era cumpridora, fiel, organizada, vestia-se bem, era agradvel, delicada, culta e ao longo da vida nunca sentira a mnima emoo por ningum. Pura e simplesmente, 
nunca possura qualquer tipo de emoo.
Queenie sabia isso, embora o tivesse expressado de uma forma diferente da de Carlton; h muito, comentara com as filhas que o corao de Beatrice Andrews era mais 
frio e mais pequeno do que pevides no Inverno. O mais prximo do amor que sentira fora o que tinha pelo filho, George.
Mantinham um tipo de relao que nunca se permitira com Paxton. Admirava-o, respeitava-o e h muito que o filho adoptara uma espcie de atitude fria, desprendida 
e cnica face a tudo, o que o encaminhou para a Medicina e tambm a impressionara. Agradava-lhe o facto de o filho ser mdico. Era ainda mais brilhante do que o 
pai, segundo confidenciava em segredo s amigas; na verdade, recordava-lhe muito o prprio pai, que estivera no Supremo Tribunal de Jrgia, e tinha a certeza de 
que, um dia, George faria coisas importantes.
Contudo, Paxton, o que faria? Iria para a universidade formar-se-ia e eventualmente acabaria por casar e ter filhos. Aos olhos de Beatrice no se tratava de um percurso 
espantoso e tinha sido, no entanto, o que ela seguira. Por insistncia do pai, fora para Sweet Briar. E casara com Carlton. duas semanas depois de se formar.
Na verdade, embora apreciasse a companhia das mulheres e a procurasse sempre que tinha oportunidade, no as respeitava muito. Eram os homens que a impressionavam, 
eles que realizavam grandes coisas. E no pairava a mnima dvida no seu esprito de que a bonita rapariguinha loura que colocava as mozinhas pegajosas em tudo 
o que tinha oportunidade no estava destinada a grandes empreendimentos.
A voz de Walter Cronkite continuava a ressoar, enquanto Paxton e os demais fitavam o ecr de televiso, sem pronunciar palavra. As poucas pessoas que ainda estavam 
a falar faziam-no em sussurros. E, a espaos de minutos, Cronkite centrava as atenes nos jornalistas que se mantinham, de p, no trio do Hospital Park1and Memorial 
em Dallas, para onde o presidente fora transportado.
- Ainda no temos respostas concretas - declarava o rosto no ecr. - Apenas sabemos que o estado de sade do presidente  crtico, mas no recebemos boletins mdicos 
nestes ltimos minutos. - Nesse instante, um professor estendeu a mo e mudou de canal, mesmo a tempo de ouvirem Chet Hutitley fornecer quase a mesma informao 
numa outra estao televisiva.
Os estudantes fitavam-se uns aos outros, com uma expresso horrorizada. E Paxton voltou a lembrar-se de George, quando fora busc-la  escola para lhe dar a notcia 
sobre o pai. O acidente, o avio a despenhar-se... e o rosto de George, pondo-a ao corrente dos factos.
Nessa altura, o irmo acabara de se formar e estava  espera de comear o estgio no Hospital Grady Memorial, em Atlanta. Conseguira manter-se no Sul durante todo 
o curso, embora o pai fosse diplomado por Harvard e o tivesse encorajado a ir para o Norte. Beatrice achava, contudo, que era importante ficar perto das razes e 
apoiar os estabelecimentos educacionais do Sul e afirmava-o com frequncia.
Eram duas horas da tarde e Paxton conservava-se, ansiosa, no canto da sala, tentando acreditar que ele estava bem, combatendo as lgrimas e sem saber se chorava 
pelo presidente ou pelo pai.
O pai tinha morrido um dia depois de o avio se despenhar, devido  gravidade dos ferimentos. A mulher e o filho estavam ao seu lado e Paxton aguardava, em casa, 
na companhia de Queenie. s onze, acharam que ela era demasiado jovem para o ver no hospital e de qualquer maneira ele nunca recuperara a conscincia. Nunca mais 
o vira.
Ele desapareceu, com todo o seu calor, amor e vasta sabedoria sobre o mundo, o fascnio pelas pessoas, histrias e coisas de longe, muito longe de Savannah. Tratava-se 
de um cavalheiro sulista da velha guarda, mas em alguns domnios secretos no se enquadrava no molde onde nascera e era disso que Paxton gostava nele.
Disso e de tudo o mais, alis: a forma como a apertava sempre que corria para os seus braos, a forma como se expressava quando davam longos passeios e falavam de 
coisas sobre as quais ela se interrogava, como a guerra, a Europa, e como fora frequentar Harvard. Gostava de o ouvir falar e do seu cheiro; do perfume fresco que 
o after-shave deixava depois de ele ter entrado na sala... da forma como os olhos se enrugavam quando sorria, de como se orgulhava dela... Sentiu-se como se tivesse 
morrido quando tocaram Amazing Grace no seu funeral, e Queenie, sentada na ltima fila, chorava to alto, que Paxton conseguia ouvi-la no stio onde estava, entre 
George e a me.
A sua vida nunca voltara a ser a mesma desde a morte do pai. Era como se ele tivesse levado um pedao de si, aquele pedao que costumava cheirar flores silvestres 
na sua companhia e ir visit-lo ao escritrio quando ele tinha de trabalhar ao domingo de manh, o pedao que podia falar-lhe, como se ela, de facto, entendesse 
o mundo, e fazer-lhe todo o tipo de perguntas.
Era intuitiva em relao s pessoas, e um dia garantira-lhe que no achava que a me a amasse verdadeiramente. Paxton deixara de se importar com o facto. Era mesmo 
assim. E restavam-lhe Queenie e o pai.
- Acho... acho que ela precisa de algum como o George... No a enerva e fala das coisas que lhe interessam.  um pouco como ela, no te parece, paizinho? Por vezes, 
quando afirmo que gosto mesmo de alguma coisa, penso que fica assustada. - Era mais perspicaz do que julgava, e Carlton Andrews tambm o sabia, mas nunca o admitiu 
diante da sua nica filha.
- No expressa os sentimentos como tu e eu - arguiu com honestidade, recostando-se na cmoda e velha cadeira de cabedal, em que ela tanto gostava de girar. - Mas 
tal no significa que no os tenha. - Achava-se na obrigao de defender a mulher, mesmo perante Paxton, embora reconhecesse a verdade dos comentrios da filha.
Beatrice era to fria como gelo. Cumpridora, leal e uma "boa esposa" aos seus prprios olhos. Governava lindamente a casa, tratava-o com delicadeza e bondade, nunca 
lhe mentia, no era rude, nem o atraioava. Era uma senhora, da cabea aos ps, mas,  semelhana de Paxxie, ele interrogava-se sobre se alguma vez amara algum 
ou alguma coisa, excepto George; porm, mesmo nesse caso mantinha uma fria e confortvel distncia.
O filho era to parecido com ela que tambm no esperava mais da me. No era, todavia, o caso de Carlton e Paxxie; contudo, ambos sabiam que nada conseguiriam de 
Beatrice.
- Ela ama-te, Pax. - Mas, no prprio instante em que o pai pronunciou as palavras, Paxton achou que ele mentia. No entendeu totalmente as subtilezas relativas quilo 
de que a mulher era ou no capaz. Entendia Carlton muito melhor.
- Amo-te, paizinho! - exclamara, abraando-o sem hesitaes nem reservas. Nunca lhe escondia nada, e ele riu quando a filha quase o derrubou da cadeira giratria.
- Ei... Ainda acabas por me atirar ao cho. - Sonhava que ela um dia iria para Radcliff e, ao apert-la com fora, imaginava-a adulta e bonita e o orgulho do fim 
da sua vida. A filha era tudo o que sempre desejara, calorosa, meiga, terna e responsvel. Era feita  sua imagem e semelhana, embora ele no o soubesse.
E, em seguida, morreu, e Paxton ficou s com eles e com Queenie. Estudava muito e passava o tempo a ler. Escrevia cartas ao pai, como se ele estivesse ausente numa 
viagem e pudesse enviar-lhas pelo correio... S que no podia. s vezes, punha as cartas de lado e, outras vezes, limitava-se a rasg-las. Escrev-las era, contudo, 
uma ajuda. Constitua uma forma de "falar" com ele, j que no podia falar com "eles".
A me parecia estremecer a cada palavra sua, discordava de todas as afirmaes de Paxton, e havia momentos em que ela se sentia como se tivesse vindo de outro planeta. 
Eram diferentes em todos os aspectos.
E George era igual  me. Incitava Paxton a portar-se bem e a tentar ver as coisas sob a perspectiva da me, a ser sensata e a lembrar-se de quem era, o que apenas 
servia para a confundir ainda mais. Quem era ela? A filha do pai, ou deles? Quem tinha razo? Mas, no mais fundo de si, estava tu do claro. Sabia que o seu amor 
por mais largos horizontes era o nico caminho que lhe restava e, quando George acabou o estgio no Grady Memorial e ela fez dezasseis anos soube de imediato que 
queria sair do Sul e ir para Radcliff
A me queria que ela fosse para Agnes Scott ou Mary Baldwin ou Sweet Briar, que ela prpria frequentara, ou at para Bryn Mawr, e achara ridcula a ideia de Paxton 
ir para Radcliffe.
- No precisas de frequentar uma universidade no Norte. Temos tudo o que precisas aqui. Pe os olhos no teu irmo. Teve todas as oportunidades de ir para qualquer 
parte do pas e ficou aqui mesmo, na Jrgia. - S de pensar nisso, Paxton teve uma sensao de claustrofobia. Queria afastar-se das suas ideias estreitas, das amigas 
da me, das coisas que ouvia sobre os "horrores da integrao".
Os direitos civis era algo que discutia com as amigas ou com Queenie, sotto voce, na cozinha. Contudo, at mesmo Queenie se mantinha agarrada s antigas teorias 
e achava que os negros deviam ficar no lugar que lhes competia, o quanto era o mesmo do que o dos brancos. A ideia de misturar os dois assustava-a, e s os filhos 
e os netos queriam as mesmas mudanas que Paxton.
No entanto, Paxton considerava errados os valores com que tinha crescido e no receava afirm-lo nem escrever sobre o assunto nos trabalhos escolares. Sabia que 
tambm o pai teria concordado com ela, sempre fora assim, o que somente incentivara o seu entusiasmo. Era um assunto que tinha aprendido a no discutir com a me 
e o irmo.
Porm, nesse Outono, candidatara-se a meia dzia de universidades no Norte, e duas na Califrnia. Candidatara-se a Vassar, Wellesley, Radcliff, Smith e, a oeste, 
Stanfor e UC Berkeley.
No queria, na verdade, frequentar uma instituio de raparigas, e Radcliffe era a nica que lhe interessava. Candidatara-se a dois estabelecimentos na zona oeste, 
pois a sua orientadora escolar achara que devia faz-lo e, por fim, sem grande entusiasmo, a Sweet Briar, para apaziguar a me. E as amigas da me afirmavam-lhe, 
sem cessar, como seria feliz l, como se a sua ida para Sweet Briar fosse ponto assente.
Tratava-se de algo em que no podia pensar agora, naquele momento, em que mantinha os olhos fixos no relgio. Eram s duas da tarde, meia hora depois de o presidente 
ter sido alvejado, dez minutos desde que tinham estado a ver televiso para ter notcias dele. E toda a nao rezava, e a famlia dele sabia o que Paxton soubera, 
h seis anos, quando o pai morrera: que tudo acabara.
s duas horas e um minuto Walter Cronkite fitara a cmara com um olhar derrotado e informara o povo americano que o seu presidente estava morto. Na pequena sala 
de Savannah, ouviu-se um sussurro de tristeza que se transformou num lamento e a atmosfera depressa ressoou de soluos. As pessoas choravam, os professores e estudantes 
abraavam-se e murmuravam frases incoerentes sobre como  que tal coisa podia acontecer.
Walter Cronkite continuou a falar, dois mdicos foram entrevistados e Paxton sentiu-se como se estivesse a mover-se debaixo de gua. Tudo parecia avanar lentamente 
e tudo parecia estar a acontecer a uma grande distncia.
Havia pessoas a chorar por todo o lado e Paxton mal conseguia ver, enquanto as lgrimas lhe corriam pelas faces; sentiu uma impresso de asfixia, como se algum 
lhe tivesse sugado o ar e no conseguisse respirar. Era uma dor e um desgosto quase insuportveis. Assemelhava-se, estranhamente, a perd-lo de novo.
O pai tinha cinquenta e sete anos quando morrera e John Kenedy tinha apenas quarenta e seis; e, contudo, ambos haviam sido ceifados no auge da vida, cheios de entusiasmo, 
ideias e excitao, ambos tinham filhos que os amavam muito.
Jack Kennedy seria chorado por todo o mundo e Carlton Andrews fora-o somente pelos que o conheciam. Mas, nesta altura, a situao era igual aos olhos de Paxton e 
sentia o que os filhos dele deviam sentir: o terrvel desgosto, a perda, a tristeza, a raiva. Isto era to horrvel, to errado, como  que algum poderia t-lo 
feito?
Caminhou pelos corredores, s cegas, at  sada, sem trocar uma palavra com ningum, percorreu a toda a velocidade a meia dzia de quarteires at  sua casa em 
Habersliam, e a porta da casa bateu quando se precipitou para o vestbulo da frente, ainda a chorar, com o rabo-de-cavalo louro-palha abanando atrs dela.
Tambm se parecia com o pai, ou como ele fora em jovem, com um cabelo louro-brilhante e grandes olhos verdes, que pareciam buscar respostas em permanncia. E, nesse 
momento, estava terrivelmente plida quando deixou cair os livros e a pasta, dirigindo-se a correr para a cozinha, ao encontro de Queenie.
Queenie cantarolava baixinho, enquanto se afadigava  volta da cozinha de que tanto gostava. A loua de cobre brilhava, impecvel, pendurada nas traves por cima 
da sua cabea e pairava o odor aos seus cozinhados. Virou-se, surpreendida, ao avistar Paxton, de p, olhando-a desesperada, com o bonito e jovem rosto assustado 
e manchado de lgrimas. Nesse momento, Paxton era o smbolo de uma nao.
- O que aconteceu, filha? - perguntou Queenie, assustada, movendo o corpo volumoso na direco da jovem que criara e amava como a mais ningum.
- Eu... - Por momentos Paxxie no soube o que responder. Era incapaz de encontrar as palavras, ignorava o que dizer. - No viste televiso, hoje? - Queenie gostava 
sobretudo das novelas e limitou-se a abanar a cabea e fitou Paxton.
- No. A tua me levou o televisor da cozinha para arranjar, ontem. Est avariado. E nunca vejo televiso no aparelho grande da sala de estar. - Pareceu magoada 
com a sugesto. - Porqu? - Interrogou-se sobre se algo de terrvel tinha acontecido na baixa de Savannah... Talvez o Dr. George... ou Mrs. Andrews... ou mesmo os 
prprios filhos tivessem ficado feridos... Talvez uma dessas terrveis manifestaes de direitos civis... talvez... Mas no estava de forma alguma preparada para 
o que Paxton lhe contou.
- O presidente Kennedy foi alvejado.
- Oh, meu Deus... - Queenie afundou o volumoso corpo na cadeira mais prxima, com uma expresso horrorizada. Virou, depois, o rosto para Paxton numa pergunta silenciosa.
- Est morto. - Paxxie comeou novamente a chorar e, em seguida, ajoelhou-se ao lado de Queenie e abraou-a. Era como se voltasse a perder o pai. Aquela terrvel 
sensao de perda, desespero, tristeza e traio... E Queenie apertou-a, enquanto as duas choravam por um homem que nunca tinham conhecido, que fora morto to novo 
ainda e para qu? Porqu? Porque  que o tinham feito? At que ponto podia ir a raiva? Que propsito serviria? E porqu ele, como exemplo? Porqu um homem com dois 
filhos pequenos e uma mulher jovem? Porqu algum? E porqu algum to vivo, to cheio de esperana e de promessas para tantos? Paxxie chorava-o nos braos de Queenie, 
e a velha mulher negra agarrava-a e embalava-a como o fizera em criana, tambm ela chorando por um homem que nunca conhecera mas pensava ser boa pessoa.
- Deus do cu, filha... No consigo acreditar. Porque  que algum havia de fazer tal coisa? Sabem quem foi?
- No me parece. - Mas, quando se dirigiram  sala de estar e ligaram a televiso, havia mais notcias. Um homem chamado Lee Harvey Oswald tinha alvejado e morto 
um polcia de Dallas, que tentara interrog-lo, e a sua pista fora seguida at ao armazm de livros de onde os tiros fatais haviam sido disparados contra o cortejo 
de automveis,  uma hora e trinta minutos. E acreditava-se ser ele o assassino do presidente Kennedy.
Oswald tinha sido preso, o polcia e o presidente estavam mortos, um agente dos Servios Secretos tambm, o governador do Texas, John Connally, tinha sido ferido 
com gravidade mas estava bem e o corpo do presidente ia a caminha de Washington num avio da fora area, com a mulher ao lado. O presidente e Mr. Johnson tambm 
iam a bordo, e tinha corrido a notcia de que fora atingido de raspo, o que, mais tarde, veio a provar-se ser apenas boato.
Uma nao inteira encontrava-se em estado de choque, e Paxton e Queenie mantinham-se ali, de p, sem pronunciar uma palavra, ainda incapazes de acreditar no que 
ouviam e viam. Continuavam imveis, observando em silncio, com as lgrimas a correrem-lhes pelas faces, quando a me de Paxton entrou em casa, cinco minutos depois. 
Ia ao cabeleireiro todas as sextas-feiras  tarde e acabava de voltar da sua marcao semanal. Ouvira as notcias no cabeleireiro e tinha uma expresso sombria quando 
se lhes juntou em silncio.
Algumas das mulheres tinham ido para casa com o cabelo molhado, e a maioria dos cabeleireiros no teve coragem para findar o trabalho iniciado. Todos estavam debulhados 
em lgrimas e secavam o cabelo a Beatrice Andrews, quando ouviram as primeiras notcias. Ela ficara, no entanto, at estar pronta e tinha mesmo convencido uma das 
raparigas a acabar de lhe arranjar as unhas. No lhe agradava a ideia de ficar assim mais uns dias. Tinha muito que fazer naquele fim-de-semana, antes do Dia de 
Aco de Graas, e o seu clube de bridege daria um jantar. Nunca lhe ocorreu que ningum daria nada. Todas as festas imaginveis seriam canceladas enquanto as pessoas 
se mantinham grudadas ao ecr dos televisores e toda uma nao continuava de luto.
Contudo, essa ideia no lhe ocorrera, e regressara a casa, sentindo-se abatida, mas de forma alguma histrica. Pensou que algumas das mulheres haviam exagerado um 
pouco. Sabia o que era o verdadeiro desgosto. No fundo, havia perdido o marido e era impossvel acalentar o mesmo tipo de emoo por uma figura pblica. No entanto, 
era isso o que as pessoas sentiam por ele, aquela intensa impresso de perda pessoal, como se o tivessem conhecido e amado. Ele trouxera novas esperanas para todos, 
a promessa de juventude renovada, a magia de um mundo que nunca conheceriam e com que apenas podiam sonhar. E a sua jovem mulher recordava uma bela princesa a toda 
a gente.
Beatrice Andrews mantinha-se de p, solenemente junto da filha e da mulher que a tinha criado; sentou-se depois a ver Lyndon Johnson prestar juramento no avio da 
fora area, mas no convidou Queenie a juntar-se-lhe. As cmaras mostravam a juza Sarah Hughes, que presidia  cerimnia do juramento de Lyndon Johnson, enquanto 
Jacqueline Kennedy se mantinha ao lado dele e todos se apercebiam, subitamente, de que ela usava o mesmo conjunto cor-de-rosa, o tailleur que tinha quando ele fora 
morto e que ainda estava manchado do seu sangue. E o rosto denotava um vestgio de tristeza, no momento em que Lyndon Johnson se tornou presidente.
Paxton deixou-se cair numa cadeira ao lado da me. As lgrimas corriam-lhe abundantemente pelas faces e fitava o ecr com uma expresso de descrena, incapaz de 
apreender o que se passara.
- Como  que algum pde fazer uma coisa destas? - soluou; Queenie abanava a cabea e, sem parar de chorar, voltou para a cozinha.
- No sei, Paxton. Falam de conspirao. Mas no me parece que algum saiba ainda por que motivo aconteceu. Lamento por Mistress Kenedy e pelas crianas. Que coisa 
horrvel para elas.
Paxton, voltou a pensar no pai. Embora ele no tivesse sido assassinado, morrera subitamente, e a sua ausncia continuava a mago-la. Talvez fosse sempre assim. 
E tinha a certeza de que os filhos do presidente tambm sentiriam a ausncia dele. Porque  que tudo aquilo acontecera?
- Atravessamos uma poca terrivelmente conturbada - prosseguiu a me. - Todos estes horrveis conflitos raciais... as mudanas que tentou realizar... Talvez seja 
o preo que acabou por pagar... - Beatrice Andrews tinha um ar arrogante ao desligar o televisor, e Paxton fitou-a, interrogando-se sobre se alguma vez viria a compreend-la.
- Achas que  uma questo de direitos civis? Achas que  esse o motivo por que tudo aconteceu? - irritou-se Paxton.
Porque  que a me pensaria assim? Porque  que gostaria de manter tudo na Idade Mdia? Porque  que eles tinham de viver no Sul? Porque  que ela nascera em Savannah?
_ No afirmo que tenha sido esse o motivo, Paxton. Afirmo que  uma possibilidade.  impossvel virar um pas inteiro do avesso e mudar tradies com que as pessoas 
se sentiram bem durante centenas de anos, sem pagar um preo por isso. Talvez seja este o preo a pagar. Sem dvida, um preo terrvel.
Paxton fitou-a com um olhar incrdulo. No era esta, contudo, a primeira vez que discutiam o assunto.
- Como podes dizer que as pessoas se sentem bem com a segregao? - replicou. - Como podes fazer uma afirmao dessas? Tambm achas que os escravos se sentiam bem?
- Alguns deles, sim. Alguns tinham vidas muito melhores do que agora, quando pertenciam a pessoas responsveis.
- Oh, meu Deus! - No entanto, a me acreditava nas prprias palavras e Paxton tinha conscincia disso. - Pensa na situao actual dos negros. No sabem ler, no 
sabem escrever, trabalham como ces, so violentados, separados, segregados, no tm nenhum dos privilgios de que tu e eu usufrumos, mam. - Era raro tratar a 
me assim. S o fazia quando se sentia desesperada ou muito envolvida no problema, ou triste, como era o caso nesse momento, mas Beatrice Andrews no se deu por 
achada.
- Talvez fossem incapazes de lidar com esses privilgios, Paxton. No sei. Apenas digo que  impossvel mudar o mundo de um dia para o outro, sem que haja repercusses 
horrveis. E foi exactamente isso o que aconteceu.
Paxton no pronunciou nem mais uma palavra. Dirigiu-se ao quarto, deitou-se em cima da cama e chorou at  hora do jantar, quando o irmo regressou a casa. Apareceu 
plida e de olhos inchados para o habitual jantar das sextas-feiras.
Ele vinha jantar todas as teras e sextas-feiras  noite, excepto quando havia impedimentos de trabalho ou tinha qualquer compromisso social importante, o que era 
raro. E,  semelhana da me, tinha uma perspectiva oposta  da sua irm muito mais nova. Limitava-se, contudo, a sorrir quando ela expressava os seus pontos de 
vista ou emitia uma exclamao desdenhosa, garantindo-lhe que viria a pensar de uma maneira diferente quando fosse mais velha.
Era esse o motivo por que ela raramente dava a conhecer as suas opinies a qualquer deles e mantinha uma distncia respeitosa. Nada tinha a confidenciar-lhes, e 
a tentativa de discusses de teor filosfico ou poltico com ambos s a enlouquecia. Guardava os seus pontos de vista para as companheiras de estudo, os professores 
mais liberais ou as composies que escrevia. Quando achava que Queenie podia compreend-la, conversava com ela, e a velha mulher revelava uma sabedoria contraditria 
com a sua educao linear. Era, contudo, entendida nas coisas do mundo e muitas vezes uma boa interlocutora para Paxton. A jovem chegara mesmo a falar-lhe das universidades 
a que se tinha candidatado e o que pensava das mesmas; Paxton mostrava-se obstinada quando afirmava que no queria ficar no Sul e Queenie compreendia. Entristecia-a 
saber que Paxxie se afastaria dali, mas sabia que lhe faria bem. Era demasiado parecida com o pai para no o fazer.
- Penso tratar-se de uma conspirao cubana - declarou George ao jantar, nessa noite. - Penso que, quando comearem a escavar, vo concluir que h muito mais para 
l do que est  vista.
Paxton fitou-o e interrogou-se se existiria alguma verdade naquela afirmao. Ele era um homem inteligente, embora pouco interessante. Passava a maior parte do tempo 
embrenhado na medicina e nada mais o interessava de facto. Detinha opinies marcadamente provincianas e a nica vez em que se entusiasmara a srio fora com um novo 
projecto de pesquisa num assunto que lhe interessava, ou seja, diabetes nos adultos, o que no parecia muito atraente para Paxton.
George tinha trinta e um anos e quase ficara noivo no ano anterior, mas nada fora avante e tinha, por qualquer motivo, a sensao de que a me ficara aliviada, embora 
a rapariga pertencesse a uma famlia que ela conhecia. Beatrice afirmara, no entanto, mais do que uma vez, que achava que George era demasiado novo para se casar. 
Tinha de se instalar na vida, antes de se sobrecarregar com uma mulher e filhos.
De qualquer maneira, Paxton nunca gostava das raparigas com quem ele saa. Eram sempre bonitas, mas tontas e superficiais. No tinham "Substncia" e era impossvel 
conversar a srio com elas.
A ltima que trouxera a um jantar que a me oferecera tinha vinte e dois anos e rira a noite toda. Explicara que no entrara na universidade dado as suas notas serem 
muito baixas, mas adorava trabalhar para a Liga Jnior e participaria do desfile de moda nessa semana. Acrescentou que mal conseguia esperar pelo evento e, no fim 
da noite, Paxton sentia vontade de a estrangular. Era to estpida e irritante que no percebia como  que o irmo a suportava; s que parecia muito terna e agarradia 
quando saram e continuava a rir ao entrarem no carro dele. H muito que Paxton se tinha mentalizado que o mais provvel seria odiar a rapariga com quem George eventualmente 
casasse. Seria meiga, simples, pouco exigente, avessa a pensar, a desafios e extremamente sulista. Paxton tambm era sulista, mas no caso de Paxton tratava-se de 
geografia e no de uma desculpa ou tormento. Ainda havia, aparentemente, muitas jovens que gostavam de ser "belas sulistas" e servir-se disso como desculpa para 
a ignorncia ou total estupidez. Paxton odiava raparigas deste gnero, mas era bvio que o irmo gostava delas.
Paxton no conseguiu dormir durante toda aquela noite e estava obcecada pela televiso. Voltava incessantemente at junto do aparelho e, por fim, s trs horas da 
manh, sentou-se na frente do ecr. Viu que, s quatro horas e trinta e quatro minutos transportavam o caixo para a Casa Branca com Mrs. Kennedy caminhando ao lado. 
Nos trs dias seguintes Paxton ficou com a sensao de nunca ter afastado os olhos do televisor.
No sbado, assistiu  chegada de membros da famlia e membros sniores do Governo, que tinham vindo ver o homem que amavam. E no domingo, assistiu ao transporte 
do caixo at ao Capitlio numa carruagem puxada por cavalos. Viu Jacqueline Kennedy e a filha Caroline ajoelharem-se ao lado do caixo e como a menina enfiava a 
mo por baixo da bandeira que o tapava, e nos rostos de ambas pairava a tristeza. Em seguida, Paxton viu Lee Oswald a ser abatido por Jack Ruby, no momento em que 
o transferiam para outra priso; observava, surpreendida, pensando inicialmente que se tratava de qualquer erro ou confuso. Parecia-lhe impossvel que mais uma 
pessoa tivesse sido morta naquele infindvel horror.
Na segunda-feira, assistiu ao funeral e chorou, descontrolada, enquanto escutava o som lgubre do infindo rufar dos tambores. E, ao avistar novamente a carruagem 
sem condutor, voltou a lembrar-se, por qualquer motivo, do pai. O desgosto parecia interminvel, uma dor com sabor a eternidade, uma tristeza sem fundo, e at a 
me estava abalada na segunda-feira  noite, e ela e Paxton mal trocaram uma palavra ao jantar. Queenie ainda estava a enxugar os olhos quando Paxton foi at  cozinha 
falar com ela; sentou-se numa cadeira, observando-a, distrada, a lavar a loua, aps o que a ajudou a limpar os pratos. A me subira ao andar de cima para telefonar 
a uma amiga. Dava a sensao de que nada tinham a dizer uma  outra, nem a encorajar-se ou consolar-se mutuamente. Estavam demasiado distantes e sempre assim fora.
- Ignoro porqu ... mas continuo a sentir-me como quando o pap morreu ... Como se esperasse que algo diferente acontecesse. Como se ele fosse aparecer em casa a 
qualquer momento e me dissesse que no era verdade, que tudo se tratava de uma brincadeira... Ou que o Walter Cronkite aparecesse no ecr e comunicasse que  tudo 
um teste, que o presidente est a passar o fim-de-semana em Palm Beach com Jackie e as crianas e lamentam muito ter-nos preocupado ... mas tal no sucedeu. Tudo 
continua em cadeia... e  real ... Uma sensao estranha.
Queenie esboou um aceno de concordncia com a cabea grisalha to cheia de sabedoria. Sabia, como sempre, o que Paxton estava a sentir.
- Eu sei, filha.  assim, quando algum morre. Sentamo-nos e ficamos  espera que algum nos diga que no aconteceu. Senti-me assim quando perdi os meus bebs. Leva 
muito tempo a desaparecer.
Agora, era difcil pensar no Dia de Aco de Graas. Era difcil dar graas por um mundo confuso e irritado, que arrebatava as pessoas antes do tempo previsto. Era 
difcil conceber feriados e, ao pensar assim, Paxton imaginava como se sentiriam os Kennedy. Devia ser o pior dos pesadelos para Jacqueline Kennedy e os filhos. 
Organizara o funeral e desempenhara tudo na perfeio, at aos cartes impressos na papelaria da Casa Branca. Escrevera  mo as palavras "Deus, toma por favor ao 
teu cuidado o teu servo John Fitzgerald Kennedy" e mandara tambm imprimir excertos do seu discurso inaugural.
Era o fim de uma era... o fim de um momento no tempo... de um tempo que quase se tornara... efmero, flutuante, desaparecido. O facho havia sido, na verdade, passado 
a uma nova gerao que, agora, o agarrava com firmeza, mas hesitava quanto at onde o transportar.
Nessa noite, quando Queenie apagou as luzes da cozinha e se despediu de Paxton, conservaram-se um momento no escuro, a velha e a jovem, a branca e a negra, envoltas 
pela tristeza da perda generalizada. Depois, Queenie dirigiu-se ao seu quarto e Paxton subiu ao andar de cima, at ao dela, para pensar no que se perdera e no que 
havia pela frente.
Sentia-se como se lhe devesse algo, para que no tivesse morrido em vo. Tal como devia algo ao pai... e a si prpria. Tinha de ser algum por eles... fazer algo 
de importante com a sua vida... algo que tivesse interesse. Mas o qu? Era essa a questo.
Deitou-se na cama a pensar em ambos, no que haviam defendido, no que tinham acreditado, o homem que amara e conhecera to bem e o outro que s lhe permitia suposies. 
E, de sbito, a nica coisa que desejava era iniciar a sua vida... dar-lhe um rumo... e apenas conseguia pensar no seu sonho de ir para Harvard, como eles o haviam 
feito. Continuou deitada, fechou os olhos e prometeu, silenciosamente, a ambos, fazer algo de si, ser algum de quem se orgulhassem. Era o presente que lhes dava, 
o legado que lhe tinham deixado e uma promessa que estava certa de cumprir.
Apenas lhe restava esperar pela Primavera... e rezar para que fosse aceite em Radcliffe.


CAPTULO 2

Os ltimos sobrescritos chegaram na segunda semana de Abril. Sweet: Briar tinha aceite o pedido em Maro. E Vassar, Wellesley e Smith haviam anudo nos primeiros 
dias de Abril. No entanto, Paxton no estava interessada em nenhuma das instituies.
Arrumou as cartas em cima da secretria e continuou a aguardar a que realmente pretendia. Radcliff. Rezava intimamente para que a sua primeira escolha se tornasse 
realidade, e a perspectiva de falhar no lhe parecia muito provvel.
Afinal, o pai fora para Harvard e ela tinha notas altas. No excelentes, mas boas. Somente se sentia preocupada por no ser grande coisa no desporto e nunca ter 
desenvolvido interesses colaterais. Adorava escrever poesia e contos, gostava das aulas de fotografia, andara no ballet em criana e inscrevera-se no clube de arte 
dramtica, mas desistira por achar que interferia com os estudos. E ouvira mais do que uma vez que Harvard queria gente que fosse boa em tudo e nutrisse marcados 
interesses extracurriculares. Mesmo assim tinha quase a certeza de que seria aceite.
A me ficara satisfeita quando chegara a carta de Sweet Briar e, no que lhe dizia respeito, Paxton recebera notcias do nico estabelecimento interessante.
Agradava-lhe poder afirmar que Paxton tinha sido aceite pelas outras universidades; mas, tal como Paxton, nenhuma delas a entusiasmava. E, para Beatrice Andrews, 
as universidades da Califrnia at podiam situar-se noutro planeta. Incitou Paxton a dar o passo mais "sensato" e aceitar o ingresso em Sweet Briar, sem aguardar 
resposta de qualquer das outras.
- No posso fazer isso, me - replicou Paxton calmamente, perscrutando com os grandes olhos verdes aquele rosto que sempre lhe parecia o de uma estranha. H muito 
tempo, prometi algo a mim prpria. - Era, contudo, algo mais do que uma promessa feita a si prpria, era algo que sentia dever ao pai.
- Nunca serias feliz em Bston, Paxton. O clima  horrvel. E a universidade  enorme. Estars muito melhor perto de casa, num ambiente familiar. E podes tirar um 
curso em Harvard mais tarde.
- Porque no esperamos para saber se me aceitam? Parece-me mais sensato.
No entanto, o que parecia sensato para ela era-o muito pouco para a me. Irritava-a fortemente que Paxton se obstinasse tanto por entrar numa universidade do Norte, 
quando podia ir para Sweet Briar e ficar muito mais perto de casa.
Uma tarde, George apareceu para dizer de sua justia, e Paxton sorriu para si mesma, ao escut-lo. Falar com George assemelhava-se a falar com a me. Ambos pensavam 
que a vida dela se destinava a manter-se perto deles e que era idiota da sua parte tentar abrir as asas e expandir horizontes.
- E o pap, George? Saiu-se bem, embora se tenha aventurado a ir para o Norte e frequentar uma universidade com os ianques - disse num tom trocista que a divertia, 
mas no a ele. Entre as suas muitas outras virtudes, o seu irmo George no herdara o sentido de humor do pai.
- No  a mesma coisa, Pax. E sabes que no sou um apaixonado do Sul. Apenas acho que, para uma mulher, Sweet Briar  uma escolha melhor. A me tem razo. E no 
h nenhum motivo para que te desloques para to longe, at Bston.
- Com esse tipo de atitude, nunca teriam descoberto a Amrica, George. Imagina se a rainha Isabel tivesse dito a Colombo que no havia qualquer motivo para que ele 
percorresse toda a distncia que o separava do Novo Mundo... - Zombava do irmo e ele no se mostrava nada satisfeito.
- A me tem razo. Ainda s uma criana e  ridculo fazer tudo isto como uma prova de fora. No s um homem e nenhum motivo do mundo justifica que vs para Harvard. 
No ests vocacionada para uma carreira de mdica ou advogada e, por isso, no h motivo para ires para onde quer que seja. Devias ficar em casa, prximo de ns. 
E se a mam adoece? J no  to nova como dantes e necessita da nossa presena aqui.
Fez todas as tentativas, incluindo o sentimento de culpa, o que apenas serviu para enraivecer a irm. Era incapaz de entender porque queriam cortar-lhe as asas. 
Parecia, 'contudo, que se sentiam seus donos.
- Tem cinquenta e oito e no noventa e trs anos, George! E no vou passar o resto da minha vida sentada aqui,  espera de cuidar dela. E o que sabes tu, afinal, 
das carreiras que pretendo seguir? Raios!... Por acaso, at quero ser neurologista. Isso d-me o direito de querer estudar no Norte, ou tenho de ficar aqui a fazer 
bolinhos e outras coisas, s porque sou uma mulher?
- No era o que estvamos a sugerir - retorquiu com uma expresso magoada ante a sua rudeza.
- Eu sei - replicou, tentando recuperar a calma perdida. - E Sweet Briar  maravilhosa. S que, durante toda a minha vida, sonhei ir para Radcliffe.
- E se no fores aceite? - redarguiu, fitando-a com um olhar penetrante.
- Serei. Tenho de ser. - Fizera a promessa  memria do seu pai. Tinha-lhe prometido at mesmo antes. jurara que ele se orgulharia dela e lhe seguiria as pisadas.
- E se no fores aceite? - insistiu o irmo num tom frio. - Concordars em ficar no Sul?
- Talvez... No sei... - As trs universidades da Ivy League tambm no lhe agradavam e no tinha ponderado seriamente em Stanford ou Berkeley. No queria pr-se 
a conjecturar sobre uma ida para l e no conhecia ningum na Califrnia. - Logo vejo.
- Acho bem que comeces a encarar a hiptese a srio, Paxton. E a pensares duas vezes, antes de dares um desgosto  mam.
Porque  que ele lhe fazia aquilo? Porque tinha de sacrificar a vida por eles? O que pretendiam dela e porque a queriam aqui, em Savannah? Parecia to despropositado. 
S para que pudesse ir a almoos e reunies das Filhas da Guerra Civil com a me e aderir, eventualmente, a um clube de bridege? Assim, Beatrice no ficaria mal 
vista e Paxton encaixava-se no molde. Mas ela no queria encaixar-se no molde. Queria algo mais. Queria frequentar a escola de jornalismo em Radcliffe.
Falara muitas vezes no assunto com Queenie e ela era a nica que a encorajava e a amava o suficiente para estar disposta a solt-la. Sabia do que Paxton necessitava 
e queria que ela voasse para bem longe das duas pessoas que, aparentemente, tanto esperavam dela e sempre lhe haviam dado to pouco.
Tinha direito a mais do que isso na vida, e o seu crebro estava to clarificado, to cheio de novas ideias, que merecia algo mais do que a vida que a esperava, 
se ficasse em Savannah. E mesmo que, depois de se ter afastado, quisesse voltar, Queenie estaria ali para a receber de braos abertos. No ia, todavia, suplicar-lhe 
que ficasse, nem atorment-la como os outros.
O sobrescrito chegou numa tera-feira  tarde e estava na caixa do correio quando regressou a casa, juntamente com um de Stanford. E Paxton susteve a respirao 
no momento em que os avistou.
Estava uma quente tarde de Primavera e fizera lentamente o percurso at casa, pensando no rapaz que a convidara para o baile de Primavera nessa mesma tarde. Era 
alto, moreno e elegante, e ela admirara-o durante todo o ano anterior, mas ele andara com outra. E agora ele ficara subitamente livre e a cabea de Paxton transbordava 
de sonhos e desejos. Tencionava contar tudo a Queenie e chegara, repentinamente, a carta por que esperava. Todo o seu futuro estava numa folha de papel branco, dobrada 
e selada num sobrescrito de Harvard.
"Cara Miss Andrews, temos o prazer de inform-la que foi aceite... Cara Miss Andrews, lamentamos inform-la que... " Qual das frases seria?
As mos tremiam-lhe quando pegou nos sobrescritos, tentando decidir qual deles abrir primeiro. Sentou-se nos degraus da frente da slida casa de tijolo e resolveu 
abrir primeiro o de Radcliffe, pois era, na verdade, o nico que lhe interessava, e no conseguia aguentar a expectativa de aguardar at ter aberto o outro.
Atirou o comprido rabo-de-cavalo louro para trs das costas, fechou os olhos e encostou-se s elaboradas grades de ferro forjado, pedindo a bno do pai para a 
resposta...
"Por favor... oh, por favor.. que eles me aceitem ... " Abriu os olhos e rasgou o sobrescrito o mais rapidamente que pde.
As linhas de abertura no eram, de forma alguma, o que esperava. No deixavam transparecer nada e arrastavam-se, infindavelmente, sobre a importncia de Harvard, 
as qualidades dela como candidata, e s no segundo pargrafo estava escrito o que procurava. O corao quase lhe parou ao ler:
"Embora tenha todas as qualificaes necessrias para ser uma excelente candidata a Radcliffe, achamos que nesta altura... talvez- outra instituio... Lamentamos... 
Estamos certos de que alcanar ptimos resultados em qualquer outra instituio que escolher... Desejamos-lhe o maior sucesso ... "
Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, e as palavras danavam numa nvoa de tristeza enquanto lhe trespassavam o corao. Falhara perante ele. Tinham-na recusado. 
Um nico instante bastara para lhe derrubar os sonhos. Radcliffe negara-lhe o ingresso. E o que faria, agora? Para onde iria? Tinha, realmente, de ficar no Sul com 
toda a sua estreiteza de ideias, temas familiares e junto da me e do irmo? Era mesmo assim? Ou iria para Vassar? Smith? Wellesley? Achava-as a todas montonas.
Rasgou, hesitante, o segundo sobrescrito, sentindo-se nervosa. Talvez fosse chegada a altura de pensar seriamente em Stanford. Mas no por muito tempo. Abordavam 
a, questo logo no primeiro pargrafo, em vez de no segundo, e a resposta era praticamente idntica  de Radcliffe.
Desejavam-lhe os maiores sucessos, mas achavam que se enquadraria melhor noutra instituio. O que a deixava... de mos a abanar. Com as opes que j tinha e uma 
quantidade desconhecida em Berkeley. Sentia-se deprimida quando se ps de p, subiu os degraus e entrou em casa. Receava ser obrigada a dar a notcia  me.
Falou obviamente primeiro com Queenie e a velha mulher comeou por se mostrar desgostosa por ela, mas, por fim, filosfica.
- Se no te aceitaram,  porque no era o teu destino. Um dia, olhars para trs e sabers.
Entretanto, as perspectivas que se lhe ofereciam eram desanimadoras. No queria ficar no Sul, no queria ir para um estabelecimento s de raparigas e nem sequer 
se imaginava a ir para Berkeley. E agora? No entanto, a maneira de pensar de Queenie era mais avanada do que a de Paxton.
- E a Califrnia? ripostou. -  muito longe daqui, mas talvez gostes. Uma das filhas mudara-se para Oakland h vrios anos e, embora ela nunca l tivesse estado, 
sempre ouvira dizer que So Francisco era maravilhoso. - Dizem-me que  bonito. No ters frio como no Norte. - Sorriu meigamente  jovem que amara e consolara desde 
que nascera, custando-lhe v-la to amargamente desapontada. - A tua mam matava-me se me ouvisse sugerir-to, mas acho que devias pensar na Califrnia.
Paxton esboou um arremesso de sorriso. A me matava-as s duas, se ouvisse metade das suas conversas.
- Parece-me to distante... to... No sei... to estranha...
- A Califrnia? - redarguiu Queenie com um sorriso. - No sejas tonta. Fica apenas a umas horas de avio, pelo menos  o que a minha Rosie est sempre a dizer-me. 
Portanto, pensa nisso tambm. Talvez essa escola de Berkeley seja a soluo.
Todavia, nessa noite ao jantar com a me e George, eles continuaram a opinar que a soluo se encontrava muito mais prximo de casa e, no que lhes dizia respeito, 
a resposta de Radcliffe colocara ponto final no assunto. Nem sequer se sentiam desapontados, mas, pelo contrrio, aliviados. E,  semelhana de Queenie, afirmaram 
que o destino assim o quisera. Porm, contrariamente  velha negra que cuidara dela, quase pareciam satisfeitos com o ruir dos seus sonhos.
E, no meio de toda a situao, Paxton sentia-se como se, de qualquer maneira, tivesse desapontado o pai, como se o tivesse deixado ficar mal ao ser recusada pela 
sua alma mater. Desejava expressar tudo isto a algum, confessar que estava deprimida, mas, por uma vez na vida, achava que Queenie no a compreenderia, e era bvio 
que tambm a me e o irmo estariam longe de o fazer. E as amigas encontravam-se absortas nas suas prprias tristezas e alegrias. Todas estavam por completo obcecadas 
com as universidades de que esperavam notcias e o facto de serem aceites ou recusadas.
O rapaz que a convidara para o baile de finalistas telefonou nessa noite e tentou confidenciar-lhe algo do que sentia, mas ele apenas conseguia falar de ter sido 
aceite por Chapel Hill e nem sequer parecia ouvi-la. Aquela era uma altura para se chorar ou celebrar a ss. E, nessa noite, quando se deitou, pensou nas palavras 
de Queenie e interrogou-se sobre se seria uma idiotice total, ou se valeria a pena considerar a hiptese. E, mais importante, se a aceitariam.
Contudo, no final da semana, a me e George tinham-na esgotado; acedeu inscrever-se em Sweet Briar na semana seguinte, prometendo intimamente que iria recandidatar-se 
a Radcliffe no prximo ano e insistir at ser aceite, independentemente de quanto tivesse de trabalhar ou do tempo que demorasse a convenc-los. Ficou um pouco melhor 
depois de ter traado esse plano e teve conscincia de que lhe seria mais fcil permanecer prximo de casa, desde que soubesse que no se tratava de uma situao 
definitiva.
E, na segunda-feira, chegou a resposta de Berkeley. Tinham o maior prazer em inform-la de que fora aceite. E, embora ignorasse porqu, o corao ps-se a bater 
com mais fora e sentiu uma repentina excitao. Precipitou-se para a cozinha, a fim de mostrar a Queenie a carta que lhe tinham mandado. A velha mulher fitou-a 
de olhos brilhantes, como se aquela fosse a resposta a tudo e nunca tivesse duvidado de que chegaria.
- Ests a ver? A tens a resposta.
- O que te d tanta certeza? - replicou ela podia saber? Como podia estar to segura?" No entanto, nenhuma das outras opes lhe agradava.
- Como te sentes?
- Bem. De certa maneira excitada e receosa... mas feliz.
- E as outras escolas de que tens falado? Como te fazem sentir?
- Deprimida... aborrecida... bastante mal.
- No me parece uma boa soluo. Acho esta melhor. Mas pensa nisso, querida. Reza. Escuta o Senhor.. e as tuas entranhas. Escuta sempre o que sentes dentro de ti. 
Todos o fazemos. Sabemo-lo aqui - declarou, apontando para o volumoso ventre com uma expresso sria. - Quando nos sentimos bem,  a resposta certa, mas quando nos 
sentimos mal, indispostos, tristes,  porque fizemos um erro grande ou estamos quase a faz-lo!
Paxton riu-se ante aquela sabedoria simples, mas sabia que, como habitualmente, Queenie tinha razo. A velha mulher sabia. Era muito mais esperta do que a me de 
Paxton, George, ou a prpria Paxton.
- O mais estranho  que acho que tens razo, Queenie. - Sentou-se numa cadeira da cozinha, mordiscando uma cenoura e com um ar pensativo. Era jovem e bonita e o 
rosto emanava tranquilidade. Tratava-se de algum que se sentia bem consigo prprio e h muito que assim era. Era calma e forte e desde a morte do pai, h sete anos, 
que se habituara a meditar muito. - O que vou dizer-lhes?
- A verdade, quando souberes qual  essa verdade. E no faas o que quer que seja s porque te digo que o faas. s uma rapariga esperta. Faz o que quiseres fazer 
e o que sabes que est certo, quando o souberes. Antes de mais, pensa. Sabers quando chegar a altura. - Voltou a apontar para o ventre e Paxxie riu e levantou-se.
Era alta, magra e elegante como o pai o fora e de uma estranha graciosidade. Era mais alta do que muitas das suas amigas, mas nunca se tinha importado. E, com grande 
surpresa de Queenie, no se interessava especialmente pela aparncia. Era bonita e quase dava a sensao de que no sabia ou no queria saber. Interessava-se por 
outras coisas, assuntos do corao, do ntimo, da alma.
Assemelhava-se demasiado com o pai para ter conscincia de que era bonita, e a indiferena que mostrava frente  sua beleza loura irritava muitas vezes a me. Queria 
que ela passasse nos desfiles de moda da Liga Jnior e eventos das Filhas da Guerra Civil e Paxton recusava. Era uma jovem calma e tmida e divertia-a toda a presso 
e poltica inerentes a tais acontecimentos, mas no lhes dava importncia.
Gostava de falar de assuntos srios com os professores, dos recentes desenvolvimentos no Vietname, das ramificaes da morte de Kennedy, da posio de Johnson ante 
os direitos civis, de Martin Luther King e das suas marchas e manifestaes. Tinha uma paixo por todos os acontecimentos importantes que decorriam no mundo, as 
suas ligaes, elos e efeitos entre si. Era sobre tudo isto que gostava de escrever, pensar e participar.
Mais tarde, nessa mesma semana, procurou um dos seus professores favoritos e perguntou-lhe o que pensava da Universidade de Berkeley.
- Acho que  uma das melhores do pas. Porqu? - retorquiu, fitando-a bem nos olhos, o que a fez hesitar, mas apenas um momento.
- Estou a tentar decidir se hei-de ir para l.
- As notcias de Radcliffe no corresponderam s tuas expectativas? - O professor sabia como ela desejara ir para l, quanto apostara nisso e porqu e ele aconselhou-a, 
de imediato, a optar por Berkeley. Ele prprio era do Norte e defendia a diversificao das experincias individuais. Achava que os midos do Oeste deviam ir para 
o Leste e os midos do Leste deviam ir um ou dois anos para o Oeste, alm de que os jovens do Sul deviam ir para o Norte, a fim de conhecer algo diferente.
- Se fosse a ti, no hesitaria um minuto, Pax. Agarra a oportunidade enquanto podes e no penses segunda vez em Radcliffe. Podes sempre tirar uma especializao 
l. Por agora, esquece e segue para oeste. Vais adorar - rematou com um sorriso.
Enquanto o ouvia, Paxton sentiu uma onda de excitao por todo o corpo. Afinal, talvez Queenie tivesse razo. Talvez fosse esta a resposta.
Durante uns dias no disse nada  me e, no final da semana, escreveu a matricular-se. Na sexta-feira  noite, comunicou-lhes ao jantar.
- Enviei hoje a minha matrcula - declarou tranquilamente, aguardando a tempestade que sabia inevitvel.
- Rapariguinha esperta - aprovou o irmo. "Afinal ela obedeceu", pensou. "No era to difcil como a me achava". - Ests orgulhosa de ti, Pax?- inquiriu. - Devias 
estar. - A jovem sorriu ante os prdigos elogios, consciente do que estava prestes a acontecer.
- De facto, estou. Pensei muito no assunto e acho que tomei a deciso certa. Na verdade, sei que  assim.
A me fitou-a prudentemente, receosa de falar de mais.
- Ainda bem que tudo correu desta maneira, Paxton limitou-se a comentar.
- Ainda bem - replicou Paxton.
- Muitas raparigas ptimas vo para Sweet Briar, Paxton.  uma universidade maravilhosa - retorquiu o irmo, feliz, enquanto Paxton os olhava tranquilamente.
-  mesmo - concordou -, mas no vou para l. - Por momentos, tudo parou na sala de jantar. Aquilo no era o que todos haviam esperado. - Vou para a universidade 
da Califrnia, para Berkeley.
Por um instante, os dois mantiveram um silncio sepulcral e, depois, o irmo recostou-se na cadeira e atirou o guardanapo para cima da mesa.
- O que te levou a tomar uma atitude dessas? - ripostou, ao mesmo tempo que Queenie abandonava a sala com um sorriso, a fim de reabastecer a travessa de rosbife.
- Falei no assunto com a minha orientadora e alguns professores. Acham que se trata de um ptimo estabelecimento e uma boa escolha, j que no vou para Radcliffe.
- Mas a Califrnia? - ripostou a me, desesperada. - Porque  que algum desejaria ir para um stio desses? Porque  que queres ir para to longe? - No entanto, 
todos sabiam porqu, quer o quisessem ou no admitir.
Paxton queria afastar-se deles. Desde a morte do pai que se sentia infeliz em casa e eles tinham feito muito pouco para mudar a situao. A me e o irmo haviam 
seguido as suas prprias vidas, apenas com tentativas ocasionais para a levar ajuntar-se-lhes, quer lhe agradasse ou no o que faziam. Ela devia, supostamente, "enquadrar-se" 
no seu estilo de vida, quer se lhe adequasse ou no. Para eles no tinha importncia. E agora queria viver a sua prpria vida, seguir o seu prprio destino. E, neste 
momento, o caminho era a Califrnia.
-  algo que sinto que devo fazer - arguiu tranquilamente,  os penetrantes olhos verdes fixavam os da me.
No estava a discutir com ela, mas absolutamente determinada quanto ao que estava a fazer. E o pai tinha-lhe proporcionado esse luxo. Deixara-lhe uma pequena herana 
para pagar a sua educao, e assim a me no podia ameaar que no pagaria a universidade, se ela deixasse de obedecer. Tinha liberdade de escolha e servira-se dessa 
liberdade quando aceitara Berkeley.
- O teu pai ficaria muito desapontado - replicou a me friamente, o que era um golpe baixo e Paxton sentia-o.
- Tentei entrar em Harvard, me - redarguiu o mais calmamente possvel. - S que no consegui. Acho que talvez ele entendesse. - Recordava as histrias do pai sobre 
as tentativas de entrar em Princeton e Yale, ter sido recusado e ter de "optar" por Harvard. Portanto, ela "optara" por Berkeley.
- Referia-me a pensar que ele ficaria desapontado por sares de casa to bruscamente e ires para to longe.
- Voltarei - replicou num tom suave mas, no prprio momento em que pronunciou as palavras, interrogou-se sobre se estaria a falar com o corao.
Voltaria? Desejava-o? Morreria por regressar a casa depois de estar longe ou apaixonar-se l na Califrnia, desejando ficar l para sempre? Em alguns aspectos, sentia-se 
ansiosa por partir, noutros, lamentava afastar-se. Sempre achara que no se enquadrava naquelas paragens. Nunca fazia o que a me desejava. No podia, contudo, sujeitar-se 
ao que pretendiam dela. Era pedir demasiado. No podia ficar no Sul, nem prximo deles, era incapaz de continuar a fingir ter algo de comum com eles, no sendo esse 
o caso. No podia continuar a fingir. E, de sbito, ficou pronta a admitir como era diferente e a comear a sua prpria vida, em Berkeley.
- E com que frequncia achas que virs a casa? - inquiriu a me, acusadora, enquanto Queenie a observava por cima do ombro.
- Acho que virei a casa no Natal e, obviamente, no Vero. - Era tudo o que tinha a oferecer-lhes, tudo o que podia dar, e tudo o que queria deles era a sua liberdade. 
- Virei a casa o mximo de vezes que puder - rematou com um sorriso suave, desejando que se sentissem felizes por ela, o que no aconteceu. - E se quiserem, podem 
ir visitar-me  Califrnia.
- O teu pai e eu fomos uma vez a Los Angeles - replicou a me, com um olhar de desaprovao.  um lugar horrvel. Nunca voltaria l.
- Berkeley  mesmo  sada de So Francisco. - No entanto, foi como se tivesse dito " sada do inferno", pela expresso do rosto da me. Finalizaram a refeio 
em silncio.

CAPTULO 3

Na manh em que partiu, Paxton mantinha-se de p na confortvel cozinha, olhando em volta como se estivessem a for-la a sair de casa, com as lgrimas a rebentar 
e a cabea apoiada no ombro terno e acolhedor de Queenie.
_ Como vou viver sem te ver todos os dias? - sussurrou, voltando a sentir-se uma criana. Acometeu-a, subitamente, a mesma impresso de tristeza e perda de quando 
o pai tinha morrido. Sabia que no voltaria a v-la e, embora Queenie continuasse ali, no podia estender a mo e tocar-lhe.
- Ficars bem - profetizou Queenie, sustendo, corajosa, as lgrimas. Estava decidida a no permitir que Paxxie se apercebesse dos seus sentimentos. - S boa menina 
na Califrnia. Lembra-te de comeres legumes, dorme muito e lava o teu belo cabelo uma vez por semana com limo. - Era algo que lhe fazia quase desde beb e cabia-lhe 
o mrito de Paxton ainda continuar to loura, dezoito anos mais tarde. - Usa chapu ao sol e no te queimes... - acrescentou, consciente de que havia mil coisas 
que queria dizer-lhe, mas que a mais importante era quanto a amava. Apertou Paxton fortemente de encontro ao peito, e o calor do corao e do corpo foram o melhor 
porta-voz, ao mesmo tempo que Paxton correspondia ao abrao com a mesma intensidade.
- Amo-te tanto, Queenie... Toma conta... Promete-me que tomas conta de ti. E se apanhares uma constipao forte neste Inverno, como acontece quase todos os anos, 
desta vez, vai a um mdico.
- No te preocupes comigo, mida. Tudo vai correr bem. Porta-te como deve ser l na... Califrnia... - Mal se atrevia a pronunciar a palavra, e fora, contudo, Queenie 
quem a encorajara a partir, quem a ajudara a usufruir da sua liberdade. Em seguida, soltaram-se dos braos uma da outra e os olhos de Queenie estavam hmidos, mas 
pelas faces de Paxton corriam dois fios de lgrimas e tinha os olhos mais verdes do que nunca.
- Vou ter tantas saudades tuas.
- Tambm eu - retorquiu Queenie, limpando os olhos com o avental e sorrindo, aps o que deu uma palmadinha no ombro da jovem. Amara-a como se fosse do seu sangue 
em criana e amava-a ainda mais, agora que crescera. Estavam unidas para toda a vida e no havia distncia, tempo ou lugar que pudesse separ-las, e ambas o sabiam. 
Paxton apertou-lhe a mo pela ltima vez, beijou-lhe a macia pele negra e depois saiu da cozinha para se juntar aos outros.
- Depois telefono-te - sussurrou. - Queenie piscou-lhe o olho e, depois de ela se afastar, desceu ao quarto e soluou com a cara escondida no avental.
A ama sentia o corao despedaado ante o afastamento de Paxton, mas sabia melhor do que ningum que ela tinha de ir-se embora. A vida da rapariguinha nunca mais 
fora a mesma desde a morte do pai e ela sabia que no a tratavam mal intencionalmente, s que eram diferentes.
Paxton era uma mida cheia de fogo, de vida e entusiasmo por tudo. E possua um calor e um amor que ansiava partilhar com as pessoas que a rodeavam. Contudo, o amor 
que tinha para dar assustava a me, e George no fazia a mnima ideia de como o utilizar. George e a me eram dois seres do mesmo gnero, e Paxton parecia-se demasiado 
com o pai.
Queenie sentia-se como se tivesse cuidado de uma rara ave tropical durante dezoito anos, mantendo-a quente, segura e viva, alimentando-a da prpria alma e havendo-a 
agora liberto, para que fosse para um clima mais hospitaleiro. Paxton j no pertencia ali, h muito que deixara de pertencer e, embora, aos dezoito anos, ainda 
fosse muito novinha para sair de casa, Queenie sabia que estaria melhor sem eles.
Paxton tinha um mundo novo  sua espera e, de certa maneira, Queenie estava ansiosa por que ela o descobrisse. Mas, no fundo do corao, sentia a dor de a perder, 
de no poder ficar por mais tempo ao lado dela, de j no poder fixar os olhos verdes  tarde, nem beijar o cabelo sedoso do cimo da cabea, quando ela se sentava 
para tomar o pequeno-almoo, todas as manhs.
No entanto, estava disposta a fazer esse sacrifcio porque a amava. E precipitou-se para a janela ao ouvi-los partir, mesmo a tempo de acenar a Paxton, que se debruou 
na janela do automvel, com o seu rabo-de-cavalo louro, a perder de vista.
A me manteve um ar muito solene ao longo do caminho at  sada da cidade, e George no pronunciou uma palavra enquanto se dirigiam ao aeroporto.
- Ainda ests a tempo de mudar de opinio - replicou tranquilamente a me, o que poderia ser a sua maneira de expressar que sentiria a sua falta.
- Acho que no o farei - retorquiu Paxton no mesmo tom, continuando a pensar no rosto de Queenie antes de partir, no calor dos seus ombros e na segurana dos braos 
quando a apertara de encontro ao corpo.
- Tenho a certeza de que o deo de Sweet Briar ficaria feliz por tomar as devidas disposies - acrescentou a me, com uma expresso severa, pois continuava a encarar 
o afastamento de Paxton do Sul como uma afronta pessoal. j fora um insulto bastante o facto de ela querer sair de Savannah.
- Talvez, se as coisas no correrem bem na Califrnia - redarguiu Paxton delicadamente.
Apetecia-lhe estender o brao e tocar na mo da me, mas, depois, pensou melhor e controlou-se. A me no fez qualquer meno de se aproximar dela e no houve mais 
troca de palavras at ao aeroporto. Paxton sabia que, supostamente, deveria estar minada de culpa e tinha pena de partir, mas tambm se sentia muito excitada. Nos 
ltimos tempos, ouvira contar muitas coisas interessantes sobre a universidade e estava ansiosa por pr os olhos na Califrnia.
Tinha enviado uma mala de poro e dois sacos na frente, e George retirou a nica mala do porta-bagagens do carro, confiando-a a um carregador. Entregou, depois, 
o talo das bagagens a Paxton e apressou me e filha para que fossem procurar o porto de embarque e aguardassem o avio de Paxton com destino a Oakland.
- Suponho que o tempo estar agradvel - observou a me num tom tenso, e Paxton esboou um aceno de concordncia. Nesse momento, fitou a me e os olhos encheram-se-lhe 
de lgrimas. A manh revelara-se cheia de emoes.
O prprio facto de deixar o seu quarto em casa provocara-lhe lgrimas e passara alguns minutos no antigo escritrio do pai, s seis horas dessa manh. Tinha-se sentado 
em frente da secretria, continuando a v-lo sentado do outro lado, e contara-lhe o que se passara num sussurro baixo mas audvel.
- No consegui entrar em Harvard, pap... - Era uma confisso que, de certa maneira, achava que ele j sabia. -... Mas vou para Berkeley.
Esperava que ele ficasse satisfeito. Por um lado, sentia-se triste por sair de casa, triste por deixar as pessoas e lugares que lhe eram familiares. No entanto, 
tambm sabia que, contrariamente aos outros, levaria o pai com ela para onde quer que fosse. Ele era agora uma parte dela como era uma parte do cu da manh e dos 
poentes que gostava de observar, quando pedia o carro emprestado e conduzia at junto do oceano. O pai fazia parte de tudo o que ela fazia e era. Nunca o perderia.
- Mam. - Aclarou a garganta, enquanto aguardavam o avio. - Desculpa... quanto a Sweet Briar... Quero dizer... desculpa, se te magoei.
A franqueza destas palavras apanhou a me momentaneamente de surpresa, e tornou-se bvio que no sabia como responder. Quase recuou um passo e fugiu da filha, mas 
estava realmente a fugir  sinceridade da emoo,  intimidade que sempre a ameaara e que era inerente a Paxton.
- Desculpa... S queria dizer-te isto antes de me ir embora - prosseguiu a jovem. Aprendera cedo na vida que no se deixam coisas por dizer quando se gosta das pessoas, 
pois nunca se sabe se se voltar a ter outra oportunidade de o fazer. Era uma lio que aprendera cedo de mais e de uma forma excessivamente dura.
- Eu.. hum... - A me tropeou nas prprias palavras. - ... No tem importncia. Talvez tudo corra bem para ti, Paxton. E, se assim no for, podes pedir a transferncia 
no prximo ano. - Tratava-se de uma enorme concesso da sua parte, e Paxton sentiu-se satisfeita por isso. Detestaria que ficassem zangadas e at mesmo George no 
parecia muito aborrecido quando lhe deu um beijo de despedida e a aconselhou a ter juzo na Califrnia, embora soubesse que assim seria. Ela era boa rapariga, ainda 
que um pouco teimosa. E, em comparao com as outras raparigas da sua idade dessa poca, no causara muitos problemas  me.
Os dois ficaram a acenar-lhe quando entrou no avio; sentiu-se aliviada e liberta deles. Apenas tinha saudades de Queenie quando o avio levantou voo e descreveu 
um crculo vagaroso sobre Savannah. Era uma cidade de que no sentiria a falta e, de qualquer maneira, sabia que regressaria no Natal. Muitas das suas amigas tambm 
partiriam. Iam para as universidades de todo o Sul; apenas duas haviam optado por frequentar uma universidade no Norte e ela era a nica que ia para a Califrnia. 
Recostou-se no banco e fechou os olhos, enquanto o avio voava para oeste, rumo  Califrnia.
Devido  mudana de horrio, era apenas meio-dia quando chegaram  Califrnia, e estava um dia maravilhosamente soalheiro quando Paxton desceu do avio e olhou em 
volta. O aeroporto era pequeno; a maioria das pessoas vestia T-shirts e calas de ganga ou camisas floridas e muitas mulheres usavam mini-saia ou vestidos leves 
e frescos. Todos tinham cabelos compridos; e achou-se de imediato em casa, quando levantou a mala no depsito das bagagens e se dirigiu ao exterior para chamar um 
txi, sentindo-se extraordinariamente liberta.
O motorista indicou-lhe tudo o que achava que ela devia saber: os melhores restaurantes prximo da universidade, os stios onde todos os midos paravam, o movimento 
na Telegraph Avenue. Referiu-se mais do que uma vez ao sotaque dela e vincou que lhe agradava.

1 Student Nonviolent Coordinating Committee: Comisso Coordenadora Pacfica de Estudantes, organizao de defesa dos direitos civis, cujo objectivo era conseguir 
igualdade poltica e econmica para os negros. (N. da T.)
2 Congress of Racial Equality: Congresso de Igualdade Racial. (N. da T.)

Quando chegaram ao complexo universitrio, apontou para uma srie de mesas na esquina da Telegraph com a Bancroft e explicou que se destinavam a apoiar determinadas 
causas. Por todo o lado havia cartazes da SNCC e CORE, smbolos de paz, e um enorme letreiro em carto com os dizeres "Campo Feminino pela Paz". E sentiu uma repentina 
excitao s de estar ali. O mero facto de respirar o ar excitava-a e segredava-lhe que tomara a deciso certa ao vir. Sentia-se desejosa de dar uma volta, conhecer 
gente nova e ir s aulas.
J sabia o nome do edifcio onde se alojaria, e o motorista levou-a at l, apertou-lhe a mo e desejou-lhe sorte antes de se ir embora.
Ali todos pareciam simpticos e comunicativos. Ningum se importava se se era branco ou negro, rico ou pobre, da Liga Jnior ou um vagabundo, nortista ou sulista; 
todos os rtulos de que se sentia to farta, aps ter crescido em Savannah, no meio das amigas da me, para quem era uma questo de vida ou de morte se o av ou 
o bisav haviam combatido na Guerra Civil e se se era ou no proprietrio de uma plantao e escravos. Assemelhava-se a viver mergulhado no passado, um passado que 
abominava e do qual no queria participar.
O quarto que lhe tinham destinado ficava no segundo andar, ao fundo de um comprido corredor. Verificou, na verdade, que era o ltimo quarto, ou melhor, dois quartos 
unidos por uma sala de estar, com duas raparigas para cada quarto. O centro da sala de estar era ocupado por um div castanho, com almofadas coloridas a tapar os 
estragos de anteriores locatrios. Havia posters por todo o lado, algumas peas de mobilirio bastante gastas e uma carpete laranja, com uma cadeira de braos de 
vinil verde.
Paxton deteve-se um momento a observar o que a rodeava. O cenrio estava longe de ser bonito e contrastava com a calma elegncia da casa da me, em Savannah. Este 
era, no entanto, um pequeno preo a pagar pela liberdade.
O quarto de dormir que lhe fora destinado era mais pequeno e mais austero. Era uma diviso pequena, com dois divs de pessoa s, duas cmodas, uma cadeira de espaldar 
e um armrio, onde mal cabia uma escova.
Teriam de ser boas amigas para viver num quarto assim, mas esperava estar prestes a conhecer trs pessoas que ficariam rapidamente almas gmeas. Avistara de relance 
trs malas empilhadas no outro quarto e, um momento depois, quando regressou  sala; interrogando-se sobre o que poderiam fazer para a tornar um pouco menos feia, 
deparou com uma das colegas de quarto.
Era uma rapariga bonita, de pernas compridas e uma pele cor de caf com leite; apressou-se a informar Paxton de que vinha do Alabama e se chamava Yvonne Gilbert.
- Ol! - cumprimentou-a Paxton com um sorriso caloroso. Tratava-se de uma rapariga de grande beleza, com olhos luminosos, perspicazes e muito pretos e usava um imponente 
penteado africano. - Sou Paxton. Andrews. - Hesitou, contudo, quando chegou a altura de falar da sua naturalidade. De qualquer maneira, a colega j estava inteirada.
- Carolina do Norte?
- Jrgia. Savannah - anuiu Paxxie com um sorriso, mas Yvonne mostrou-se, de imediato, desconfiada.
- ptimo. Exactamente o que precisava. Um biscoitinho. Querem que voltemos a lutar numa guerra civil? H algum do pessoal com um espantoso sentido de humor. - Parecia 
muito aborrecida, mas Paxton continuava sem atribuir importncia ao assunto.
- No te preocupes. Estou do teu lado.
- Aposto que sim. Estou em pulgas para saber de onde so as outras. Que tal Mississipi e Tennessee? Talvez possam formar um grupo das Filhas da Guerra Civil. Seria 
divertidssimo, querida. Vou adorar partilhar o alojamento com todas vocs.
Exagerava o sotaque; deitou um olhar maldoso a Paxxie e depois enfiou-se no seu quarto e bateu com a porta. Paxton sentou-se no div com uma expresso triste. De 
qualquer maneira tudo aquilo seria interessante. E, sem dvida, diferente.
A seguinte a chegar foi uma rapariga plida, com um rosto etreo e muito branca, cabelo preto azeviche at  cintura, olhos azuis e uma espcie de camisa de noite 
quase transparente.
- Ol - sussurrou. - Chamo-me Dawn. - Vinha de Des Moines. O verdadeiro nome era, de facto, Gertrude.
Dawn fora-lhe posto mais recentemente, com um pequeno toque de LSD, durante o ltimo ano no liceu e decidira continuar a us-lo. Dawn Steinberg. Era tambm uma ptima 
estudante, tocara viola com a orquestra local e tinham-lhe oferecido uma bolsa em Berkeley.
Fora-lhe destinado o outro quarto, e abriu a porta com que Yvonne batera h uns momentos; voltou a fech-la devagar e ningum apareceu. No se ouviram gritos e Paxton 
concluiu que Miss Gilbert ficara satisfeita com a nova companheira de quarto. Des Moines no usufrua da reputao racista de que Yvonne acusara Savannah.
Sem deixar de pensar nas duas jovens que acabara de conhecer, Paxton resolveu desfazer as malas. Os dois sacos e a mala de poro tinham sido postos no quarto no 
dia anterior e resolveu fazer as duas camas. Assim, o quarto pareceria mais acolhedor quando a sua companheira chegasse e viu-se, de sbito, a pedir intimamente 
que no fosse negra nem irritada e no odiasse as mulheres da Jrgia.
"Por favor, meu Deus ... ", pensou. "Sei que talvez no o merea e tens mais que fazer hoje... mas podes fazer com que se parea comigo?"
s quatro da tarde, a sua companheira ainda no dera sinal de vida e Paxton resolveu abastecer o seu pequeno frigorfico. Antes de sair para fazer as compras, bateu 
 porta do quarto das outras raparigas e decorreu bastante tempo at que, por fim, Dawn veio abrir.
- Sim? - sussurrou para Paxton, como se tivesse medo de que algum a ouvisse. Embora tivesse bom ouvido, Paxton achou quase impossvel compreender o que Dawn dizia. 
E a tentao, ao falar-lhe, foi de responder da mesma forma. O prprio tom de voz normal parecia excessivo para se conversar com aquela viso etrea.
- Querem alguma coisa da loja? - sussurrou igualmente Paxton. - Vou sair e comprar comida. Estou a morrer de fome. - Sentia, repentinamente, a falta da cozinha bem 
recheada de Queenie. E, para ela, eram sete horas da tarde e estava pronta para jantar.
Pode traduzir-se por alvorada. (N. da T.)
- Gostaria de um ch de ervas, mel, uns limes... e talvez po integral. - Nenhuma daquelas coisas parecia muito atraente a Paxton, mas estava disposta a trazer 
o que fosse
preciso para fazer amizade e anotou a encomenda de Dawn. - E a Yvonne? - inquiriu, cautelosa. - Ser que quer alguma coisa? - Paxton olhou para dentro do quarto 
e verificou que tinham estado a desfazer as malas. Dawn tinha pendurado uns posters e Yvonne espalhara roupas por todo o lado; havia, alm disso, lenis coloridos 
e duas colchas de cetim rosa, que mais pareciam do Alabama do que de Des Moines, mas tornava-se difcil garantir no meio da confuso.
- Queres alguma coisa da loja? - perguntou Paxton directamente a Yvonne, quando ela se aproximou da porta e lhe deitou um olhar hostil.
- Sim. O Martin Luther King. Achas que consegues encontr-lo, doura?
- No me venhas com esse tipo de conversa - ripostou Paxton, aborrecida. - Ests a fazer suposies  toa, tomando em considerao o facto de que s nos encontrmos 
h duas horas e no me conheces. - Paxton no a receava, e os preconceitos da outra irritavam-na.
- Que suposies deveria fazer? - retorquiu Yvonne quase a roar-lhe o nariz, mas Paxton no recuou. Sabia que tinha de se impor agora frente  colega, ou mais valia 
esquecer o assunto. E no hesitou em manter a sua posio. Paxton era entusiasta, forte e tinha um tipo de coragem calma. O facto de conviver em permanncia com 
o temperamento gelado da me h muito que a ensinara a ser forte, e no sentia receio da rapariga negra do Alabama. - s da Jrgia, certo? - prosseguiu Yvonne. - 
O que devo pensar?
- Deves, supostamente, dar-me uma oportunidade. Como devo fazer em relao a ti. No  essa a finalidade dos direitos civis? Julgamo-nos pelo que somos, o que pensamos, 
aquilo em que acreditamos e defendemos e o que fazemos, no pela cor da nossa pele... ou s porque a tua pele  negra e a matrcula do meu carro  da Jrgia. Talvez 
nem sequer seja o meu carro. Talvez estejas completamente errada a meu respeito. Talvez haja um motivo para no ter ficado sentada no Sul a cheirar flores de magnlia 
e a beber usque com hortel. j te deste ao trabalho de pensar nisso? Aposto que nem te ocorreu. Nem todos os brancos do Sul so aparentados com o George Wallace. 
D-me uma oportunidade, cus! Talvez compense. - Era essa a ideia, no? Aquilo por que Martin Luther King se manifestara.
- ptimo. Traz-me uma embalagem de seis Coca-Colas e um pacote de Kools. - Nem "obrigado", nem "por favor". Limitou-se a virar costas e a voltar para dentro do quarto. 
E Paxton acrescentou os pedidos  lista sem pronunciar uma palavra, saiu do alojamento e do edifcio, a fim de procurar a loja de comida mais prxima.
"Vai ser interessante lidar com a Yvonne", pensou. Ela estava revoltada e cheia de dio, e Paxton interrogou-se sobre se alguma vez viriam a entender-se. Tentara 
firmar amizade com varias raparigas negras que conhecera em aces de voluntariado e num acampamento organizado pela igreja, com grande desagrado da me e de Queenie. 
A gerao delas no estava preparada para tal, e Queenie ficara ainda mais perturbada do que a me.
No entanto, Paxton tinha uma opinio diferente. Uma vez em que tinha ido almoar com uma rapariga negra que conhecia mal, no as tinham servido, e Paxton ficara 
lvida. Tinham ido a trs restaurantes e, por fim, desistiram, acabando por partilhar um pacote de batatas fritas num banco de Forsyth Park. Mas a jovem negra compreendera. 
Estava habituada e ficara comovida com a ternura e compaixo de Paxton.
Depois, durante muito tempo, Paxton tivera vontade de participar numa manifestao, mas at ento no se atrevera, pois sabia que, se a prendessem, a me a fecharia 
 chave em casa um ano. Alm disso, colocaria a me numa posio ingrata frente s amigas e no tivera coragem de o fazer.
No entanto, sabia que o faria um dia. E, de um momento para o outro, aqui estava a viver com uma rapariga negra, que a odiava somente porque ela era da Jrgia. Soltou 
uma repentina gargalhada ao atravessar a Telegraph. Riu to alto que algumas pessoas se viraram, e apercebeu-se subitamente do que a me teria ripostado se soubesse 
que uma das suas companheiras de quarto era negra. E Queenie! Paxton sentia-se satisfeita. E ia estabelecer amizade com Yvonne, custasse o que custasse.
Comprou tudo o que constava da lista e ainda barras de chocolate para todas, algumas Coca-Colas para si, po e outras coisas para fazer sanduches e uma caixa de 
donuts. Levou o saco para o quarto e, no momento em que subia as escadas, avistou uma rapariga ruiva, baixa, um tanto gordinha mas atraente, a tentar arrastar trs 
malas pelas escadas ao mesmo tempo, enquanto um jovem louro, alto e muito elegante lutava com uma mala de poro enorme, que parecia pesar mais do que ele.
- O que meteste dentro desta coisa, com mil diabos, Gab? Rochas? Ou halteres?
- S uns livros... No h nada de mais l dentro, a srio... juro...
- Uma ova! Leva tu esta coisa. Diabos me levem se vou arranjar uma hrnia a arrastar a tua maldita bagagem por toda a universidade. - Parecia irritadssimo enquanto 
Paxton tentava passar discretamente pelo meio deles; resolveu, em seguida, dar-lhes uma ajuda, embora a mala de poro no lhe parecesse muito convidativa.
- Talvez entre os trs possamos lev-la? - sugeriu, hesitante, fitando ora um ora outro, ali de p nas escadas. Apoiou o saco das compras numa das ancas e rezou, 
intimamente, para no corar ante o olhar observador do jovem bem-parecido.
- No lhe faas favores - resmungou ele entre dentes. - Ela no merece. - Parecia to irritado que, por momentos, Paxton interrogou-se se seriam casados. Mas algo 
na semelhana dos perfis indicava que ou eram irmos ou familiares.
- Dou uma ajuda, se quiseres - voltou a oferecer Paxton, afastando o cabelo louro da cara e fitando a sorridente ruiva.
-  muito simptico da tua parte. O meu irmo est a ser um chato s por transportar uma malinha.
- Uma malinha! - insurgiu-se o jovem, e as suas palavras ecoaram pelas escadas. - Fazes ideia de quanto pesa esta coisa? Deve pesar uns duzentos quilos! E no tenho 
a certeza de que, mesmo os trs, vamos conseguir transport-la.
- Podemos tentar - replicou Paxton, e ele voltou a brind-la com um olhar apreciativo.
- Porque  que no a deixamos aqui com este sarilho que ela arranjou e vamos os dois tomar uma cerveja ao Kips? Parece-me muito melhor ideia.
Paxton riu quando a irm o ameaou com um olhar que no era para brincadeiras.
- Se fores a algum lado, estrangulo-te, Peter Wilson! - exclamou. - No te esqueas de que os teus lenis esto no meu outro saco e, se no me transportares esta 
coisa, pouco me interessa que fiques a dormir no colcho durante o resto do ano.
- Destroas-me o corao - redarguiu ele, ao mesmo tempo que voltava a fitar Paxton, com um sorriso. - Vamos l beber uma cerveja e larg-la. - Paxton tambm ria, 
mas tentava, corajosamente, levantar o outro lado da mala de poro, com a ruiva.
- V l, idiota... Pega na tua ponta - instruiu-o a rapariga e, por fim, ele acedeu com um grunhido queixoso; e os trs conseguiram subir as escadas, mas com muita 
dificuldade.
Paxton apercebeu-se de que ele tinha razo. A mala pesava uma tonelada e no conseguia imaginar o que  que a ruiva metera l dentro.
- Onde  o teu quarto? - perguntou o irmo com uma expresso novamente aborrecida; consultou o relgio. Tinha coisas mais interessantes a fazer num domingo  tarde 
do que ser carregador da irm.
- Ainda no sei.
- Cus! Ser que ests no edifcio certo?! - exclamou com um ar de quem tencionava mat-la, mas ela esboou um aceno afirmativo.
- Estou, sim! - Remexeu na mala de mo de onde tirou um bocado de papel. Vestia calas de ganga, uma camisa s flores e uns tnis de marca; mas nada mais a localizava, 
 excepo de que devia ter metido barras de ouro na mala de poro, e toda a sua bagagem era em couro. - C est! - Leu o nmero e Paxton fitou-a surpreendida, esboando 
depois um sorriso. Tinha sorte. Tudo acabara em bem. j gostava dela.
- s a minha companheira de quarto - anunciou Paxton, e o jovem alto e bem-parecido emitiu um grunhido, fitando-a com um olhar de compaixo.
- Pobrezinha. Nem sabes o que te espera - comentou, estendendo a mo e apertando a de Paxton. - A propsito. Chamo-me Peter Wilson.
- Eu sou Paxton Andrews.
- E eu Gabrielle. Gabby Wilson - retorquiu, dirigindo um sorriso afectuoso a Paxton. - De onde s? Adoro o teu sotaque.
- Nunca pensei que o tinha, at chegar aqui - riu Paxxie. - E ainda bem que algum gosta. Como vers dentro de minutos, uma das nossas companheiras de quarto no 
 propriamente doida por ele.
- Manda-a dar uma volta! - replicou Gabby, despreocupada, enquanto Peter se erguia e recomeava a luta com a mala de poro, mostrando um ar de censura.
- C est a minha irmzinha, sempre uma senhora! Anda l, fala-barato. Se conseguiste emalar esta treta, tambm podes lev-la. Ajuda-me a met-la no quarto. Tenho 
um encontro s cinco e meia.
- Destroas-me o corao! - redarguiu Gabby, sem lhe ligar, enquanto pegava na outra ponta e Paxton a ajudava.
- E tu destroas-me as costas, o que  pior - queixou-se Peter, mas, um momento depois, tinham enfiado a enorme mala de poro na sala, que pousaram na carpete laranja. 
Depois, os trs voltaram atrs para ir buscar as outras malas. - Onde vais pr tudo isto? - acrescentou, sabendo de antemo que no havia stio.
- - Ainda no pensei - respondeu e, em seguida, dirigiu-se a Paxton: - Quem decorou a sala? O Drcula? Onde foram desencantar este horror, cus? Ao Exrcito de Salvao?
- Provavelmente ao lixo - replicou Peter alegremente. -  onde arranjamos as nossas coisas.
Gabby olhou-o e abanou a cabea, desesperada, enquanto Paxton o brindava com mais um sorriso, transportando uma das enormes malas de Gabby. "Onde  que ela vai meter 
tudo isto?", interrogava-se igualmente Paxton. Tratava--se de uma pergunta interessante, depois de ter visto o armrio minsculo que tinham no quarto.
- s finalista? - perguntou Paxxie a Peter.
- Fui. Licenciei-me em junho. Estou a comear a ps-graduao em Direito. Mas h dois anos que resido fora da universidade. Graas a Deus que este fedelho no convenceu 
os meus pais a faz-lo, ou teria ficado furioso a srio. - Encontravam-se novamente  entrada da sala e ele parecia prestes a sair e contente por isso. - Bom.  
toda tua - prosseguiu com um olhar para a pilha de malas que tinham largado no meio da sala; serviu-se de um donut do saco de compras de Paxton e acenou, ao afastar-se. 
Gabby deixou-se ficar, sorrindo a Paxton.
- Obrigada pela tua ajuda. E peo desculpa por ele - replicou, mal o irmo saiu. -  um idiota chapado. Mas, na verdade, adoro-o. A ele nunca o confessaria, mas 
a ti posso dizer. No tem emenda e costumava bater-me... ou, pelo menos, tentava.
Era, todavia, bvio que gostavam muito um do outro e, por um momento, Paxton invejou-os. Ela e George nunca haviam partilhado esse tipo de afecto brincalho. No 
entanto, ele era dez anos mais velho do que Peter e no tinha o mnimo sentido de humor.
A sua conversa fez com que as outras viessem at c fora. No momento em que Paxton e Gabby se serviam dos donuts e Colas, Dawn e Yvonne saram do quarto e puseram-se 
a olhar para a montanha de malas de Gabby.
- Meu Deus, de onde veio tudo isto? - perguntou Yvonne, com ar irritado. - Trouxeste os meus Kools? - perguntou a Paxton.
- Sim - respondeu esta. Entregou-lhos e Yvonne pagou-lhe. No queria aceitar presentes de Savannah.
Dawn tirou dos sacos o resto das mercearias depois de Paxton a ter apresentado a Gabby. Yvone olhava-a com desconfiana, fumando um cigarro, e perguntou-lhe de onde 
vinha.
- De So Francisco. No me aventurei para muito longe de casa - disse ela  laia de desculpa, com um encolher de ombros. - Mas adoro isto. j h quatro anos que 
c venho visitar o meu irmo e todos os meus amigos esto c, pelo menos aqueles que decidiram continuar a estudar.
Olhou para as outras trs muito entusiasmada. - Vocs vo adorar.
Yvonne lanou uma olhadela a Paxton, indicando que no tinha assim tanta certeza, e at Dawn no parecia muito convencida.
- Eu no queria continuar a estudar - disse Dawn mas os meus pais insistiram para que viesse para aqui.
- O pai dela era professor de ingls.
- Preferias continuar a estudar perto de casa? - Gabby estava interessada em todas elas e parecia ser uma pessoa aberta, simptica e feliz.
- No. - Dawn abanou a cabea com um sorriso triste. - Queria casar-me. E queremos ir para a ndia estudar religies orientais.
- Eu quero estudar Direito - confessou Yvonne, continuando a fumar e servindo-se de um velho cinzeiro de plstico verde-azeitona meio derretido. - Espera-me, contudo, 
um longo caminho. Estou aqui com uma bolsa de estudos e tenho de passar os vrios nveis at l, ou irei aterrar o meu cu negro em Alabama num abrir e fechar de 
olhos.  E no quero voltar, at conseguir mudar a situao. E tu, Savannah?
Paxton no queria que ela a tratasse assim, mas decidiu no a antagonizar mais.
- Quero especializar-me em jornalismo - sorriu. - Para escrever sobre as mudanas que querem fazer no Sul.
- Yvonne esboou um arremesso de sorriso involuntrio e acendeu um cigarro mal apagou o outro. Era nervosa, mas era tambm muito bonita, e Paxton interrogou-se sobre 
se a jovem negra alguma vez fora modelo.
- No sei o que quero ser - confessou-lhes Gabby. - Apenas quero divertir-me e ficar na universidade at casar.
- Tens algum? - inquiriu Dawn com um olhar de expectativa, sentindo que encontrara uma alma gmea, mas Gabby abanou tristemente a cabea.
- Ainda no. No encontrei ningum, mas ando  procura. - Paxton e Yvonne riram, e Paxton pensou, involuntariamente, que montes de rapazes no tardariam a andar 
atrs de Yvonne e de Gabby.
- Encontrars em abundncia o que procuras por aqui - encorajou-a Yvonne. - j pus os olhos numa srie de rapazes giros.
- Tambm eu - admitiu Paxton com um sorriso tmido.
Tinha visto vrios a caminho da loja, e o irmo de Gabby era o mais bem-parecido de todos e mesmo mais atraente por ser um pouco mais velho. Suspeitava, porm, que 
a maioria dos alunos mais velhos, no se interessaria por caloiras. Ficou, por conseguinte, ainda mais surpreendida quando ele voltou a aparecer no quarto delas, 
umas horas mais tarde.
Dawn j se tinha ido deitar e Yvonne estava a ler no div, vestida com um roupo muito bonito, quando Peter apareceu de repente com um amigo e uma embalagem de seis 
cervejas. Viu Paxton a sair do outro quarto e estendeu-lhe uma cerveja com um sorriso tmido.
- Voltmos para ver se precisavam de ajuda. - Ela ficou surpreendida ao v-lo e Gabby ainda mais.
- O que ests a fazer aqui? - inquiriu, desconfiada. -E... No, no posso descontar-te um cheque. - Virou-se para Paxton com um ar cmplice. - Est sempre a passar-me 
cheques sem cobertura. Nunca lhe descontes nenhum. - Em seguida, avistou o amigo, de p, na ombreira da porta. - Ol, Sandy! Entra! Ningum est nu!
- Raios! Que desiluso! - ripostou ele, embora tendo corado. No entanto, Peter parecia mais descontrado e desviou os olhos de Yvonne para Paxton.
- Espervamos, na verdade, que assim fosse. Algum quer uma cerveja? - inquiriu.
At mesmo Yvonne sorriu e ofereceu um cigarro a Sandy. Os dois rapazes instalaram-se no cho e na cadeira. Gabby e Paxton sentaram-se na mala de poro de Gabby, 
que tinham decidido usar como mesa de caf. Sandy era tambm UM Ps-graduado de Direito e um dos sete companheiros de quarto de Peter. Tinham uma casa em Ellsworth, 
que era confortvel, engraada e a maior das confuses.
- Um dia destes convidamo-las para jantar, depois de arranjarmos uma escavadora para limpar a cozinha - prometeu Peter alegremente. - Acho que ainda temos pizza 
do ano passado no fogo, mas receio espreitar. - Esboou um sorriso satisfeito e acabou de beber a cerveja. - E tu? - acrescentou, fitando directamente Paxton; a 
intensidade dos seus olhos azuis surpreendeu-a. - Sabes cozinhar?
- Tento - respondeu timidamente.
- Sabes fazer canjica? - perguntou Yvonne com um sbito interesse, e Paxton ignorava se aquela estaria de novo a troar dela. - Ou costeletas, ou entrecosto?
No entanto, Paxton optou por dizer a verdade. Queenie sabia, mas ela no.
- Os meus conhecimentos vo at um bife, uma omoleta e hamburgers.
- Serve - redarguiu Peter tranquilamente. - Talvez arranjemos um stio para cozinhar uma noite destas. Ou talvez jantemos fora.
Podia ter pensado em destinos piores, e fez-se um momento de silncio na sala enquanto Yvonne os observava com interesse. Sandy tambm no despregava os olhos de 
Yvonne. Achava-a de gritos, com grande pena de Gabby. Sempre gostara dele. As coisas tornavam-se, sem dvida, interessantes muito cedo e muito rapidamente. Todos 
s tinham chegado nesse dia, mas Paxton j divisava bons momentos no horizonte.
Os rapazes ainda se deixaram ficar mais algum tempo e depois foram-se embora. Iam encontrar-se com uns amigos no Kips e, quando saram, Paxton confessou que estava 
cansada. Para ela, eram duas da manh e sentiu, repentinamente, o peso da mudana de horrio.
- No te achei cansada quando o irmo de Gabby estava aqui - troou Yvonne. - Parecias ptima.
- E tu tambm em relao ao Sandy - ripostou Paxton e, desta vez, ambas riram. Yvonne continuava sentada no div quando Gabby e Paxton se dirigiram ao quarto para 
vestir a camisa de noite.
- No acredito - comentou Gabby, enfiando a camisa de noite pela cabea, uns minutos depois. - Ele detesta sempre as minhas amigas. No consigo lembrar-me de uma 
nica amiga que lhe tenha agradado... e, subitamente, aparece para uma conversa amigvel e com uma embalagem de cervejas. - Fitou Paxton com uma expresso surpreendida. 
- s tu. s mesmo. s a primeira rapariga de quem gostou e conheceu por meu intermdio. No acredito.
- Mera curiosidade. No voltar. H muitas raparigas mais interessantes em Direito.
_ Duvido. - Gabby tambm se sentia impressionada com Paxton. Tratava-se de uma jovem muito bonita, e uma das caractersticas mais agradveis a seu respeito era a 
de que parecia ignorar isso. Era calma, esperta e, depois de se comear a conversar com ela, revelava-se muito divertida. E Gabby gostava do sotaque. Havia muito 
mais coisas que chamavam a ateno em Paxton: sabedoria, ternura e beleza interior. Alm disso, Gabby sabia que o irmo nada tinha de idiota. Fizera uma boa descoberta. 
Talvez mesmo excelente.
- Vai voltar. Vers. - Em seguida, Gabby soltou um leve gemido, reflectindo no assunto e mantendo-se deitada na cama estreita e desconfortvel. - Na verdade, talvez 
o veja mais este ano do que dantes. No estou muito certa de que me agrade.
- Acredita que nos esquecer a todas na prxima semana,  excepo talvez da Yvonne... - E, depois, resolveu sussurrar uma confisso a Gabby: - Ela  extraordinariamente 
bonita, no achas? Belssima!
- Mas uma cabra! - replicou Gabby no mesmo tom.
- Talvez no - defendeu-a Paxton. - S acho que est de p atrs comigo por eu ser da Jrgia.
- No sei - redarguiu Gabby, meditativa. - Parece-me um osso duro de roer. Acho que no gostaria de acordar o seu lado mau.
- Provavelmente no teve uma vida fcil. Os negros passaram um mau bocado em Alabama. Em todo o lado, alis, talvez excepto aqui. Se calhar, tem bons motivos para 
ser assim. - Gabby encolheu os ombros, sem se mostrar especialmente preocupada quando fitou Paxton.
- O que achas da Dawn?
- Parece-me assustada, coitada. Acho que no quer estar aqui.
- Passa o tempo a dormir. - Fizera duas sestas nessa tarde. - Talvez tenha qualquer doena. Narcoplesia ou qualquer coisa extica, sabes? - Gabby parecia esperanada 
e Paxton riu, sentindo-se aliviadssima por verificar que gostava mesmo da companheira de quarto. E era essa a verdade. Gabby Wilson era engraada e divertida, e 
Paxton no conseguia imaginar uma pessoa melhor para ser sua companheira de quarto.
-  melhor dormirmos um pouco - murmurou, finalmente, Paxton. j estava meia a dormir e passava muito da meia-noite, Gabby continuava a tagarelar e dava a sensao 
de que seria capaz de prosseguir durante horas a fio, mas Paxton no conseguia manter-se acordada um momento mais que fosse. - Amanh temos orientao e vou falar 
com o meu consultor e tentar escolher as aulas mais indicadas.
_ No te preocupes. Limita-te a escolher as mais fceis, as que j conheces do liceu. - Paxton riu ante a sugesto. -  escusado matares a cabea enquanto ests 
aqui, Paxton. O que queremos  divertir-nos. Lembra-te disso. - Gabby falava a srio. Escolhera Berkeley para passar um bom bocado. E encontrar marido. - Lembra-te, 
Pax, de que estamos aqui para nos divertirmos.
- Lembrar-me-ei... - sussurrou Paxton, meia adormecida. Sonhava com Queenie e uma bonita rapariga negra, com um elegante prncipe que lhe oferecia uma cerveja, enquanto 
algures,  distncia, o irmo danava com uma endiabrada ruiva...

CAPTULO 4

Paxton e Gabby fizeram exactamente o que haviam planeado na altura da sua vinda para Berkeley.
Gabby inscreveu-se nas aulas mais fceis e conseguia sair quase todas as noites. Estava a divertir-se  grande, embora ainda no tivesse encontrado um marido.
Paxton, por outro lado, tinha aderido s aulas mais difceis, sobretudo as referentes ao jornalismo ou escrita. Frequentava tambm uma aula de Economia Poltica, 
to difcil que a aterrorizava, e aulas de Fsica, Matemtica e Espanhol. Parecia estar a sair-se bem em tudo,  excepo de Fsica, que fazia,, alis, parte do 
programa.
A jovem sentia-se, contudo, muito entusiasmada por tudo o que aprendia e fazia; arranjava ainda tempo para sair algumas vezes com Gabby e as amigas, divertindo-se 
quase sempre. Formavam um grupo que adorava divertir-se e parecia estar interessado em tudo.
Duas delas estavam ligadas ao CORE e vrias andavam a tentar arranjar fundos para o SNCQ tratava-se de causas que tambm interessavam a Paxton, pois beneficiavam 
os negros do Sul e, uma noite, conheceu Mario Savio, o lder do Movimento de Liberdade de Expresso. Gabby parecia saber conviver com toda a gente e, embora ela 
conhecesse as pessoas da causa, dava-se igualmente com as mais sociais, e a maioria das amigas dela era bastante calma, o que convinha a Paxton.
No segundo ms de aulas, Paxton tivera vrios confrontos com Yvonne. A rapariga negra parecia decidida a no lhe dar uma nica oportunidade e supunha permanentemente 
que, sempre que alguma coisa corria mal, a culpa era de Paxton, e ela comeava a irritar-se a srio. Tratava-se de preconceito ao contrrio e sentia dificuldades 
em controlar-se.
Na segunda semana aps o ingresso na universidade, Yvonne arranjara um namorado, o que no era de admirar, dada a sua extrema beleza. Ele era a vedeta que jogava 
 defesa na equipa de futebol, um enorme e elegante jovem negro do Texas; por associao e devido  sua prpria personalidade, Yvonne tambm estava a tornar-se uma 
vedeta. Todos os rapazes andavam atrs dela, mas a jovem parecia realmente interessada em Deke e j vincara a vrios dos seus admiradores que no queria nada com 
rapazes brancos.
Andava na aula de Fsica de Paxton, mas nunca lhe falava e raramente trocavam uma palavra, excepto quando se cruzavam na sala de estar e se viam foradas a faz-lo. 
As conversas, porm, nunca eram amveis.
E Dawn tambm tinha a sua prpria vida. Continuava a dormir a maior parte do tempo e Paxton interrogara-se mais do que uma vez sobre se ela ia s aulas.
- Nunca vai conseguir passar, se continua assim - comentava frequentemente com Gabby, que achava que no tinha nada a ver com isso. Tinha a sua vida para se preocupar. 
E andava a sair com dois dos amigos do irmo, tambm de Direito. E a profecia que fizera havia-se concretizado. Via agora mais vezes o irmo do que nos ltimos anos 
e, embora se queixasse, a verdade  que sentia prazer.
Peter comeara a aparecer s para se certificar de que ela estava bem ou para lhe trazer coisas, como uma embalagem de seis cervejas, uma pizza, um bolo que acabara 
de comprar, ou uma garrafa de vinho barato. Gabby sabia, no entanto, que ele no se preocupava com ela... Estava interessado em Paxton.
Por vezes, os dois sentavam-se no div gasto ou no cho, conversando pela noite fora, bebendo caf, cerveja ou Coca-Cola e falando das coisas em que acreditavam. 
Partilhavam, aparentemente, as mesmas opinies sobre tudo; era raro discordarem e havia alturas em que Paxton quase se sentia assustada por serem to parecidos e 
compatveis numa to variada gama de questes. Era como se estivessem destinados a conhecer-se e a tornar-se amigos.
De incio, Paxton ficou preocupada, pois ao contrrio de Gabby, a nica coisa que no desejava era encontrar um marido. Viera para Berkeley a fim de aprender e tornar-se 
algum; um dia, seria uma grande jornalista ou, pelo menos, uma jornalista esforada, que viajaria e escreveria sobre o mundo. Queria conhecer a Europa, a frica, 
o Oriente. Chegava mesmo a pensar em passar um ano no Corpo da Paz.
No queria, de forma alguma, apaixonar-se, casar, mudar para os subrbios e ter filhos. Pusera Peter ao corrente das suas ideias e ele rira-se. At mesmo a sua beleza 
loura se assemelhava  dela. As pessoas observavam que ele e Paxton pareciam mais ser irmo e irm do que ele e Gabby.
- Julgas que sou do gnero de me casar e ir viver para os subrbios? Que insulto, cus! - Mas ele estava a rir-se, sentado na sala de estar dela, s duas da manh, 
quando pronunciara as palavras. Gabby tinha acabado de regressar de um encontro, Dawn j estava a dormir h horas e Yvonne andava a dormir no apartamento de Deke, 
fora do complexo universitrio.
- Terei ouvido algum a falar em casamento? - perguntou Gabby, pondo jovialmente a mo em concha sobre a orelha e parando a caminho do quarto.
- No, no ouviste! - apressou-se Paxton a corrigi-la.
Vestia uma T-shirt e calas de ganga, e estava sentada no cho, ao lado de Peter. Adorava estar perto dele, adorava o que ele pensava, quem ele era e o que defendia. 
Mas no queria ir mais longe do que isso, no queria apaixonar-se realmente por ele, pelo menos ainda no. No podia.
- A tua amiga acabou de me insultar - comunicou Peter  irm; enquanto falava, acariciou o cabelo louro de Paxxie e sorriu para os olhos verdes pelos quais estava 
a apaixonar-se. - Acho que acabou de me chamar estpido, ou pior!
- No chamei nada! - insurgiu-se Paxton, soltando uma gargalhada. - S disse que no queria casar, nem mudar-me para os subrbios ou ter filhos, Primeiro, quero 
ver O mundo.
- E achas que eu no? - Continuava a parecer ligeiramente insultado.
Organizao americana constituda essencialmente por jovens que so enviados para os pases em desenvolvimento. (N. da T.)
- Ele quer ver o mundo! - retorquiu Gabby. - Monte Carlo, Cap d'Antibes, Paris, Londres, Acapulco, Saint Moritz. Os lugares duros, sabes? - Riram os trs.
- O que acham que sou? - perguntou a ambas. - Preguioso?
A irm conhecia-o bem e respondeu com um aceno de cabea.
- No, apenas mimado. Como eu. - Esboou um sorriso condescendente e ele atirou-lhe com a lata de Coca-Cola.
-  verdade. Consegues imaginar-nos a querer aderir ao Corpo da Paz, como a Pax? S de pensar nisso, fico com urticria e sou incapaz de te ver a escavar trincheiras 
ou a construir latrinas, no ? - inquiriu francamente, e ele abanou a cabea.
- Porque achas que estou em Direito? - redarguiu, trocista.
Havia, contudo, uma certa verdade nisso tambm. Peter acabaria os estudos aos vinte e cinco anos e, com sorte, poderia evitar o recrutamento at aos vinte e seis. 
Agradava-lhe essa situao de adiamento proporcionada pela faculdade. No tinha o mnimo desejo de participar da aco policial no Vietname. Ainda dois meses antes, 
aps o incidente do golfo de Tonkin, a Fora Area americana bombardeara o Vietname pela primeira vez, depois de l terem estado anos como consultores.
- Para te falar verdade, no me imagino no Vietname, nem em qualquer outro lugar remotamente parecido - acrescentou. - O que te leva a querer aderir ao Corpo da 
Paz, Pax?
- Ainda no sei se vou faz-lo. S quero marcar a diferena em qualquer lado - retorquiu num tom srio, e Gabby voltou a deix-los ss. - Passei toda a minha vida 
a ver as pessoas preocupadas consigo prprias, sem se importarem com mais ningum. No quero fazer isso. O meu pai interessava-se muito pelos outros. Acho que teria 
feito qualquer coisa no gnero se tivesse tido oportunidade e no se tivesse casado.
- Devia ser um bom homem - redarguiu Peter calmamente, observando a ternura que se estampava no rosto da jovem quando pensou nele.
- Era, sim - concordou com um n na garganta. - Gostava muito dele... A minha vida tornou-se... muito diferente... depois de ele morrer.
- Porqu? - inquiriu Peter num tom que ecoou suavemente na noite. Havia tanta coisa em Pax que ele j amava, mas que o assustava, tal como a ela. 
- A minha me e eu... Bom, somos muito diferentes . . . - No queria dizer mais, pelo menos por enquanto, e no valia a pena. Seria demasiado horrvel afirmar que 
sempre tinha pensado que a me no a amava.
 a que entra o Corpo da Paz? Para te afastares dela?
No - sorriu Paxton. - Mas Berkeley foi. - Era muito honesta com ele, ambos o eram entre si. Tratava-se de pessoas desse gnero.
- Sinto-me contente - expressou-se Peter, beijando-a ao de leve nos lbios. Conservaram-se muito juntos no, cho, apoiados nos cotovelos.
- Tambm eu - sussurrou ela.
Peter abraou-a e beijaram-se longamente, at que Gabby abriu de repente a porta do quarto, fitando-os com considervel interesse.
- Vo dormir em camas separadas ou juntos esta noite? Ou tencionam ficar aqui abraados? Por mim, tanto me faz. S me interrogo se devo esperar a p pela Pax, ou 
ir dormir. - Peter emitiu um grunhido e Paxton riu, afastando-se para longe dele, com o cabelo despenteado e as faces coradas dos beijos.
- Algum te disse, nos ltimos tempos, que s uma chata. Gabrielle? - Sabia quanto ela odiava o nome e adorava us-lo para a aborrecer. - Que sorte a minha a de 
me ter apaixonado pela companheira de quarto da minha irm! - Levantou-se e estendeu a mo a Paxton. - Acho melhor dormires um pouco, mida. Se a tagarela te deixar. 
No sei como consegues aguent-la.
- Quando estou cansada, adormeo logo.
- E provavelmente ela continua a falar. - Riram os trs Porque era verdade, e Peter saiu, depois de ter dado um beijo de despedida a Paxton.
-  a srio, Pax? - pressionou Gabby, depois de o irmo se ter ido embora.
- No sejas tola. Conhecemo-nos h seis semanas e dispomos de uma vida pela frente. A ele faltam-lhe trs anos de Direito e a mim quatro anos antes da licenciatura. 
O que pode ser a srio? - No ntimo, porm, sabia que era, mas no queria admiti-lo nem a si prpria nem a Gabby.
- No conheces o meu irmo. Nunca o vi assim. Est mesmo interessado em ti. Penso que est apaixonado! - exclamou. - j alguma vez disse que te ama? - acrescentou 
com um olhar srio e interrogativo.
- Por amor de Deus... Claro que no... - Mas no era preciso. Paxton sabia que Gabby tinha razo. E tambm nunca se tinha sentido assim. S no calhava que tudo 
acontecesse to depressa e to cedo. De momento, encontrar o homem dos seus sonhos era a ltima coisa que Paxton desejava.
- Merda. No tenho mesmo sorte - queixou-se Gabby, quando se deitaram. - Quero encontrar marido e tu no e, afinal, tens o Peter todo babado por ti e aparentemente 
interessado num compromisso. E eu? Ningum. Apenas um idiota de cabelo frisado at  cintura que quer ir ao. Tibete comigo no prximo Vero, desde que lhe pague 
o bilhete de avio. H pessoas mesmo afortunadas.
- Karma - replicou Paxton com um arremesso de sorriso, conservando-se deitada no escuro, enquanto ouvia a amiga.
- Quem ? No  aquele tipo que estava na mesa de alocuo livre em Bancroft?
- No,  aquela coisa de que a Dawn passa o tempo a falar. Karma. Destino.
- Devem ser comprimidos para dormir. Ouviste-a a vomitar, ontem? Acho que est a morrer.
- Talvez esteja grvida - sussurrou Paxton, hesitante.
- Quando  que teve tempo para ficar grvida? Est sempre a dormir. - E, perante esta frase, riram as duas, viraram-se e adormeceram. Excepcionalmente, Gabby nada 
tinha a acrescentar e esperava-a a aula de msica contempornea logo de manh. E tinha muito mais que fazer. Era a antevspera da Noite das Bruxas e queria ocupar-se 
da roupa. Seria uma abbora de lam dourado.
Foi tambm o dia em que o Vietcongue atacou a base area de Bien Hoa, vinte e cinco quilmetros a norte de Saigo, a primeira importante instalao militar a ser 
atingida.
Cinco americanos morreram e setenta e seis ficaram feridos. E Johnson no ordenou um ataque de retaliao. Estava a tentar aguentar, sobretudo antes das eleies, 
que seriam quatro dias mais tarde. Goldwater prometia resolver tudo  bomba e pr fim ao envolvimento americano no Vietname, destroando o Norte, e Johnson prometia 
no se envolver mais, o que era o que a populao queria ouvir. E Johnson ganhou a 3 de Novembro. A ameaa de Goldwater quanto a envolver ainda mais o pas no Vietname 
obtivera resposta.
E, na semana seguinte, Peter perguntou a Paxton o que  que ela ia fazer no Dia de Aco de Graas.
- Nada de importante. Estou longe de mais de casa para ir l passar somente uns dias. - "Estava longe de mais e seria demasiado caro", pensou, embora o Dia de Aco 
de Graas sem o peru de Queenie no fosse Dia de Aco de Graas.
Paxton estava a tentar no se deter no assunto e planeava passar o dia a estudar para um teste de Fsica e comer, uma sanduche de peru na cantina, se se lembrasse.
- Perguntava a mim prprio se gostarias de ir pass-lo a nossa casa. Falei nisso  minha me na semana passada e ela adoraria, se ficasses no quarto de hspedes. 
Alm disso, descansarias um pouco, sem teres a Gabby a falar a noite inteira.
- Talvez lhe sinta a falta - replicou Paxton timidamente. - Tens a certeza de que no estaria a impor-me?
- De forma alguma. O Dia de Aco de Graas  isso mesmo, as pessoas a empanturrar-se e a ver futebol. No sbado, vou assistir ao jogo com o meu pai e adoraria que 
fosses. E pensei que poderamos ir de carro ;at  Stinson Beach, na sexta-feira.
- Bem gostaria - sorriu ela.
Gabby falara vagamente no assunto h uns dias, mas, depois, esquecera-se de o levar mais por diante. Paxton no conseguia, porm, pensar em nada que lhe agradasse 
mais do que passar o Dia de Aco de Graas com eles. Ainda no tinha conhecido os pais, mas suspeitava que gostaria deles com base no que ouvira a seu respeito.
Sentia-se tambm um pouco assustada com aquela ida, pois serviria para a aproximar mais de Peter. Aparentemente, porm, no havia forma de o evitar. Na maior parte 
do tempo, saram com amigos e s estivera a ss com ele poucas vezes; porm, mesmo no meio da multido, a atraco que sentiam um pelo outro era to forte que se 
tornava impossvel combat-la.
Ele contou a Gabby nessa tarde, e ela entrou de rompante pela sala de estar, enquanto Paxton estava a estudar, e surpreendeu-a.
- Ouvi dizer que vens passar o Dia de Aco de Graas a nossa casa, Pax. Que maravilha! - exclamou com um sorriso caloroso. S tinha falado com a me nessa tarde 
e Marjorie Wilson quis saber mais sobre a sua companheira de quarto e sobre se ela estava realmente interessada em Peter. Achara estranho que tivesse sido o filho, 
e no Gabby, a telefonar para saber se Paxton podia ir a casa com eles. - Vais adorar a minha me!
Estou certa que sim.
E j era verdade, pelo que sabia das histrias de Gabby. Sentiam-se as duas muito prximas e tornava-se bvio, pela forma como Gabby se lhe referia, que era doida 
pela me. Marjorie Wilson estava ligada a causas, voluntariado e clubes de bridege como a sua prpria me mas, contrariamente a Beatrice Andrews, gostava mesmo dos 
filhos. Paxton ignorava a profisso do pai deles, mas supunha que era um homem de negcios.
Peter veio busc-las ao fim da tarde de quarta-feira e Gabby tinha, como habitualmente, uma poro de malas. Paxton levava apenas uma pequena. Pusera um vestido 
sbrio azul-marinho, o casaco de Inverno cinzento e o nico par de sapatos de passeio que trouxera, simples e pretos. Estava muito bonita e arranjada, apanhara o 
cabelo louro num rabo-de-cavalo, atara-o com uma fita de cetim azul-marinho e colocara os pequenos brincos de prolas vitorianos da av.
- Pareces a Alice no Pas das Maravilhas. - Peter sorriu quando ela entrou no seu Ford em mau estado. Andava a falar em comprar um dos novos Mustang, mas dizia que 
no economizara bastante o dinheiro do Vero. O pai dera-lhe a escolher entre uma viagem ou um carro como presente de licenciatura e ele optara por dois meses na 
Europa na Esccia, Inglaterra e Frana e no lamentava conduzir a mesma sucata que tivera durante todo o curso..
- Devia ter posto algo mais elegante? - perguntou Paxton nervosamente a Gabby. Poderia ter-se decidido por um vestido de veludo preto, mas estava a guard-lo para 
o Dia de Aco de Graas e no para a chegada.
- Ests ptima. No lhe ligues - respondeu Gabby, que pusera uma mini-saia de veludo vermelho e uma camisola preta, sapatos de salto alto vermelhos e tinha o cabelo 
ruivo penteado  Shirley Temple. - A minha me estar vestida com um simples vestido preto e prolas e o meu pai com calas de fazenda e um casaco de veludo. Os 
respectivos uniformes.
Paxton soltou uma risada nervosa e esperou no os deixar ficar mal, sobretudo a Peter. Tudo adquirira uma sbita importncia aos seus olhos, o que tambm a assustava. 
Nunca ningum a "levara a uma casa" como potencial namorada fixa e tinha a aflitiva sensao de que era o que Peter estava a fazer.
Percorreram a Bay Bridge a toda a velocidade e seguiram para oeste rumo  Broadway, junto ao Carol Doda's e todos os bares de topless e, depois de atravessarem o 
Broadway Tunnel e Van Ness, comearam a passar junto s manses da Broadway. Paxton sentia-se impressionada e ficou, de sbito, ainda mais nervosa. Depois, chegaram.
Peter travou com um guinchar de pneus, Gabby saltou para fora do carro e tocou  campainha. Um momento depois, encontravam-se na enorme entrada principal de uma 
casa muito grande em tijolo, e os pais de Peter, vestidos exactamente como Gabby descrevera, deram-lhe as boas-vindas- A me era uma mulher baixa com um cabelo outrora 
ruivo apanhado numa banana e olhos verde-claros parecidos com os de Paxton; e o pai era alto e elegante como o filho, com um cabelo outrora louro e agora grisalho 
e ar de aristocrata bem-humorado. A mulher era calorosa e parecia sincera quando abraou Paxton.
Gabby foi mostrar-lhe o quarto e, momentos depois, estavam todos em baixo, numa elegante biblioteca forrada com painis de madeira, cheia de livros antigos encadernados 
em cabedal, com mobilirio antigo, uma carpete oriental e uma lareira acesa.
Tratava-se do tipo de sala que  descrito nos romances, e Paxton no fazia ideia de que eles eram to ricos. Voltou a sentir-se, repentinamente, pouco  vontade 
por causa do vestido, mas ningum parecia importar-se com o que cada um usava. Enquanto a sua me teria feito comentrios sobre a mini-saia de Gabby, Marjorie Wilson 
parecia achar graa; falavam as duas animadamente sobre a festa a que ela fora no ltimo fim-de-semana, o rapaz que conhecera e parecia "uma esperana sria", o 
seu termo favorito para o tipo de rapaz com quem gostaria de casar. E, do outro lado da sala, ouviu Peter a perguntar ao pai como iam as coisas no jornal.
- Interessantes, desde a recente situao no Vietname. O ataque em Bien Hoa pode mudar um pouco as coisas agora, quer o Johnson o queira ou no. No podemos ficar 
de braos cruzados para sempre.
Peter no se pronunciou muito sobre o assunto, pois sabia que o pai tinha sido um entusistico apoiante de Goldwater, embora se tratasse de um ponto de vista que 
ele optara por no discutir com Peter.
- No me parece que a presena americana l seja uma resposta. Devamos retirar-nos, antes que nos acontea o mesmo que aos Franceses - ripostou Peter num tom sombrio.
Somos mais espertos do que eles, filho - arguiu o pai com um sorriso. - E no podemos deixar que os comunistas se apoderem do mundo, pois no?
Era uma conversa sem fim que mantinham h anos, e as opinies sempre haviam diferido. Peter achava que as tropas americanas no pertenciam ali, mas,  semelhana 
da maioria das pessoas da sua gerao, o pai tinha uma perspectiva contrria e defendia que elas podiam dar-lhes uma lio, fazer mesmo algum bem e sair sem grandes 
baixas. O problema residia sempre em "quantas baixas"?
Dirigiram-se, em seguida, at junto das mulheres, e Paxton divertiu-se ao ver quanto Peter se parecia com o pai. Tinha o mesmo fogo, o mesmo gosto pela vida, os 
mesmos olhos alegres e azuis de que gostava em Peter, os mesmos modos calorosos.
Eram todos pessoas afectuosas e alegres; e sentiu-se completamente  vontade ao jantar, mais do que alguma vez se sentira com a prpria famlia, em Savannah. Verificou 
tambm que falavam sem cessar do jornal da manh e, a meio do jantar, apercebeu-se de que o pai de Peter trabalhava l. E, quando trocaram impresses sobre o que 
Peter ia fazer no prximo Vero, descobriu algo mais e, por momentos, ficou pregada ao cho.
Peter referia-se a trabalhar para outros jornais algures no pas e, ao ouvi-lo, Paxton' compreendeu tudo, at mesmo por que razo o pai de Peter tivera de silenciar 
profissionalmente o seu apoio a Goldwater. O Morning Sun apoiara oficialmente Johnson e o jornal sempre tinha sido democrtico. Mas o seu proprietrio no o era. 
E o seu proprietrio era o pai de Peter e de Gabby.
Na verdade, h mais de um sculo que o Morning Sun era propriedade da famlia Wilson e,  medida que tudo se lhe tornou mais claro, Paxton desatou a rir, e Peter 
fitou-a, confuso. Acabara de afirmar que no tinha a certeza de querer trabalhar para um jornal no Vero seguinte, mas pensava em oferecer-se como voluntrio para 
um projecto-lei em Mississipi ou trabalhar para o Dr. Martin Luther King, sobretudo desde que ele ganhara o Prmio Nobel da paz, em Outubro. E ela estava a rir.
- O que  assim to engraado? - inquiriu, surpreendido, pois ela costumava levar este tipo de coisas bastante a srio e sabia que partilhava as suas opinies na 
maioria das questes, sobretudo deste tipo.
- Nada. Desculpa. Apenas descobri uma coisa que ninguem se preocupou em dizer-me. julguei que estavam a falar todo o tempo do Moming Sun porque o teu pai trabalha 
l- Nunca imaginei at este momento que tu... que... - Pareceu um pouco atrapalhada" e Peter esboou um sorriso enquanto o pai desatava a rir.
- No fique aflita, Paxton. Quando ele era mido, costumava dizer aos amigos que eu vendia jornais na Mississipi Strect. Pelo menos agora, a sua humildade j no 
vai at esse ponto, ou talvez sim. Foi o que lhe contou?
- No - respondeu, abanando a cabea e rindo. Gabby esboou um sorriso. Tambm ela nunca explicara nada a Paxton. Nunca lhes agradara vangloriar-se diante dos amigos 
e, agora, Paxton percebia porqu. Embora vivessem muito bem, detestavam exibir-se. Tratava-se do tipo de riqueza e discrio antigas, que teria realmente impressionado 
a me. - De facto, nenhum deles me disse nada, nem eu nunca pensei no assunto.
- Achei que no era importante - explicou Peter calmamente, sabendo que ela gostava dele pelo que era e no pelo que o pai tinha. E Paxton apressou-se a tranquiliz-lo.
- E no . Mas  interessante. Pelo menos, podes falar de algo inteligente em casa. Ns s falamos de quem vai casar-se, de quem comprou uma casa nova e de qual 
dos doentes do meu irmo est moribundo.
- O seu pai tambm  mdico? - inquiriu Marjorie Wilson com um sorriso agradvel.
- No - respondeu Paxton num sussurro, sentindo-se muito triste no ntimo. Desejava ainda ter pai, como Gabby e Peter. - O meu pai era advogado. Morreu h sete anos, 
quando o avio se despenhou.
- Lamento - retorquiu ternamente a me de Gabby.
- Tambm eu.
Era to diferente estar com eles. Era tudo to normal e feliz. Nessa noite, jogaram domin, brincaram e riram. Peter conversou muito tempo com o pai diante da lareira 
e, depois, incluiu Paxton. Voltaram a falar do Vietname, de Diem, da posio de Johnson frente aos Russos, pois o recente golpe de Estado retirara o poder a Kruschev 
em Setembro.
E Paxton concluiu que admirava Edward Wilson. Era inteligente, sensato e tinha uma grande percepo que ela respeitava, embora as opinies de ambos sobre o Vietname 
fossem diferentes.
Abordaram as realidades da integrao no Sul, de Martin Luther King e at mesmo das recentes evolues e manifestaes estudantis em Berkeley. Nos ltimos dias, 
o Movimento de Liberdade de Expresso excedera-se e o Conselho de Regentes tinha assumido uma posio dura, recusando negociar com os estudantes. O pai de Peter 
mostrava-se de acordo, e Paxton tambm, embora esta no fosse uma perspectiva popular na cidade universitria. - O presidente Kerr era amigo dele e tinham tido uma 
longa conversa nessa mesma manh.
- Ele no vai cooperar com esses midos. H demasiadas coisas em jogo. Se desistir, perdero todo o controlo sobre a cidade universitria. - Peter discordava totalmente 
do pai e debateram o assunto muito tempo, mas Paxton achava aquelas conversas arrebatadoras e refrescantes. Era excitante estar no meio de pessoas que falavam de 
coisas inteligentes e tinham conscincia do que estava a acontecer no mundo. Em Savannah, havia vezes em que se sentia to desligada do mundo real, to sufocada 
pelo Sul e a sua luta desesperada de se ater ao passado. E Paxton expressou a sua opinio a Ed Wilson.
- Mesmo assim, tm um jornal fantstico - retorquiu ele. - O W. S. Morris e eu somos velhos amigos.
- De qualquer maneira, espero trabalhar para ele ou para o jornal neste Vero. Estou a tirar uma especializao em jornalismo e vou acabar no prximo ano. - Peter 
sorriu-lhe, orgulhoso, estendeu o brao e deu-lhe a mo, o que no escapou ao pai. Ed Wilson no fez qualquer comentrio, mas conversou com Marjorie nessa noite, 
quando estavam a despir-se, no quarto.
- Acho que o teu filho est mesmo apaixonado, querida - opinou, fitando ternamente a mulher. Ela amava tanto os filhos que se interrogou sobre se lhe custaria quando, 
finalmente, se casassem e tivessem vidas prprias, longe dos pais. - Algo me diz que est realmente apaixonado por aquela rapariga.
- Penso o mesmo - redarguiu ela com uma expresso meditativa, sentando-se em frente do toucador e escovando o cabelo, outrora ruivo. - No entanto, gosto dela, sabes?
 aparentemente calma, mas tem muito que se lhe diga, Tambm se interessa por ele,  uma rapariga decente e franca e muito honesta.
- E demasiado jovem para se casar - rematou o marido. - Aos dezoito anos, seria uma loucura pensar sequer em casar.
- No me parece que tenha isso em mente. Algo me diz que pretende fazer muita coisa com a sua vida. Penso que  mais equilibrada do que o Peter.
- Assim espero - suspirou o marido. - Ainda no estou preparado para ter netos - acrescentou, inclinando-se e beijando o pescoo da mulher com um sorriso meigo.
- Nem eu - riu ela. - Mas, nesse caso, fala com a Gabby.
- Oh, no! No me digas que h outro amor verdadeiro esta semana. Tenho motivo para me preocupar, ou tudo ter acabado na prxima tera-feira?
- Muito antes. Ainda ningum levou a srio aquela mida, graas a Deus. Vai dar cabo de mim.
- Vai? - retorquiu, voltando at junto de Marjorie, vestido com um dos pijamas que mandava fazer duas vezes por ano em Londres; tirou-lhe a escova do cabelo da mo 
e pousou-a em cima do toucador. - Amo-te, sabes? - Ela esboou um aceno de cabea e, sem uma palavra, envolveu-o nos braos e beijou-o. Depois, apagou calmamente 
as luzes e foi para a cama, onde ele a abraou. Eram pessoas felizes, com uma vida que muito prezavam e uma famlia que sempre tinham amado.
E essa postura revelou-se no dia seguinte, quando se sentaram juntos a celebrar o Dia de Aco de Graas. Paxton pusera o vestido de veludo preto e Gabby usava um 
fato Chanel branco que a me lhe comprara no ano anterior, em Paris. Tornava-a, subitamente, adulta, e Paxton. lembrou-se da altura em que Jackie Kenedy ditava a 
moda.
Quando Ed Wilson procedeu  aco de graas, tinha um ar grave e distinto. E Paxton tomou conscincia de um pequeno e picante sorriso entre ele e a me de Gabby.
Comeram um sumptuoso almoo, que os deixou satisfeitssimos, e at Paxton se viu forada a confessar que quase rivalizava com a cozinha de Queenie. Falou-lhes nas 
suas refeies do Dia de Aco de Graas e referiu-se com um amor inegvel  mulher que a tinha criado.
Depois do almoo, apareceram amigos, e Paxton sentiu-se impressionada ao aperceber-se que um deles era o governador da Califrnia. Todos se referiram  manifestao 
que se realizava em Berkeley nessa tarde, liderada por Mario Savio e outros membros do Movimento de Liberdade de Expresso. Joan Baez iria quase de certeza cantar, 
e mil estudantes haviam encenado um protesto contra as posies da universidade relativamente  liberdade de expresso, impedindo-os, a eles e s outras causas, 
que se servissem dos terrenos universitrios para arranjar dinheiro ou distribuir panfletos .
A universidade declarava que o trnsito ficava bloqueado, e havia panfletos espalhados por toda a cidade universitria. Por fim, a universidade assumira o compromisso 
de que podiam utilizar o mesmo espao de antigamente, mas no defendera a aco.
Aos olhos de Paxton, tudo aquilo no passava de uma tempestade num copo de gua, mas os temperamentos tinham-se exaltado, as liberdades haviam sido questionadas 
e a altura era propcia a um confronto de vontades e  agitao. Nessa noite, cerca de oitocentos estudantes tinham sido presos. Paxton achava fantstico estar no 
lar dos Wilson, onde toda a gente tinha verdadeira conscincia do que se passava no mundo e contactar to de perto com gente de aco e poder.
Todos seguiram as permanentes manifestaes no telejornal do dia seguinte e, por conseguinte, ela e Peter nunca foram a Stinson. No sbado, foi assistir ao jogo 
de futebol com Peter e o pai, enquanto Gabby fazia compras com a me.
Paxton telefonara  me no Dia de Aco de Graas e falara com ela, George e Queenie. Pareciam bem e garantiu-lhes que estava a divertir-se no Dia de Aco de Graas, 
embora apenas Queenie parecesse preocupada com o facto. A ama sussurrara ao telefone que nesse ano no cozinhara a sua torta de carne picada, devido  ausncia de 
Paxton.
No final da semana, Paxton sentia-se muito prxima de todos. Era como se fosse um membro da famlia, no momento em que se despediu e lhes agradeceu por aquele maravilhoso 
Dia de Aco de Graas. Fora o melhor de h uns anos a essa parte, o melhor desde que o pai morrera, e os olhos emitiam um brilho de felicidade quando agradeceu 
a Peter e a Gabby no regresso a Berkeley.
Ainda restavam vestgios da agitao quando voltaram  universidade. Via-se a Polcia de Interveno por todo o lado, na eventualidade de se verificarem mais manifestaes 
e, nessa noite, Paxton ficou chocada ao saber que Yvonne e Deke tinham participado na manifestao e sido presos. Nessa altura j os haviam posto em liberdade, mas 
Yvonne ficara com terrveis escoriaes nos braos, feitas pela Polcia quando a tinham arrastado para a carrinha.
- Foi bastante duro - admitiu com um olhar sombrio. - E onde  que passaram o fim-de-semana? - perguntou num tom acusador a Paxton e a Gabby, quando Peter lhes trouxe 
a bagagem do carro.
- Em So Francisco - respondeu Gabby bruscamente, sem vontade de mais explicaes. No fazia teno de se sentir culpada por no ter sido detida. -  escusado ir 
para a priso como prova de que nos importamos, Yvonne. No vai provar a ponta de um com o se ficar com ndoas negras nos braos e, para te falar verdade, pouco 
me interessa onde distribuem esses malditos panfletos. - Era a primeira vez que se irritava com Yvonne, mas estava cansada dos seus comentrios por entre dentes 
e acusaes veladas.
- O que  que te interessa, afinal? - ripostou Yvonne, enquanto Peter e Paxton ficavam a ouvir.
- Talvez as mesmas coisas que a ti. Interessam-me os negros e o Vietname, interessa-me que as pessoas entrem em acordo e fiquem vivas para usufruir de paz, mas no 
vou deixar que me arrastem pela rua e me atirem para dentro de uma carrinha a fim de o provar.
- Ento, nunca sers ouvida. No podes ficar sentada na tua sala de estar, a arranjar as unhas e a pensar que algum te ouvir, pois no  assim. No Sul, apenas 
ouviram quando as pessoas comearam a ser alvejadas, mortas e presas.
Nesse caso, porque ests aqui e no l? - arguiu
Gabby de imediato.
- Porque estou farta. Porque estou farta de me sentar nas traseiras do autocarro, querida. Foi sempre assim toda a minha vida. E vou ficar aqui at poder voltar 
e instalar o cu na frente do autocarro, onde algum prestar ateno.
- ptimo. Mas no te metas comigo enquanto ests aqui, porque tambm no me meto na vida de ningum.
- De qualquer maneira, vou mudar-me no prximo ms - explodiu Yvonne, aborrecida, sem saber se fora ou no derrotada por Gabby. Talvez devesse estar no Sul. Talvez 
devesse estar em Birmingam, lutando contra os simpatizantes de Wallace e no ali em Berkeley. No entanto, fartara-se de tudo e era esse o motivo por que ficara to 
contente ao obter a bolsa de estudos para Berkeley.
- Vais mudar para o apartamento do Deke? - indagou Gabby, apenas ligeiramente interessada. Sentia-se cansada de Yvonne e da sua agressividade. Era to grande que 
lhe obscurecia a lucidez; porm, conhecendo o Sul como conhecia, Paxton hesitava em atribuir-lhe todas as culpas.
Yvonne abanou, contudo, a cabea em resposta  pergunta de Gabby.
- No... Eu... - Pareceu subitamente atrapalhada, como se se tivesse apercebido que fora longe de mais, como se tivesse conscincia de que despejara a raiva em cima 
delas, sem que o merecessem. - No vou mudar para o apartamento do Deke. Vou mudar-me para casa de amigos. - Paxton sabia que ela viveria, por opo, com pessoas 
como ela, que ainda estavam demasiado revoltadas para usufruir da integrao que haviam conquistado e ainda ignoravam como agir.
- Fixe - apoiou Paxton calmamente. - Espero que sejas feliz.
- E o teu quarto? - perguntou Gabby, despreocupada 11 indiferente ante a declarao de Yvonne.
- Imagino que arranjaro algum para me substituir. - E, enquanto ela ainda estava a falar, Dawn entrou no quarto, vestida de camisa de noite.
- Tambm vou mudar-me - declarou num tom vacilante. - ... Quer dizer... Vou... vou-me embora. - Parecia pedir desculpas mas, em simultneo, feliz. - Vou para casa 
- rematou, brindando-as com um sorriso.
- Vais desistir? - surpreendeu-se Gabby, sem compreender como  que algum podia querer afastar-se de um stio to divertido. Todavia, na verdade Dawn nada mais 
fizera do que dormir naqueles trs meses.,
- Vou casar... Penso que... no Natal... Estou... - Corou e olhou-as, s suas nicas amigas em Berkeley. Quase no assistira a nenhuma aula desde que estava ali. 
- Vou ter um beb em Abril.
As trs raparigas fitaram-na, surpreendidas, embora Paxton se apercebesse, depois, de como eram estpidas. Ela tinha todos os sintomas que vinham nos livros, mas 
fora a brincar que haviam dito que ela podia estar grvida.
- O Dave e eu vamos para o Nepal assim que o beb nascer, para vermos o nosso guru.
- ptimo! - exclamou Gabby, ainda surpreendida, e Peter virou-se para que as raparigas no o vissem sorrir. -  ptimo, Dawn. -,E, quando as outras duas regressaram 
aos seus quartos, Gabby dirigiu-se a Paxton com um olhar irritado: - Merda! O que vamos fazer com o quarto dela? Se for a universidade a atribu-lo, s Deus sabe 
quem nos calhar, e no conheo ningum que queira mudar a meio do ano. E tu?
- Porque no negociamos? - sugeriu Paxton, pensativa. - Conheo quatro raparigas que tm duplos e anseiam por quartos com sala. Podamos ceder-lhes os nossos e ficar 
com os delas.
- Ou podiam fazer um roupeiro do quarto delas. Ou mudarem-se para a minha casa - retorquiu Peter, esperanado, fitando Paxton.
Tinham-se entendido na perfeio naquele fim-de-semana em casa dos pais. Embora tivesse sentido vontade de aparecer no quarto dela e tentar seduzi-la, forara-se 
a no o fazer. Sabia como a transtornaria fazer uma coisa dessas na casa dos pais dele e sabia, igualmente, atravs de Gabby que Paxton ainda era virgem. H uns 
tempos que andava a pensar no assunto, interrogando-se sobre se ela estaria pronta a acompanh-lo para qualquer lado, mas ainda no surgira a altura certa de lhe 
fazer a pergunta e estava disposto a protelar. Paxton era algum que desejava ao seu lado para sempre.
- Na verdade, no  assim to m ideia - disse s duas, antes de sair. - Talvez, no prximo ano, possamos alugar uma casa fora da cidade universitria.
A sugesto agradava a todos, mas o prximo ano parecia ainda muito longe, e Paxton interrogou-se sobre se ele continuaria a gostar dela nessa altura. Muita coisa 
podia mudar num ano. Era incrvel pensar no que j mudara. Em trs meses, ela e Gabby tinham-se tornado boas amigas, ela e Peter tinham-se apaixonado, haviam perdido 
duas companheiras de quarto, e uma delas estava grvida. No conseguiu deixar de pensar em tudo isso, quando se deitaram nessa noite.
As semanas seguintes pareceram voar, antes de partirem para as frias de Natal. Depois do Natal, Peter iria esquiar com uns amigos e Gabby viajaria a Puerto Vallarta, 
no Mxico, com os pais. Peter perguntara a Paxton se ela queria ir esquiar com ele, mas a jovem respondera que seria estranho deixar a famlia to cedo para regressar 
 Califrnia, e ele compreendeu.
Levou-a no carro ao aeroporto no dia vinte e um e, quando estavam junto ao porto de embarque a conversar sobre o Natal, ele fitou-a subitamente e o corao da jovem 
quase parou ao ouvir-lhe as palavras, parecendo-lhe que Peter era quase to adulto como o pai.
- Isto no vai resultar, sabes? - Era quase Natal e ele estava a inform-la de que o romance acabara...
- O qu?... Eu... eu... lamento... - No conseguia olh-lo, to magoada se sentia. Resistiu ao sentir o dedo dele Por baixo do queixo, forando-a a erguer o rosto 
na sua direco, com os olhos cegos pelas lgrimas que ele lhe provocara.
- No ests a perceber-me, pois no, Paxton? - Tambm ele tinha os olhos hmidos, e a jovem abanou a cabea tristemente. - Sou incapaz de continuar a fingir que 
somos apenas bons amigos e tudo se resume a um flirt de caloiros. Estou apaixonado por ti, Pax. Nunca amei ningum como te amo a ti. Quero casar-me contigo um dia. 
Amanh, para a semana, daqui a dez anos. Se queres ir para o Corpo da Paz, para frica ou para a Lua, tudo bem. Ficarei  espera. Amo-te.
A voz tremia-lhe, os lbios tambm, e apertou-a com  tanta fora nos braos que lhe cortou a respirao. Desta vez, quando o beijou, ela entregou-lhe o corao. 
Tambm j no conseguia encarar tudo aquilo como uma brincadeira, Sabia quanto o amava.
- O que vamos fazer, Peter? - perguntou, sorrindo-lhe por entre as lgrimas, e ele correspondeu ao sorriso. S de a agarrar, senti-la e beij-la, sabia que a amava. 
- Tenho mais trs anos e meio de universidade. Tenho de acabar - acrescentou.
- Esperaremos. No tem importncia. Talvez acabemos por ficar noivos. S quero saber se me amas. - Olhou-a bem no fundo e ela esboou um aceno afirmativo.
- Amo-te... Amo-te tanto... - sussurrou e ele envolveu-a num abrao e beijou-a mais suavemente.
- Odeio no passar o Natal contigo - murmurou-lhe Peter ao ouvido. - Queres que apanhe o avio para Savannah depois do Natal?
Paxton queria, mas tinha medo. Se a me soubesse que, aos dezoito anos, pensava a srio em algum, sobretudo num rapaz da Califrnia, ficaria frentica.
- No.  demasiado cedo. No compreendero.
- Nesse caso, volta depressa.
Estavam a chamar para o seu avio pela ltima vez, e todos os passageiros j haviam subido para bordo.
- Tenho de ir. Telefono-te de casa. - "Casa... Onde era, agora, a casa?" - Amo-te. - "E se ele a esquecesse durante as frias? Se encontrasse outra pessoa? Se conhecesse 
algum, quando fosse esquiar?" Todos estes pensamentos estamparam-se-lhe no rosto quando se afastou dele, e Peter riu-se.
- Deixa-te disso, pateta - incitou. - Amo-te. E  bom que te lembres. Um dia, o teu nome ser Paxton Wilson. - Deu-lhe um ltimo e rpido beijo, e ela correu para 
apanhar o avio, acenando-lhe e gritando-lhe por cima do ombro que o amava.

CAPTULO 5

Foi estranho chegar a Savannah nessa noite. Estava frio e escuro e era muito tarde. O avio sofrera um atraso e, dada a diferena horria, era quase meia-noite quando 
chegou a casa. J estavam todos a dormir.
O irmo tinha ido busc-la, mas a me deitara-se com uma forte constipao. Apenas Queenie estava acordada e  sua espera com chocolate quente e os biscoitos de 
aveia favoritos de Paxton, acabados de sair do fogo. Beijaram-se as duas sem uma palavra e, s de abraar a sua velha amiga, Paxton, sentiu vontade de partilhar 
a sua felicidade com ela. No avio, tinha pensado constantemente em Peter e agora estava ansiosa por lhe contar.
George, porm, nunca mais se ia embora. Parecia sentir-se na obrigao de esperar at ela acabar de beber o chocolate quente. Contou-lhe as notcias das pessoas 
da cidade e informou-a de que a me recebera uma distino das Filhas da Guerra Civil; Paxton tentou mostrar-se entusiasmada. S conseguia, porm, fitar Queenie 
e sorrir, indicando-lhe com o olhar quanto a amava.
Por fim, ela foi para a cama, George regressou a casa e Paxton deitou-se a reflectir em Peter e tentando sentir-se bem. Mas nada era o mesmo, nada lhe parecia convidativo 
e quente e no conseguia desviar o pensamento de Peter e da Califrnia. Demorou horas a pegar no sono e, quando por fim adormeceu, sentiu a falta da tagarelice de 
Gabby.
E, de manh, a situao piorou. Sentia-se uma estranha quando tomou o pequeno-almoo com a me. Felicitou-a pela distino e, depois de um frio aceno de agradecimento, 
a me remeteu-se a um terrvel silncio.
Parecia no terem nada que dizer uma  outra, e Paxton esforou-se por lhe falar das aulas. Nunca fez perguntas sobre as companheiras de quarto de Paxton, e nada 
no mundo a levaria a mencionar-lhe Peter. A me informou-a de que George tinha uma "nova amiga" e que a conheceria nessa noite ao jantar, embora George no lhe tivesse 
falado nela quando a fora buscar ao aeroporto.
Paxton voltou a lembrar-se de como a sua famlia estava distante da dos Wilson. E foi levada a interrogar-se sobre como poderiam ter sido diferentes se o pai ainda 
continuasse vivo para lhes aquecer os coraes e torn-los a todos um pouco mais humanos.
J a tarde ia adiantada quando conseguiu encontrar Queenie sozinha, na cmoda cozinha, e falou-lhe em pormenor de Gabby, Peter e dos Wilson.
- No fizeste nada de que tenhas de te arrepender, pois no, mida? - perguntou-lhe com uma expresso grave, e Paxton abanou a cabea. No entanto, essa ideia ocorrera-lhe 
,e, agora que tinham confessado o amor um ao outro, era lgico acreditar que, mais cedo ou mais tarde, algo de "srio" podia acontecer. Mas respondeu com sinceridade 
a Queenie, consciente de que havia pensamentos que nem sequer com Queenie se podiam partilhar.
- No, Queenie, no fiz. Mas ele  maravilhoso. Ias ador-lo. - Voltou a contar-lhe tudo a respeito de Peter, e a velha ama escutou-a de corao aberto e os olhos 
brilhantes, enquanto ela falava do rapaz por quem se tinha apaixonado na Califrnia.
- Gostas daquilo por l? s feliz?
- Sou mesmo.  maravilhoso.  excitante. - Falou-lhe tambm das aulas, das pessoas que conhecera, dos lugares que vira, e Queenie conseguia ver tudo atravs das 
suas descries. Em seguida, indagou, num tom cmplice, sobre a nova namorada do irmo.
- Vers - riu a velha ama. - Acho que esta pode ser ,a srio. - No entanto, Paxton ficou com a sensao de que Queenie no gostava dela, fosse l pelo que fosse.
- O que te leva a pensar assim? - indagou Paxton, intrigada; Queenie limitou-se a rir e, duas horas mais tarde, Paxton pde ver com os seus prprios olhos porque 
 que Queenie no a tinha em grande conta.
A nova amiga de George, Allison, parecia a ssia da me deles- Usava o cabelo da mesma maneira, tinha o mesmo ar frio, a mesma arrogncia, as maneiras de dama do 
Sul, s que era muito mais controlada. Tudo nela era to rgido que parecia em risco de se quebrar. George mostrava-se, contudo, totalmente  vontade com ela. Estava 
habituado quele tipo de mulher, embora, na juventude, at mesmo George gostasse delas um pouco mais extrovertidas.
Paxton observou-a a noite inteira. Tinha os lbios to apertados que mal podia falar e, no entanto, no parecia tmida quanto a expressar as suas opinies. Por fim, 
depois do jantar, Paxton entrou de rompante na cozinha e quando ficou s com Queenie, explodiu:
- Meu Deus! Ela  to rgida e convencida! Como  que ele a suporta?
No entanto, Allison era exactamente o que o irmo desejava. Na sua opinio, correspondia  imagem da perfeita mulher sulista. Fora bem treinado pela me.
- O que  que a mam acha dela? - acrescentou, curiosa, mas Queenie respondeu com um mero encolher de ombros.
- No sei. No me diz nada.
- Deve ser como olhar-se ao espelho, ou talvez ela no se aperceba.
O resto da noite foi extraordinariamente montono para ela; tal como o resto da estadia. Na vspera de Natal foram  igreja e na manh do dia de Natal repetiram 
a visita. Esteve com algumas das amigas e ficou chocada ao descobrir que duas delas, que tinham optado por no ir para a universidade nesse ano, iam casar-se; e 
que uma outra, que casara depois do fim do curso em junho, j estava grvida. Ah, sentia-se demasiado jovem para poder considerar responsabilidades daquelas, e elas 
estavam perfeitamente embaladas na vida de adultas, com maridos e filhos.
Voltou a pensar em Peter, como agora acontecia ao mnimo pretexto. Ele telefonara-lhe vrias vezes, mas na maior parte do tempo era ela quem atendia; portanto, ningum 
sabia a frequncia com que lhe ligava. A me s o mencionou uma vez e declarou achar estranho que um rapaz da Califrnia telefonasse de to longe a Paxton e que 
esperava que no se tratasse de nada de desagradvel. "Nada de desagradvel" significava um envolvimento com um rapaz que no era de Savannah, na Jrgia.
Paxton dirigiu-se ao departamento de pessoal do jornal e, embora Mr. Wilson se tivesse oferecido para lhe abrir caminho, no quis aproveitar-se e conseguiu ser contratada 
para um emprego de Vero, quando estivesse de frias de Berkeley, de junho a Agosto.
Sentia-se ansiosa pela experincia, mas agora tudo o que a afastasse de Peter deprimia-a. E esta situao tambm a incomodava. No queria depender totalmente dele 
e havia tanta coisa que queria fazer com a sua vida, cumprir o que prometera a si prpria. No entanto, ele garantira que estava disposto a esperar e ela sabia que 
o faria. Voltara a repetir a promessa vezes sem conta, quando lhe telefonara para Savannah, no Natal.
Acedera em regressar no avio um dia antes da vspera de Ano Novo e a me parecia to envolvida com George e Allison e as suas amigas que Paxton achou que ela no 
se importava. Foi ao ponto de admitir que queria passar a vspera de Ano Novo com as amigas da universidade e, embora a me comentasse que achava "pouco generoso 
da sua parte", deu a sensao de que aceitava.
George levou-a, uma vez mais, ao aeroporto, depois de Paxton ter passado uma manh calma na cozinha, com Queenie. Esta apanhara a sua habitual constipao do ano, 
e Paxton obrigou-a a prometer que iria ao mdico.
A me de Paxton tinha ido ao cabeleireiro antes de ela partir e despedira-se de manh cedo. E, ao despedir-se de George, pediu-lhe que desse um beijo a Allison, 
e o irmo quase se sobressaltou.
-  mesmo a srio entre os dois, no ? - perguntou, sem resistir  intimidade do momento. Intimidade era uma palavra que o irmo odiava.
- No fao ideia do que queres dizer - retorquiu num tom gelado, e ela foi incapaz de resistir a soltar uma risada. O irmo acabara de fazer trinta e trs anos e, 
se ainda no lhe passara pela cabea, estava de facto em sarilhos. -  muito pouco senhoril da tua parte essa afirmao, Paxton.
A jovem lembrou-se do -vontade reinante entre Peter e Gabby e ficou triste ao aperceber-se de como a sua vida era diferente e da pompa e circunstncia que definiam 
a relao com o seu nico irmo.
- Acho que ela gosta realmente de ti, George. E acho que a me gosta dela. - Tratava-se das nicas palavras verdadeiras que poderia pronunciar. No queria mentir, 
afirmando que gostava dela.
- Estou certo disso - replicou num tom triste e desejando que a irm no tivesse feito a pergunta.
- Cuida de ti. - Inclinou-se para a frente e beijou-o na face sem uma palavra; e, sem qualquer outra palavra, tirou-lhe o saco da mo e dirigiu-se ao avio, esboando 
um ltimo aceno amistoso.
Peter fizera muito por ela. Tornara-se incapaz de fazer o jogo deles, o jogo da ausncia de emoes, Permanente controlo e infindveis jantares silenciosos. Enquanto 
a via afastar-se, George pensava, infeliz, no que estava a acontecer  irm na Califrnia.
Desta vez, quando Paxton desceu do avio em So Francisco, Peter esperava-a e quase levantou voo ao v-lo. Ergueu-a em peso do solo, premiu os lbios nos dela e 
abraou-a fortemente. Riam e beijavam-se, e os transeuntes sorriam ao observ-los. Era agradvel ver jovens to apaixonados; aquecia o corao e lembrava s pessoas 
o que haviam sido outrora.
- Cus! Senti a tua falta! - exclamou Peter, fervoroso, quando por fim a pousou e avanaram, de brao dado, rumo ao depsito de bagagens. - Acho que no conseguiria 
aguentar nem mais um minuto.
- Nem eu - replicou ela com um olhar brilhante.
- Como estava Savannah?
- Um horror! - Contou-lhe tudo sobre Allison, George e o emprego de Vero, tudo o que Queenie comentara sobre eles e mencionou, tristemente, quanto a me se mostrara 
reservada e distante. - Acho que continua a sentir-se atraioada com a minha ida para Berkeley. julgo que ela foi sempre assim, mas agora tenho mais conscincia, 
por haver conhecido pessoas to diferentes. "Como os Wilson."
- Deixa l, querida. Tens-me a mim.
Tratava-se de uma afirmao corajosa e sentiu-se emocionada. No entanto, uma nfima parte de si ainda receava confiar nele por completo. "E se mudasse de opinio, 
se partisse ou se se apaixonasse por outra pessoa? ... " Aprendera, h muito, que era perigoso amar algum sem reservas. Aprendera esta lio h muito tempo com 
o homem que amara to profundamente, e, homem que representara tudo para ela; e, depois, tudo acabara num momento, quando o avio se despenhara.
- O que fazemos esta noite? - perguntou, feliz, ao dirigirem-se  garagem para ir buscar o calhambeque.
No lhe interessava, na verdade, o que iriam fazer, desde que estivesse com ele. Nunca se sentira to feliz na vida. Talvez as suas amigas de Savannah tivessem razo, 
aquelas que eram casadas e tinham filhos. Tambm lhe falara nelas e de como estava impressionada, mas Peter compreendia que ela ainda no se encontrava preparada. 
Ele parecia compreender tudo, e nunca o amara tanto como no momento em que se sentaram no velho carro e se beijaram at ficar sem flego.
- O que vamos fazer esta noite?... - Ele tentou forar-se a pensar e ela soltou uma gargalhada. - Tencionava lvar-te a Talioe para passarmos l o fim-de-semana. 
Mas h uma tempestade e eles fecharam Dormer Pass. Teremos de esperar at amanh de manh e ver se o abrem. Queres ir jantar e ao cinema?
- Claro. - Levou-a no carro at  cidade e ela ignorava se passaria a noite na universidade ou no quarto de hspedes na casa dos Wilson. Os pais dele e Gabby continuavam 
fora e a criadagem estava de folga; Peter insistiu em que no via motivo para que ela no ficasse. - Achas que nos portaremos bem? - perguntou-lhe, honestamente, 
tentando decidir-se.
- Queres que me porte bem? - replicou ele, abraando-a meigamente.
- J no sei o que quero, Peter... Continuo a pensar que temos de esperar... Por isso, tambm... E, depois, olho para as minhas amigas e acho-me estpida.
- No olhes para elas - ripostou o jovem, suavemente- - Olha para mim. Olha para ti. Farei o que quiseres, Paxxie.
- Dormirei no quarto de hspedes - redarguiu ela, com um sorriso agradecido.
No queria dormir sozinha num dormitrio solitrio. Na verdade, apetecia-lhe enroscar-se na cama com ele. Desejava muito mais do que isso, mas acreditava que no 
o faria. Tinha quase dezanove anos e ele estava quase nos vinte e trs. Tinham idade suficiente para se casarem, terem filhos, fazerem um milho de coisas e, contudo, 
ainda no podiam, supostamente, fazer amor por no serem casados.
Quando chegaram a casa dos Wilson, ele levou-lhe a mala para o andar de cima; depois, voltou abaixo,  procura do jornal para escolherem um filme. Paxton sentiu-se 
s mil maravilhas naquela casa, envolta na grandiosidade de um lugar que fora construdo pelo pai de Ed Wilson.
Riu, sentou-se e vagueou o olhar pelo bonito quarto de hspedes. Estava tudo forrado de um belo algodo estampado s flores, a alcatifa era de um amarelo-claro e 
a casa de banho era de mrmore rosa e branco. Era o sonho de qualquer rapariga, e Peter tambm o era.
- Que tal Goldffinger, o novo filme do James Bond? - sugeriu ele, quando regressou com duas cervejas e um pacote de batatas fritas, que lhe estendeu. - Comeste no 
avio? - perguntou, apercebendo-se, subitamente, de que ela podia ter fome.
- Comi duas vezes - sorriu. - Sou incapaz de comer mais. - Tirara os sapatos e mudara para umas calas de ganga. Sentia-se como se tivesse regressado novamente a 
casa, s por estar ali ao seu lado. Peter sentou-se na cama e chegou-se a ela.
- No podes imaginar como senti a tua falta.
- Tambm senti a tua - replicou ela meigamente, envolvendo-o nos braos. Beijaram-se, rolaram devagar na cama e ficaram muito tempo, beijando-se e abraando-se por 
entre toques e carcias. Estavam calmos e em paz na confortvel diviso e, decorrido algum tempo, ele parou e ps-se a olhar em volta.
- Nunca me apercebi do quanto gosto deste quarto. Ou talvez agora parea ser teu. - Sorriu, voltou a beij-la e apertou-a mais de encontro ao corpo, absorvendo o 
subtil odor do seu perfume. Ela usava Femme e ele adorava. A prpria palavra levava-o a pensar nela. Mulher. - Talvez devamnos levantar-nos. - sugeriu, hesitante 
e interrogativo, pois comeava a no lhe apetecer sair dali.
- sim. Acho que sim - replicou ela tranquilamente.
Levantaram-se. Paxton, vestiu uma camisola quente, calou os sapatos e foram ao cinema. Em seguida, comeram um hamburger no Hippo e chegaram a casa muito antes da 
meia-noite. Ele deu-lhe um beijo de boas-noites no corredor, fora do quarto, e subiu para o andar de cima.
Nessa noite, tinham, como sempre, falado de mil coisas que lhes interessavam, das famlias, dos amigos, das respectivas opinies e do seu futuro. Ela j tinha a 
camisa de noite vestida e continuava a pensar nele quando ouviu uma leve pancada na porta, minutos depois de ele a ter deixado.
- Sim? - Sabia quem era, pois estavam sozinhos na casa.
- Sou eu - respondeu com um sorriso, enfiando a cabea pela porta.
- Que boa notcia! - riu Paxton. - Imaginei que, se no fosses, s podia ser um ladro.
Tenho saudades tuas! - exclamou com um ar de mido e, quando abriu a porta toda, Paxton viu que ele vestira um pijama de flanela vermelha e riu ao sentir-se observado. 
- Levei dez minutos a descobri-lo, ou teria chegado mais cedo. - Ambos riram e ela sentiu-se jovem, feliz e apaixonada ao avanar lentamente na sua direco.
_ Tambm eu de ti - replicou meigamente. - Ele apagou a luz, sem uma palavra e ficaram, de p, banhados pelo luar que entrava atravs das janelas.
- No sei o que fazer, Pax... No quero fazer nada que te magoe... nem agora, nem nunca... Amo-te tanto... mas  difcil manter-me  distncia.
- Acho que no quero que o faas. - Sentaram-se na cama, apenas para conversar e voltaram a beijar-se, deitados na cama. Ela estava nos seus braos, e Peter despiu-lhe 
a camisa de noite com movimentos vagarosos.
- S quero olhar para ti. - Expressava-se terna e suavemente e todo o corpo lhe doa ao contemplar aquela imensa beleza sob o luar. Ela era alta, esguia e bela e 
tinha umas curvas perfeitas, assemelhando-se a uma bonita esttua de mrmore rosa. - Oh, cus... Amo-te...
Tambm ela o amava e, sem hesitar, desabotoou-lhe o pijama e conservaram-se deitados, por muito tempo, abraados, sem ousarem avanar mais, desejando, contudo, muito 
mais, desejando tudo o que cada um tinha a dar, para sempre.
Peter acariciou-lhe os longos cabelos sedosos, percorreu suavemente as mos pelos seios e ao longo das coxas, iniciando o percurso de volta, mal se atrevendo a aproximar-se 
do que desejava. Foi, no entanto, Paxton a tomar a deciso. Era incapaz de aguentar por mais tempo. Desejava-o demasiado. Desabotoou, com gestos suaves, as calas 
do pijama, revelando a premncia, o fervor que ele deixara de poder controlar.
- Paxxie... - murmurou com voz rouca. - Tens a certeza?... - A jovem limitou-se a esboar um aceno afirmativo e a sorrir. Em seguida, beijou-o, enquanto ele a colocava 
ternamente de costas, abrindo-lhe as pernas com as dele e procurando o que ela lhe guardara at esse momento.
Tratou-a com infinda delicadeza e quase no houve lugar para a dor; houve apenas paixo, desejo e juventude, e as oferendas de amor que tinham para trocar.
Conservaram-se toda a noite nos braos um do outro, fazendo amor vezes sem conta. E, de manh, quando ele acordou, ela estava ao seu lado com os cabelos espalhados 
sobre o seu brao, o rosto idntico ao de uma criana adormecida. Estavam de mos dadas e Peter sentiu a picada de uma lgrima, ao observ-la. Ela era tudo o que 
ele sonhara toda a sua vida, tudo o que desejara, o que esperara encontrar um dia e s ela sabia agora quanto a amava.

CAPTULO 6

O resto do ano pareceu voar, tendo apenas alguns acontecimentos importantes a assinal-lo. No Natal, terroristas do Vietcongue tinham bombardeado o Hotel Brinks 
em Saigo, onde os oficiais americanos se encontravam alojados.
Era vspera de Natal e os oficiais tinham vindo de todo o Saigo para uma celebrao que findara em choque e tristeza. Dois foram mortos e cinquenta e oito ficaram 
feridos.
E uma vez mais Lyndon Johnson recusou retaliar com um bombardeamento.
Seguiu-se outro ataque. E, por fim, a 7 de Fevereiro, o presidente ordenou os primeiros bombardeamentos importantes contra o Norte. E, duas semanas e meia depois, 
iniciou-se a Operao Rolling Thunder. Decorridas mais duas semanas, chegaram as primeiras tropas de combate em terra. No dia 8 de Maro, os fuzileiros desembarcaram 
em Da Nang, aps anos de inteis "conselheiros".
Passadas outras duas semanas, a Embaixada americana em Saigo foi atacada e o povo americano comeou a aperceber-se de que a situao no Vietname era sria.
Em simultneo, nos EUA, a Guarda Nacional foi obrigada a proteger a Marcha da Liberdade Selma-Montgomery, e a Universidade de Michigan organizou o primeiro curso 
de seminrios antiguerra.
Porm, este curso de seminrios no deteve a guerra, nem o bombardeamento parou o Vietcongue. Os reforos continuavam a chegar ao Sul atravs da Pista de Ho Chi 
Minh. E verificaram-se mais protestos antiguerra no Dia das Foras Armadas, em Maio. Peter e Paxton participaram num deles, na Universidade de Berkeley.
Estavam quase no fim do ano escolar. E Paxton comeava a ficar nervosa com a ideia de o deixar para regressar a Savannah. O pensamento de no estar com ele todos 
os dias quase lhe parecia assustador. Era incapaz de imaginar um dia sem Peter.
Oferecera-se como voluntrio para o projecto-lei de que havia falado. E planeava passar a maior parte do tempo no Mississipi. Prometera, no entanto, ir v-la, sempre 
que pudesse. E ela ia trabalhar em Savannah, no jornal.
Gabby viajaria novamente para a Europa com os pais e mostrara-se pouco receptiva  ideia de arranjar emprego quando o pai lho sugerira. Prometera arranjar um no 
ano seguinte, mas queria divertir-se "s desta vez" na Riviera con, as amigas e, em Paris, com a me. Ed Wilson ralhara com a mulher por lhe satisfazer os caprichos; 
porm,  semelhana de Gabby, tambm achava que "mais um ano" no lhe faria mal.
Os trs saram de Berkeley a 1 de junho. Peter e Paxton passaram um fim-de-semana tranquilo numa cabana que ele alugou no lago Tahoe e estiveram na cama, pela ltima 
vez, antes da separao das frias de Vero.
- Vou endoidecer sem ti - sussurrou, encostando o nariz aos longos cabelos louros. - Tudo ser to solitrio no Mississipi.
- Savannah ser pior - retorquiu sombriamente, mas esqueceram tudo quando se abraaram de novo, e foi um longo e feliz fim-de-semana.
Os pais dele suspeitavam que havia algo entre eles e Gabby tambm, mas nem Peter nem Paxton confessaram o que quer que fosse. Passavam todo o tempo juntos e tinham 
notas ptimas; por conseguinte, ningum podia queixar-se.
Peter, Paxton e Gabby j tinham combinado procurar uma casa para o Outono, a fim de que os trs pudessem viver juntos fora da cidade universitria. Paxton sabia 
que Gabby ficaria obviamente a conhecer o segredo da ligao deles nessa altura e estariam preparados para lhe contar. Valeria a pena, s para usufruir do prazer 
de viverem juntos, longe dos terrenos da universidade.
Gabby viajou de So Francisco, com Marjorie. Iam de avio a Londres para visitar uns amigos e ficariam no Claridge's, antes de seguirem para Paris. E Paxton tambm 
partiu, ficando a acenar tristemente a Peter no aeroporto. Ele foi-se embora nessa mesma tarde, a tempo de chegar a Jackson, no Mississipi, para uma manifestao 
de protesto que causou a priso de quase mil pessoas. Peter foi uma delas, mas saiu rapidamente sob fiana.
O contacto de Paxton com o emprego foi mais difcil e ficou muito desapontada ao descobrir que tinha sido designada para trabalhar com o editor dos assuntos sociais. 
Puseram-na a coordenar as notcias de quem recebia quem, quem vestia o qu e o que faziam a Liga Jnior e as Filhas da Guerra Civil.
Tratava-se de um emprego que a me compreendia e, na verdade, respeitava um pouco, mas proporcionava uma certa sensao de inutilidade a Paxton. Sentava-se  secretria, 
observava, desesperada, as notcias do telex referentes a manifestaes no Alabama, ao reforo das tropas americanas no Vietname, elevando o total para uns "meros" 
cento e oitenta mil homens, um nmero assombroso.
E, nesse Vero, Johnson duplicou o recrutamento. Paxton sabia que alguns dos rapazes que se encontravam no Vietname haviam sido seus colegas do liceu e, em dois 
casos, os irmos mais novos deles. Um tinha sido morto e ela ficou inconsolvel. Sentiu um pnico repentino. E se conseguissem apanhar Peter?
Telefonava-lhe quase todos os dias e ele fazia-o com a mesma frequncia. No fim de julho, conseguiu mesmo vir do Mississipi para passar o fim-de-semana. Tinha planeado 
aparecer mais cedo, mas fora preso duas vezes e o trabalho que desempenhava exigia-lhe mais do que o tempo previsto.
Paxton, porm, estava felicssima quando apanhou um txi para ir busc-lo ao aeroporto. Ele abriu-lhe os braos. Estava ofegante, queimado do sol e o cabelo tinha 
a mesma cor do dela quando a beijou.
- Que maravilha ver-te! - declarou, sorrindo. - Estou to cansado de tirar gente da cadeia sob fiana que mal consigo ver bem!
- No to cansada como eu estou de reunies sociais e concertos! julguei que iria fazer algo significativo e, durante todo o Vero, limitei-me a escrever sobre as 
amigas da minha me.
Peter esboou um sorriso e voltou a beij-la, desejando que pudessem ir para a cama no caminho de regresso do aeroporto.
- A propsito, como est a tua me? - perguntou.
- A mesma de sempre. Est desejosa por te conhecer. - Oh! Oh! Parece-me perigoso - retorquiu, voltando a beij-la.
No conseguia parar de a beijar. H quase dois meses que no a via. No entanto, ela sentia a mesma "fome" que ele. Alugara um quarto num simptico e tranquilo hotel 
nos arredores da cidade, onde no era provvel cruzarem-se com uma das amigas da me, e disse-lho, quando seguiam viagem a caminho de Savannah.
- Posso fazer uma sugesto? - perguntou com um sorriso e inclinando-se para a beijar no seu carro alugado.
- Tudo o que quiseres - respondeu a jovem com um olhar luminoso.
- Que tal fazermos uma inspeco ao hotel no caminho para casa? - inquiriu, malicioso, e ela riu.
- Parece-me uma excelente ideia. - Paxton pertencia-lhe inteiramente. Tirara dois dias de folga no jornal, embora achassem que ela deveria fazer a cobertura de um 
casamento de gente colunvel.
Pouco depois, chegaram ao pequeno hotel; Peter tinha um ar extremamente srio e responsvel, de fato e gravata, quando assinou o livro de registo como Mr. e Mrs. 
Wilson e levou o saco para um quarto limpo e simples, que se transformou na sua suite de lua-de-mel durante as horas seguintes.
Era quase noite quando olhou para o relgio.
- Deus do cu! A minha me estava  tua espera para um aperitivo! - exclamou Paxton, ofegante.
- Ainda no sei se consigo aguentar-me de p, quanto mais beber - troou Peter, puxando-a para o seu lado na cama, mas apenas por um minuto. Em seguida, tomaram 
duche juntos e vestiram-se. Por breves momentos, foi como se estivessem casados.
- Ela sabe que vamos partilhar uma casa este ano? acrescentou ele, pois no queria causar algum problema, e ainda bem que fez a pergunta, pois Paxton encolheu-se 
ao ouvi-lo.
- s louco? Ela pensa que ficarei com a Gabby e outra rapariga e, mesmo assim, no lhe agrada muito a ideia.
No entanto, acabara por ceder.
- ptimo. Isso significa que nunca poderei tocar no telefone. - Parecia divertido e no se importava. Tudo o que queria era viver com Paxton, mesmo que isso significasse 
ter de aguentar a irm. Quando lhe tinha telefonado para Jackson, a me contara-lhe que Gabby tinha perseguido todos os homens com mais de trinta anos, na Riviera.
- Acho que ela anda desesperada - comentou com Paxton no percurso de regresso  cidade.. -  idiota e demasiado jovem para se casar. - Paxton sorriu ante as palavras 
e ele inclinou-se e beijou-a. - No caso dela  diferente - prosseguiu. - A Gabby  uma mida e tu no. Mas tambm acho que s demasiado jovem. Durante mais trs 
anos. E depois... Tem cuidado!
Ambos riram. Paxton sabia como ele fora sensato e nunca se sentira pressionada. Queria que ela fizesse o que tinha necessidade, como naquele Vero, quando arranjara 
o emprego em Savannah. Via-se, contudo, forada a admitir que se sentira infelicssima sem ele.
George e a me esperavam-nos quando chegaram no carro, e a me brindou Paxton com um olhar visivelmente desaprovador.
- Julguei que estarias em casa h horas. - Allison estava presente e a me achava que Paxton deveria ter mudado de roupa por causa da "visita", mas Paxxie ignorou-a.
- Andei a mostrar a vista ao Peter. Peter - declarou num tom formal -  a minha me, Beatrice Andrews, o meu irmo George e a sua... namorada, Allison Lee.
A me fazia gala em comunicar a toda a gente que Allison era neta do grande general confederado. E, durante todo o Vero, Paxton esperara que George ficasse noivo 
dela, mas por qualquer motivo tal no acontecera. Aos trinta e trs anos, no queria tomar atitudes precipitadas. Em nada. Embora, aos trinta e um anos, Allison 
parecesse inubitavelmente nervosa.
- Este  o Peter Wilson - explicou a todos, como se nunca tivessem ouvido falar dele. - A sua irm, a Gabby,  a minha companheira de quarto. - Todos murmuraram 
um delicado: "Muito prazer", apertaram as mos e George ofereceu uma bebida a Peter. Este pediu um gim tnico.
Estava um calor sufocante, e a ventoinha por cima das suas cabeas quase no refrescava a diviso, embora todos fingissem no se dar conta. Queenie preparara os 
seus melhores hors-doeuvres e Allison no os provou, ostentando o habitual ar afectado e petulante. H muito que Paxton chegara  concluso de que no a suportava.
Peter mostrou-se, porm, amvel para todos. A me ostentava uma delicadeza fria, George estava com um ar aborrecido e Allison nem parecia notar que mais algum se 
encontrava na sala com eles. Quase nunca dirigia a palavra a Paxton e por vrias vezes confessara a George que no a compreendia. E, no ntimo, achava que Paxton 
era mal-educada e demasiado teimosa.
Nessa noite, Allison falou permanentemente a George dos novos cortinados que tinha acabado de encomendar para o quarto dela. Peter tentava explicar o que fazia no 
Mississipi, mas ningum parecia dar ateno, e a me insistia, ostensivamente, em mudar de assunto. Levou algum tempo a perceber que ela desaprovava a sua actividade 
l e estava a tentar impedir que ele se colocasse numa situao embaraosa. Quando a mensagem lhe chegou ao crebro, ficou chocado. Eles ainda eram piores do que 
Paxton os descrevera. Eram frios, distantes e viviam na Idade Mdia.
Mudou de tema e ps-se a falar da viagem dos pais  Europa, o que parecia um terreno mais seguro. A me de Paxton mostrou-se impressionada ao ouvir dizer que estavam 
no Sul de Frana e perguntou-lhe, o mais suavemente possvel, o que o pai fazia. Peter ficou surpreendido que Paxton no a tivesse informado.
- Ele... oh... trabalha para um jornal em So Francisco... - Achou uma indiscrio dizer que era o dono.
- Que bom! - comentou Beatrice com um ar de bvia desaprovao. - E vai ser advogado? - Peter esboou um aceno de concordncia, sem palavras ante aquele tom gelado. 
Ela correspondia a tudo o que Paxton lhe dissera e a mais... ou menos, dadas as circunstncias.
- O pai de Paxton era advogado - prosseguiu no mesmo tom glacial. O irmo... - Dirigiu os olhos para o terrvel George ...  mdico. - Esta era, indubitavelmente, 
uma profisso que considerava importante.
-  maravilhoso! - replicou Peter, interrogando-se sobre at que ponto conseguia aguentar aquele tipo de conversa e com o era possvel que Paxton mantivesse uma 
convivncia diria com eles. Era to diferente. - E a Allison? o que faz?
- Eu... Porqu? - Ficou to sobressaltada com a pergunta que no fazia ideia da resposta a dar. H treze anos que andava  procura de marido, desde que sara do 
liceu. - Eu... gosto muito do meu jardim.
- E executa um> trabalho maravilhoso para ns na Liga Jnior, no  verdade, minha querida? - encorajou Mrs. Andrews. E, dirigindo-se a Peter: - O tio-av dela era 
o general Lee. Tenho a certeza de que sabe quem .
- Sim, na verdade. - Peter sentiu vontade de se escapar da sala aos gritos. Foi o jantar mais longo de toda a sua vida, com infindos silncios pontuados de bocados 
de conversa terrveis; apenas uma piscadela ocasional ou cotovelada de Queenie ou um olhar de Paxton o alegraram.
Teve a impresso que haviam decorrido milhes de anos antes de regressarem ao hotel, onde tirou a gravata e se deixou cair na cama com um gemido que expressava ao 
de leve as emoes da noite. Depois, soergueu-se e fitou Paxton. Tinham fingido que iam "danar" um pouco.
- Cus, mida! Como  que os aguentas? - exclamou. - So as pessoas mais difceis e arrogantes que conheci. Sei que no devia falar assim da tua famlia, mas pensei 
que o jantar nunca mais chegava ao fim.
- Eu sei - redarguiu Paxton, com um sorriso de orelha a orelha. - No so um horror? Nunca sei o que hei-de dizer-lhes. Sinto-me sempre uma estranha.
- E s. Nem sequer pareces da famlia. O teu irmo  o homem mais chato que eu conheci. A namorada a mulher mais rgida e idiota... E a tua me... Meu Deus, assemelha-se 
a um icebergue.
Paxton sorriu, amando-o mais do que nunca. Sentiu-se, repentinamente, vingada, como se tivesse mais alguma coisa no mundo do que apenas Queenie.  assim, a minha 
manh.
Peter continuava sem acreditar que houvesse gente semelhante no mundo. Eram totalmente diferentes da sua famlia e totalmente diferentes de Paxxie. - Gostava de 
ter conhecido o teu pai.
- Tambm gostava que o tivesses conhecido. Ia adorar-te.
- Tenho a certeza de que gostaria dele. Mas com base em tudo o que me contaste a seu respeito, Paxton, no consigo imagin-lo com a tua me.
- Acho que no foi muito feliz. Tinha apenas onze anos quando ele morreu. Portanto, as subtilezas da relao deles escaparam-me.
- Talvez tenha sido prefervel. Graas a Deus que foste para Berkeley. - No conseguia sequer imaginar o que lhe aconteceria, se tivesse ficado em Savannah com eles. 
Ficaria destruda, ou psicologicamente afectada. Bebera trs gins tnicos para aguentar o jantar, e era provvel que pensassem que era um alcolico.
Paxton ficou o mximo de tempo com ele e, depois, Peter levou-a a casa no carro alugado e ficou a v-la entrar. E a jovem verificou, surpreendida, que a me a esperava, 
algo que nunca fazia e no era, necessariamente, um bom pressgio.
- O que significa, de facto, esse rapaz para ti? - perguntou a Paxton, uns segundos depois de ela haver transposto a porta.
 meu amigo. Gosto dele.
Ests apaixonada por ele - trovejou a me, pronunciando as palavras como se fossem balas de canho e como se esperasse que Paxton se ajoelhasse aos seus ps e implorasse 
piedade.
_ Talvez. - No queria mentir-lhe, mas tambm no queria desencadear uma crise. A me estava sentada no sof, vestida com o roupo e tinha um clice de sherry ao 
lado. - Gosto da famlia dele. A irm  minha amiga e os pais tm sido muito simpticos.
- Porqu? - Era uma pergunta ridcula, e Paxton no conseguia encontrar resposta.
- O que significa esse "porqu"? Porque gostam de mim.
- Talvez achem que s um degrau para o filho. j te ocorreu? - Paxton quase soltou uma gargalhada ante a sugesto, mas no queria ser indelicada com a me.
- No me parece muito provvel.
- Porque no?
- Me. . . - Paxton no sabia muito bem o que dizer a seguir, mas a verdade parecia a nica soluo. - So donos do segundo jornal de maior tiragem em So Francisco. 
o Morning Sun. No precisam de mim para nada. Gostam simplesmente de mim.
- Parecem vulgares - comentou a me num tom duro, mas, na sua opinio, todos os do Oeste o eram, incluindo, e talvez sobretudo, Peter Wilson. As pessoas do Oeste 
ainda eram piores do que os ianques.
- No so vulgares - retorquiu Paxton, subitamente magoada pela falta de simpatia da me frente ao jovem que amava. Contrastava em absoluto com o calor que havia 
recebido dos Wilson. - So muito simpticos, me. A srio.
- No quero que regresses a Berkeley. - As palavras saram-lhe da boca como chamas, e Paxton deixou-se cair pesadamente numa cadeira, desejando que no tivessem 
de passar por aquilo.
- Gosto de estar l.  uma universidade fantstica. Estou a dar-me bem, me. No vou ficar aqui.
- Ficars, se eu assim o ordenar. Tens dezanove anos e no deixes que essa pequena herana do teu pai te suba  cabea. Com a tua idade, no s independente.
- Lamento que pense assim - replicou Paxton, esforando-se por se manter calma. - No vou, porm, ficar em Savannah.
- Posso perguntar porqu?
- Porque no sou feliz aqui. Quero horizontes mais largos, E, quando acabar a universidade, quero ir uns tempos para o estrangeiro. - At mesmo Peter compreendia 
isso-
- Andas a dormir com ele, no ? - Tratava-se de um golpe baixo que ela no esperava.
- Claro que no.
- Andas, sim. Est escrito em ti, como se fosses uma Prostituta barata. Foste para a Califrnia e transformaste-te numa vagabunda. At mesmo o teu irmo e a Allison 
notaram a diferena. - Era uma afirmao desagradvel e o consenso deles magoava-a.
- Lamento ouvir essas palavras - replicou Paxton levantando-se e decidida a terminar a conversa. - Agora, vou deitar-me, me.
- Quero que penses nas minhas palavras.
- Quanto a ser uma prostituta? - ripostou Paxton friamente, mas a me pareceu imperturbvel.
- Quanto a ficares aqui... Quero que penses duas vezes antes de voltares  Califrnia.
- Acho que no terei de o fazer - asseverou Paxton tristemente e subiu as escadas at ao quarto.
No dia seguinte, encontrou-se com Peter no hotel e falou muito pouco do que tinha acontecido. Mas ele sabia. Lia-lhe no rosto.
- A tua me fez qualquer comentrio, no foi? Estava perturbada?
. - Perturbada? - riu Paxton, expressando-se, pela primeira vez, num tom amargo. - No, a minha me nunca fica "perturbada". Desapontada. Quer que pea uma transferncia 
para uma universidade local. - Peter ouvia-a, horrorizado, mas Paxton apressou-se a beij-lo para o tranquilizar.
- Afirma que me transformei numa prostituta na Califrnia e que at o meu irmo e a Allison podem v-lo.  muito constrangedor para eles.
- Filhos-da-me... Eles... - Atropelava as palavras, tal, a sua irritao, e ela silenciou-o com mais um beijo, demasiado experiente para a sua idade, demasiado 
entristecido pelo que acontecera.
- No interessa. Regressarei a Berkeley dentro de quatro semanas. E ignoro se alguma vez voltarei aqui. No sei se vou conseguir. Deprime-me de mais. Esto sempre 
a querer magoar-me.
- Achas que pode cortar-te a mesada? - interessou-se Peter, preocupado, embora tivesse ficado feliz por remediar a situao num abrir e fechar de olhos; Paxton abanou 
a cabea. Continuava triste, mas parecia, por outro lado, mais velha e mais independente.
- No, no pode. O meu pai deixou-me dinheiro bastante para frequentar a universidade e sustentar-me enquanto a frequentar. E depois terei de trabalhar. Portanto, 
no me afectar em nada.  provvel que me sustentasse se eu quisesse voltar para casa e passasse o resto da minha vida na Liga Junior, mas no quero. Assim, no 
faz qualquer diferena. No consigo simplesmente voltar aqui. Pelo menos, para c viver-  Parecia segura.
- E a Queenie? - inquiriu, ciente de quanto ela significava para Paxton.
- Voltarei para a ver. Terei de o fazer. - Paxton sorriu. Agora, a sua vida era na Califrnia ao lado dele. Mais importante ainda, a sua vida pertencia-lhe e ela 
sabia-o. E a me tambm o sabia, o que a assustava. Passara a deter muito pouco poder sobre Paxton.
Peter partiu no dia seguinte, o que muito entristeceu Paxton. Tambm ele detestava abandon-la no meio de pessoas que no a amavam. Prometeu telefonar-lhe pelo menos 
todos os dias, mais vezes se conseguisse e no estivesse na priso, acrescentou a rir, quando a deixou no aeroporto. Beijou-a longa e intensamente, pedindo-lhe que 
pensasse em quanto a amava e no se deixasse abater pela famlia.
No entanto, foi o que aconteceu. A me mostrou-se hostil depois da partida de Peter, e o irmo afirmou-lhe por vrias vezes, sempre que teve oportunidade, que pela 
me, ela no devia regressar  Califrnia.
- Devo a mim prpria fazer algo com a minha vida, George - ripostou com franqueza, sem ter medo nem se deixar impressionar por ele, apesar da diferena de idade 
que os separava.
O irmo parecia-lhe pattico, um insignificante mdico, que continuava preso s saias da me e receava ter uma ligao com algum de peso. Tinha a certeza de que 
a sua relao com Peter era mais total e madura do que a dele.
- Podes ser algum aqui - insistiu George na noite antes de ela se ir embora, quando a me estava no clube de bridege.
- Uma oval - explodiu. - V o teu exemplo. Analisa as pessoas que conhecemos. Olha para a Allison... e para as raparigas com quem andei no liceu.
- V como falas, Paxton! - O irmo ficara irritado com todas aquelas crticas, mas tambm ela o estava. Aguentara tempo de mais. - Encheste a cabea com uma srie 
de ideias loucas e palavras obscenas, Paxton, que no se adaptam  tua pessoa.
- To-pouco esta situao. No sou eu. Nunca fui. Nem o pap o era. Ele provavelmente aguentou porque era boa pessoa e achava que tinha de o fazer.
- No sabes nada sobre ele. Eras uma mida quando morreu.
- Sei que era um bom homem, com um corao de ouro, e eu amava-o.
- No sabes o que ele fez  minha me. - Pronunciou a afirmao como se estivesse a ocultar-lhe algo terrvel, e ela achou difcil acreditar numa coisa assim ligada 
ao pai.
- O que  que ele pode ter-lhe feito? - Era incapaz de imaginar o que quer que fosse, mas George no conseguiu resistir a mago-la ainda mais. Era a derradeira vingana 
pela sua independncia, a independncia que ele no tinha nem nunca teria, pois parecia-se demasiado com a me e no o suficiente com o pai, contrariamente a Paxton.
- Ia acompanhado de uma mulher quando o avio se despenhou.
- Ia? - repetiu Paxton, inicialmente sobressaltada, mas, depois, pensativa. O facto explicava muitas coisas. A atitude da me. Mas tambm era fcil compreender porque 
 que ele desejara outra mulher. No ficara muito surpreendida. E, curiosamente, sentia-se satisfeita. Se ele tivesse encontrado algum que o amara, merecia-o. No 
merecera morrer por esse motivo. No fora, contudo, essa a causa da morte. Fora o destino o causador. O infortnio. O seu nome numa ardsia, escrito por uma mo 
do Paraso.
- No me surpreende muito - retorquiu calmamente, e ele pareceu desapontado. - A mam tratou-o sempre com uma enorme frieza. Provavelmente necessitava de mais do 
que ela tinha para lhe dar.
- O que podes saber dessas coisas com a tua idade?
- Sei o que  ser filha dele - respondeu sem delongas, e ele ficou chocado. - E tua irm. Somos muito diferentes.
- Sem dvida - anuiu com um orgulho cheio de raiva. - Sem dvida que somos. E acho bem que penses duas vezes sobre como ests a transformar-te na Califrnia. Com 
todas essas drogas, hippies e manifestaes, todos esses loucos vestidos com os lenis da cama e flores no cabelo, lutando a favor dos negros, quando nunca viram 
nenhum na vida.
- Talvez saibam mais do que tu, George. Talvez se preocupem mais. E talvez isso seja importante.
- Es uma idiota.
- No - retorquiu, abanando a cabea e fitando-o. - No. Mas teria sido, se optasse por ficar aqui. Adeus, George. - Estendeu-lhe a mo, mas ele no a aceitou. Limitou-se 
a olh-la e, uns minutos depois, saiu de casa. No voltou a v-lo at sair de Savannah.
Desta vez, custou-lhe mais despedir-se de Queenie, pois j resolvera que, nesse ano, no viria passar o Natal, embora o tivesse ocultado  ama. Queenie sentiu, todavia, 
que ela no voltaria durante muito tempo. Abraou-a e fitou-a tristemente, bem no fundo dos olhos.
- Amo-te, mida. Tem cuidado contigo - pronunciou.
- Tambm te amo. E vai ao mdico, quando tiveres aquela tosse. - No entanto, ela parecia agora mais velha e mais lenta, mesmo sem a tosse. - Amo-te - sussurrou Paxton. 
Beijou as calorosas faces negras e foi-se embora.
Desta vez, a me no a levou ao aeroporto, e George tambm se poupou a esse trabalho. A me despediu-se dela na entrada e indicou-lhe, pelo tom de voz, que o seu 
regresso  Califrnia a desapontava, no porque sentisse a falta dela, mas porque falhara como pessoa, como natural da Jrgia, como filha dela e como irm de George.
- L, ests a perder o teu tempo.
- Lamento que penses dessa maneira, mam. Tento o meu melhor para que assim no seja.
- Acharam que fizeste um excelente trabalho no jornal. - Tratava-se do nico elogio de que se lembrava, vindo da me. - Se te esforasses a srio, poderias vir a 
colaborar corri o editor da seco social. - Paxton omitiu-lhe que preferia morrer a passar o resto da vida a escrever sobre os casamentos das amigas dela.
- ptimo. Tem cuidado contigo - replicou meigamente, com pena de os deixar; por outro lado, sentia-se aliviada, mas sobretudo com pena por aquilo que nunca haviam 
sido uns para os outros.
- Acautela-te com esse rapaz. Ele no presta.
- O Peter? - Tratava-se de uma afirmao estranha a seu respeito. Ele era to caloroso, to bom e to decente, que se sentiu chocada perante as palavras da me. 
O que e que a me sabia que ela ignorava?
- Est escrito nele. Se deixares, ir usar-te, para depois te abandonar. -  o que todos fazem. - Era uma declarao mais pessoal do que dirigida a Paxton, e a filha 
lamentou-a por ela. Devia ter sofrido um grande golpe ao descobrir que o marido ia no avio com outra mulher. E ele nunca voltara a recuperar a conscincia para 
explicar. George no mencionara de quem se tratava, nem se sobrevivera ao acidente, mas talvez no interessasse. E Paxton no desejava saber mais nada.
- Telefonarei quando souber o meu nmero - prometeu. Ainda tinham de encontrar uma casa ou um apartamento para alugar em Berkeley.
A me esboou um aceno de cabea e ficou a v-la afastar-se. No lhe estendeu os braos, nem tentou beij-la. E, durante todo o percurso at ao aeroporto no txi 
Paxton apenas conseguia pensar no regresso a Berkeley e em Peter. Depois de se encontrar a bordo do avio na viagem de volta at junto dele, no pensou mais em Savannah.

CAPTULO 7

Quis o destino que levassem somente duas semanas a encontrar uma casa em Piedmont... e foi um achado perfeito. Dispunham de dois quartos e uma sala enorme, uma grande 
cozinha soalheira e um jardim encantador.
Gabby no ficou muito chocada ao descobrir que no ia dividir o quarto com Paxton, mas dormiria sozinha, enquanto Paxton e Peter partilhariam o mais amplo dos dois 
quartos. Ela prpria perdera a virgindade, no ano anterior, com um elegante francs na Riviera e considerava-se agora uma mulher do mundo. Sentiu-se muito excitada 
ao aperceber-se de que o irmo e a sua melhor amiga haviam mantido uma relao durante meses, sem que ela o soubesse.
No entanto, Peter ficou menos divertido com a atitude dela frente  sua ligao e garantiu-lhe que, se contasse a algum, comprometesse Paxxie ou revelasse aos pais 
que no era ela, mas ele quem compartilhava o quarto com a amiga, viria a lament-lo amargamente.
Tudo resultou, contudo, de uma forma brilhante. Os Wilson apareceram de visita e as jovens prepararam-lhes um jantar. Os trs entendiam-se na perfeio. Os dois 
pombinhos enamorados davam-se lindamente, e Paxton e Gabby mantinham a proximidade de sempre.
O nico problema residia em que Gabby parecia ter um novo homem na vida todas as semanas, e Peter tinha dificuldade em controlar-se e considerar-se apenas o seu 
companheiro de casa, em vez do irmo mais velho. Paxton, todavia, lembrava-lhe a todo o instante que no podia aproveitar-se da situao. Contudo, para ele, o silncio 
constitua um estado de stress permanente.
O outro problema residia na quantidade de trabalho de que necessitava para manter notas elevadas durante o segundo ano na escola de Direito. As obrigaes tinham 
acrescido, e Paxton tambm acarretava pesadas responsabilidades; passavam, assim a maior parte do tempo a estudar, na biblioteca, ou na cama, e muito pouco a divertir-se.
Nos tempos livres, Paxton desempenhava um pouco de voluntariado e escrevia, ocasionalmente, um artigo para o jornal da universidade, ficando excitadssima sempre 
que via o seu nome publicado. Levavam uma vida idlica e nunca tinham sido mais felizes.
Passavam a maior parte do tempo profundamente envolvidos nas questes universitrias. E, a meio de Outubro, Peter queimou o carto de recrutamento, com total aprovao 
de Paxton.
Em simultneo, no Vietname, bombardeiros B-52 eram chamados a apoiar as tropas de terra, e a fora area tornou-se um elemento primordial no combate ao Vietcongue, 
transportando helicpteros para a selva no calor da batalha. A guerra comeara a atingir propores desmedidas, e Paxton sentia-se assustada ao pensar no que estava 
a acontecer.
Porm, quando falaram no assunto ao pai de Peter, ele insistiu de que somente eram precisas mais bombas, mais homens e uma posio mais dura contra o Norte. Paxton 
e Peter apenas desejavam ver os Estados Unidos completamente libertos. Tornava-se, porm, impossvel convencer o pai dele quanto  sensatez dessa posio.
Nesse ano, ela voltou a passar o Dia de Aco de Graas com a famlia dele e, desta vez, sentiu-se um membro da famlia, estando perfeitamente  vontade com os Wilson. 
Era difcil acreditar que h s um ano que ela e Peter mantinham uma ligao. Parecia que tinham vivido juntos desde sempre. Os pais tambm suspeitavam do que estava 
a passar-se, mas no se pronunciavam, embora Marjorie perguntasse a Ed se ele no achava que deveria dizer-lhes alguma coisa.
- Porqu? So midos responsveis. Achas que, se lhes falarmos, mudar alguma coisa?
- Talvez fiquem noivos, se  verdade o que est a passar-se.
- Que diferena far? Se quiserem casar, casaro. E se no quiserem, no o faro. De qualquer maneira, so demasiado jovens para se casarem. Peter completa vinte 
e quatro anos no prximo ms. E ela nem sequer tem vinte. Aguarda. Acredita que eles sabem as linhas com que se cosem.
Paxton tambm passou o Natal com eles e, nessa altura, ficou horrorizada ao ler no Morning Sun que a quantidade de tropas no Vietname aumentara para duzentos mil 
homens.
- Mas  uma loucura! - comentara com Peter ao Pequeno-almoo.
- Eu sei. - Fitou-a, entristecido, rezando para que no reprovasse na escola de Direito. Tudo estava a tornar-se to difcil que, por vezes, sentia medo. E a perspectiva 
de ser recrutado ainda o assustava mais. Era aterrorizador.
- Porque  que as pessoas no tomam conscincia do que est a acontecer por l? Morrem rapazes todos os dias. No s vietnamitas, mas os nossos rapazes tambm. E 
esto a enviar jovens de dezoito anos para os combater.
- Sou velho de mais para esta guerra - grunhiu, servindo-se de mais uma chvena de caf.
- Se alguma vez te chamarem, quero que saibas, desde j, que eu prpria te dou um tiro no cu, te empresto a minha roupa interior preta ou te compro um bilhete para 
Toronto.
- Talvez aceite. Pelo menos, a ideia da roupa interior. Desde que a tenhas vestida.
- Pode conseguir-se. - Beijou-o, enquanto tomavam o caf da manh e Gabby resmungou ao entrar na cozinha, de camisa de noite.
- Outra vez no mesmo? Vocs os dois enjoam-me. - Mas, na verdade, gostava de ambos. S queria encontrar algum para ela.
E, no Natal, quando foram esquiar todos juntos, aconteceu finalmente. Um dia, Gabby ia a descer as vertentes e colidiu com um homem, que voou pelos ares e aterrou 
em cima dela. Os dois ficaram sem flego, por momentos, desenvencilhando os membros e os esquis, tentando certificar-se de que nada faltava, estava partido ou danificado.
- Foi um tombo dos grandes. Sente-se bem? - inquiriu, bastante preocupado e pondo-se em p. Estendeu-lhe a mo e ela fitou-o, surpreendida.
O estranho chamava-se Matthew Stanton, parecia uma estrela de cinema e vestia um fato preto inteiro de esquiar. Tinha cabelos pretos, olhos azuis, uma barba bem 
aparada e pareceu interessado por ela, quando a jovem se levantou, sacudiu a neve e se desculpou por no olhar para onde ia.
Matthew esquiou com ela de volta  cabana; convidou-a para almoar e para jantar em todas as noites seguintes. Peter e Paxton mal voltaram a v-la,  excepo de 
um aceno do elevador, ou quando vinha mudar-se a toda a pressa para sair com Matthew.
Ele tinha trinta e dois anos, trabalhava em publicidade e parecia muito divertido com as extravagncias de Gabby. Tanto, que passou a aparecer constantemente na 
casa em Berkeley, quando regressaram. E, sempre que tal acontecia, Gabby s voltava na manh seguinte.
- Achas que ele est mesmo empenhado? - perguntou Paxton finalmente a Peter, quando estavam a estudar para as finais, um ms depois do Natal.
- Quem pode sab-lo com esses dois! No percebo como ele a aguenta. - No entanto, sempre que Paxton via Matt com ela, pareciam muito felizes.
Confessara a Gabby que era divorciado, mas no tinha filhos e parecia gastar muito dinheiro com Gabby. Mandava-lhe constantemente flores, livros de poesia, pulseiras 
e coisas que sabia que ela gostava, bugigangas, bonecas e futilidades que lhe agradavam. Parecia ser imaginativo, divertido e brincalho.
- E demasiado velho para ser enviado para o Vietname - acrescentou Paxton  lista de virtudes. - Nos dias que correm  um bnus precioso.
- Que afirmao desagradvel! - comentou Peter.
No entanto, jovens eram mandados para l diariamente, a fim de morrer pelo seu pas. E, em 11 de janeiro, as manifestaes estudantis haviam sido revistas e reclassificadas, 
o que causara verdadeira indignao na Califrnia. Trs semanas depois, Johnson retomou o bombardeio no Vietname do Norte, aps umas trguas natalcias. Tinham durado 
exactamente trinta e oito dias e, agora, tudo recomeava. Por vezes, Paxton s conseguia pensar na guerra e no perigo de que ela acabasse por atingir Peter.
Paxton telefonara sete vezes  famlia durante as frias de Natal, e a me deu-lhe a entender que talvez George tivesse uma surpresa para ela na Primavera. Se o 
irmo ficasse, finalmente, noivo aos trinta e quatro anos, seria muito mais surpreendente do que se assim no fosse.
Queenie estava outra vez doente e no parecera muito bem ao telefone. Paxton ficou preocupada, mas, durante muito tempo, no teve oportunidade de voltar a telefonar, 
e quando o fez, a sua velha amiga insistiu que se sentia muito melhor.
- No ests a mentir-me, pois no?
- Seria capaz de mentir  minha mida? - Ambas sabiam que sim, mas Paxton no o disse. ..
Em Maro de 1966, as tropas governamentais voltaram a conquistar Da Nang aos comunistas, e Peter e Paxton participaram num protesto de trs dias contra a guerra.
Nessa altura, Paxton j arranjara um emprego de Vero. O pai de Peter tinha-lhe oferecido um trabalho fantstico como estagiria no jornal. De incio, hesitara, 
sem querer aproveitar-se da sua relao com Peter. Era, contudo, algo bom de mais para resistir, e o pai de Peter prometeu que ela no faria a cobertura de uma nica 
reunio social ou desfile de moda durante todo o Vero. Agora, bastava-lhe informar a me de que no iria passar o Vero em Savannah.
Foi a casa nas frias da Pscoa para lhes dar essa explicao. George estava, finalmente, noivo e planeava casar-se, algures, nesse Vero. Allison no pediu, todavia, 
a Paxton que fosse umas das suas damas de honor, o que lhe tornou mais fcil dizer que viria apenas para o casamento e voltaria a apanhar o avio para So Francisco. 
Informou-as que aceitara emprego num jornal e a me, recordando-se do que Paxton contara sobre a famlia dele, culpou, de imediato, Peter pela desero.
- No tem nada a ver com isso. Ofereceram-me um trabalho fantstico num jornal importante.  uma oferta boa de mais para que a troque por um trabalho no jornal daqui.
Onde est a tua lealdade? acusou a me. - Aqui ou l?
- No  o que est em causa. A minha verdadeira lealdade deve ser para comigo e o meu futuro.
-  s no que pensas - replicou a me por entre os dentes cerrados, e Paxton tentou desviar a conversa para George, Allison e o casamento iminente. A boda teria 
lugar no Oglethorpe Club, e eles declararam que apenas tencionavam convidar uma centena de amigos. Allison j era to velha que Paxton quase achava ridcula uma 
noiva de trinta dois anos como o centro de um enorme casamento.
Paxton teve oportunidade de visitar vrias das suas amigas de outrora e surpreendeu-se ao verificar que mais algumas tinham casado, ainda mais estavam noivas e as 
que haviam casado primeiro j iam no segundo filho. Fez com que se sentisse antiga, embora tivesse acabado de fazer vinte anos.
- Achas que ele se casar contigo? - perguntou-lhe Queenie acerca de Peter, uma noite, e Paxton sorriu e encolheu os ombros.
Na verdade, haviam deixado de falar de casamento. Estava excludo dos seus planos de imediato, mas Paxton sabia que eventualmente o fariam, se ele no se importasse 
de esperar, at ela exorcizar todos os seus devaneios de independncia. Estava, contudo, terrivelmente habituada  presena dele e de modo algum conseguia imaginar 
a sua vida sem Peter.
A visita foi agradvel e s a preocupou o cansao de Queenie quando partiu. Apesar de todo o seu tamanho, a velha ama parecia frgil, e Paxton incitou o irmo a 
que a vigiasse. Ningum sabia ao certo a sua idade, mas j no era obviamente nova nem to forte como outrora.
Havia ainda alguma tenso entre ela e a me quando Paxton se foi embora. Tentou, porm, no pensar no assunto e prometeu regressar a casa nesse Vero para o casamento. 
E, quando regressou a Berkeley, Peter estava  sua espera. Em muitos aspectos, a sua relao era como se fossem casados.
Quando Gabby voltou a casa no dia seguinte, de uma viagem ao Havai com Matt, tinha estrelas nos olhos e uma expresso que Paxton sabia ter visto antes, s que no 
se lembrava onde... e, quando se lembrou, Maio estava a chegar ao fim.
De um momento para o outro, Gabby passara a estar sempre deitada e a dormir. Parecia nunca querer sair, excepto com Matt,  noite, mas tinha sempre aquele ar sonolento 
e um olhar que Paxton reconheceu logo quando se fez luz no seu crebro.
Um dia em que estavam sozinhas na casa e ningum podia ouvi-las, confrontou Gabby com a situao.
A amiga acabara de se levantar s duas da tarde, e Paxton tinha regressado de uma das suas aulas. E s conseguia pensar era Dawn, a rapariga de Des Moines que dormira 
durante os trs primeiros meses de aulas. E depois fora para casa, no Natal, a fim de ter o filho.
- Ests grvida, no ests? - Resolveu ir directa ao assunto, e Gabby girou sobre os calcanhares com uma expresso surpreendida.
-  ridculo!
Onde fostes buscar essa ideia? - redarguiu, parecendo momentaneamente assustada.
- Porque ests. No ests?
- Eu... no, no estou... Que estupidez... Eu... eu... - No conseguiu, porm, ir mais longe com a mentira. Deixou-se cair numa cadeira da cozinha, escondeu o rosto 
entre as mos e comeou a chorar, enquanto Paxton a observava.
Paxton sentou-se ao lado dela e ps-lhe o brao por cima dos ombros.
- O que vais fazer? - perguntou meigamente.
- No sei... Sempre pensei que o perodo se tinha atrasado, mas... agora no sei o que fazer.
- Disseste ao Matt? - A ruiva abanou negativamente a cabea. - De quanto tempo ests grvida?
- No sei. Talvez umas seis semanas. Comecei a informar-me sobre abortos na semana passada, mas todas tm histrias horrveis sobre o Mxico ou East Oakland. No 
quero fazer nada disso. E se morro?
- Podias ir a Tquio, ou a Londres.
- Sim e dizer o que aos meus pais? Que vou em viagem de negcios? Num projecto de pesquisa para a minha aula de Arte? Merda, Paxxie. O que vou fazer?
- O que queres fazer? Queres o beb?
- No sei. - E no sabia mesmo. Pensara constantemente no assunto e estava to confusa que no conseguia decidir-se- Era um alvio conversar com Paxton.
- E o Matt? Gostas dele?
- Acho que sim.  to bom para mim. E to meigo. Acho que o amo. - No era o bastante. Pelo menos, aos olhos de Paxton. Mas os padres de Gabby no eram to elevados 
quanto os seus.
- Precisas de ter a certeza, especialmente se vais ter um beb.
- Como? Como  que se sabe? H quase dois anos que sais com o Peter e tens a certeza sobre ele?
- Tenho - respondeu Paxton honestamente. - j no tenho tanta a meu respeito. Ainda no tenho a certeza se cresci. Mas tenho a certeza que o amo.
- Sorte a tua. Mas tu s diferente de mim.
Ela, porm, s andava a sair com Matthew Stanton desde o Natal. E, por vezes, Paxton achava que ele era to suave, to organizado, to perfeitamente orquestrado, 
que se tornava difcil julgar pela aparncia. Conseguia perceber a insegurana de Gabby. E Paxton tambm suspeitava que para ele era muito importante sair com Gabby 
Wilson. Sabia: perfeitamente quem ela era e, mesmo indirectamente, parecia gostar da ligao.
- O que vais fazer? - insistiu Paxton. -  melhor decidires depressa, ou no ters opo. - Era verdade. Depois dos trs meses, no poderia sequer pensar em aborto.
- Oh, meu Deus, Paxxie. No digas isso.
- Porque no lhe contas?
- E se ele me deixa?
- Pelo menos, ficas a saber que tipo de indivduo , no achas? E talvez consigas a tua resposta.
- E se no me deixar?
- Nesse caso, tambm ters de pensar no assunto. Mas pensa no que tu realmente queres, Gabby. Um beb  para sempre. - Tinha demasiadas amigas que, aos vinte e vinte 
e um anos, lamentavam os filhos que tinham ou os casamentos em que se haviam precipitado ou sido obrigadas a consumar.
Nessa tarde, ainda estavam a discutir o assunto quando Peter regressou a casa; calaram-se de imediato.
- O que se passa com vocs as duas, cus? Disse alguma coisa que no devia? - perguntou.
- No. No sejas to paranico - retorquiu Paxton beijando-o com ardor. - Como correram os exames? - Ele estava quase no fim do segundo ano e ambos sabiam que esse 
era o mais difcil.
- Acho que chumbei em tudo. Devia estar num avio para o Vietname, amanh de manh.
- No brinques com essas coisas - ralhou Paxton, com um ar preocupado, enquanto lhe servia uma chvena de caf.
- No sejas to sensvel - retorquiu, pousando a chvena e voltando a beij-la. Observou; em seguida, a irm que ia a sair da cozinha. Dava a sensao de que estivera 
a chorar.
- Que bicho lhe mordeu? - sussurrou. - Rompeu CO`M aquele tipo? - Peter nunca conseguia lembrar-se do nome dele, o que no era bom sinal. - De qualquer maneira, 
 demasiado velho para ela. E est... demasiado interessado no meu pai. - Tambm era essa a opinio de Paxton, mas, dadas as circunstncias, no fazia teno de 
admiti-lo a Peter.
- Penso que  s uma pequena discusso. Nada de grave, tenho a certeza - retorquiu num tom despreocupado, e Peter soube imediatamente que ela estava a mentir, mas 
no a pressionou. Era bvio que sabia mais, mas no lho dizia.
Quando, nessa noite, Matthew veio buscar Gabby, esta escolhera um vestido laranja-vivo de mini-saia e grandes brincos de plstico, em forma de cubo. Tinha, contudo, 
um ar extremamente sombrio, considerando o aparato. E parecia prximo da histeria ao regressar menos de uma hora depois. Desta vez, fixou Paxxie nos olhos, como 
se o irmo no existisse.
- Diz que tem de pensar no assunto. Que tal? - Rompeu em lgrimas, correu para o quarto e bateu com a porta. Peter fitou-a sem perceber, mas, de repente, fez-se 
luz, e olhou para Paxton.
- Merda. Ela no est... pois no? Diz-me que no... Por favor... ou vou mat-la. E, depois, vou mat-lo a ele. - O maxilar contraa-se-lhe, mas Paxton agarrou-lhe 
rapidamente no brao e quase o abanou. ,
- No vais fazer nada. Vais deixar que eles resolvam.
- Oh, Paxxie... - Tinha lgrimas nos olhos quando se sentou, fitando-a, incrdulo. - Como foi possvel? O tipo um idiota. Ser que no percebe?
- Talvez no seja. Talvez se porte bem e fique ao lado dela. - Assim o esperava, pois, caso contrrio, Gabby estava metida num grande sarilho.
- Acho que ela devia abortar. Est grvida, no  verdade? - Peter tinha, obviamente, razo e ela esboou um aceno afirmativo. - Como deixou que isso acontecesse?
- Foi um acidente.
- Esse tipo de acidentes no acontece. A ti no te acontece. Ela no toma a plula? - Paxton abanou, tristemente a cabea.
- Cus! O que vo dizer os meus pais?
- Ningum vai dizer nada. Deixa-a resolver por si prpria. Ainda nem sabe o que quer.
- Estava to desesperada por se casar e, agora, deixou-se levar por um vagabundo do esqui.
- Pra com isso - riu Paxton. - Ela conheceu-o a esquiar numa vertente e, tanto quanto sabemos,  o marido perfeito. - E, no preciso momento em que pronunciou as 
palavras, ouviu-se a campainha da porta e era Matthew com um ar sombrio e tenso, perguntando se podia falar com Gabby.
Ela est no quarto - respondeu Paxxie calmamente; depois, olhou para Peter, rezando no ntimo para que ele no estrangulasse o pai da criana. - Porque  que no 
vamos sair para comer uma pizza ou qualquer coisa.
- Porque no tenho fome - ripostou Peter, deitando--lhe um olhar fulminante. Em seguida, deixou que Paxton o empurrasse para fora de casa, pondo-se a discutir com 
ela, uma vez l fora. - Porque  que no posso falar com ele?
- Porque ele no quer falar contigo. Quer falar com a Gabby. Deixa-os ss, por amor de Deus.
- Porqu? Pensa no que aconteceu, quando ficaram sozinhos antes...
- Bom. No pode acontecer outra vez. Portanto, mete-te na tua vida.
- Ela  minha irm.
- Acho que neste caso ele tem prioridade. Alm disso, estou com fome.
- No me digas que tambm ests grvida, ou vomito.
-  isso o que farias? - replicou, fitando-o, interessada, quando pararam o carro e ele ficou repentinamente srio, devolvendo o olhar.
- No, no  o que faria, se queres saber. Se alguma vez nos acontecer uma coisa dessas, Pax, no quero que tenhas qualquer atitude estpida. Somos praticamente 
casados, raios. Teramos apenas de legalizar a situao, e eu ficava com a criana enquanto fosses para o Corpo da Paz.
- Estou quase a deixar-me tentar. - Ele estava a brincar com ela; porm, queria vincar que se casaria num abrir e fechar de olhos.
Deu a volta ao automvel at junto dela e abraou-a.
- Amo-te, mida... Muito! Um dia, gostava que tivesses um filho meu.
- Tambm eu - sussurrou-lhe junto ao pescoo, mas sem que ainda conseguisse imaginar a situao. E tambm no conseguia imaginar Gabby com um filho.
Gabby e Matt estavam sentados no degrau da frente quando eles regressaram e ela no estava a chorar, o que Paxton achou um bom sinal. Matt levantou-se, nervoso, 
e encarou Peter.
- Gostava de falar contigo - declarou, fitando-o bem nos olhos.
- Sobre que assunto? - Peter no tinha inteno de lhe facilitar a vida, mas Gabby estava demasiado nervosa para escutar. Levantou-se de um salto e olhou para o 
irmo mais velho.
- Vamos casar-nos - declarou, fitando ora um ora outro, e depois comeou a chorar. Paxton beijou-a, abraou-a e disse-lhe que se sentia feliz por ela.
- J falaram com a me e o pai? - inquiriu Peter, cautelosamente, sabendo muito bem que no o tinham feito.
- O Matt vai almoar amanh com o pap.
Peter olhou-os e notava-se que ainda estava irritado.
- Ele vai inform-lo de que ests grvida? - perguntou.
- No - respondeu Gabby com os lbios a tremer. - Tu vais?
- Ainda no sei - replicou Peter; de sbito, Matt deu um passo em frente e colocou o brao sobre os ombros de Gabby.
- Basta. No h motivo para informar ningum de um assunto entre ns os quatro - redarguiu, fitando o futuro cunhado. - No h necessidade de perturbares os teus 
pais ou a Gabby. Tem sido um trauma para todos. Tambm me abalou quando a Gabby me deu a notcia. Mas podemos tirar o melhor partido da situao. Amo-a, ama-me e 
vamos ter um beb fantstico.
Voltou a apert-la de encontro ao corpo e beijou-lhe o alto da cabea; ela esforava-se por suster as lgrimas e olhou-o com gratido. Podia t-la mandado para o 
inferno e no o fizera. No entanto, Peter tambm sabia que havia uma srie de benefcios em estar casado com Gabby Wilson. Ele tinha muito menos a perder do que 
ela.
- Tens a certeza de que  o que tu queres fazer? - dirigiu-se Peter num tom duro  irm.
- Sim - garantiu Gabby com um aceno de cabea. - S que, de incio, no sabia muito bem o que fazer - acrescentou com um olhar nervoso para Paxton. Tratava-se de 
um passo importante. De estudante universitria, saltava repentinamente para o papel de mulher e de me.
- O que vais dizer  me e ao pai?
- Que vamos casar-nos... em breve... Dentro de umas semanas ou talvez um ms.
- Achas que no vo saber? A mam vai ficar muito desapontada se no quiseres um grande casamento.
- Vou dizer-lhe que o Matt quer assim por ser divorciado - retorquiu Gabby, encolhendo os ombros. - E o beb nascer prematuro... de dois meses. H muitos casos 
assim.
Sorriu, feliz, e Matt, e Paxton observava-os. Era surpreendente como a vida da amiga tinha mudado no espao de umas horas e como, de sbito, parecia no lhes pertencer, 
mas a Matthew. Nessa noite, foi para casa com ele, e quando Paxton voltou a v-la, uns dias mais tarde, parecia completamente mudada. Matt comprara-lhe um anel e 
ela s falava em casar-se. Conseguira, por fim, o que queria. Um marido. Mas Paxton ainda no estava muito certa de que Matt Stanton fosse a resposta indicada.
Ed Wilson pensava da mesma maneira, mas todos os pedidos para que esperassem no resultaram e, por fim, desistiu. A filha era to teimosa que sabia que, se fosse 
preciso, fugiria para o Mxico e se casaria com Matt.
A data do casamento foi marcada para junho e haviam insistido em que queriam somente alguns amigos e um almoo em casa. E, tal como Peter tinha previsto, Marjorie 
Wilson ficou amargamente desapontada.
No casamento, a 4 de Junho, Paxton conservou-se ao lado dela e chorou, sabendo que Gabby estava a fazer algo de que no estava segura. E, em janeiro, teriam um filho. 
Ed Wilson tambm suspeitava disso e nem mesmo Marjorie se, deixou enganar. No entanto, todos acederam, para bem de Gabby, e rezaram para que Matt se revelasse um 
marido decente.
Peter e Paxton regressaram, em seguida,  casa de Berkeley. Tinham de mudar dentro de uma semana e ainda lhes faltava embalar algumas coisas. Iam desistir da casa 
e mudar-se para outra mais pequena e deixariam de continuar a passar por colegas.
Apenas a me de Paxton ignorava a situao, e no havia motivo para a pr ao corrente. Estava muito longe de acreditar na encenao que haviam montado no ano anterior. 
Mas, com a sada de Gabby, as coisas iriam ser um tanto diferentes.
- Bom! - exclamou Paxton num tom srio, quando tirou o chapu ao chegarem a casa e contemplou o mar de caixas que os rodeava. Gabby e Matt j haviam partido em lua-de-mel. 
Nessa tarde, tinham apanhado o avio para Nova Iorque e, depois de passarem dois dias no Hotel Pierre, viajariam at  Europa. - O que achas? Ele ser bom para ela?
- No sei, Pax. - Ningum sabia. S lhes restava rezar pelo bem de Gabby.
Pelo menos, trata-a bem.
 melhor que o faa - resmungou Peter, e ela inclinou-se para o beijar.
- O que vamos fazer com todas estas coisas?
- No sei. Damo-las? - A maioria era livros e muitos pertenciam a Paxton.
- Nunca terei tempo de empacotar tudo isto, antes de ir a Savannah.
- No te preocupes. Encarrego-me disso.
- s um santo - sorriu.
Paxton viajaria na semana seguinte para assistir ao casamento do irmo em Savannah. Tambm eles tinham decidido casar em junho e ela sentia-se como num carrocel, 
fazendo e desfazendo malas, mudando e voando at Savannah para o casamento.
Quando Paxxie chegou, tambm no achou Queenie com bom aspecto, mas a me parecia um pouco mais descontrada do que o habitual. Tudo indicava que se entendia lindamente 
com Allison, o que aliviou um pouco Paxton.
Dois dias mais tarde, depois do casamento, Paxton regressou a So Francisco para comear a trabalhar no jornal. Peter aceitara um emprego para o Vero numa firma 
de advogados em Berkeley. Agora que se tinham mudado era quase como se estivessem casados.
Tinham uma simptica casinha com uma sala de estar espaosa, uma cozinha, uma sala de jantar, um jardim e um quarto grande no andar de cima, com um pequeno escritrio 
onde Peter guardava todos os seus livros de Direito.  noite, Paxton cozinhava para ele quando voltava do trabalho e, s vezes, encontravam-se na cidade e iam jantar 
fora- Ela andava entusiasmadssima com o emprego no jornal. Davam-lhe coberturas interessantes para fazer e, por vezes, limitava-se a ficar na redaco a ler o telex, 
como se tivesse o dedo em cima do pulsar do mundo. Nunca se sentira to feliz. Nem to-pouco Gabby.
A amiga apareceu em Setembro, quando Peter e Paxton regressaram s aulas e estava entusiasmadssima com a ideia de no frequentar a escola nesse ano. Paxton desconfiava 
que ela no voltaria. Os pais j sabiam do beb e Matt tratava-a bem; portanto, todos estavam muito felizes.
Nesse ano, o tempo voou. Era o seu terceiro ano em Berkeley. Desta vez, Paxton foi passar o Natal a casa, em Savannah, e Queenie estava visivelmente doente. Parecia 
plida, se  que tal era possvel, e passava o tempo a tossir, mas, embora as filhas achassem que chegara a altura de se reformar, continuava a insistir em trabalhar, 
sobretudo enquanto Paxxie estava em casa, o que assustava Paxton. Quando a irm o pressionou, George vincou, no entanto, que nada podia fazer por ela. De qualquer 
maneira, no estava muito interessado. S pensava em Allison. Esta esperava o primeiro filho no Vero seguinte, em Agosto.
O beb de Gabby nasceu trs semanas depois de Paxton chegar de casa, aps o Natal. Era uma menina de cabelo ruivo como o da me. Ao visit-la no hospital, Paxton 
sentiu dificuldade em acreditar que Gabby era me. Matt, contudo, estava entusiasmadssimo e os Wilson tambm. E Paxxie sentiu um estranho vazio no corao ao regressar 
 casa em Berkeley, com Peter.
- Sentes-te bem? - Ele apercebera-se de qualquer coisa e ela no falara muito no percurso de volta, mas, quando Peter fez a pergunta, esboou um estranho sorriso.
- Sim.  engraado v-la com um beb, no ? Estamos juntos h tanto tempo, mais de dois anos, e conhecemo-nos na perfeio um ao outro. E eles s se conhecem h 
um ano e ali esto, casados, felizes e com um beb. Parece um tanto estranho, no?
- Sim, acho que sim - concordou, acrescentando com um sorriso: - Mas pode arranjar-se, se  o que queres.
- No . Pelo menos, agora. - Sorriu quase tristemente, pois, em alguns aspectos, queria. Queria tudo e estava cansada das aulas. Sentia a falta do emprego que tivera 
no Vero. E agora regressara aos exames, testes e sebentas.
Nessa poca, havia quatrocentos mil rapazes americanos no Vietname e tudo deixara de fazer sentido. Era mais fcil, se se deixasse de estar atento. Mas ela estava. 
Preocupava-se demasiado e, dali a mais cinco meses, Peter sairia da escola de Direito.
Nessa noite, quando se foi deitar, continuava triste e, quando Peter a abraou, tomou conscincia de que tinha cimes do beb de Gabby.
- Em que pensas? - perguntou-lhe Peter, no escuro, com os braos a envolv-la.
- Em como sou estpida - respondeu com um arremedo de sorriso e - ele riu.
- Que pensamento alegre!
- As vezes, descontrolo-me.
- Ests outra vez a pensar no beb? - O beb era um amor, mas o verdadeiro choque resultara de como eles eram felizes, completos; no se imaginava, todavia, a ter 
filhos nos prximos anos, embora soubesse que uma parte dela adorava a ideia.
~ - Se quiseres podemos casar, quando acabar o curso, em junho. Nessa altura terei um emprego... Ia adorar. - Os olhos brilhavam-lhe no escuro e do ponto de vista 
do recrutamento tambm seria mais seguro.
- No me parece que devamos faz-lo. Pensa na Gabby. Nunca mais voltar  universidade. Quero acabar o que comecei.
E o Corpo da Paz?
Acho que talvez sacrifique essa parte - redarguiu, sorrindo. - No sei bem se me sentiria feliz com todas essas baratas e sanguessugas.
- Marcamos, ento, uma data? - Tambm ele sorria. - Em vinte e seis de Junho, quando te licenciares? - Faltavam apenas dezassete meses e Paxton gostou da ideia. 
- O que respondes, mida?
- Que sim... E amo-te...
- Tambm te amo - exultou. - Isto quer dizer que estamos noivos?
- Assim parece, no? - Quase desatou a rir.
- Posso comprar-te um anel?
- Talvez devamos esperar. - Parecia-lhe um enorme passo e significava que teria de dizer  me, ouvir toda a retrica e lamria de que no ia casar com algum de 
Savannah. - Porque no aguardamos at ao Natal? Depois, no faltar muito at ao casamento.
- Vou comear a poupar - decidiu Peter e aconchegou-se contra o seu corpo, aps o que adormeceram na confortvel casinha em Berkeley.
Peter terminou o curso de Direito em junho de 1967. os pais ofereceram um enorme almoo em sua honra, no Boherman Club, em So Francisco. Tratou-se de um acontecimento 
importante a que assistiram todas as pessoas conhecidas da cidade, incluindo o novo patro de Peter, de uma firma de advogados muito conceituada.
os Wilson apresentaram Paxton a toda a gente como a sua futura nora e ela no pareceu importar-se. Matt e Gabby estavam presentes. Ela estava bonita e elegante e 
falava constantemente no beb.
- Estou pronta para outro - confidenciou a Paxton, quando foram  casa de banho. E Paxton reparou que nunca a vira to bonita, nem com melhor aspecto.
- E a universidade?


CAPTULO 8

- De qualquer maneira, no quero voltar. Somos diferentes. Tu queres ser jornalista, queres uma carreira, queres provar algo. Com mil diabos, Paxton! Eu s quero 
continuar casada e ter filhos.
- Correspondes ao sonho da minha me - sorriu-lhe Paxton tranquilamente. - Pelo menos, a Allison servir para afastar as atenes de mim. Vai ter o beb em Agosto. 
Acho que terei de voltar l de avio para o ver.
A jovem planeava, contudo, voltar a trabalhar para o Morning Sun no Vero. S lhe faltava mais um ano na universidade e, depois, iam dar-lhe emprego efectivo como 
reprter.
- Ento, para quando  o prximo? - inquiriu Paxton, trocista. Tinham chamado Marjorie Gabrielle  beb e tratavam-na por Marjie. - Desta vez um rapaz, presumo.
-  o que o Matt quer - redarguiu Gabby com um brilho no olhar. Tinha vinte e um anos, era casada e me. Paxton vivia com Peter h dois anos, ele era advogado e 
ela no passava de uma estudante. Queria prosseguir caminho. Acabar o curso, arranjar um emprego a srio e casar-se. Por essa ordem.
- Ele trata-te bem? - interessou-se Paxton, mas sabia que no deveria ter feito a pergunta.
- Sim - respondeu Gabby com voz calma e fitando gravemente a amiga, companheira de quarto e futura cunhada. - Tive sorte. Podia ter-se revelado uma merda, mas no. 
E  uma maravilha com a mida.
- Fico contente - declarou Paxton honestamente, quando, por fim, saram da casa de banho e regressaram at junto da mesa.
- O que  que vocs duas estiveram a fazer ali? Procurei-te por todo o lado - queixou-se Peter, quando finalmente a descobriu. - Queria apresentar-te  mulher do 
meu patro.  inglesa e acho que gostarias dela. - No conseguiram, porm, encontr-la novamente. Foi um dia longo e feliz. Ambos estavam exaustos quando regressaram 
 casinha em Berkeley.
Tinham decidido renovar o aluguer por mais doze meses, para facilitar a vida a Paxton no seu ltimo ano na Universidade de Berkeley. E quando se licenciasse e fosse 
trabalhar para o jornal e se casassem... mudariam para a cidade.
- Foi um dia maravilhoso - comentou Paxton, sorrindo. - Sinto-me to orgulhosa de ti... Conseguiste! - Tambm ele parecia contente e os pais haviam-se mostrado muito 
orgulhosos. Sentiam-se felizes com os dois filhos; gostavam, igualmente, de Paxton e ela deles. Conversaram toda a noite sobre aquele dia.
O resto do Vero escapou-se-lhes por entre os dedos. Peter estava ocupado no emprego e Paxton afadigava-se, dia e noite, no jornal. Depois, ela viajou no avio at 
casa antes de regressar  universidade para ver a me e o beb de George. Fora um rapazinho e o irmo mal cabia em si de orgulho. Tinham-lhe chamado James Carlton 
Andrews: era um beb muito querido e Allison estava ptima. At a me cedera um pouco.
Apenas Queenie parecia ter envelhecido uma dzia de anos e subitamente mal conseguia mexer-se com a artrite reumtica.
- Porque no fazes qualquer coisa por ela? - dirigiu-se Paxton a George num tom acusador, e ele no lhe ligou. Tinha mais com que se preocupar do que com a antiga 
criada da me. - Ela no ir consultar mais ningum, George. Confia em ti.
- Nada posso fazer. Ela est velha, Pax. Deve ter perto de oitenta anos, raios!
- E da? Podia viver at aos cem, se algum cuidasse dela com o deve ser. - Mas, embora no o afirmasse, no era essa a opinio dele. H uns anos que vinha a enfraquecer 
e, quer Paxton o quisesse ou no admitir, no viveria eternamente.
Paxton voltou, contudo, a chamar-lhe a ateno para o caso antes de se ir embora e passou a ltima tarde com Queenie.
- Vais, finalmente, casar-te com ele? - inquiriu a ama, num tom rezingo, quando Paxton mencionou Peter.
- Temos falado no prximo junho, ou talvez no Vero - respondeu. Queria, de facto, comear primeiro a trabalhar. Continuava a manter fortes ideias de independncia.
- De que ests  espera, mida? Cabelo grisalho ou lua cheia? H trs anos que o amas.
- Eu sei. Mas quero acabar o que estou a fazer.
- Podes casar e continuar a estudar. s esperta bastante para fazer as duas coisas. Qual  o problema?
- Sou estpida, acho. Continuo a pensar que tenho de fazer todas as coisas pela devida ordem.
- No esperes demasiado. - Olhou demoradamente para a jovem que criara e verificou que Paxton estava mais bonita do que nunca. Parecia mais velha e mais madura, 
com os traos melhor definidos, o corpo ligeiramente mais cheio nos lugares apropriados.
- O que queres dizer? - retorquiu Paxton, subitamente preocupada.
- Talvez ele encontre outra pessoa que no queira esperar, ou talvez qualquer rapariga o cace e o apanhe... Ou... no sei... Por vezes, a vida  boa, outras leva-nos 
a lamentar ter esperado demasiado por alguma coisa, no ter feito qualquer coisa quando se podia e j no se pode... Acho que devas casar... mida.
Paxton achou, contudo, que a velha ama apenas queria v-la casada enquanto ainda estivesse suficientemente bem para usufruir da situao. E sabia que Peter esperaria. 
No era do tipo de fugir com outra pessoa. Tinha a certeza. E, j que haviam esperado todo este tempo, podiam esperar mais um ano at ao Vero seguinte.
No dia em que Paxton viajou de avio ao encontro dele, o presidente Thieu foi eleito no Vietname do Sul. E, um ms mais tarde, treze mil Americanos tinham morrido 
no Vietname e setecentos e cinquenta e seis haviam desaparecido.
Gabby comunicou-lhe que estava novamente grvida. O beb era esperado no prximo junho. Afigurava-se muito longe a Paxton, quase to longe como o casamento deles.
O seu quarto ano na universidade pareceu-lhe quase um anticlmax. Paxton tinha a sensao de que os dias fugiam e ela e Peter falavam incessantemente dos planos 
de futuro
Nesse ano, passaram o Natal todos juntos na casa do Wilson e, depois do Natal,  semelhana de anos anteriores, Peter e Paxton foram esquiar para o Squaw Valley. 
Divertiram-se imenso e riram sobre o modo como Gabby conhecera Matthew ali, dois anos antes, e falaram de tudo o que lhes acontecera naqueles trs anos e meio em 
que tinham estado juntos. A espera j no parecia longa. junho e a licenciatura de Paxton estavam ao virar da esquina. E, em seguida, ela tomaria decises relativas 
a um emprego srio e iriam casar-se no fim do Vero. Agora, faltava menos de um ano.
Porm, ao regressarem a casa, havia uma carta  espera dele, da sua junta de recrutamento. Tinham-no chamado. Paxton quase sentiu o corao deixar de bater ao ler 
a carta.
- Cus! O que faremos? - exclamou Paxton, aterrorizada.
- Rezamos - respondeu e nessa noite telefonou ao pai. O pai declarou que no tinha influncia junto da junta de recrutamento, mas perguntou-lhe sem rodeios se Paxton 
estava disposta a casar.
- Acho que sim - redarguiu calmamente, e Paxton adivinhou de imediato o que o pai quisera saber. - Mas, na verdade, queramos esperar at ao prximo Vero.
Peter sabia quanto era importante para Paxton esperar e fazer as coisas pela devida ordem.
- No acho que devam esperar. Se servir para te livrar disto, f-lo. - E todos sabiam que assim era, mas deixara de haver certezas. Cabia  junta de recrutamento 
individual decidir se aceitariam ou no o casamento como um adiamento. E, recentemente, os casamentos de ltima hora no estavam a ser respeitados a nvel de adiamentos. 
Era com toda a probabilidade demasiado tarde. E Peter no queria pressionar Paxton a casar-se antes da licenciatura.
- Veremos, paizinho. Talvez mudem de opinio quando me submeter ao exame fsico. Vou fazer vinte e seis anos daqui a seis semanas. Eles querem os mais jovens.
Quando desligou o telefone, Paxton tinha os olhos cheios de lgrimas. Sentia-se aterrorizada ante a perspectiva de o levarem.
- Deixa-te de patetices, mida - replicou, abraando-a. - Sou velho de mais. No vo apurar-me.
- E se o fizerem?
- No o faro.
- Vamos casar. - Agora era o que desejava, mas ele no achava que fosse a soluo.
- No  maneira de agir. No espermos trs anos e meio para entrar em pnico e fazer um casamento forado.
- Porque no? No quero esperar, Peter. - Lembrou-se subitamente das palavras de Queenie: "s vezes a vida leva-nos a lamentar termos esperado demasiado"... - Quero 
casar.
- Deixa-te de pnicos - redarguiu, tentando parecer calmo. Era a primeira vez que a via to assustada. - Amanh, falo com o meu patro. - Este partilhava a opinio 
de Peter. No iriam recrutar algum a um ms da idade de dispensa, no fazia sentido. E, se o quisessem, poderia provavelmente impedi-los. Afinal, apenas faltavam 
seis semanas.
Porm, quando se apresentou no Centro de Instruo de Oakland, ficou apurado. Nada havia a fazer. Estava recrutado. E nenhum deles conseguia acreditar.
Paxton sentia-se como se o mundo tivesse desabado em cima dela. Queria escond-lo, mas ele no queria. No acreditava na guerra. Paxton lembrou-lhe que ele chegara 
a queimar o seu carto militar. Mas ele respondeu que agora era um adulto responsvel, o filho do proprietrio do Morning Sun. E tinha de ir ou pelo menos assim 
o achava, embora a ideia lhe desagradasse.
E, se se casasse agora, era tarde de mais. Estava recrutado e nada havia a fazer.
Assemelhava-se a um sonho mau. E no Vietname, uma palavra que agora causava pesadelos a Paxton, vinte mil batalhes comunistas avanaram para sul, para atacar de 
surpresa durante o Tet, as celebraes vietnamitas do Ano Novo.
A 23 de janeiro, os Coreanos do Norte tinham tomado o pueblo americano. Nesse mesmo dia, Peter teve de se apresentar em Fort Ord para treino bsico. Paxton no o 
veria durante oito semanas e, depois disso, s Deus sabia para onde iriam mand-lo por barco.
A nica coisa que lhe dava alento era que, na qualidade de advogado, o destacariam provavelmente para um trabalho de secretria em qualquer lado e, pelo menos, nunca 
entraria na guerra. Mas, embora tranquilizasse Paxton e os pais, estava assustado. No era isto o que planeara fazer da sua vida h sete meses, depois de sair do 
curso de Direito.
- Peter... por favor... Vamos para o Canad... Farei qualquer coisa - suplicou-lhe antes de ele partir, mas Peter no lhe deu ouvidos.
- No sejas ridcula. Quero que acabes o curso. - Sabia quanto significava para ela, como estava a sair-se bem e agora no queria fugir. Enfrentaria a realidade 
e tentaria tirar o melhor partido. Disse para si prprio que tudo aquilo seria, sem dvida, um obstculo na carreira, mas dois anos tambm no representavam o fim 
do mundo. Poderia ser treinado como oficial, s que o seu tempo seria prolongado. Preferia cumprir dois anos como recruta e regressar mais depressa a casa.
Agora, os dados estavam lanados. No entanto, Paxton continuou a suplicar-lhe que no fosse at ao momento da partida. Levou-o mesmo no carro at Fort Ord e chorou 
copiosamente quando o deixou.
- Vemo-nos daqui a umas semanas, querida. Agora no chores. - Insistira para que ela voltasse a So Francisco e ficasse com os pais dele.
No entanto, decorridos uns dias, Paxton regressou  casa em Berkeley. Fora to feliz com ele ali, que queria estar na casa que haviam partilhado. E ficou a aguardar 
todas as noites que ele lhe telefonasse. Quando, por fim, Peter conseguiu, sentiu-se como se tivesse morrido, a aguardar notcias.
haviam passado oito semanas desde que lhe ouvira a voz e no estudara uma linha. Apenas conseguia pensar em Peter. No entanto, assim que telefonou, disse-lhe que 
iria a casa nesse fim-de-semana. E foi, de facto, mas no levou boas notcias. Comunicou que partiria para Saigo cinco dias mais tarde.

CAPTULO 9

Os ltimos dias que Peter passou na cidade foram uma agonia para todos e, sobretudo, para Paxton. Todos queriam estar com ele, falar-lhe, mostrar-lhe quanto o amavam, 
O pai tentou mesmo mover algumas influncias, mas sem resultado.
O seu nico amigo na junta de recrutamento local disse que no podia ajud-lo. Nessa poca, todos estavam na mesma situao: havia uma quantidade excessiva de famlias 
desesperadas para salvar os filhos, mas ningum podia fazer nada. Se ele fora convocado, tinha de ir e restava-lhe tentar manter-se vivo, quando l chegasse. Tinham-no 
destacado para uma estada de treze meses no Vietname.
"Trezentos e noventa e cinco dias", comunicara a Paxton. Depois, seria enviado para qualquer stio dos EUA e o pesadelo acabaria. "Tal significava um ligeiro atraso 
nos planos, mas nada mais", garantira.
Ambos sabiam, contudo, que seria diferente. Significava que, nos prximos treze meses, os dois teriam de suster a respirao e rezar para que nada lhe acontecesse, 
para q e se mantivesse vivo e regressasse novamente a casa. E Paxton sentia-se agora mais culpada do que nunca por no se ter casado mais cedo com Peter.
- Vamos para o Canad - sussurrou-lhe uma noite, quando estavam deitados na cama do quarto de hspedes em casa dos pais dele.
Os Wilson queriam que ele ficasse em casa nos ltimos dias e tinham convidado Paxton para que se lhes juntasse. Continuavam a esperar que eles dormissem separados, 
mas Peter esgueirava-se, silenciosamente,  noite, at ao quarto dela e de volta ao seu, de madrugada. De qualquer maneira, eram incapazes de dormir. Paxton estava 
demasiado perturbada e ele tenso. Andava muito ocupado a tranquilizar todos;  noite, porm, tinha de enfrentar os seus prprios medos.
Nos ltimos dois meses, tinha perdido peso em Fort ord e ganhado msculos, mas os olhos emanavam um brilho magoado, que rasgava o corao de Paxton. Tinha uns olhos 
que diziam: "No quero fazer isto", mas sentia que era esse o seu dever.
- No podemos ir para o Canad, Pax - replicou num tom calmo, acendendo um cigarro atrs de outro. Anteriormente, quase no fumava, mas, no campo de recrutamento, 
tornara-se um hbito constante. - O que faria l, raios?
- Agora, s advogado. Podias comear l, em vez daqui
- E destroar o corao do meu pai. Nunca mais podia voltar aqui, Pax.
- Tretas! Um dia, vo deixar que todos regressem novamente a casa. H demasiados jovens l fora. Tm de o fazer.
- E se no o fizerem? Nesse caso, nunca mais posso voltar. No vale a pena, querida.
"E se nunca mais voltasse? Valeria a pena?" Sentia-se incrdula. Aquilo no podia estar a acontecer-lhes. Peter tinha vinte e seis anos, era advogado, estava noivo 
e mandavam-no para o Vietname! S podia ser um pesadelo.
- Peter, por favor... - Estendeu-lhe a mo, no escuro. Ele abraou-a por entre as lgrimas de ambos, mas no anuiu ao pedido.
Peter nunca quisera ir e no acreditava na guerra. H anos que tinha queimado o seu carto de recrutamento. Sabia, contudo, que tinha de ir e, chegado a este ponto, 
estava disposto a servir o seu pas.
No campo de treinos, tinham-nos instigado contra o "Nam" e vincado quanto iria odiar "Charlie". Contaram-lhes histrias de crianas que andavam com metralhadoras, 
emboscadas, armadilhas, tneis cheios de vietcongues  espera de os matar. No falaram, contudo, na agonia, na dor de perder um amigo, no horror de pisar uma mina 
ou de matar uma mulher grvida por se estar to assustado que era impossvel pensar racionalmente.
Mesmo assim, sentia que estava preparado e, nos ltimos dias, garantiu repetidamente a Paxton que teria cuidado e no faria nenhuma loucura.
- Juras? - Arrancou-lhe mais outra promessa antes de ele regressar ao quarto, e Peter beijou-a.
- Juro. - Acrescentou depois com um arremedo de sorriso: - Juro que voltarei para ti... inteiro... e pronto a casar e a ter catorze filhos.  melhor preparares-te, 
Pax. Nessa altura, j serei velho. - Mas ela estava mais do que preparada e eliminara todas as ideias de independncia.
- Devamos casar-nos antes, sabes? - Estava disposta casar-se com ele de imediato e Peter sabia-o. No queria porm, casar-se assim num frenesim, num clima de histeria 
e medo. E no queria correr o risco de a tornar viva. Estava disposto a esperar e sabia que ela esperaria por ele. Era algo que no receava e, depois de terem passado 
todos aqueles anos juntos, ambos se sentiam casados.
- Amo-te... - sussurrou Paxton novamente, e ele beijou-a e regressou ao seu quarto, quando o Sol se ergueu.
Era o ltimo dia de Maro de 1968 e ele partia para o Vietname no dia seguinte. E ainda tinha muito que fazer nesse domingo.
Gabby, Matt e o beb foram almoar l a casa. Marjie tinha quinze meses, acabara de aprender a andar e mexia em tudo. E Gabby estava grvida de sete meses. Peter 
passou muito tempo a falar com a irm; depois do almoo, foram dar um passeio pelo jardim. Quando voltaram, ambos pareciam ter estado a chorar. No entanto, todos 
choraram nesse dia. At mesmo o pai de Peter.
E, nessa noite, depois de Gabby e Matt terem ido para casa, ficaram todos sentados a ouvir Lyndon Johnson. O presidente prometeu voltar a diminuir os bombardeamentos 
e de novo prometeu a paz. Em seguida, surpreendeu todos ao anunciar que no iria recandidatar-se. Pelo menos, havia tema de conversa. Algo mais do que a partida 
de Peter de manh.
Nessa noite, ele apareceu no quarto de Paxton, ainda antes de os pais se terem deitado. No quis esperar nem mais um momento. Ficou toda a noite e abraou-a, enquanto 
os dois choravam. No queria morrer, no queria matar ningum e no queria separar-se da jovem que amava; no entanto, sabia que tinha de o fazer.
Paxton continuava a culpar-se por no estar j casada com ele, contudo, parecera-lhe sensato esperar at acabar a universidade. Mas o que  que, nesse momento, era 
sensato? o que  que fazia sentido? Uma guerra a meio mundo de distncia, num lugar onde ningum se interessava que perdessem ou ganhassem, uma guerra que sabiam 
nunca poder ganhar, num pas em que no podiam defender-se por ter demasiado medo de retaliao... Nada fazia sentido para eles, nem para ningum. E nada disto fazia 
sentido para Paxton.
Conservaram-se junto  janela a observar o nascer do Sol e, em seguida, foram para a cama e fizeram amor pela ltima vez. Quando, por fim, Peter saiu do quarto dela 
para se dirigir ao seu, cruzou-se com o pai.
- Bom dia, pap - cumprimentou com um sorriso triste; havia lgrimas nos olhos de Ed Wilson ao corresponder com um aceno de cabea. Pegara-lhe quando o filho era 
beb, agora ele j era um homem e sentia um medo horrvel de poder perd-lo.
Nesse dia, tomaram o pequeno-almoo todos juntos. Estavam impecavelmente vestidos, despertos, de rostos atentos e srios, a comer no mais absoluto silncio. Foi 
Peter o primeiro a falar, depois de ter afastado um pouco a cadeira da mesa.
- Bom, minha gente.  possvel que no tenhamos um pequeno-almoo como este durante muito tempo. - Sobretudo... servido por uma criada fardada, numa sala de jantar 
formal, num servio de Limoges e prata, com guardanapos Porthault. To-pouco com as pessoas que o amavam, de roupa lavada e numa sala onde ningum podia mago-lo. 
- Vou sentir a vossa falta. - A honestidade das palavras rompeu o dique e todos comearam a chorar, Peter, os pais e Paxton, cada um prometendo aos outros ter coragem, 
dizendo-lhes que em breve regressaria a casa e eles como sentiriam a sua falta.
E Paxton compreendeu, mais do que todos, como tinham sorte por poderem transmitir-lhe o que sentiam. Se o irmo dela partisse, ningum teria podido dizer que tinha 
medo, estava triste ou quanto o amava.
Meia hora mais tarde, partiram para a Base da Fora Area de Travis, em Fairfield. Peter vestia um uniforme acabado de estrear e levava um grosso sobretudo. Tinham-no 
mandado apresentar-se ali ao meio-dia, e ignorava a hora exacta a que subiria a bordo do avio; porm, depois de os deixar, isso pouco interessava.
Estava um dia quente e soalheiro, e o motorista de Mr. Wilson no pronunciou uma palavra durante o percurso, mas, quando chegaram ao destino, saiu do carro e apertou 
a mo a Peter com admirao.
- Boa sorte, filho. No os poupes. - Era um homem que tinha combatido na Segunda Guerra, e aos seus olhos a ideia da guerra ainda possua algum significado. Quando 
partira, sabia quem era o inimigo, quem eram os "maus" e o motivo por que lutava. Peter estava menos seguro, quando esboou um aceno de cabea.
- Obrigado, Tom. Tem cuidado contigo. - Repetiu as mesmas palavras a todos e abraou a me durante um longo momento. - Tem cuidado contigo, mam... Amo-te... - Ela 
sentiu vontade de se deixar cair de joelhos e gritar de dor ante a ideia de ver o filho partir para a guerra, mas abanou a cabea corajosamente, voltou a beij-lo 
por entre as lgrimas e apertou a mo de Ed at julgar que quebraria os ossos dos dedos, enquanto Peter se despedia de Paxton.
- Tambm te amo... - sussurrou, incapaz de falar mais. - Tem cuidado... - Depois, afastou-se deles e desapareceu no cavernoso edifcio. No podiam acompanh-lo at 
mais longe e Ed Wilson concordou com esse facto. j era bastante doloroso despedirem-se dele ali e achou que seria de mais para Marjorie ficar a ver o avio descolar, 
levando o seu filho para o perigo.
Ajudou-as a entrar de novo na limusina, e as duas mulheres choravam nos braos uma da outra.
- Devia ter casado com ele... - soluou Paxton, e Marjorie limitou-se a abanar a cabea, receosa e triste.
- No podias adivinhar o que ia acontecer. - Ningu111 podia. Ningum sabia nada sobre a guerra para onde ele ia, nem o preo que poderia pagar. - Meu Deus! Espero 
que tenha cuidado - sussurrou a me, ao atravessarem a Bay Bridge, de regresso a So Francisco.
Paxton almoou com eles, mas estavam todos demasiado esgotados para falar e, nessa tarde, ela fez as malas e regressou  casa em Berkeley. No conseguia lembrar-se 
de nada,  excepo de onde Peter estava e para onde ele ia. Apenas sabiam que ele viajaria de avio at ao Havai, depois Guam por fim, Saigo, e que se pudesse 
lhe telefonava.
No entanto, ainda no estava muito claro para onde iria depois de Saigo. E Paxton esperava que *no fosse para nenhum stio. Com um pouco de sorte, dar-lhe-iam 
um trabalho de secretaria. Incitara-o vezes sem conta a negociar com o facto de ser advogado. No fora, porm, destacado para o corpo legista. No Vietname no precisavam 
de advogados. Precisavam de soldados para travar a guerra, detectar minas e perseguir o inimigo nas grutas e tneis.
Os pais de Peter tinham-na incitado a telefonar, a aparecer para jantar ou ficar com eles sempre que quisesse.
Naquele primeiro dia, porm limitou-se a ficar deitada na cama que haviam partilhado e a cheirar o after-shave das roupas que ele deixara no armrio. Peter no tivera 
tempo para emalar nada, embora fossem desistir da casa em julho, nem Paxton quisera que o fizesse. Queria estar ali com as coisas dele, com ele. Desta forma, no 
se sentia como se o tivesse perdido.
Gabby telefonou-lhe nessa tarde. E choraram as duas.
- S quero que ele volte para casa - gemeu. Tinham sido sempre muito chegadas, sobretudo nos ltimos anos, durante o tempo que ele passara com Paxton.
- Tambm eu - retorquiu Paxton num tom triste e vagueando o olhar pela cozinha silenciosa.
- Sabes que dia  hoje? - perguntou Gabby, mas Paxton no sabia nem se interessava, embora soubesse que nunca o esqueceria. -  o dia das mentiras.
Paxton quase sorriu.
- Isso significa que vo mand-lo de volta esta noite com um pedido de desculpas? - replicou.
- Bem deviam... esses idiotas... - Depois, Paxton ouviu o choro de Marjorie ao longe e Gabby teve de desligar, aps ter prometido telefonar-lhe mais tarde.
Em vez dela, foi Peter quem telefonou de Guam. Era meia-noite, mas Paxton no estava a dormir. Conservava-se deitada na cama a ouvir-lhe a voz atravs da linha pouco 
ntida. Assemelhava-se a uma ddiva dos deuses. Ele apenas dispunha de uns minutos entre os voos, mas s queria dizer- -lhe quanto a amava.
- Tambm te amo... Tem cuidado...
- Amo-te! - Em seguida, a voz calou-se, e ela voltou a deitar-se na cama, ficando acordada at de manh.
Nesse dia, faltou novamente s aulas. Apenas precisava de um tempo e tinha dois trabalhos para entregar, contudo, ultimamente, desde que ele estivera em Fort Ord, 
no conseguia enfrentar a situao. O stress era demasiado e as notas do meio do perodo tinham-no provado. De "Muito Bom" baixara para "Medocre" em quase todas 
as matrias. Mais tarde, tinha ido  biblioteca buscar uns livros, que lhe tinham guardado desde o princpio de Maro. Pensou que nada havia a fazer agora e comeou 
a sentir-se ligeiramente em pnico quanto aos trabalhos.
Na manh seguinte, a me de Peter telefonou. Sabia que Paxton ainda no teria notcias dele. Gabby tinha-a inteirado do telefonema de Guam. Queria, no entanto, certificar-se 
se Paxton estava bem. E estava, exceptuando aquela estranha sensao, a mesma sensao que tivera quando o pai morrera e o presidente John Kenedy fora alvejado, 
a sensao de que se movimentava por baixo de gua. Tudo parecia processar-se em cmara lenta e as vozes que ouvia pareciam vindas de muito longe.
Era quase como se no se importasse com nada, como se tudo o que acontecesse tivesse deixado de lhe interessar. S queria hibernar algures at Peter regressar de 
onde quer que se encontrasse.
Embora ele tivesse prometido encontrar-se com ela no Havai ou onde quer que fosse possvel, ainda ignorava quando o deixariam. No entanto, uma coisa era certa: mal 
pudesse ir a qualquer lado, seria ao encontro de Paxton.
- Tem cuidado contigo - recomendou a me dele e, tal como Peter, tambm Paxton prometeu que o faria. Aps desligar, Paxton ainda pensou, por momentos, em telefonar 
a Queenie, para Savannah. No queria, porm, perturb-la.
Na noite seguinte, Paxton viu o telejornal, sabendo que, nessa altura, Peter j estava em Saigo. E, de sbito, tudo passou a importar-lhe, cada notcia, cada palavra, 
cada imagem, receosa de que um daqueles soldados pudesse ser Peter. No foram, porm, as notcias do Vietname que a sobressaltaram nessa noite, mas algo que se lhe 
seguiu.
Tratava-se da nova verso de uma histria que passara durante todo o dia, mas, dado ter mais uma vez ficado em casa, Paxton no sabia de nada. Falaram do Dr. King 
e mostraram, depois, imagens confusas no ecr de pessoas a correrem... um hotel... algum a gritar ... e, por fim, as palavras aterraram. Martin Luther King Jr. 
fora assassinado em Memphis. Assassinado. Morto. Abatido a tiro.
Fixou os olhos no televisor, sem conseguir acreditar. o mundo enlouquecera. Peter estava no Vietname, Martin Luther King tinha sido assassinado... abatido a tiro... 
Algum o quisera morto e a tudo o que ele representava.
E, na casa em Berkeley, deixou-se cair lentamente numa cadeira, sem desviar os olhos do ecr, escutando tudo o que diziam. Mas nada mais fazia sentido. E, nessa 
noite, quando comearam os tumultos, ouviu-os. Eclodiram nas cidades, por todo o lado: eram o grito angustiado de uma gerao, que tentara ultrapassar o assassnio 
de Kenedy, ocorrido h cinco anos. Haviam passado o facho de mo em mo e, agora, os seus coraes e as mos estavam demasiado cansados para continuar a transport-lo.
Paxton sentou-se na sala de estar s escuras, chorando por ele. Desta vez, quando o telefone tocou, no atendeu. Sabia que no podia ser Peter. Seriam apenas amigos, 
desejosos de partilhar o desgosto com ela, perguntar-lhe se sabia, dividir a descrena, e ela no queria ouvi-los. No queria falar com ningum. No desejava fazer 
parte de um mundo que matava pessoas como ele. Sentia-se enojada ante essa ideia e quando, nessa noite, viu outra vez o telejornal, ps-se a chorar pelos filhos 
de Luther King.
- Porqu? - indagou no silncio da casa. - Porqu... - Abanou novamente a cabea e secou as lgrimas, incapaz de compreender. - E na sexta-feira de manh, no dia 
seguinte, acordou com o peso terrvel da depresso. Tudo lhe parecia estar a correr mal, a comear pela partida para Saigo na segunda-feira.
Foi um fim-de-semana deprimente e, embora casa dia aps dia, no conseguia estudar. No domingo  noite, teve um pesadelo horrvel, envolvendo pssaros que a sobrevoavam 
em crculo e tentavam atac-la no rosto. E acordou, aliviada, com a campainha do telefone na segunda-feira de manh.
De incio, no reconheceu o som quando encostou o auscultador ao ouvido e, depois, apercebeu-se que no estava ningum do outro lado e que o toque era da porta e 
no do telefone. No imaginava quem pudesse ser e vestiu rapidamente o roupo de Peter por cima da camisa de noite, antes de ir espreitar atravs de uma das janelas 
da cozinha. No conseguiu, porm, divisar quem era e, por fim, dirigiu-se  porta da frente, descala e com ar sonolento. Arregalou os olhos ao deparar com o pai 
de Peter.
- Ol... Eu...  uma surpresa... Como ests? - Ela beijou-o na face e, ao faz-lo, detectou-lhe os olhos hmidos e recuou rapidamente com uma expresso aterrorizada, 
como se, afastando-se dele, o que quer que o trouxera ali no lhe tocasse.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou. Mantinha-se de p, jovem, bonita e muito, muito assustada. Ele apenas conseguia olh-la e abanar a cabea, enquanto sustinha 
as l- grimas. Quisera, contudo, vir ali contar-lhe pessoalmente. Sabia que teria sido essa a vontade de Peter.
- Na noite passada, telefonaram-nos... - Marjorie continuava na cama, sob o efeito de tranquilizantes receitados pelo mdico, quando ele sara de casa para visitar 
Paxton. - Paxxie... O que vou dizer-te no  fcil. - Transps com uma passada a distncia que o separava da jovem, puxou-a at ele e apertou-a, e, pelo espao de 
um breve instante, ela desejou fingir para si mesma que era Peter a faz-lo. - Ele morreu em Da Nang. - Pronunciou as palavras to baixo, que ela quase no as ouviu. 
- Enviaram-no para o Norte mal chegou e saiu com uma patrulha,  noite. Apesar da sua inexperincia, fizeram-no ponta de lana. - Paxton no sabia o que isso era, 
nem lhe interessava. Apenas queria tapar os ouvidos com as mos para no ter de o escutar.
- Era o que ia na frente... - prosseguiu Ed Wilson, comeando a chorar. - . . . No conquistou uma colina... No foi alvejado... No arrasou uma aldeia... Nem sequer 
pisou uma mina... Foi morto pelo que eles chamam "fogo amigvel". Um dos nossos rapazes entrou em pnico, julgou que tinham ouvido um Vietcongue emboscado e abateram 
o Peter... Foi um engano, explicaram... um engano, Pax...
No conseguia parar de chorar, embora tivesse vindo at ali para a ajudar.
-... Mas est morto... O nosso menino est morto... o corpo chega na sexta-feira. - Ao pronunciar as palavras, sentiu como que uma rocha a fender-lhe o peito, e 
ela julgou que morreria nos seus braos. Contudo, queria bater-lhe primeiro. Queria obrig-lo a desdizer-se. Ps-se a soc-lo no peito, enquanto as mos e os cabelos 
esvoaavam, frenticos,  sua volta.
- No!... no! No aconteceu assim!... No!... No quero ouvir nada disso!
- Nem eu... Mas tens o direito de saber - ripostou, fitando-a tristemente. Ele, o homem que acreditara no bombardeamento como soluo para o Vietname, perdera o 
filho no mesmo. - Morreu por nada - rematou.
Tudo o que conseguia lembrar-se agora era de como o filho parecia em mido e no do homem que partira apenas h uma semana, no dia das mentiras. Vivera uma semana 
no Vietname, menos at, pois s chegara l na quarta-feira, segundo a hora local, e morrera no domingo. Fora morto em cinco dias. Por nada. Morto por "fogo amigvel".
- O servio fnebre ser daqui a uma semana... Mas a Marjorie achou que pudesses gostar de vir para casa comigo... Eu... penso que seria bom para ela...
Paxton esboou um aceno de concordncia sem pronunciar palavra. Tambm desejava estar com eles, pois eram a nica famlia que tinha nesse momento e queria estar 
prximo dela. Se ficasse na sua companhia, talvez ele voltasse para lhes dizer que o telefonema do Vietname fora uma brincadeira, que os cartuchos do indivduo eram 
de plvora seca, que estava ptimo e continuava a planear encontrar-se com ela no Havai.
Paxton dirigiu-se ao quarto que tinham partilhado, sentindo-se atordoada e estranha, vestiu calas de ganga e enfiou uns tnis. Ps uma das camisolas de Peter que 
ainda conservava o seu cheiro e meteu tudo de que conseguiu lembrar-se num saco, acompanhando, depois, Mr. Wilson at ao carro. Ele lembrou-lhe que fechasse a porta 
 chave, pegou-lhe no saco e a jovem sentou--se no carro, sozinha com ele, sentindo-se como se fosse de madeira.
- A culpa  minha, no ? - perguntou, ao atravessarem a ponte, olhando em frente, para a cidade ainda envolta em nevoeiro. A cidade tinha uma ambincia triste nesse 
dia, o que lhe agradava. Demasiadas pessoas haviam morrido recentemente. O Dr. King, Peter... Parecia que todos estavam a morrer.
- No fales dessa maneira, Paxton. A culpa no  de ningum, excepto do rapaz que puxou o gatilho. Foi um acidente. A mo do destino. Tens de o saber.
- Se me tivesse casado com ele, conseguiria o adiamento.
- Talvez no. Talvez tivesse surgido qualquer outra coisa. Podia ter ido para o Canad, fugido, feito uma srie de coisas. Acho basicamente que ele sentia que tinha 
de ir, porque o chamaram. Tambm podia t-lo forado a ir para Toronto, mas no o fiz. Tambm podia culpar-me. No podemos... Se o fizermos, enlouquecemos.
Paxton fitou-o enquanto ele guiava, querendo arrancar-lhe a verdade.
- Odeia-me porque no me casei com ele? - inquiriu.
- No odeio ningum. - Tinha novamente os olhos cheios de lgrimas; deu-lhe uma palmadinha amistosa na mo e desviou o rosto. - S queria que ele ainda estivesse 
connosco.
A jovem esboou um aceno de cabea, incapaz de pronunciar mais uma palavra e grata pela absolvio. Mantinha-se muito quieta e direita no banco, desejando que as 
lgrimas lhe lavassem a dor; porm, aps a revolta inicial, apenas sentia dio e ressentimento.
Quando chegaram  casa na Broadway, Gabby estava l e Marjorie acabara de se levantar, parecendo ainda muito atordoada. Marjorie andava por todo o lado,  toa, comendo 
biscoitos- Mr. Wilson comunicou que tinha umas disposies a tomar, dirigiu-se  biblioteca e deixou Paxton com as duas outras mulheres.
Foi nessa altura que ela conseguiu dar largas ao seu desgosto, junto delas, das outras mulheres que o tinham amado. Choraram pelo que ele fora para elas, pelo que 
dissera, tencionara fazer e fizera. Passaram todo o dia a contar histrias sobre Peter, como criana, homem, filho, irmo e amante. Por vezes riam, outras choravam 
e tambm permaneceram, frequentemente, sentadas num silncio meditativo.
Tornava-se difcil acreditar que ele j no estava vivo algures, que no ia telefonar e dizer-lhes que estava ptimo e lamentava o susto pregado. Mas, quando o telegrama 
oficial chegou, doze horas depois do telefonema, apenas serviu para o confirmar. E todos recomearam a chorar. Nessa noite, quando Gabby e a beb regressaram a casa 
com Matt, Paxton recolheu ao quarto de hspedes, sentindo-se totalmente exausta.
Passou o resto da semana na companhia deles, ajudando Mrs. Wilson a escolher algumas coisas, deixando-a falar sempre que ela necessitava, o que tambm e proporcionava 
algum com quem falar.
Pensou, por mais de uma vez, telefonar para casa, mas a verdade  que no o desejava. Nem sequer a Queenie queria contar. O facto de lhes dizer corresponderia a 
tornar tudo uma realidade e ainda no queria que fosse real, nem nunca. Porm, assim o foi, quando receberam um telefonema oficial no sbado de manh, informando-os 
de que poderiam ir buscar os seus "restos".
Mr. Wilson foi at  biblioteca com uma expresso sombria e, uma hora depois, Paxton e os Wilson dirigiram-se ao Departamento de Assistncia aos Sobreviventes, onde 
se mantiveram com mais dois grupos de pais. As duas outras famlias eram negros e os filhos tinham ambos dezoito anos e eram primos. O desgosto deles tinha a mesma 
intensidade, a dor alojara-se-lhe nos coraes, e os rapazes que amavam haviam desaparecido para sempre.
Peter encontrava-se num simples caixo de pinho tapado com a bandeira, e Mr. Wilson mandara vir um carro funerrio da Halsted's. j estava  espera deles quando 
chegaram, e os Wilson foram levados para uma salinha, onde ficaram ss com Paxton. E ali estava... a prova... o rapaz que ele fora e j no era... no caixo.
Paxton comeou a soluar involuntariamente, e Mrs. Wilson deixou-se cair de joelhos ao lado dele, enquanto o marido se mantinha a seu lado, tentando ampar-la.
"Calma, mida ... ", ouvia Paxxie na voz de Peter. "Est tudo bem, querida ... Amo-te ... " As recordaes eram to ntidas, a voz ainda to forte, que era impossvel 
que ele tivesse desaparecido. Impossvel e insuportvel. Mas desaparecera. Para sempre.
Permaneceram assim durante muito tempo e, por fim, o pai de Peter ajudou a mulher a pr-se de p e, agarrando no brao de Paxton, caminharam lentamente de volta 
at ao sol de Abril. Agora, a vida parecia conter menos significado. Parecia interessar menos o que se fazia, para onde se ia, o que se vestia, o que se via, o que 
se dizia. Sem ele, nada interessava.
Regressaram a casa no automvel e o carro funerrio transportou Peter at  Halsted's. Nessa noite, quando o corpo dele foi mudado para outro caixo, numa sala tranquila, 
Paxton foi v-lo. No conseguia acreditar que era realmente ele que estava deitado na caixa de mogno, mas no queria olhar s para ter a prova. Em vez disso, ajoelhou-se 
ao lado dele e tocou na madeira, e nas pegas de cobre com as pontas dos dedos.
- Ol... - murmurou, sozinha na sala. - ... Sou eu...
"Eu sei ... ", quase o ouviu responder com aquela voz familiar, os olhos to azuis, o cabelo to semelhante ao dela... Os lbios eram os mesmos que ainda a tinham 
beijado h uma semana. Esse mesmo rosto estava no caixo, aquele jovem era o que ela amara e sempre amaria e agora queriam que acreditasse que ele a deixara.
"Ests bem?" O corao segredava-lhe que ele lhe fazia a pergunta e s conseguiu abanar a cabea, ao mesmo tempo que os olhos voltavam a encher-se-lhe de lgrimas. 
No estava bem, nem nunca estaria. Como no havia estado, quando o pai tinha morrido. Como era possvel voltar a ficar bem, depois de se perder quem se amava tanto? 
Em que  que se acreditava depois, exceptuando a perda, a dor e a tristeza? Uma parte da pessoa ficava vulnervel para o resto da vida e, num ntimo secreto, era 
algo que nunca se esquecia.
Conservou-se ajoelhada, durante muito tempo, sentindo-o prximo dela e desejando estar em paz, mas no conseguiu. Invadiam-na apenas dor, perda e raiva para com 
o rapaz, que puxara, acidentalmente, o gatilho. A prpria terminologia estava errada. "Fogo amigvel", como se tudo ficasse justificado por ele ter sido morto por 
um americano e no pelo Exrcito do Vietname do Norte. Mas o que importava, se ele agora estava morto?
O servio fnebre na segunda-feira foi comovedor e breve. A notcia da morte de Peter fora publicada na primeira pgina do Sun e em vrios outros jornais. E todos 
os que tinham andado com ele na universidade apareceram, juntamente com professores, amigos, parentes e colegas. E os Wilson apresentaram Paxton a toda a gente.
Era quase como se ela e Peter tivessem sido casados. Agora, sentia inveja de Gabby. Se tivesse' ficado grvida de Peter, teria sempre uma parte dele ao seu lado. 
Tinha vinte e dois anos... amara Peter desde os dezoito e vivera trs anos com ele. Sabia quem ele era e o que ele era ficaria eternamente no seu corao.
Permaneceu mais um dia com os Wilson e, depois, sentindo-se estranha, regressou a Berkeley. Agora, quase lhe parecia intil voltar, mas sabia que tinha de o fazer. 
Deixara de achar possvel terminar a licenciatura em junho, mas, na verdade, pouco lhe interessava.
E, em Maio, acabara de obter um prolongamento para completar os estudos no Vero, quando o irmo lhe telefonou. No lhe ouvira a voz durante tanto tempo que, de 
incio no se apercebeu de quem era; porm, o sotaque denunciou-o.
- Ol - saudou, e invadiu-a uma sbita tomada de conscincia. - Aconteceu alguma coisa? - Foi a nica ideia que lhe ocorreu. Desde que Peter morrera h um ms, parecia 
aguardar apenas ms notcias e quase se sentia aliviada quando ningum lhe telefonava.
- No... Eu... - No queria mentir-lhe, mas tambm, no sabia muito bem o que dizer. Nunca haviam sido ntimos e sabia que no seria fcil para ela. - A mam achou 
que eu devia telefonar.
- Est doente? - Seria Allison ou o beb? Paxton no conseguia imaginar do que se tratava e ficou  espera.
- No. Est ptima - respondeu, arrastando as palavras e apercebendo-se de que no havia sada. Tinha de lhe dizer. - Paxton...  a Queenie. - O corao da jovem 
sobressaltou-se e desejou pousar o telefone antes que o irmo continuasse a falar. No pronunciou, contudo, uma palavra, apertando o auscultador naquele compasso 
de espera. - Morreu durante o sono, na noite passada, Pax. No sofreu. O corao falhou...  tudo... A mam achou que devias saber e pediu-me que te telefonasse. 
- Poderia ter sido ela a faz-lo e a dar-lhe os psames, mas no o fez.
- Eu... sim... Eu... - No conseguia formular as palavras. Sentia-se como se a nica pessoa que a amara tivesse desaparecido e, agora, no restasse mais ningum. 
- Obrigada, George. - A voz assemelhava-se a um grasnar angustiado, e o irmo teve pena dela. - Sabes quando  o servio fnebre?
- Uma das filhas veio busc-la hoje e acho que me informou que  amanh. A me disse que mandaria flores em nome de todos ns, mas acho que no deverias ir, se  
o que ests a pensar fazer.
O funeral seria no bairro negro, e a maioria das pessoas no teria compreendido o amor que as duas haviam partilhado. E ela seria, sem dvida, a nica pessoa branca 
na cerimnia.
- Sim, acho que sim - retorquiu num tom vago. Obrigada por teres telefonado.
Paxton desligou, ps-se a vaguear pela casa e, nessa tarde, foi de carro at  cidade. Dirigiu-se  praia, caminhou  beira-mar e pensou neles, nas pessoas que tanto 
amara e tinham desaparecido... Queenie... e Peter.. e, onze anos antes o pai. Era como se tivesse amigos  espera "l", algures, pessoas que amava e que sabia que, 
realmente, a amavam, parecia-lhe, no entanto, cruel que agora tivesse de viver sozinha. Cabia-lhe prosseguir sem ningum a quem amar e no conseguia imaginar-se 
a amar novamente' Depois da morte de Peter, alguns rapazes haviam-na convidado para sair, mas sentira-se horrorizada. No conseguia ver-se a sair com ningum. A 
prpria Gabby tentara apresentar-lhe um amigo de Matt, mas Paxton respondera, sem rodeios, que no estava interessada.
Nessa tarde, parou na casa dos Wilson a caminho de Berkeley, mas eles tinham sado. Viu-se a interrogar-se sobre como  que eles podiam continuar a viver sem ele, 
sabendo que estava morto, que morrera por nada e, em certa medida, fora assassinado. Era algo duro de engolir e havia alturas em que Paxton tambm desejava morrer, 
desejava simplesmente adormecer para no ser obrigada a estar sem ele.
No dia seguinte, telefonaram-lhe por terem sabido que ela passara por l, e a me dele parecia muito, melhor. Estava muito excitada com o beb. Falou de Peter, mas 
j no parecia incapaz de controlar as emoes.
A me de Paxton tambm lhe telefonou nessa tarde para lhe comunicar que lamentava a morte de Queenie e inteirar-se dos pormenores da licenciatura. S faltava um 
ms, e ela, Allison e George estavam a planear ir a So Francisco. H semanas que Paxton tinha inteno de lhes telefonar, mas no o fizera.
- Houve uma alterao de planos - anunciou, e a me pareceu sobressaltada.
- Qual?
- S vou licenciar-me em Setembro. No o farei com a minha turma. Vou acabar o trabalho e enviam-me o diploma pelo correio. - "E, depois, passarei o resto da vida 
a tentar descobrir por que  que Peter e eu no nos casmos". - No  nada de importante, mam. Apenas lamento que no vs assistir  licenciatura. - Na verdade, 
era-lhe indiferente. Deixara de se importar com o que quer que fosse. Nada de nada...
 assim que funcionam at Limitam-se a mandar o diploma pelo correio. Que desiluso.
- No, no.  mesmo assim - replicou Paxton em surdina.
- Porque  que no te licencias em junho? - expressava-se num tom levemente acusador.
- Oh... Tive muito em que pensar esta Primavera. E andei muito ocupada.
- Com o qu? - Conhecia-a o suficiente para no perguntar se ainda andava com Peter. Apenas serviria para discutirem. E, no ano anterior, chegara a suspeitar de 
que poderiam estar a viver juntos. Desde que a filha no tentasse disparates do gnero em Savannah... O que fazia na Califrnia era l com ela. Tinha mais de vinte 
e um anos e Beatrice Andrews estava consciente de que no poderia det-la. - Tens ido a festas? - Estava s a arranjar tema de conversa.
- No muito.
- Bom. Se no vais formar-te em Junho, quando  que regressas a Savannah?
Paxton suspirou.
- No sei... No sei nada. - Teve de engolir as lgrimas ao pronunciar as palavras, mas Beatrice Andrews no se apercebeu.- Se tiver de voltar s aulas, s comearei 
a trabalhar em Setembro. - Tinha planeado trabalhar para o Morning Sun. No entanto, tambm tinha planeado casar-se nesse ano e isso j no aconteceria. Nada iria 
acontecer-lhe. E, no meio do turbilho, Savannah parecia-lhe insignificante. - No sei quando irei a casa, mam.
- Bom, tenta vir passar uns dias este Vero. O pequeno James Carl est engraadssimo. - Parecia-lhe estranho ouvi-la falar com tanto entusiasmo do neto, mas Paxton 
sentiu-se contente por ela. At isso deixara de lhe interessar. A esperana de qualquer simulacro de entendimento entre elas h muito que se desvanecera.
- Tudo depender dos estudos - redarguiu. - No entanto, estava s a amenizar a situao. No sentia qualquer desejo de voltar l. Planeava acabar o curso, comear 
a trabalhar e talvez, se no lhe restasse alternativa, fosse a Savannah. no Natal.
Contudo, na maior parte do tempo no pensava neles.
S pensava em Peter, enquanto tentava acabar o curso. Havia dzias de trabalhos que no entregara, testes que tinha de repetir. Ao fazer a retrospectiva do trabalho 
nos ltimos quatro ou cinco meses, achava um milagre que lhe dessem oportunidade de deixar que se licenciasse. Todavia, quando o reitor a chamara e quisera saber 
a razo da descida das notas, pusera-o ao corrente da morte de Peter em Da Nang e, para eles, chegara como explicao.
Estava quase a comear a aferrar-se  tarefa em junho, quando, uma noite, ao regressar da biblioteca, j tarde, ouviu um grito lancinante. Olhou em volta e avistou 
algumas pessoas a correr. No conseguia imaginar o que acontecera. Um acidente? Uma manifestao? Mais gente tinha ouvido, e as pessoas comeavam a interrogar-se 
umas s outras sobre o que acontecera.
E,  semelhana de 1963, as pessoas gritavam e corriam, de rdios em punho e correndo para casa, a fim de ver televiso. Ao observ-las, Paxton sentiu um calafrio 
a percorrer-lhe a espinha. Ignorava o qu ou a quem, mas algo de terrvel acontecera.
- O que se passa? - perguntou a algum que se encontrava perto, quando se concentraram  volta de uma jovem com um rdio, sentada a chorar nos degraus.
- RFK... foi morto a tiro... em Los Angeles.
- Kennedy? - Algum esboou um aceno de cabea. Outro Kennedy. Outra morte. O irmo dele e, depois, Martin Luther King e o Vietname... e Queenie... e Peter.. e, 
agora isto... Era demasiado, repetira-se e prolongara-se em excesso. Todos eles se haviam preocupado tanto, com tantas coisas e, agora, todas as pessoas de quem 
gostavam estavam a morrer. Era uma maneira difcil de crescer, entrar na adolescncia, abdicar da esperana, tornar-se "adulto". E, afinal, quem se interessava? 
Quem queria o que eles tinham para dar? o que era to sagrado que matava todos os que lhe atribuam importncia? O facho acabara por queimar os dedos de todos.
- Ele est?... Chiu. - O som da rdio foi aumentado e a voz do locutor anunciou:
- Roberto Kennedy est morto. - Fora abatido a tiro, quando pronunciava o discurso da vitria depois das eleies primrias na Califrnia. Ganhara, perdera e morrera, 
tudo em simultneo. E o mesmo acontecera aos filhos,  mulher e s pessoas que o amavam.
Paxton ouviu, virou costas e regressou a casa, abandonando os livros nos degraus da biblioteca. No lhe interessava. No os queria.
Nessa noite, sentou-se na cozinha, s, a pensar, olhando pela janela e consciente de que nada lhe restava ali, nada que quisesse fazer ou aprender, ou levar com 
ela. Aprendera tudo o que queria, e as lies tinham-lhe custado caro. E neste instante apenas sentia tristeza. Nem desgosto, dor ou desespero, apenas tristeza. 
Robert Kenedy desaparecera e um nmero excessivo de muitos outros com ele. Nesse preciso momento, vinte e dois mil novecentos e cinquenta e um homens tinham morrido 
no Vietname.
Nessa noite, Paxton embalou algumas das suas coisas e arrumou, cuidadosamente, no armrio o resto dos seus pertences e dos de Peter. De manh, meteu-se no carro 
at  cidade e foi ao jornal falar com Ed Wilson. Quando a jovem entrou, ele apercebeu-se, imediatamente, do pressgio que carregava.
Todos no jornal andavam loucos por causa do assassnio de Kennedy. Outro Kennedy. Outro irmo. Outra vtima. No entanto, Paxton parecia estranhamente alheada e fria, 
tristemente mais velha. Era uma bonita rapariga, mas envelhecera. Os anos reflectiam-se nos olhos, na forma como se movimentava, nas coisas que no dizia mas sentia. 
Perdera demasiado e acreditara com demasiada intensidade. Acreditara no bem, na felicidade e na confiana.
E tudo no passara de mentiras. Nem sempre se verifica um final feliz. E Camelot no dura sempre. Para ningum. Envelhece-se, morre-se, ou por vezes morre-se novo. 
No seu breve percurso de vida, tinham morrido demasiados, e Ed Wilson, com todo o peso dos seus anos e o desgosto pelo filho, sentiu pena dela.
- Em que posso ser-te til, Paxton? - Tinha uma expresso grave, mas sorriu-lhe ao inclinar-se para a beijar. - Ests a emagrecer de mais. Precisas de vir jantar 
connosco mais vezes.
- Acabei de deixar as coisas do Peter em Berkeley.  A forma com o ela se expressou parecia-lhe estranha, e fitou-a, curioso.
Vais a algum lado? - inquiriu, franzindo o sobrolho perante a enorme tristeza que detectou nos olhos da jovem.
- Depende de si - retorquiu calmamente. - Resolvi abandonar os estudos.
- Julguei que tinhas conseguido um prolongamento para te licenciares em Setembro. - Ela informara-o quando o tinha obtido e sentira-se aliviado. Sabia o quanto significava 
para ela acabar o curso e, portanto, a declarao dessa manh surpreendeu-o. - O que se passa, Paxton? - quis saber.
Quase falava como um pai, e ela sorriu. Nos ltimos quatro anos, ele fora mais do que um pai para ela e interrogou-se sobre se, agora, lhe daria o que ela desejava. 
Mas, se no o fizesse, sabia a quem se dirigir.
- Quero um emprego.
- Tens um emprego aqui, quando quiseres. Sabes isso. No , porm, mais sensato ficares em Berkeley este Vero e licenciares-te? Qual  a pressa?
- No tenciono acabar a licenciatura. - Nessa manh, quando sara de casa, sabia que nunca voltaria. Apenas levara as coisas de Peter com que desejava ficar. Trs 
livros de poesia que ele lhe oferecera, o relgio que os Wilson lhe tinham dado e que ele usava desde mido e ela usava agora, bem como as chapas de identificao. 
- Quero trabalhar para si, Mister Wilson.
- Aqui? - perguntou, dando-se conta de que havia algo mais por detrs das palavras da jovem. E tinha razo. Ela abanou lentamente a cabea.
- No, aqui no. Pelo menos, ainda no. Quero ir para Saigo. - Pronunciou as palavras num tom calmo e tranquilo, mas ele fitou-a, de olhos arregalados.
Ela queria ir por todos os motivos errados. Para descobrir Peter. Para morrer. Talvez para o vingar. Ou talvez apenas porque tinha perdido a f no seu pas. Ele 
sabia perfeitamente que a morte deste segundo Kennedy, to pouco tempo depois da de Martin Luther King, abalaria a juventude da nao at ao mago, e tornava-se 
bvio que isso j acontecera a Paxton. Ela tinha um olhar destroado e mantinha-se sentada, muito direita, no seu escritrio, a imagem de uma jovem que desistira 
de tudo, ou perdera tudo, ou talvez as duas coisas. No entanto, fosse o que fosse que ela tencionasse fazer em Saigo, isso no a ajudaria.
- Est fora de questo.
- Porqu? - ripostou com um olhar chispante, e ele apercebeu-se de que, por mais errada que estivesse, seguiria em frente.
- Porque  um lugar para correspondentes experientes. Por amor de Deus, Paxton.  uma zona de guerra. Sabes melhor do que ningum o que pode acontecer por l. Mesmo 
que no te enviassem para os stios mais perigosos, podias ir pelos ares, quando estivesses sentada num bar, ou ser vtima de "fogo amigvel", como o Peter.
A simples meno do nome magoou-os a ambos, mas ele sabia que assim tinha de ser para bem dela. E nenhuma das contestaes da jovem poderia lev-lo a mudar de opinio, 
ou, pelo menos, assim o pensava, mas ela mostrou-se amargamente obstinada.
- H pessoas que vo para l combater e so mortas e so quatro anos mais novas do que eu.
-  isso o que queres? - perguntou-lhe, de lgrimas nos olhos. - Para morrer no mesmo lugar do que ele?  o presente que lhe ds?  tudo o que podes fazer com a 
tua vida, Paxton? Sei como te sentes. Tu e toda a tua gerao pensam que este pas vai a caminho do inferno, e no me sinto assim to certo de no estar de acordo 
convosco. Contudo, ir para Saigo numa misso suicida no  a resposta.
- Quero contar a verdade s pessoas daqui, seja qual for a verdade. Quero ver com os meus prprios olhos. Quero saber o que se passa, sem que mo impinjam no telejornal 
da noite. No quero ficar o resto da vida sentada numa biblioteca, confortavelmente e em segurana, lendo sobre a morte de outras pessoas.
- Queres, ento, morrer?  isso? - Ele tentava arrancar-lhe a confisso, porm, mesmo que fosse essa a verdade, Paxton jamais o admitiria.
- No. Quero a verdade. E, no seu caso, no quer sab-la tambm? No quer saber como  que ele realmente morreu? O que se passa realmente por l? Quero ver-nos sair 
daquele inferno do Vietname e quero saber porque  que ainda no o fizemos. E, se partir para l, no sou uma velha e cansada correspondente com opinies polticas 
ranosas, interesses pessoais a defender e um traseiro a proteger. E no, no quero morrer, mas... e se isso acontecer? Talvez seja por uma boa causa, talvez at 
valha a pena.
- Paxton!... - exclamou, sacudindo a cabea, atrs da secretria. - Nunca valer a pena. E tambm no vale a pena morreres pela misria que reina por l. Eu estava 
errado. Tu tens razo. E o Peter tambm tinha. No pertencemos quele pas. No acho que possamos ganhar. Tambm gostaria de nos ver de l para fora. E nunca julguei 
ouvir-me a pronunciar tais afirmaes. Na semana passada, avistei-me em Washington, com o novo secretrio da Defesa, o Clark Clifford, e ele convenceu-me. Se queres 
uma reportagem, vai falar com ele. Claro que te darei emprego. Vai onde quer que o desejes neste pas e arranja assunto de reportagem.
"S uma reprter nmada, uma agitadora, s o que quiseres - prosseguiu -, mas no vou mandar-te para o Vietname. Se alguma coisa te acontecesse, n o conseguiria 
sobreviver  culpabilidade. Devemos  memria do Peter cuidar bem de ti, e tambm lhe deves o mesmo. - Fitou Paxton com uma expresso severa, mas no a convenceu.
- Devo-lhe mais do que isso - arguiu, sem desviar os olhos semicerrados do homem que quase fora seu sogro, mas, agora, nunca o seria. - E tambm o senhor, Mister 
Wilson. - Levantou-se com uma expresso determinada. - No tenciono ficar aqui sentada, como uma cobarde,  espera de que outras pessoas encontrem as respostas. 
Vou, quer n11 envie ou no para l. Se tiver de o fazer, irei por minha conta e venderei as histrias de l. Talvez algum as queira. - Ele ps-se igualmente de 
p e fitou-a do outro lado da secretria, ao mesmo tempo que estendia a mo e lhe tocava no brao.
- Paxton, no...
- Tem de ser assim.
- Ele manteve-se a fit-la ciente de que a jovem j no era a rapariguinha que iria casar com o seu filho. Crescera da forma mais dura, com dor tristeza e uma amarga 
desiluso.
- No podes ser sensata? No podes esperar? Pensa nisso durante seis meses. Talvez nessa altura j estejamos fora daquele inferno - redarguiu num tom esperanado.
- No estaremos. Eles mentem-nos. E  isso o que agora quero ver com os meus prprios olhos.
- A tua experincia, Paxton, resume-se ao trabalho que fizeste para o jornal durante o Vero. No fazes ideia do que  ser uma correspondente num lugar daqueles. 
So necessrios anos de preparao para uma misso desse gnero.
Paxton sorriu tristemente, enquanto o escutava.
- Mas  curioso como no levam anos a preparar carne para canho, no  verdade? - replicou. - Mandam-nos de barco para morrer, quer estejam ou no preparados. Estou 
preparada, Mister Wilson, sei que estou.
E uma parte dele sabia que ela tomara a atitude correcta. Estava triste, era dura, esperta e preocupava-se... por causa de Peter. O velho jornalista que vivia nele 
estava convencido, mas como pai de Peter sentia que tinha de fazer tudo para a deter.
- Vai mandar-me? - insistiu Paxton fitando-o bem de frente; ele voltou a sentir vontade de chorar. Queria fazer tudo excepto mand-la, mas sabia que ela falava a 
srio. E, se no a mandasse, outra pessoa o faria, algum que a enviaria para as zonas de combate, onde talvez a matassem. Talvez pudesse proteg-la, se a contratasse.
- Concordarei, se me jurares que fars apenas o que pedirmos e seguires as instrues  letra. - respondeu.
Os olhos dela iluminaram-se como o 4 de Julho e, pela primeira vez desde h meses, pareceu feliz.
- Ouviste-me? - Dirigia-se-lhe como se ela fosse uma criana teimosa a quem estavam a dar licena para ir a uma festa, mas apenas sob determinadas condies.
- Mas nada de reunies sociais, nem desfiles de moda, combinado? - Ambos riram. No era provvel que qualquer das coisas fizesse parte do quotidiano de Saigo.
- Ests mesmo a falar a srio, Pax? Tens a certeza de que no consigo dissuadir-te? - Voltou a sentar-se pesadamente na cadeira, com uma expresso de derrota ao 
v-la abanar a cabea. E os olhos da jovem brilharam. Sara vitoriosa. Durante a noite anterior, ficara a saber qual a atitude a tomar e, pela primeira vez desde 
h muito tempo, sentia-se, se no feliz, pelo menos em paz.
- Sei que executarei um bom trabalho. juro. - Parecia entusiasmada, excitada e novamente viva. De certa maneira, sentia-se aliviado por ela, mas tambm assustado. 
Teria preferido que aquela disposio resultasse de ter conhecido qualquer rapaz na biblioteca. Ou at mesmo em Berkeley. Seria mais seguro.
- No estou preocupado com a qualidade do teu trabalho. Estou preocupado com o teu traseiro - confessou sem rodeios. - Acho bem que tomes conta dele ou aparecerei 
l para eu prprio te aplicar um bom pontap. Falo a srio. - Em seguida, soltou um grunhido e passou a mo pelo cabelo j branco mas que tanto se assemelhava ao 
de Peter. Tinham o mesmo cabelo, a mesma expresso, os mesmos olhos, mas Paxton tentava abstrair-se.
- A Marjorie vai matar-me por causa disto - prosseguiu. - E a Gabby... Oh, meu Deus, quase me esquecia. - Parecia horrorizado, quando olhou para Paxton. - Teve o 
beb na noite passada... um menino. Vo chamar-lhe Peter. - No era surpreendente. Nada o era j e Paxton sentiu-se feliz por ela. Uma vida por uma vida. Quando 
Robert Kennedy deixava o mundo, s mos de um louco, o rapazinho de Gabby entrava nele, com uma vida cheia de esperanas pela frente e Peter observava-os, desejando-lhes 
tudo de bom e emprestando-lhe o seu nome, de que j no precisava* Os espritos iam e vinham, trocando de lugar, e alguns sonhos findavam enquanto outros comeavam. 
Era estranho pensar em tudo isto.
- Sinto-me feliz por eles. A Gabby est bem?
- ptima. Telefonou-nos logo depois de ele ter nascido de parto natural e, segundo o Matt, foi muito fcil. Tenho a - certeza de que gostariam de te ver. - Paxton 
esboou um aceno de cabea, mas seria estranho olhar para o rapazinho que teria o nome de Peter. Paxton sabia que agora no teria filhos nem marido. Apenas desejava 
ir ao Vietname e descobrir a verdade sobre a guerra. Era estranho como a vida mudava. Todos os sonhos que outrora  albergava tinham desaparecido. Harvard e depois 
Berkeley, e Peter... Agora s queria ver o que estava, de facto, a acontecer e contar a todos os Americanos, para que eles soubessem porque  que os maridos e os 
filhos estavam a morrer no Vietname.
- Daqui a quanto tempo parto?
- Paxton queria lev-lo a assumir um compromisso, e ele sabia. Consultou o calendrio, tomou algumas notas e, em seguida, ergueu os olhos na sua direco.
- Estas coisas levam algum tempo. Tenho de falar com o nosso chefe de redaco de l e ver o que precisamos...
- No vou esperar seis meses.
- Sei que no - replicou num tom calmo. - Estava a pensar numa semana, talvez duas, trs no mximo. Precisars desse tempo para te organizares, arranjares os documentos 
e apanhares as vacinas necessrias. Digamos duas semanas. Parece-te razovel? - Ela esboou um aceno de concordncia, surpreendida por ter ganho. Esboou-lhe um 
sorriso. Conseguira.
- Muito razovel. Pensei ir passar uns dias a casa para me despedir da minha me.
- Faz isso. Telefono-te para l a dizer quando precisamos que voltes. Podes comear a apanhar as vacinas l. Sei que precisars de bastantes. O teu irmo pode encarregar-se 
disso, se estiver disposto.
Interrogou-se sobre se a famlia tambm tentaria impedi-la, mas conhecia-a o suficiente para saber que, agora que tomara a deciso, nada conseguiria det-la. Era 
uma rapariga forte, com bom corao, e ele sabia melhor do que ni
guem que uma parte do mesmo ficara destroado. Voltou a levantar-se e deu a volta  secretria, avanando ao encontro dela.
Tem sido um ano difcil para todos ns, Pax - declarou.
S espero que no estejas a cometer um erro terrvel. - Apertou-a com fora e beijou-a no alto da cabea. - No queremos perder-te tambm.
- No perdero - sussurrou, correspondendo ao abrao. E, naquele momento, invadiu-a a estranha sensao de que tudo correria bem, pois tinha a bno de Peter.


CAPTULO 10

Paxton chegou a Savannah numa sexta-feira  tarde, dois dias depois de Robert Kennedy ter sido assassinado a tiro, a tempo de assistir no sbado, pela televiso, 
ao transporte do corpo de comboio atravs do pas, enquanto as pessoas de todas as cidades acenavam, chorando mais uma esperana perdida, mais uma dor. E, desta 
vez, ningum foi esperar Paxton ao aeroporto.
Telefonara  me, informando-a de que chegaria de avio, mas a me tivera de ir a um ch oferecido pelo clube de bridege. E Paxton no se importou, pois deu-lhe 
oportunidade de ir para casa sozinha, sentar-se na cozinha e pensar em Queenie.
A me tinha contratado uma rapariga depois de ela morrer, igualmente de cor, mas mais nova. S trabalhava a dias e fora comprar mercearias quando Paxton chegou, 
o que, de certa forma, constituiu um alvio. Pde, assim, ficar sozinha na cozinha de Queenie.
Era estranho estar ali sem ela, e Paxton sentiu um desgosto terrvel ao recordar-se das ltimas palavras da velha ama, da ltima vez que viera a casa: "s vezes, 
quando se espera, a vida no nos d oportunidade de fazer o que se quer". Tinha razo. Mas, agora, Queenie j o sabia pois, se existia um paraso, decerto estaria 
l com Peter.
O bater de uma porta interrompeu os pensamentos de Paxton e ouviu passos rpidos na entrada principal. Era a empregada nova e quase soltou um grito ao avistar Paxxie.
- Desculpe. Sou Paxton Andrews. Acabei de chegar da Califrnia. No era minha inteno assust-la. - A rapariga fitou-a, assustada, durante uns momentos e, depois, 
descontraiu-se. Rondava a idade de Paxton e tinha um rosto meigo, mas era baixa, pesada e no muito bonita.
- Anda na universidade da Califrnia?
- Exacto.
- Licenciou-se? - inquiriu, prudente, como se se tratasse de algo muito importante.
Paxton abanou a cabea como resposta.
- No, no me licenciei. - Absteve-se de lhe dizer que tinha vindo a casa para se despedir da famlia antes de partir para o Vietname. Tinha de dizer primeiro  
me. Limitou-se a conversar amistosamente e ajudou a rapariga a levar as mercearias para a cozinha. A me chegou meia hora mais tarde.
Paxton teve a sensao de que ela envelhecera e no sabia bem porqu. Estava com bom aspecto e arranjara o cabelo, mas tinha uma expresso cansada e emagrecera, 
desde a ltima vez que Paxton a vira. Garantiu, contudo, que se sentia bem e disse  filha que a achava magra. Pediu, depois, a Emmalee que levasse ch e biscoitos 
de canela para a sala da frente.
Aps ter bebido um gole, Beatrice Andrews fitou-a com intensidade e indagou o motivo da vinda. No tinha nada de parva e pressentira que a viagem era mais do que 
uma visita amigvel. Sabia que Paxton no gostava de vir a casa e que, se pudesse evit-lo, o faria.
- Vais casar-te? - inquiriu com um olhar estranho. Era um olhar de desapontamento, pois sabia quem seria, indubitavelmente, o rapaz e ele no era do Sul. A voz denotava, 
por outro lado, alguma excitao, pois a sua nica filha estava prestes a ficar noiva, mas Paxton limitou-se a abanar a cabea, com pena de a desiludir.
- No, no vou. Lamento que isso no esteja nos meus planos. - Falava calmamente, e a me observou-a com estranheza, pressentindo algo mais, mas Paxton no estava 
disposta a explicar.
- Deixaste de andar com aquele rapaz? - Peter sempre fora "aquele rapaz" para ela, e agora as palavras provocaram um sorriso em Paxton.
H dois meses que ele morrera, e o primeiro choque da dor desvanecia-se lentamente. Apenas restava o torpor da descrena e o desgosto que sentia ir permanecer eternamente- 
Conseguia, no entanto, sobreviver e ningum sabia quanto lhe doa, exceptuando talvez os Wilson e os outros que haviam sofrido perdas idnticas. No entanto e por 
qualquer estranha razo, agora que partiria para o Vietname, sentia-se melhor, embora a dor no a tivesse abandonado.
- Eu... Bom... - engasgou-se, buscando as palavras certas. -  um pouco difcil de explicar. No tem importncia. - "No tem importncia, mam. Ele morreu,  s 
isso. " Era, contudo, incapaz de imaginar a me a partilhar a sua tristeza, e por isso nunca lhe contara. Teria sido doloroso de mais.
- Passa-se alguma coisa? - insistiu Beatrice Andrews, que no estava disposta a abandonar a conversa, e o seu olhar penetrante provocou um estremecimento involuntrio 
em Paxton. No havia forma de lhe escapar. - O que aconteceu?
- Ele... ele... - Ouvia o tiquetaque do relgio do av num canto da sala e focou o olhar nos reposteiros para no ter de enfrentar o olhar da me quando lhe contasse. 
- Ele... foi para o Vietname... e foi morto em Da Nang, em Abril. - Seguiu-se um silncio interminvel, e Paxton amaldioou-se, ao mesmo tempo que os olhos se lhe 
enchiam de lgrimas; de sbito, apercebeu-se de que a me se movia ao seu lado. Virou-se, surpreendida, e viu que a mulher que fora uma estranha para ela durante 
toda a vida estava a chorar.
- Lamento muito... Sei como deves sentir-te... Que coisa terrvel... - Colocou os braos  volta de Paxton e a jovem ps-se a chorar, aconchegada  me. Chorava 
novamente por Peter, pelos Kenedy, Queenie e Martin Luther King... e at mesmo pelo pai... Porque  que todos tinham morrido? Porque haviam desaparecido? Porque 
 que o avio dele fora apanhado pela tempestade? E porque  que ela no casara com Peter quando o devia ter feito?
Tentou comunicar  me o que sentia, mas as palavras saam-lhe num turbilho. A me embalava-a suavemente para a frente e para trs, como nunca o fizera antes, trazendo-lhe 
uma estranha recordao de Queenie.
- Porque no me disseste? - Notava-se uma ligeira reprovao na voz, mas o olhar indicou a Paxton que ela se importava mais do que alguma vez suspeitara.
- No sei. Talvez o facto de te dizer tornasse tudo mais real. Acho que simplesmente no fui capaz.
- Que coisa horrvel para a famlia.
- A Gabby, a irm dele, teve um filho h dois dias e chamou-lhe Peter. - No entanto, esta afirmao provocou nova torrente de lgrimas em Paxton, pois sabia que, 
agora nunca teria filhos dele.
Permaneceram sentadas durante horas, chorando, bebendo ch e chorando novamente. A jovem chorava, aparentemente, por todos e por tudo, buscando a compensao de 
uma vida. Por fim, envolveu a me nos braos e agradeceu-lhe. Era a primeira vez que existia qualquer ligao entre ambas.
- Sei como te sentes - replicou a me, e Paxton surpreendeu-se. - Lembro-me de como me senti quando o teu pai morreu... Fiquei confusa durante muito tempo... e irritada 
e triste. Vais levar muito tempo a recompor-te, Paxton. Pode ser uma dor eterna. No te atormentar todos os dias e em cada minuto, mas, sempre que pensares nele, 
haver tristeza no teu corao pelo que aconteceu. Um dia, surgir outra pessoa - continuou, dando uma palmadinha na mo da filha. - Ters um marido e filhos, mas 
continuars a record-lo e am-lo-s para sempre.
Paxton absteve-se de responder que no imaginava outro homem na sua vida, ou filhos que no fossem dele, mas sabia que a me tinha razo ao afirmar que o amaria 
eternamente. Em seguida, a me fez a pergunta que Paxton desejava s ter surgido mais tarde.
- Virs para casa em Setembro, minha querida? No h motivo para que fiques na Califrnia.
Afinal, tinham sado vitoriosos. Ela regressaria a casa. A ligao amorosa com "aquele rapaz" terminara. Contudo, Paxton limitou-se a abanar a cabea e esperou, 
buscando as palavras exactas para lhe responder. De sbito, morrera em si o desejo de a magoar. A me dera-lhe, finalmente, algo de que h muito necessitava e queria 
agradecer-lhe e no desgost-la. Mas no lhe restava alternativa.
fui - Deixei, ontem, a universidade. - " ... e a casa onde to feliz com o Peter... Deixei tudo... porque o Robert Kenedy foi assassinado e no consigo suportar 
nem mais um minuto a loucura deste pas". Ia, portanto, para um pas ",da mais louco mas pelo menos, ali a loucura estava a descoberto.
- Deixaste de vez? - inquiriu a me, parecendo chocada, pois sabia que desistir no se coadunava com o temperamento de Paxton.
- Era simplesmente incapaz de continuar. Nos prximos dez anos, no conseguiria fazer nenhum trabalho, nem submeter-me a um teste. j no faz sentido. Nem consigo 
lembrar-me porque  que desejei comear.
- Mas  o ltimo perodo! - exclamou a me, confusa, interrogando-se subitamente sobre se Paxton no teria enlouquecido um pouco. - Podias licenciar-te no Outono. 
No vais desperdiar tudo por que lutaste, Paxton? Ests  beira da meta.
Paxton esboou um aceno triste. Era verdade. A me tinha toda a razo. Mas no conseguia.
- Eu sei. Mas, desde que o Peter partiu, sou incapaz de me concentrar. Desde que ele saiu de casa para o treino bsico em janeiro, no fiz um nico trabalho.
-  compreensvel. Talvez possas acabar aqui. E arranjar um emprego no jornal. Sabes como te querem l. - Estava a tentar encoraj-la, e Paxton sentiu pena dela. 
No fazia ideia do que a esperava.
- Mam... - Estendeu o brao e tocou-lhe na mo, ainda agradecida pelo conforto que ela lhe dera relativamente a Peter. - Aceitei um emprego, ontem. - Paxton falava 
quase em surdina.
- Em So Francisco? - replicou Beatrice Andrews com uma expresso sombria.
Seguiu-se uma longa pausa, enquanto Paxton procurava a melhor maneira de responder.
- No Morning Sun - declarou, por fim. - Mas no em So Francisco.
- Onde ento? - redarguiu, mas sem ter a mnima suspeita.
- Vou ser correspondente em Saigo. - Fez-se um silncio interminvel na sala; depois, a me ocultou subitamente o rosto nas mos e comeou a soluar, e desta vez 
foi Paxton a ampar-la. Em seguida, virou-se para fitar a filha que mal conhecia, como se ela fosse a total estranha de sempre.
- Como podes fazer uma coisa dessas? Ests a tentar matar-te? Queres suicidar-te? Tambm senti o mesmo depois de o teu pai morrer - declarou, assoando-se, com elegncia, 
a um lencinho rendado -, mas tinha de pensar em ti e no George. E no teu futuro. Sei que agora tudo te parece rido, mas vai passar, Paxton. Ters de ser paciente.
- Eu sei, mam... Sei como tudo parece. Mas trata-se de qualquer coisa que tenho de fazer. No posso ficar sentada aqui  espera de que a vida siga o seu curso. 
Quero estar no Vietname. Quero compreender o que aconteceu. Quero impedir que continue a acontecer. Quero ajudar a deter a guerra mais rapidamente. Quero chamar 
a ateno das pessoas. Sentamo-nos, noite aps noite, vendo gente a morrer enquanto jantamos e ningum se importa, ningum pestaneja sequer. Mesmo que apenas consiga 
abolir dez minutos de guerra, bastar. Talvez cinco pessoas tivessem sido mortas nesses dez minutos.. Talvez algum dos meus actos possa salv-las.
- E se, em vez disso, fores morta, Paxton? E se fores tu e no outra pessoa? j pensaste nisso?... E no que me far? s uma mulher! No tens de ir para a guerra, 
Deus do cu. Ainda ests sob a loucura resultante da morte desse rapaz. Tens de ficar em casa e sarar as feridas. Fica aqui. No voltes. - Estava a suplicar-lhe, 
e Paxton sentia o corao despedaado, mas sabia que tinha de ir. Era o seu destino, agora.
- Tenho de ir, mam. Prometo-te, todavia, que serei cuidadosa. No vou deixar que me matem. - Sabia que Ed Wilson tinha pensado o mesmo, o que a levava a interrogar-se. 
E havia momentos em que se sentia tentada a ir juntar-se a Peter, momentos em que, ao conduzir na ponte, pensava em parar o carro e saltar. Mas no o fazia. E agora 
sabia que linha de fazer algo muito mais importante do que fugir.
No vs... Paxton, suplico-te...
Por favor, mam. - E, pela segunda vez no que parecia ter sido uma vida, as duas mulheres abraaram-se. o gelo quebrara-se, o elo formara-se, mas era demasiado tarde 
para que Paxton voltasse atrs. Viera a casa despedir-se, e a me sabia-o.
Passaram as duas semanas seguintes a conversar calmamente sobre o pai e como a me se sentira quando ele morrera. Por fim, ela foi mesmo ao ponto de falar da outra 
mulher. Tratava-se de uma mulher com quem ele trabalhava, e Beatrice estivera a par da ligao. Soubera como ele se sentia s, mas no era capaz de lhe dar o que 
ele desejava. E confessara que ficara aliviada por algum mais poder faz-lo. Apenas se sentira magoada quando ele morreu e toda a gente descobriu que tinha havido 
uma outra mulher na sua vida.
Paxton achava que era uma forma estranha de pensar; porm, mesmo agora, com aquela permuta recm-encontrada, conclua que ela e a me eram muito diferentes. Uma 
to fria, to distante, to desprendida, to receosa de se entregar, de perder o controlo, de demonstrar emoes; a outra to franca, to apaixonada, to profundamente 
envolvida e comprometida, at mesmo no seu desgosto aps a morte de Peter. E, em muitos aspectos, Paxton era muito parecida com o pai.
O irmo George tambm tentou dissuadi-la de ir para o Vietname, mas, tal como a me, apercebeu-se com o passar dos dias que era intil. Paxton estava decidida. Ministrou-lhe 
as vacinas e, por fim, quando Ed Wilson telefonou e lhe disse que voltasse para receber instrues, George, Allison e a me acompanharam-na ao aeroporto e, desta 
vez, at mesmo Paxton chorou ao deix-los.
Sentia-se como se partisse para sempre. Mesmo que voltasse, nunca mais seria o mesmo e ela sabia. Partira uma criana e regressaria diferente, com as cicatrizes 
da guerra, mais conhecedora, ou talvez mais amarga. Mas nunca voltaria a ser uma criana. A criana que fora Paxton Andrews desaparecia com os outros.

CAPTULO 11
As despedidas em So Francisco no foram mais fceis do que as de Savannah. Na verdade, embora a me se tivesse aproximado devido  morte de Peter, as despedidas 
em So Francisco revelaram-se muito mais difceis. Gabby chorava ininterruptamente, e a me de Peter mostrava-se destroada por o marido ter acedido a dar-lhe o 
emprego em Saigo. E acusou-o, sem rodeios, de ser to doido como Paxxie.
Na noite em que partiu, todos a acompanharam ao aeroporto. Arranjaram-lhe lugar num avio militar que saa da Base Area de Travis. Tinha os certificados de vacina, 
o passaporte, os vistos, os documentos do Morning Sun e todas as instrues sobre quem contactar e onde, e o local de alojamento. Tinham-na registado no Hotel Caravelle 
na Tu Do e o Sun oferecera-lhe um dicionrio vietnamita.
No entanto, as despedidas foram o que mais lhe custou. Dizer-lhes adeus foi terrvel. Estar em Travis recordava a todos quando se tinham despedido de Peter. E at 
mesmo o pai de Peter chorou quando abraou Paxton, a beijou na face e lhe recomendou pela milionsima vez que tivesse cuidado.
- E se chegares l e mudares de opinio, peo-te, por amor de Deus, que no sejas idiota. D meia volta e regressa a casa. Acho que ests a cometer um erro crasso 
com a tua ida. No sejas orgulhosa em admiti-lo e volta rapidamente.
- Assim farei - prometeu-lhe com lgrimas nos olhos. - Amo-vos. - Aprendera a dizer tudo, enquanto podia. Nunca se sabia o que ia acontecer. - Tomem cuidado. - Voltou 
a beij-los a todos, enquanto chamavam o seu voo. - Tenho de ir. Prometam que escrevero.
- Tem cuidado contigo - exortou-a Marjorie, tentando no pensar no filho. - Ateno ao que comes! - Todos riram, e Gabby e Paxton abraaram-se. Tudo comeara com 
elas, As duas raparigas, que se amavam como irms, desde h quatro anos.
- Amo-te, minha doida. Tem cuidado, Paxxie, por favor- Se te acontecer qualquer coisa, morrerei... - Paxton



CAPTULO 12

Paxton permaneceu acordada desde a Base da Fora Area de Travis ao Havai, embora, quando chegaram, j fosse quase meia-noite para ela; e assim continuou durante 
a maioria do percurso at Guam, tendo mesmo falado com alguns dos homens, enquanto esperavam pela vez de ir  casa de banho.
A maioria dos rapazes era idntica quele com quem chocara ao subir a bordo do avio. Mal parecia terem dezoito anos: eram jovens, estavam assustados e, quando se 
descontraam um pouco, tornavam-se maliciosos. Vrios pediram-lhe para sair com eles, alguns mostraram-lhe fotografias das namoradas, mes e mulheres e, na sua maioria, 
eram dos mais inexperientes dos novos recrutas. O eptome da palavra que estavam prestes a atirar-lhes, noite e dia, aps chegarem: "Sementes verdes".
Alguns dos mais velhos que viajavam com eles j haviam estado antes no Vietname e, por sua prpria escolha, regressavam para mais uma incurso. Era nestes que Paxton 
estava interessada, e dois deles partilharam o usque das garrafas com ela na viagem para Guam, nessa altura a metade do caminho entre So Francisco e Saigo.
. Queria saber o que se passava por l, porque  que queriam voltar, porque  que gostavam ou detestavam o local, qual a essncia e o significado para eles; porm, 
ao escut-los, no estava certa de os compreender.
Referiam-se-lhe como uma merda de stio, achavam que Os Vietcongues eram uns filhos-da-me, que Charlie' matara os amigos deles e falavam, em simultneo, da beleza 
do pas, da, montanhas, dos rios, do verde dos montes, do fedor, dos cheiros, do perfume, das mulheres, das prostitutas, dos amigos que amavam, dos camaradas mortos 
e do perigo.
Era difcil tirar concluses, excepto se j l se estivesse estado.
Charlie, era o nome dado aos habitantes ou soldados do Vietname.
E aparentavam um curioso respeito ante o inimigo sua feroz lealdade  causa, a coragem com que lutavam e por nunca desistirem at  morte. Tratava-se de uma estranha 
admirao pelos adversrios. Referiam-se bastante a Charlie e achavam que os oficiais eram uma cambada de idiotas, que nunca sabiam o que estava a passar-se. E, 
mais importante ainda, achavam que no havia forma de a Amrica poder ganhar a guerra no Vietname.
- Ento, porque voltam? - replicou calmamente, e os dois homens entreolharam-se e, em seguida, desviaram o olhar; esperou o que lhe pareceu um longo espao de tempo. 
E, quando eles responderam, quase compreendeu.
- Deixou de parecer justo estar nos Estados Unidos - explicou um deles. - Todos os midos nos odeiam por isso e sentimo-nos traidores ao voltarmos a casa. Mas, de 
regresso ao Vietname, os nossos camaradas morrem no lodaal, pisam minas... - O homem que lhe falava rangia os dentes ao faz-lo e no dava por isso. - Vi o rosto 
do meu melhor amigo ir pelos ares... Os meus dois outros melhores amigos desapareceram em combate ... e no posso... no posso voltar para casa e ficar sentado ... 
Tenho de voltar para os ajudar, pelo menos at algum ser esperto bastante para nos tirar daquele inferno.
- Sim - concordou o outro homem com um aceno de cabea, sabendo perfeitamente o significado daquelas palavras. - No h espao para ns l. Agora, somos ns os cabeas 
de merda. Nem Charlie. Nem o presidente. Ns, somos ns os maus... os rapazes que morrem por eles. Mas a verdade  que ningum se importa. Temos os traseiros pregados 
l, e os tipos do alto no nos deixam fazer estragos a srio, pois receiam que os Russos ou os Chineses se chateiem. Assim, deixam que levemos um tiro nos tomates, 
no Vietname. Quer saber porque vou voltar? Para ajudar os meus camaradas at todos podermos regressar a casa-
Ele no tinha mulher nem filhos e apenas se preocupava com os amigos que tinha no exrcito.
No entanto, ela tambm os intrigava. E acabaram por lhe dirigir perguntas.
- E no seu caso? O que vai fazer para l?
- Vou ver o que se passa realmente.
- Porqu? Em que  que pode interessar-lhe?
Paxton reflectiu longamente e no planeava contar a ningum, mas era demasiado tarde e sabia que nunca mais veria aqueles rapazes. Meteu a mo por dentro da camisa 
e tirou do interior as chapas de identificao de Peter que trouxera com ela. Mostrou-as aos dois homens, que esboaram um aceno de cabea, pois sabiam o que significava.
- Morreu em Da Nang - explicou. - Quis saber o que se passava.
-  um lugar de doidos - redarguiram, com um novo aceno e, em seguida, o mais velho dos dois sorriu. - Que idade tem?
- Vinte e dois - respondeu, correspondendo ao sorriso e depois de uma breve hesitao. - Porqu?
- Sou dois anos mais velho e  esta a minha terceira ida. Garanto-lhe que vi coisas por l que no desejaria que nenhuma irmzinha minha alguma vez visse. Tem a 
certeza de que sabe o que vai fazer a Saigo?  muito longe de casa.
- J sabia. - Na verdade, ainda no conseguia imaginar bem a situao. Despediu-se deles, regressou ao lugar e dormiu o resto da viagem, at Guam.
Aterraram em Guam s nove da manh para eles e duas da manh, hora local, no dia seguinte. Permaneceram uma hora a reabastecer o avio e depois continuaram rumo 
a Saigo. A chegada estava prevista para as cinco da manh, hora local. E, durante o percurso, ela pensava, insistentemente que Peter fizera essa mesma viagem, h 
pouco mais de dois meses.
Pousaram no aeroporto de Tan Son Nhut, na principal base militar,  tabela pouco depois das cinco da manh, e Paxton sentiu-se desapontada por no conseguir divisar 
a paisagem. Todos falavam do verde do Vietname. Em vez disso, apenas conseguiu avistar fogo-de-artifcio quando desciam e interrogou-se sobre o que significava. 
O soldado que ia ao seu lado riu-se quando lhe perguntou se era feriado nacional.
- Sim. Acho que pode chamar-lhe assim. Eles chamam-lhe guerra.  a artilharia... e aquilo so projcteis luminosos disparados... oh... diria algures na proximidade 
de Biei, Hoa... Vai adorar isto por aqui. Temos fogo-de-artifcio sempre que os nossos pssaros largam os ovos sobre Charlie.
Paxton sentiu-se irritada com a atitude dele; tratava com uma leve condescendncia e parecia divertido. Era embaraoso aperceber-se de que cometera um erro crasso.
Transportou a bagagem quando desceram, e os rapazes que lhe tinham falado pareciam esquecidos da sua presena. Tinham os seus prprios problemas com que se ocupar. 
E meteram-nos em camies, praticamente assim que chegaram ao aeroporto.
No tinha ningum  espera dela no aeroporto e, quando pegou nas malas e se ps  procura de um txi, achou-se muito corajosa. No falava uma palavra de Vietnamita 
e sentiu-se, subitamente, como se no tivesse um nico amigo no mundo.
Havia uma fila de carros em mau estado  sada do terminal e viam-se soldados americanos por todo o lado. Aquela era a principal base militar de Saigo e, por alguns 
momentos, sentiu-se em segurana.
- Ol, boneca. Bem-vinda a Saigo! - soou uma voz, e ela virou-se para ver a quem se referiam, concluindo, aborrecida, que era ela o centro das atenes do negro 
com sotaque do interior do Sul.
- Obrigada! - replicou, acentuando o seu sotaque de Savannah.
- Luisiana? - interessou-se o negro e, desta vez, ela riu.
- Jrgia.
- Merda! - exclamou e prosseguiu caminho apressadamente.
O dia ainda no rompera, mas j havia muita gente desperta e ocupada. Fez sinal a um dos motoristas da fila de txis. Era um Renault azul e amarelo, e o homem usava 
sandlias e cales, tinha um rosto magro e uma farta cabeleira preta.
Women's Army Corps: Corpo de Exrcito Feminino. (N. da T-)
 do Wac? - inquiriu, alto de mais.
Os barulhos ali pareciam redobrados. At mesmo quela hora da manh, ouvia  distncia vozes elevadas e buzinas. E pairava um cheiro acre, uma espcie de perfume 
feito de flores, especiarias e gasolina. Sentia o cheiro a combustvel por todo o lado e, ao olhar em volta, teve a sensao de que havia uma nuvem de fumo por cima 
deles.
- No, no sou do Wac - explicou, questionando-se sobre o interesse do homem.
- Do Wave?
- No - elucidou, desejando somente meter as malas no carro, depois daquela viagem de mais de vinte horas. - Leve-me, por favor, ao Hotel Caravelle.
- Prostituta? - replicou o homem, finalmente impressionado, e Paxton no sabia se havia de rir, chorar ou dar-lhe uma simples resposta afirmativa.
- No - respondeu num tom firme, enquanto arrumava as malas no carro. - Jornalista. - J sabia, por intermdio de um pequeno dicionrio, que era uma baochi - uma 
correspondente, em Vietnamita. No se atreveu, porm, a tentar falar a lngua desconhecida.
O motorista abanou a cabea. Recusou compreender, ao mesmo tempo que se colocava atrs do volante e se virava para a observar, interrogando-se sobre quem ela era 
realmente.
Militar? - "Merda! Era bvio que nunca mais chegaria a Saigo. "
- Jornal - voltou a tentar. E, desta vez, fez-se luz.
- Oh! Muito bom! - Quase lhe gritava e, ao deixarem a base, conservou a mo permanentemente na buzina. O rudo era quase ensurdecedor, mas,  volta deles e apesar 
da hora, parecia haver uma cacofonia de buzinas. - Quer comprar droga? - perguntou, alegremente, no caminho para Saigo.
Ali era tudo to simples. "Prostituta? Quer comprar drogas?" Devia ter sido excitante para os jovens que tinha visto e nunca haviam sado de casa.
Wave: In . tegrante do corpo feminino da marinha denominado Wave
(Women Accepted for Volunteer Emergency Service). (N. da T.)
- Drogas, no. Hotel Caravelle. - Repetiu s para se certificar de que ele entendera. - Em Tu Do. - Era, segundo parecia, a rua principal ou, pelo menos, fora o 
que lhe dissera o homem encarregue dos correspondentes estrangeiros no Sun. E Ed Wilson insistira para que a alojassem l, porque era um dos melhores da cidade e 
o mais limpo. A sede da CBS era nessa rua, e ele achava que Paxton estaria mais a salvo ali do que em alguns dos outros hotis em Saigo.
- Um cigarro? - ofereceu o motorista e ela rezou para que no lhe oferecesse mais nada durante o percurso de seis quilmetros at  cidade. - Ruby Queen - acrescentou, 
identificando a marca favorita no Vietname.
- No, obrigada. No fumo - explicou, ao mesmo tempo que vrias scooters e um Citron antigo pareciam ultrapass-los a rasar. O motorista respondeu pousando as duas 
mos na buzina,  semelhana do que faziam os demais condutores. Recostou-se no banco e tentou respirar fundo, mas o cheiro dos escapes quase a sufocou.
 medida que avanavam rumo a Saigo, verificou que os prdios se tornavam mais bonitos e notava-se mesmo um certo toque parisiense ao aproximarem-se do centro de 
Saigo. Apesar de ser ainda muito cedo e do recolher obrigatrio, havia muito movimento nas ruas. Algumas pessoas seguiam de bicicleta, outras de riquex, e ouvia-se 
o som de vozes e de buzinas por todo o lado.
Vrios edifcios estavam pintados de cores vivas e outros ostentavam a solenidade da pedra. Ao chegarem a Saigo, o motorista conduziu-a junto ao Palcio Presidencial 
e  Baslica de Nossa Senhora da Paz; seguiram pela Avenida Nguyen Hue orlada de rvores encantadoras e passaram pela Cmara Municipal. Ao deixarem ficar para trs 
o Edifcio Salem na praa, avistou subitamente, a famosa Esttua dos Fuzileiros. E, nesse momento, Paxton comeou a vislumbrar melhor onde se encontrava.
Sabia que naquela praa, no Edifcio den, encontraria as instalaes da Associated Press e da NBC. Minutos depois, identificou o Continental Palace, quando viraram 
para a TU Do e sabia, por intermdio do homem do Sun, que havia ali um simptico bar chamado Terrasse e os escritrios da revista Time.
Ao passarem junto da Assembleia Nacional, o motorista abrandou e virou-se para trs com um sorriso semidesdentado. Era impossvel adivinhar-lhe a idade. Poderia 
ter entre vinte e cinco e sessenta anos.
- Quer ir ao Pink Nightclub no Hotel Catmat esta noite? Venho busc-la para jantar.
No, obrigada - recusou, optando por usar um tom firme. - Hotel Caravelle, por favor. Esta noite, tenho de trabalhar para o meu jornal. - Esforou-se por parecer 
determinada e distante.
- No prostituta? - insistiu, esperanado, e Paxton desejava intimamente que ele a levasse para o hotel e nunca mais viesse procur-la.
E, subitamente, chegaram ao Caravelle e ela s queria sair, afastar-se dele, fazer o registo e deitar-se. Sentia-se exausta, mas arrebatada por estar ali. O motorista 
indicou-lhe a quantia a pagar e ela teve conscincia de que a enganava, mas desta vez estava demasiado cansada para oferecer resistncia.
Percorreu o trio do Caravelle, transportando as malas, no momento em que o hotel comeava a ganhar vida com a presena de algumas jovens vietnamitas, que limpavam 
o cho. Ainda era muito cedo, mas o Sol no tardaria a recortar-se no horizonte e o hotel fervilharia de gente. O trio apresentava-se cheio de uniformes de patentes 
elevadas, visitantes do estrangeiro, na maioria da Europa e das belas raparigas vietnamitas, que avanavam ao seu encontro.
- Andrews - indicou  bonita recepcionista vestida com um ao dai branco, o trajo tradicional vietnamita constitudo por calas e uma longa tnica justa ao corpo. 
Na sua maioria, esses fatos eram brancos, mas havia alguns estampados ou de cores vivas.
- Andrew? - repetiu a jovem, fitando momentaneamente Paxton com um olhar vago.
- Paxton Andrews. Do Morning Sun, em So Francisco, - Paxton estava demasiado cansada para se mostrar simptica ou paciente. Tudo o que queria era um duche e deitar-se. 
At mesmo quela hora da manh o ar era asfixiante. No estava preparada para o calor sufocante e as ventoinhas do tecto aparentemente em nada ajudavam, enquanto 
a recepcionista consultava o livro de registos e sacudia a cabea.
- Mister Andrews ainda no est.  a mulher? A esposa?
"Merda", murmurou intimamente.
No - explicou. - Sou Paxton Andrews.
Reparou em dois rapazes vietnamitas que a escutavam com um sorriso no momento em que dois homens se encontravam na recepo. Um deles tinha vindo no avio. O outro 
chegara da rua. Preparavam-se para comear o dia cedo e brindaram Paxton com um prolongado olhar apreciativo. Um era robusto, moreno e na casa dos trinta e tal, 
e o outro era bastante mais velho e denotava uma expresso preocupada. Reparou neles, mas no estava interessada em conversar ou saber quem eram. De momento, queria 
apenas o seu quarto, um duche e deitar-se. No entanto, a recepcionista no dava mostras de a compreender.
- Sou Paxton Andrews - repetiu.
- Mister Andrews? - retorquiu a jovem com uma risada e a prpria Paxton viu-se forada a rir. No espao das duas horas que passara no Vietname, tinham-lhe chamado 
homem, boneca e prostituta. Era, sem dvida, um comeo interessante.
- Sim - voltou a explicar. - Sou Paxton Andrews. Tem um quarto para mim? - A jovem esboou, por fim, um aceno de cabea; e, enquanto os dois homens observavam disfaradamente 
a cena, a recepcionista fez sinal a um mido que no deveria ter mais do que oito anos e entregou-lhe a chave de um quarto no terceiro andar, muito abaixo do famoso 
bar no ltimo piso.
Paxton seguiu-o pelas escadas, e o rapazinho dava o seu melhor para levar o saco, enquanto ela se encarregava da mochila. Ao chegarem ao quarto, deu-lhe vinte e 
cinco piastras e ele esboou um sorriso, fez uma vnia e desceu as escadas a correr. Era um mido muito engraado, e tornava-se difcil acreditar que a tinham avisado 
relativamente quelas crianas. Haviam-lhe dito que as crianas do Vietname eram ladres, mendigos, vietcongues ou as trs coisas. Mas este tinha um ar inocente, 
quando o viu precipitar-se para o trio.
Entrou no quarto a tempo de ver um exrcito de baratas disparadas atravs da alcatifa. Soltou um gritinho e forou-se, depois, a avanar, matar as que pudesse e 
a espreitar para a casa de banho. Estava limpa, era de mosaicos pretos e brancos e ainda parecia recordar a influncia dos Franceses na cidade. Nada mudara muito 
desde que eles a tinham abandonado; pelo menos, o calor, a guerra e as baratas.
A nica mudana residia nos aparelhos de ar condicionado em mau estado e agora permanentemente utilizados nos quartos. Sentou-se, grata por esta leve reminiscncia 
domstica. Tinha a roupa colada  pele devido  viagem, do aeroporto para o hotel, sob o calor trrido e hmido que a deixara semelhante a um pano da loua.
Lavou a cara, ps a gua a correr na banheira e eram oito horas locais quando se enfiou na cama. Ao abrir as janelas, sentiu os fumos dos escapes e ouviu os barulhos, 
 medida que Saigo adquiria vida. O cheiro a gasolina parecia reinar em toda a cidade.
J deitada, interrogou-se sobre como Peter se teria sentido ao chegar, mas provavelmente no vira muita coisa. Fora um dos rapazes metidos nos camies e transportados, 
durante a noite, para lugares como Long Binh, ou Nha Trang, Pleku, Da Nang, Vinh Long, Chu Lai, os lugares que ela tinha vindo visitar e com que agora sonhava.
Fechou os olhos, mas teve um sono agitado; havia demasiado no seu esprito, demasiado em que pensar, ver e descobrir. E, quando o Sol se erguia bem alto no cu de 
Saigo, estremeceu, abriu os olhos e espreguiou-se. E, quando ergueu os olhos, sorriu ao descortinar um pssaro pousado no parapeito da janela, a chilrear.
- Bem-vinda ao Vietname. - Rolou lentamente na cama e, ao pronunciar as palavras, ouviu um som e sentiu uma presena no quarto. Sentou-se muito direita e tapou-se 
com um lenol ao avistar um homem alto, louro e elegante, que avanava ao seu encontro. Vestia uniforme militar mas sem nenhuma identificao e o uniforme no era 
do Exrcito americano.
- O que faz aqui? - inquiriu. Desejava gritar, mas no tinha a certeza se deveria faz-lo, quando saiu da cama con, o lenol enrolado  volta do corpo.
- Na noite passada, deixou a chave na porta. No o faria, se estivesse no seu lugar. - Observava quanto ela era bonita, mas nada no seu rosto o denotava. Um dos 
estafetas do hotel informara-o de que havia uma hspede nova naquele quarto, "uma rapariga muito bonita", segundo as suas palavras.
E Nigel dera-lhe uma gorjeta de vinte piastras. Ouvira igualmente falar dela pela boca de dois dos seus colegas que a tinham visto de manh cedo, na recepo. Nesse 
momento, entregou-lhe a chave por cima da cama com uma expresso solene.
- Ia deix-la na mesa-de-cabeceira - retorquiu.
Paxton notou que ele tinha sotaque e hesitou, momentaneamente, em localiz-lo como ingls ou australiano.
- Eu... bom... - Corou violentamente e interrogou-se sobre se ele veria alguma coisa  transparncia do lenol, enquanto se mantinha ali de p. - Eu... Obrigada...
Ele sorriu, levemente divertido ante a sua perturbao.
- No h problema. A propsito, chamo-me Nigel Aucliffe. United Press. Austrlia. - Um brilhozinho nos olhos masculinos advertiu-a de que ele nada tinha de inocente.
- Paxton Andrews, do Morning Sun, em So Francisco - replicou, sem tentar, no entanto, apertar-lhe a mo, receosa de largar o lenol que segurava.
- Estou certo de que voltaremos a ver-nos. - Aquele duplo sentido da frase f-la sentir-se ainda mais desconfortvel e, depois de esboar uma pequena vnia, saiu 
do quarto to rapidamente como entrara.
Paxton sentou-se na cama, ainda embrulhada no lenol, com o corao a bater-lhe com fora depois daquele encontro. No ia, decididamente, viver uma experincia vulgar. 
E como podia ter sido to estpida a ponto de deixar a chave na porta, numa zona de guerra?
- E por falar em estupidez, cus! - murmurou para si. Desta vez fechou a porta do lado de dentro e olhou pela janela, na direco da Tu Do. Semicerrando os olhos, 
quase parecia que se estava em Paris.
Tinha de se apresentar nas instalaes da AP s duas da tarde, no Edifcio den, na praa. Tomou banho e ps um vestido leve de algodo azul-claro, que, dado o tempo, 
parecia mais apropriado do que as calas de ganga.
Em seguida, desceu rapidamente as escadas at ao restaurante, a fim de almoar. Havia bastantes pessoas quando chegou, na sua maioria homens, vestidos de uniforme 
militar ou fardas semelhantes, outros de camisas de manga curta e duas mulheres vietnamitas com encantadores ao dais brancos, o trajo branco tradicional usado em 
cima de calas em balo, que pareciam to largas e lhes moldavam, contudo, as formas graciosas.
De momento, Paxton era, aparentemente a nica mulher ocidental na sala e, no extremo oposto, avistou Nigel Aucliffe, que ria de qualquer coisa, acompanhado por um 
estranho e os dois homens que tinha notado, de manh cedo. Interrogou-se sobre se no estariam a rir-se dela. Mandou vir consomm e uma omoleta, sentindo-se extraordinariamente 
inexperiente e nova em tudo aquilo. O toque francs continuava a ser visvel na decorao, na comida e na ementa.
Quando estava a acabar de comer a omoleta e a beber um caf, tomando mentalmente algumas notas, Nigel Aucliffe e o seu grupo pararam junto  mesa.
- Mais uma vez... bom dia -, cumprimentou, e os olhos denotavam um brilho trocista, parecendo voltar a avali-la, enquanto os outros homens a observavam, intrigados 
pela sugestiva frase. Ele j lhes falara nela, dizendo-lhes que era to "verde" como folhas de rvore na Primavera e tratava-se, sem dvida, de algum muito determinado. 
Supunha que o Vietname no demoraria a ensinar-lhe umas lies e essa ideia divertia-o. - A almoar, segundo vejo - acrescentou con, uma expresso que parecia acarici-la, 
o que aborreceu.
- Bom dia - correspondeu, num tom frio.
Ele conseguira, em certa medida, dar a sensao de que passara a noite com ela, mas a frieza com que se lhe dirigiu indicava precisamente o contrrio.
Paxton fixou os outros trs homens e, ao ver que ele no procedia s apresentaes, estendeu a mo e apresentou-se si prpria. O jovem mais novo e moreno que vira 
 chegada era Ralph Johnson, de Nova Iorque, da Associated Press; o indivduo mais velho era Tom Hardgood de The Washington Post; e o terceiro era Jean-Pierre Biamet, 
de Le Figaro, de Paris.
Desde as sete da manh que tinham estado ocupados com a cobertura de uma importante conferncia de imprensa e haviam optado por um prolongado e preguioso almoo. 
Nigel e Jean-Pierre falavam em tirar folga o resto do dia, quando Nigel a viu e lhes contara a viso agradvel que lhe oferecera, envolta no lenol da cama, ao acord-la.
Os trs homens pareciam intrigados com ela, e a maioria quase tinha idade para ser seu pai, um pensamento que teriam negado se algum o mencionasse. Paxton levantou-se, 
disposta a ir embora, parecendo jovem, encantadora e escultural ao lado deles, e os quatro homens dificilmente conseguiram resistir a desejos famintos. Fez-se um 
estranho silncio quando ela os fitou, consciente da observao a que a submetiam.
- O que est a fazer aqui? - inquiriu Johnson sem rodeios. Tal como os outros, tambm se sentia curioso a respeito dela e da sua actividade em Saigo, mas eles eram 
demasiado orgulhosos e arrogantes para formular a pergunta.
- O mesmo que qualquer outra pessoa, suponho.  procura de uma histria. A cobertura da guerra. Ficarei seis meses para escrever para o Morning Sun, em So Francisco.
Johnson pareceu pregado ao cho. Era um bom jornal. E conhecera um outro correspondente que tinham enviado, durante uns tempos, no ano anterior. Surpreendia-o que 
tivessem mandado aquela jovem inexperiente, mas talvez houvesse um outro motivo.
- j alguma vez fez algo no gnero?
Paxton, abanou a cabea, honestamente; por instantes, sob a capa de coragem, pareceu assustada... e estava realmente.
No tinha a mnima ideia do que estava a fazer. Tinham--lhe indicado que se apresentasse na Associated Press e desempenhasse qualquer incumbncia dada. E Ed Wilson 
dera-lhes instrues, especficas e pessoalmente, para que no a mandassem a nenhum stio sozinha e a mantivessem longe da zona de combate.
- Que idade tem? - inquiriu Johnson de novo sem rodeios, e ela, por momentos, pensou na
hiptese de mentir, mas no o fez.
- Vinte e dois. Acabei a Berkeley. - Enquanto assinava a factura no mencionou que abandonara o curso, e atravessaram juntos o trio. Em seguida, ele sorriu-lhe.
- Licenciei-me l h dezasseis anos - redarguiu Johnson, fitando-a com uma expresso divertida. - E estava quase to verde como voc, quando comecei. Acagacei-me. 
The New York Times mandou-me para a Coreia. Posso, contudo, garantir-lhe que aprendi coisas que nunca teria aprendido se tivesse ficado sentado  secretria, em 
Nova Iorque.
E causou a surpresa geral ao estender-lhe a mo e apertando a dela.
- Boa sorte, mida - desejou. - Como disse que se chamava?
- Paxton Andrews. - Todos lhe apertaram a mo e o grupo dispersou-se.
Nigel e Jean-Pierre tinham acabado por decidir no tirar a tarde de folga e iam, em vez disso, a Xuan Loc para fazer a cobertura de algumas manobras. E Tom Hardgood 
tinha uma entrevista particular com o general Abrams no quartel-general de MacVee em Tan Son Nhut, onde Paxton chegara na noite anterior.
- Vai  Associated Press? - perguntou Johnson. a Paxton, quase como uma reflexo tardia, no momento em que ela saa para a rua. A jovem respondeu com um aceno de 
concordncia. - Mostro-lhe o caminho - acrescentou, voltando a sorrir-lhe. Os outros afastaram-se, prometendo que se veriam nessa noite, e Paxton ps-se a caminhar 
ao seu lado.
As instalaes da AP situavam-se no edifcio que ela avistara na noite anterior, o Edifcio den, na praa, do outro lado da Esttua do Fuzileiro, que parecia ser 
um ponto de referncia geral em Saigo. E a AP ficava  esquina do edifcio. Devia "orientar-se em Saigo" e comparecer no auditrio do Servio de Informao Americano, 
para aquilo que Ralph Johnson designou como "as tolices das cinco horas".
- Vejo que ou esto a poup-la ou a p-la na engorda. No meu primeiro dia em Seul mandaram-me, de imediato, para as linhas da frente e quase me abateram. Foi c 
uma maneira de me familiarizarem com a guerra! Podiam ter sido um pouco mais simpticos! - No entanto, ela sentiu-se um tanto preterida e interrogou-se sobre o que 
ele significaria com "p-la na engorda".
- O que so "as tolices das cinco"?
- Uma srie de propaganda. Dizem-nos tudo o que querem que escutemos sobre o decorrer da guerra. Perdemos uma colina, realmente no perdemos. Uma srie de tipos 
foi morta, mas houve mais baixas no inimigo. Charlie capturou algum do nosso equipamento, mas era todo antigo, e assim... no teve importncia. Contas que fazem 
com que as coisas paream um pouco melhor do que so, a treta habitual com que querem que se alimente o pessoal que ficou na ptria, para os convencer de que esto 
a ganhar,
- E estamos? - perguntou de chofre.
- O que acha? - retorquiu, friamente, enquanto O olhar transmitia a devida mensagem.
-  por isso que aqui estou. Quero saber a verdade.
- A verdade? - redarguiu, fitando-a cinicamente. - A verdade  que no h esperana. - Fora o que ela sempre suspeitara, o que Peter sempre suspeitara. Antes de 
o terem morto ali.
- Quando acha que vo admitir isso e mandar os nossos rapazes de regresso a casa? - inquiriu com um fervor inocente no olhar, e ele abanou a cabea, desesperado.
- Essa, minha amiga,  a questo que vale um milho de dlares. Temos aqui uma coisa chamada DMZ, que significa: "No pisem os calos ao tio Ho", e cadveres de rapazes 
que so despachados de barco, aos milhares. - Ao pronunciar as palavras, viu-a fazer uma careta e ficou aborrecido.
- Se a impressiona, o melhor que tem a fazer  ultrapassar a emoo rapidamente... ou regressar - prosseguiu. - Este lugar no  para fracos. - Interrogou-se sobre 
se sabiam o que estavam a fazer. Talvez ela fosse apenas a filha de algum a brincar aos turistas. No entanto, algo lhe indicava que poderia haver uma outra razo. 
Ainda no tinha a certeza.
- Tenho um encontro com alguns tipos - rematou, fitando-a com uma interrogao no olhar. - Est interessada em conhecer algo do verdadeiro Vietname, ou est aqui 
somente para se divertir um bocado e garantir l em casa que viu tudo?
A pergunta era honesta, e Paxton apreciou, pelo menos, a oportunidade de provar o que valia, ao aguentar o olhar, mostrando o seu profissionalismo.
- Quero ver a realidade.
Ele esboou um aceno de concordncia. No fundo sempre o suspeitara, pois apesar da elegncia e do cabelo louro, no parecia uma boneca Donut. - Amanh, vou levar 
uma equipa de filmagens at uma base de combate, prximo de Nha Trang. Quer vir? - Fitava-a com uma expresso dura, mas estava a dar-lhe uma oportunidade. Tambm 
ele outrora fora jovem, tinham frequentado a mesma universidade e, por qualquer motivo desconhecido, achava que a jovem o merecia.
- Adorava. - E, em seguida, acrescentou, sincera: - Obrigada.
- Tem botas?
- Mais ou menos. - Comprara as mais resistentes que encontrara na Eddle Bauer's.
- Refiro-me a botas a srio. Com proteces de ao nas solas para o caso de pisar um espigo de bambu. - Paxton tinha uma expresso desconcertada, mas ele sabia 
do que estava a falar. Desde 1965 que estava em Saigo. - Que nmero cala?
- Trinta e sete - informou, respeitosa. Se conseguisse algo aqui, achava que seria com a ajuda dele e sentia-se verdadeiramente grata.
- Arranjo-lhe um par.
- Obrigada. - E, mal pronunciara as palavras, ele desapareceu. Tinha um encontro com o subchefe de redaco, que franzia o sobrolho no preciso momento em que Ralph 
entrou.
- O que te aconteceu? Esta tarde, ests com um ar feliz troou Ralph.
- Tambm estarias na minha situao. Esta semana recebi dez telexes de So Francisco sobre um "semente verde" qualquer, que deve ser sobrinho de algum. No querem 
que v para o Norte. No o querem fora de Saigo. No querem que seja ferido. No o querem em stio nenhum, excepto a tomar ch no palcio.
- Descontrai-te. Talvez ele nem sequer aparea. Metade desses midos falam a torto e a direito em virem para aqui, mas nunca tm tomates para o fazer. A propsito, 
temos uma nova boneca donut no nosso meio.
- ptimo. Exactamente do que precisvamos. Tenta no despir as calas, Ralph. Preciso de ti vivo durante mais um ms. - Os dois homens trocaram um sorriso. H anos 
que eram amigos e respeitavam-se muito um ao outro. - Quem  a rapariga?
- Esqueci-me. Da costa oeste. Frequentou a minha universidade. Parece esperta, mas assustada e verde. Ofereci-me para a levar a Nha Trang, amanh.
- Para quem trabalha?
- Tambm me esqueci. Mas  fixe. E, se no for apanha um susto do caraas e mete-se no primeiro avio de volta a casa, amanh.
- Tem cuidado. As coisas esto quentes por l. Mas quero que ds uma olhada nisto. - Tratava-se de um documento "emprestado" que algum lhe dera, indicando enormes 
pedidos de tropas para novos batalhes.
- Ser que nunca mais vo ter juzo e comear a mandar os rapazes para casa, cus! - explodiu Ralph Johnson, parecendo desanimado ao ler o documento.
- Faz-nos interrogar, no ?
- Faz-me chorar - replicou, e passaram  anlise de outras questes. Um relatrio de acrscimo de aco no vale A Shau e uns relatrios idiotas sobre o "agente Orange"-
Falaram da viagem a Nha Trang no dia seguinte e, nessa altura, a rapariga j estava esquecida.
Nesse dia, Ralph Johnson parou para tomar ch nos subrbios de Gia Dinh, por razes pessoais. s cinco da tarde, estava de volta  cidade, foi buscar os recados 
 redaco e chegou apenas com dez minutos de atraso ao servio informativo para ouvir as notcias das "tolices das cinco". Nada mudara na informao: quem fora 
morto onde, baixas espantosas dos vietcongues, estatsticas em que ningum acreditava, e h muito deixara de acreditar, e um documento do inimigo a que todos tinham 
acesso.
Tom Hardgood estava presente e Jean-Pierre tambm, mas Nigel no. Jean-Pierre acenou ao avistar Paxton. Quando tudo acabou, dirigiu-se-lhe e achou que ela parecia 
cheia de calor, cansada e um pouco atordoada da chegada. Explicou-lhe que Nigel fora a Xuan Loc, mas ele decidira ficar em Saigo.
- Bom, mademoiselle - sorriu. - Qual a sua opinio?
Paxton esboou um sorriso cansado. Tinha passado as duas ltimas horas a explorar a cidade. Estivera um calor insuportvel durante toda a tarde e ficara esmagada 
pelas vistas, os cheiros, os rudos infindos, o som dos avies e o fumo que fazia arder os olhos no bairro chins. Tinha-se perdido vrias vezes, alugara dois riquexs, 
apanhara boleia de pelo menos doze soldados e no conseguia entender-se com o dicionrio vietnamita.
- Ainda no sei bem - respondeu honestamente com um sorriso cansado e interrogando-se sobre qual o objectivo daquelas sesses de esclarecimento das cinco horas. 
Pareciam to perfeitamente orquestradas e to artificiais. Mas, se se quisesse, tornava-se possvel escrever sobre a guerra com base naquelas indicaes. Sabia, 
porm, que no era esse o motivo por que viera.
- Posso garantir-lhe que todas estas coisas so ridculas- - Ainda tinha o uniforme vestido e parecia com calor e transpirado. Era reprter fotogrfico, desde as 
quatro da manh que estava fora e, depois do almoo com os outros, fizera a cobertura de uma histria terrvel.
Um grupo de crianas tinham sido mortas por uma bomba terrorista e tirara fotografias horrveis. Tentou explicar-lho, e a voz adquiriu um tom narrativo quase montono. 
No podia deixar-se arrastar pelas emoes. Era demasiado doloroso.
- Fiz uma fotografia incrvel. De duas rapariguinhas mortas de mo dada - retorquiu num tom impassvel. - O meu jornal vai ficar muito satisfeito. - Havia algo de 
fantasmagrico na presena deles ali, e todos o sabiam. Algo que invadia e destroava o interior de cada um. E, no entanto, tambm sabiam que tinham de estar ali, 
independentemente dos motivos.
- Porque veio para c? - perguntou num sussurro, ponderando no que ele dissera mas intrigada com todos eles.
- Porque queria saber o que tinha mudado. Queria saber porque  que os Americanos achavam que podiam ganhar e se o podiam, depois de ns termos falhado.
- E podem? - Parecia dirigir aquela pergunta a todos, mas queria conhecer a opinio das pessoas, pessoas que sabiam, pessoas que tinham, de facto, visto a realidade.
- No.  impossvel - garantiu, parecendo muito francs. - E julgo que agora o sabem, mas no querem admiti-lo ao seu povo. Receiam confessar o fracasso, declarar 
que a vitria  impossvel e tm de regressar a casa. - No  americano... no  um acto de orgulho... no  corajoso... Tambm nos levou muito tempo - rematou  
guisa de explicao. .
Os Americanos continuavam no Vietname para no se desacreditarem, s que isso j acontecera. E, entretanto, perdiam os seus jovens diariamente. Frente ao Vietcongue, 
armadilhas, minas, atiradores e "fogo amigvel", como no caso de Peter. E, estranhamente, agora que se encontrava no local, comeara a sentir-se menos obcecada. 
Nesse dia mal pensara nele, pois estivera ocupada a compreender tudo, ver tudo e a descobrir Saigo. De certa maneira, era um alvio. Talvez agora, que estava Ah, 
a dor abrandasse, e um dia pudesse deix-lo em descanso. Talvez tivesse feito bem em vir.
E, enquanto todas estas reflexes desfilavam pela sua cabea, reparou que Jean-Pierre a observava a sorrir e sem saber no que ela estava a pensar.
- Este lugar  a srio. Teve muita coragem em vir. Porque o fez? - inquiriu.
-  uma longa histria - explicou vagamente, olhando em volta. Nessa altura, Ralph j se afastara, bem como Tom Hardgood, e Jean-Pierre convidou-a para tomar uma 
bebida na esplanada do Hotel Continental Palace.
-  um lugar espantoso. O verdadeiro Saigo. Tem mesmo de ver.
- Obrigada - agradeceu timidamente e comovida ante a atitude de todos.
Embora soubesse que Nigel a encarava com uma certa condescendncia, Ralph pelo menos parecia disposto a dar-lhe uma oportunidade e uma ajuda, e Jean-Pierre denotava 
muita simpatia. Reparou que ele usava aliana de casado, mas o convite parecia mais platnico do que sexual, e estava certa. Quando j se encontravam na esplanada, 
contou-lhe tudo sobre a mulher, um manequim de sucesso em Paris.
- Conheci-a h dez anos quando estava a fazer fotografia de moda e, em seguida, deixei-me fascinar por isto, a reportagem fotogrfica. Ela acha-me louco. Encontra-se 
comigo uma vez por ms, em Hong Kong, o que mantm a minha sanidade mental. Acho que seria incapaz de ficar aqui, se no fosse isso. Quanto tempo est a planear 
ficar? - perguntou casualmente.
- Seis meses - respondeu, cheia de coragem e parecendo muito jovem.
- Tem namorado aqui? No exrcito? - sorriu Jean-Pierre. - Ela sacudiu a cabea, mas era o caso de algumas mulheres. Conhecia muitas enfermeiras civis, que tinham 
vindo porque os namorados haviam sido enviados para Saigo.
Contudo, mais cedo ou mais tarde, todas acabavam por o lamentar. O lugar destroava o corao, os namorados eram feridos ou mortos, ou enviados de volta aos Estados 
Unidos, e as raparigas ficavam a tratar das crianas mutiladas- Algumas sentiam-se incapazes de partir, outras faziam, mas nada voltava a ser o que era.
- Quando se esteve aqui, nunca mais se esquece - pronunciou num tom entendido. Ela esboou um aceno de concordncia, disposta a arriscar, ao mesmo tempo que olhava 
em volta, surpreendida.
Tinham-se sentado a uma mesa da esplanada do Hotel Continental Palace e havia mendigos mutilados por todo o lado, rastejando como insectos por entre as mesas. De 
incio, no compreendeu o que estava a passar-se. Julgou que andavam  procura de qualquer coisa e, em seguida, um deles ergueu, subitamente, o rosto na sua direco, 
com metade da cara desfeita, sem um olho, nem os braos; soltou um gemido e ela quase desmaiou.
Jean-Pierre afastou-o e Paxton sentiu-se mortificada, enquanto jovens engraxadores, prostitutas, vendedores de droga e de vrios artigos os abordavam. Por todo o 
lado, havia o cheiro a flores, a combustvel, as vozes, as buzinas, os gritos, os carros, as bicicletas, a gente. Assemelhava-se a um circo.
- Lamento - replicou num tom de desculpa pela sua fraqueza ao ser confrontada com o mendigo sem rosto.
- Vai ter de se acostumar. H muito do gnero por estas bandas. Em Saigo, pode fingir-se por algum tempo que nada est a acontecer e, um dia, uma bomba explode, 
um dos nossos amigos  ferido ou vem-se crianas cobertas de sangue na rua, chorando pelas mes, estendidas na nossa frente, mortas por uma bomba dos vietcongues. 
No  possvel fugir eternamente. E no Norte  pior. Muito pior. Ah, v-se realmente a guerra. - Fitou-a, cuidadosamente, por cima dos copos, curioso a respeito 
daquela jovem, que podia ser sua filha. - Tem a certeza de que quer estar aqui?
- Sim - anuiu calmamente e segura de si, embora lhe apetecesse chorar ao ver os mendigos e as crianas estropiadas. No entanto, ainda s chegara h algumas horas. 
Catorze, Para ser exacta.
- Porqu? - inquiriu, sem rodeios.
Resolveu ser honesta com ele, como o fora com o jovem do avio.
- Algum que amava, morreu aqui. Queria ver o local. Queria compreender porque  que ele morreu. Vir at c e contar a verdade sobre a guerra por intermdio do meu 
jornal.
-  muito jovem e idealista - sorriu-lhe ele, tristemente. - Ningum vai interessar-se e, quando chorar no escuro, ningum a escutar. Quer mandar uma mensagem daqui... 
mas a quem? Para o seu amigo,  tarde de mais. E para os outros? Alguns viro para c, se assim tiver de ser, alguns vivero, outros morrero. Nada do que possa 
fazer mudar a situao. - Dava uma pincelada de desespero a todo o quadro, mas Paxton no acreditou nas palavras.
- Ento, porque est aqui, Jean-Pierre? - Fitou-o bem fundo nos olhos, e ele interrogou-se sobre se conseguiria dormir com aquela jovem. Sabia que Nigel a desejava. 
Ralph tinha France e o mido... e ele tinha, indubitavelmente, a mulher, em Paris. Ela estava, no entanto, muito longe, e aquela rapariga era to fresca, to pura, 
to cheia de ideais e ao mesmo tempo forte e segura. Sorriu para si mesmo; Paxton quis saber porqu e ele respondeu com uma gargalhada:
- Acho que me recorda... a Joana d'Arc. Ela acreditava nas mesmas coisas que voc. A verdade, o poder da espada no nome de Deus, e a liberdade.
- Parece-me bastante sensato - sorriu Paxton. - Mas fugiu  minha pergunta. - Afinal, era uma jornalista e comeava a "cheirar" o lugar e as pessoas que o habitavam.
- Quanto  minha presena aqui? No sei. - Encolheu os ombros, parecendo e soando muito gauls. - Quis ver como era e vim ao servio de Le Figaro. E, depois, fui 
ficando porque este stio me intriga. Queria "perceb-lo"... e gosto dele.  um lugar pecaminoso, se se quiser - prosseguiu, sorrindo. - Gosto dos meus amigos e 
talvez... - Encolheu novamente os ombros. - Talvez, como todos os homens, goste do perigo. No deixe que os homens lhe mintam, Paxton. Todos ns gostamos de brincar 
com armas, fingir que temos um inimigo, conquistar um monte a Um amigo, ou uma casa, ou uma montanha... ou um pais. Gostamos disso. .. para ns faz sentido... at 
nos matar.
Havia muito de verdade naquele discurso e, instintivamente, ela sabia-o.
- Vale a pena morrer por isso?
- No sei - redarguiu com um encolher de ombros e esboando um sorriso triste. - Pergunte aos homens que morreram... o que lhe diro?
Acho que me responderiam que no valia a pena retorquiu filosoficamente, mas ele discordou.
- Fala assim porque  mulher. Talvez, aos olhos deles, tivesse valido a pena. - Ele adorava a discusso, a permuta, a filosofia, e era uma faceta que agradava a 
Paxton. - Mas, na perspectiva feminina, nunca vale. Os homens que morrem so os seus filhos, amantes, os seus maridos. Uma mulher s pode perder na guerra, jamais 
ganhar, e nunca a acha excitante. Os rostos das mulheres que fotografo apresentam-se sempre pejados de dor, quando seguram nos bebs mortos, homens mortos, crianas 
mortas. Pouco lhes importa se forem elas a morrer. Tm muito mais coragem do que os homens. No conseguem, todavia, suportar a perda dos seus entes queridos. E voc? 
- interessou-se, utilizando um tom mais meigo. - O homem que perdeu? Era um amante ou um amigo? - Sentia-se curioso a respeito dela.
- As duas coisas - retorquiu, sentindo uma calma que h muito a abandonara. - amos casar. Estvamos juntos h... h quatro anos... e devia ter-me casado com ele. 
- Desviou os olhos, ainda atormentada pela culpa. - Devia... mas no o fiz. - Expressava-se num tom muito suave, e ele tocou-lhe na mo.
- Se no o fez,  porque no estava predestinado. A minha primeira mulher morreu num acidente. Num avio em que eu deveria acompanh-la. Perdi o avio. Ela foi. 
Morreu em Espanha. E senti-me culpado para sempre. Ela queria filhos, eu nunca quis. Depois, pensei que, se a tivesse deixado ter uma criana, ainda me restaria 
uma parte dela. No estava, porm, escrito que assim fosse - concluiu, encolhendo os ombros.
- E agora tem filhos? - inquiriu Paxton, sem erguer a voz.
- S casmos h dois anos, e a minha mulher tem vinte e oito - respondeu com um abanar de cabea e um sorriso triste. - Quer acabar a carreira como modelo, antes 
de termos filhos.
"E lamentariam, se acontecesse alguma coisa? interrogou-se Paxton. "A Gabby estaria certa ao optar por uma vida simples de casada e os seus bonitos filhos? Seria 
louca por estar ali? E Jean-Pierre teria razo ao afirmar que o casamento dela com Peter no estava predestinado? Iria, pelo contrrio, sentir-se eternamente culpada?"
- Quantos anos tem, Paxton? - perguntou o francs, sentindo-se mais atrado por ela a cada gole de Pernod. Mudou, casualmente, para usque e Paxton mudou, casualmente, 
para gua.
- Vinte e dois - replicou, e ele sorriu.
- Tenho exactamente o dobro da sua idade - prosseguiu, sem que, aparentemente, se importasse. - Acho que posso garantir com absoluta certeza que  a mais jovem jornalista, 
aqui em Saigo. E tambm a mais bonita - rematou, erguendo o copo.
- Ainda no me viu de manh - replicou em tom de conversa, e uma voz nas suas costas apanhou-a de surpresa.
- Mas eu sim... - Girou na cadeira e deparou com Nigel. - Diria que  muito bonita de manh. Porqu?  um assunto srio?
- No propriamente - sorriu Paxton, aliviada por ele se lhes ter juntado. Nessa altura, Jean-Pierre j bebera um pouco a mais e tinha a sensao de que comearia 
a fazer avanos depois do usque seguinte. A chegada de Nigel simplificou tudo. - julguei que tinha ido a Xuan Loc.
- Resolvi ir amanh. - Na verdade, encontrara uma prostituta atraente e adiara a viagem para o dia seguinte. - Ainda no comeram? Espero que no. Morro de fome e 
no quero comer sozinho.
- No, no comemos - adiantou-se Jean-Pierre, mas eram nove horas e Paxton ainda no se adaptara  diferena de horrio. - Onde queres comer?
_ No sei. Que tal uma coisa rpida em qualquer stio e depois irmos danar ao Pink Nightclub? - Nigel tambm estava de olho em Paxton, e a prostituta s lhe oferecera 
conforto temporrio. Paxton, porm, olhou para o relgio. Tinha de se levantar s quatro da manh.
- Acho que no vou. O Ralph Johnson prometeu ir buscar-me s cinco da manh.
- Qual  a ideia? Nigel parecia aborrecido, e Jean-Pierre comeava a ficar demasiado bbedo para se importar. E s faltava uma semana para se encontrar com a mulher 
em Hong Kong. Alm disso, tinha mais do que tempo para seduzir Paxton.
- Vamos a Nha Trang com uma equipa de filmagens explicou Paxton.
- Est quente por l - retorquiu Nigel com um franzir de sobrolho e, depois, recordou-se de como ela era verde.
E no me refiro apenas ao tempo. H montes de Victor Charlie nas redondezas. Tenha cuidado com o seu bonito traseiro. Porque, se bem conheo o Johnson, ele no se 
preocupar com isso. Conseguir a histria nem que o preo seja a vida. Foi ferido duas vezes e acho que est aqui para ganhar um Pulitzer, embora no o confesse. 
- Paxton sorriu ante a bvia rivalidade existente entre ambos.
- Estarei atenta.
- Voltam amanh? - Nigel parecia intrigado com ela; Paxton era, de facto, uma belssima jovem. No estava, contudo, interessada nele nem em nenhum dos outros. O 
motivo que a trouxera a Saigo era bem diferente. Viera para aprender o que pudesse e escrever boas reportagens para o jornal. No entanto, havia montes de homens 
por aqueles lados, se fosse esse o seu objectivo.
- Ignoro quando voltamos - respondeu  pergunta de Nigel. - O Ralph no me informou. No teria dito qualquer coisa, se no voltssemos?
- No necessariamente - riu Nigel.
Levantaram-se todos, e o movimento atraiu os mendigos na sua direco. Nigel e Jean-Pierre afastaram-nos; e uma criana tocou profundamente o corao de Paxton, 
uma menina sem pernas, que o irmo mais velho puxava num carrinho. Paxton desviou os olhos, incapaz de continuar a observar a cena. Era impossvel mudar as coisas 
para eles, acabar com a guerra, devolver-lhes os membros.
- Devia escrever sobre os quakers - sugeriu Jean-Pierre. - O Comit Americano de Solidariedade tem um centro fabuloso. Colocam prteses em todas estas crianas. 
Tirei umas fotografias fantsticas. Fazem um trabalho realmente incrvel.
- Hei-de verificar. Obrigada.
Dirigiu um sorriso a ambos, agradeceu-lhes a bebida e deixaram-na no hotel antes de irem beber " grande e  Francesa" para outro bar. Tinham decidido adiar o jantar 
por algum tempo e continuar a beber, j que ela no lhes faria companhia.
Quando regressou ao hotel, Paxton avistou pares muito bem vestidos que iam jantar ao restaurante do ltimo piso. Estava, contudo, demasiado cansada para pensar- 
sequer em comida. Entrou no quarto, deitou-se na cama e adormeceu mal ajustou o despertador e sem mesmo se despir.
Quando o despertador tocou, teve a sensao de que s tinham passado uns momentos. Era um estranho zunido; estava a sonhar que havia insectos a persegui-la, depois 
abelhas, que tentava fugir de riquex e o condutor no compreendia para onde ela se dirigia. O rudo montono prosseguiu e, por fim, abriu um olho e passeou a vista 
pelo quarto de hotel.
Ainda estava escuro. Tomou banho, lavou a cabea e enfiou o fato-macaco que trouxera para ocasies do gnero. Era de caqui verde; calou igualmente as botas, na 
eventualidade de Ralph no lhe ter arranjado as que prometera.
Desceu s cinco horas em ponto, e o trio estava deserto. No entanto, as ruas j adquiriam vida, cheias de vendedores, bicicletas e carros, de pessoas que regressavam 
a casa, iam para o trabalho ou qualquer outro lado. Avistou mulheres com os seus pontiagudos chapus non la e os graciosos ao dais.
Saiu para o exterior e entrou-lhe pelas narinas o intenso aroma a fruta e flores, o cheiro a gasolina e a nuvem de fumo que parecia pairar sobre a cidade. Ouviu 
passos mesmo atrs dela, virou-se e avistou Ralph que descia os degraus do hotel, de uniforme, capacete e botas de combate. Tinha um pesado colete vestido e trazia 
outro. Quando Paxton se lhe juntou, ele estendeu-lho com as prometidas botas.
Conseguiu as botas. Obrigada - agradeceu, surpreendida.
No foram problema - retorquiu.
Estava, realmente, a falar verdade. Comprara-as no mercado negro onde se podia comprar todos os artigos roubados, desde tampes a nylon e a equipamento militar.
- Tambm trouxe o casaco de fogo antiareo - prosseguiu. - No  m ideia, se conseguir vesti-lo. Deu-lhe tambm um capacete e ajudou-a a subir para o camio que 
os levaria at ao destino.
Levavam um motorista do exrcito, e Ralph tinha uma equipa de quatro elementos composta por dois cameramen, um operador de som e um assistente. Apresentou-a, e todos 
eles pareciam militares. Tinham roupa de camuflagem, botas e capacetes. O operador de som olhou em volta e soltou uma risada nervosa, enquanto o assistente desrolhava 
um termo enorme de caf a ferver.
- Merda! Se os vietcongues nos apanharem pelo caminho, vo julgar-se na posse de um camio cheio de tropa. - Fitou Paxton, que tinha um equipamento semelhante.
Traz sapatos de salto alto na mala?
- Sou alta de mais. Nunca os uso.
- Eram para mim - replicou.
Todos riram e observaram o nascer do Sol, enquanto saam de Saigo. Estava uma bela manh de Vero. Corria o final de junho e Paxton apercebeu-se, subitamente, do 
que levava as pessoas a falarem da beleza do pas. Ao deixarem a cidade, a paisagem era exuberante e verde e havia uma delicadeza e suavidade em tudo, recordando-lhe 
os antigos biombos de seda. Em seguida, avistavam-se, a espaos, crateras de bombas, ou crianas de muletas  beira da estrada.
O grupo conservava-se silencioso durante a viagem e Paxton sentia-se maravilhada com toda aquela beleza, a terra vermelha e o luxuriante verde. Manteve-se atenta 
ao seguirem para Norte e, por fim, Ralph Johnson inclinou-se por cima do banco e ofereceu-lhe donuts.
- Bonito, no ?
- Comeo finalmente a entender o que ouvi dizer. Saigo  muito diferente. - Havia sido bonita, outrora, durante a presena dos Franceses. Agora, era suja, barulhenta, 
corrupta, cheia de prostitutas e miudagem suja. possua tuna beleza natural que Paxton nunca vira at ento e a emocionava profundamente. No entanto, at mesmo ali, 
o pas apresentava--se destroado pela guerra.
- Estava aqui quando incendiaram Ben Suc, h um ano e meio... Era um stio espantoso. Foi um crime.
- porque o fizeram?
- Para afugentar os vietcongues, cortar-lhes as provises e os esconderijos. Na maioria das vezes, so incapazes de distinguir os bons dos maus. Portanto, incendiaram 
tudo e transformaram o local num parque de estacionamento. Afirmam que realojaram toda a gente, mas  impossvel substituir um lugar assim. Era encantador e antigo 
e mudaram toda a gente para casas prfabricadas. - Fora assim que conhecera France, mas no referiu o assunto. Ainda no conhecia Paxton suficientemente bem. - Que 
tal ontem? -interessou-se-
- Tudo bem. Andei a meter o nariz por Saigo e passei o tempo a perder-me - respondeu com um sorriso e decidindo soltar o cabelo. - As "tolices das cinco" so uma 
treta no  verdade? Para que servem?
- Propaganda para o nosso lado.
- Com que finalidade? - retorquiu, com uma expresso aborrecida. Tinha vindo ali em busca da verdade e no para que lhe mentissem. Enquanto eles falavam, tirou o 
capacete e prendeu o rabo-de-cavalo numa banana. Se j estava quente de mais para se ter cabelo, o que dizer de o usar pendurado sob o capacete?
- D-nos tema para escrever quando nos falta, o que raramente acontece - riu Ralph. - Ontem, os meus colegas da AP estavam doidos - prosseguiu, ainda com um sorriso. 
- O sobrinho de qualquer tipo era, segundo se supe, esperado c, e todos tinham instrues para o manter longe de sarilhos.
- O que vinha fazer? - interessou-se Paxton, divertida.
- Ignoro. De visita, presumo. No deve ser muito esperto. O Vietname  um bom lugar para se ficar  distncia.
- Isso significa que tambm sou estpida? - inquiriu, fitando-o sem desviar o olhar, enquanto os outros tagarelavam. e comiam donuts.
- Talvez. - Era honesto com ela e sempre o seria. - Acho-a, contudo, diferente. Dou-lhe a minha opinio quando chegarmos ao fim do dia de hoje, mas penso que  uma 
daquelas pessoas loucas que pem o jornalismo acima de tudo, que tm de conhecer a verdade, mesmo que tal implique a Morte.
- Obrigada - limitou-se a redarguir, depois do que colocou novamente o capacete e acabou de beber o caf.
Fizeram uma breve paragem em Ham Tam e seguiram rapidamente para Plian Rang e Cam Ranh-, onde ouviram fogo  distncia. Assemelhava-se a uma tempestade descendo 
das montanhas.
O motorista do camio mantinha-se em contacto permanente pela rdio com a base em Nha Trang e avisara-os antes de chegarem ali que prosseguiriam para o interior. 
Dirigiam-se a uma base que se encontrava sob um pesado ataque e aproximar-se-iam pela retaguarda. Achavam seguro, pois a base estava bem protegida e equipada, mas 
havia suportado um fogo intenso durante toda a semana e era esta precisamente a reportagem desejada por Ralph. Levara a semana para conseguir permisso de vir at 
ali.
- O radiotelegrafista informa-me de que as coisas tm estado bastante quentes - explicou o motorista e, nesta altura, Paxton j sabia que "quente" significava sempre 
vietcongues e nunca o tempo.
O tempo era indescritvel e por vezes interrogava-se como conseguiria respirar ao chegarem l. Quando se aproximaram da base, indicaram-lhes que se baixassem nos 
assentos, mantivessem os casacos de fogo antiareo e pusessem os capacetes. Eram sete da manh e mandaram-nos parar cinco quilmetros antes de chegarem  remota 
base de artilharia para onde se dirigiam.
- Tenho jornalistas comigo - explicou o condutor, quando foi detido por sentinelas da retaguarda armadas at aos dentes. Ostentavam M-16 de modelo standard que Paxton 
j sabia, por intermdio de Ralph, serem inferiores s AK-47 soviticas utilizadas pelos vietcongues, pois estas e111perravam e as deles no.
As sentinelas examinaram o interior do camio e Paxton reconheceu  distncia o som de uma metralhadora M-60  de um morteiro de 1 milmetros. Tentara ler sobre tudo, 
mas era diferente ver tudo ao vivo e mais do que assustador tambm. Sentiu o corao bater-lhe com fora no peito, sobretudo quando a fitaram e continuaram a interrogar 
o condutor.
E a Delta Delta?
o mesmo - replicou o homem. - Tambm  jornalista, no ? - inquiriu com um sorriso aberto para Paxton.
- Exacto. Ao servio do Morning Sun, em So Francisco - anuiu, comeando  procura dos documentos, mas os homens recusaram-nos com um gesto.
Ralph e o motorista entreolharam-se com um sorriso e ela interrogou-se sobre o que acabara de passar-se entre eles.
- Que conversa foi aquela? - quis saber. - Aquela coisa do Delta Delta?
- Vai ouvir a expresso muitas vezes, enquanto estiver aqui - redarguiu Ralph com um arremedo de sorriso.
- Tambm lhe chamavam assim no incio? - perguntou inocentemente, e ele soltou uma gargalhada.
- Pouco provvel, minha querida. Acho melhor inform-la sobre o significado. Delta Delta so os sinais de rdio para D-D. Donut Dollie. - Todos os que iam no camio 
riram, e Paxton sentiu vontade de bater no cho do camio com as botas.
- Merda! No percorri todo este caminho para fazer propaganda dos malditos donuts!
- Diga-lhes isso, ento! - redarguiu o motorista com uma gargalhada e a prpria Paxton teve de rir. Era de perder as estribeiras ao ver-se tratada como qualquer 
rainha de beleza que viera ver se algum assobiaria.
. Todos sabiam que as Donuts Dollies (Boneca Donut - N. da T.) eram mulheres simpticas que faziam tudo para levantar o moral, mas no era elogioso para Paxton.
- Acabar por se habituar - riu Ralph, e ela ameaou bater-lhe.
No entanto, minutos depois, mandaram-nos deitar, quando o fogo da artilharia comeou a zunir por cima das suas cabeas. Todos desceram desajeitadamente do camio 
ao receberem instrues, e os cameramen e o operador de som comearam a montar o equipamento. Ralph indicou--lhes o que pretendia e, aps conferenciar com alguns 
do, militares, o condutor explicou a Ralph quais os acessos mais seguros para o acampamento.
Nada parecia, contudo, suficientemente claro, e um jovem soldado negro que se precipitou ao encontro deles indicou-lhes o que j sabiam, que estava "quente, quente, 
quente, e, ao pronunciar as palavras, fitou Paxton com intensidade.
- De onde ? - sussurrou-lhe quando se deitaram no cho prximo do camio, e Ralph confirmou-lhe que ela ouvira, de facto, morteiros  distncia.
O Exrcito vietnamita do Sul, o ARVN, apoiava os movimentos das tropas americanas. No entanto, os americanos optavam por confiar nos seus prprios meios.
Na sua opinio, os seus elementos eram melhores e combatiam o NVA, o Exrcito vietnamita do Norte, contrariamente aos vietcongues, que no passavam de agricultores, 
embora corajosos.
Sou de Savannah respondeu, tentando aparentar calma, enquanto se dirigia ao jovem negro.
- Ah, sim? Eu tambm - retorquiu, indicando-lhe uma morada que no era muito elucidativa e ela sorriu, lembrando-se, subitamente, de Queenie.
- H quanto tempo est aqui? - interessou-se.
- No Vietname? - redarguiu, sorrindo. - Faltam-me duas semanas. Tenho a DEROS' ( Date eligible for return from overseas: Data qualificada de regres, de alm-mar 
- N. da T.) diante dos olhos. Se conseguir safar-me nas prximas duas semanas, apanho o pssaro da liberdade para a Jrgia.
Se lhe faltavam, portanto, duas semanas, significava que estava ali h 380 dias, 375 mais do que Peter vivera, quando ali chegara.
- Como se chama? - perguntou. - A jovem era bonita e apenas desejava falar-lhe e tocar-lhe. Tinha uma namorada  espera, mas tal no o impedia de querer falar com 
Paxton.
- Paxton.
_ Sim? - Parecia divertido e Ralph olhou-os por cima do ombro.
- No se levante - ordenou-lhe num tom firme.
Em seguida, levaram-nos a todos at  base, que oferecia uma vista inacreditvel para um pitoresco e pequeno vale, verdejante, lindssimo e fumegante devido  permanente 
troca de fogo. Avies sobrevoavam a baixa altura e outros avies largavam bombas,  distncia. Os homens chamavam-lhes "pssaros a pr ovos". O comandante da base 
veio ao encontro de Ralph e da sua equipa, e Ralph deu-se ao cuidado de o apresentar a Paxton.
- So Francisco, hem? - replicou, mascando um charuto. - Bela cidade. Eu e a minha mulher gostmos dela.
Toda a gente gostava de um lugar. So Francisco, Savannah, Norte, Sul, Nova Jrsia, independentemente de onde se era natural. Estava-se vivo, era-se novo ali e eles 
estavam to desesperados por regressar a casa e manterem-se vivos que tocar em algo de onde quer que fosse significava tudo aos seus olhos.
- Isto por aqui tem estado muito quente - explicou. - O NVA est determinado a avanar e no vamos deix-los. Defendemos esta terra com bastante firmeza no ano passado 
e, em seguida, perdemo-la. Agora que a temos de volta, no tencionamos larg-la.
Paxton no conseguiu, todavia, deixar de se interrogar sobre quantos homens custara. A conquista de um monte, de um vale, de uma aldeia significava a perda de tantas 
vidas. Tantos rapazes mortos e tantos feridos. Ele explicou novamente que estavam a sair-se bastante bem. At agora tinham perdido apenas cinco rapazes e s umas 
dzias haviam ficado feridos.
"Estaria certo?", interrogou-se. "Apenas cinco rapazes" era ptimo... Mas que cinco? Como se escolhiam? Como os escolhia Deus? E porque  que escolhera Peter?"
- Querem observar um pouco mais de perto? - convido, ele- - Estamos a desmontar algumas bombas. Mantenham-se nas zonas indicadas pelos meus rapazes.
Ralph estava satisfeito. Desejava uma melhor viso para a cmara dos movimentos na frente. Ficaram pela tarde, apenas voltando s trs horas para comer comida de 
lata antes de regressarem ao calor da aco. At ento, ningum fora ferido. O dia revelara-se bastante calmo. Limitavam-se a manter firmemente a posio e de vez 
em quando afirmavam ter visto Charlie. No era, contudo, verdade. Nada se avistava  excepo do fumo, disparos e dos arbustos.
- Ento, mida, que tal? Agora, est mesmo metida nisto - comentou Ralph, sentando-se, por minutos, ao lado dela para fumar um cigarro e acabar de beber um caf.
- Como se sentiu quando o Times o mandou para a Coreia?
Cagado de medo - respondeu com um esgar.
 mais ou menos isso - confessou com um sorriso nervoso. Desde aquela manh que sentia um n no estmago.
- Comeu? - perguntou, e a jovem sacudiu a cabea. - Devia faz-lo. Ajuda. Tem de continuar a comer e a beber independentemente do que estiver a acontecer, ou pode 
tornar-se descuidada e fazer algo estpido. Mantenha uma mente lcida.  o melhor conselho que posso dar-lhe num cenrio de guerra.
Paxton sentiu-se grata. Ele era um indivduo simptico e um reprter espantoso. Era fcil perceber porque  que os outros tinham cimes. Era bom, muito bom mesmo 
e estava sempre de olho nos acontecimentos. - Obrigada pelas botas - agradeceu-lhe, e ele deu-lhe uma palmadinha no ombro.
- No tire o capacete, mantenha a cabea baixa e tudo correr bem. - Com estas palavras, voltou a afastar-se, subindo rapidamente por entre as rvores que se erguiam 
por detrs de alguns soldados, enquanto ela se interrogava sobre se o admirava ou considerava louco.
E, nesse mesmo momento, ouviu-se uma exploso enorme. Os cameramen precipitaram-se para o local com o operador de som atrs deles e, sem pensar em mais nada, tambm 
Paxton se viu a correr. Quando l chegou, havia homens estendidos por todo o lado e Ralph agarrava um deles, que tinha o peito aberto.
- Precisamos de mdicos - replicou num tom calmo mas firme.
Algum correu a chamar um e apareceu, subitamente, operador de rdio no meio deles.
- Tenho seis baixas - anunciou ao telefone e, no prprio momento em que ele pronunciava as palavras, Paxton sentiu que um lhe tocava.
Era um jovem que ficara sem um brao e havia sangue por todo o lado.
- Tenho sede - foram as suas nicas palavras, erguendo o rosto de criana para ela.
Paxton tinha um cantil ao lado, mas ignorava se devia satisfazer o pedido. "E se ele no pudesse beber? E se o facto de lhe dar algo o matasse? ... " Chegaram dois 
mdicos e um padre de capacete que prestava servio na unidade; comearam a fazer a ronda pelos rapazes que haviam sido feridos. No entanto, o rapaz que Ralph agarrava 
nos braos j tinha morrido e ele estava a ajud-los com outro.
- Tenho sede. - Ningum se aproximara ainda deste rapaz e ele fitava-a, angustiado. - Como te chamas?
_ Paxxie. - Acariciava-lhe o rosto e mantinha-lhe a cabea apoiada no regao, enquanto todo aquele sangue lhe escorria pelas pernas e ela tentava fingir que no 
o sentia. - Chamo-me Paxxie - repetiu meigamente, afastando-lhe o cabelo do rosto e sustendo o impulso de se inclinar e beijar-lhe as faces, enquanto chorava por 
ele. Tentou sorrir atravs das lgrimas, mas o jovem no a via.
- E tu como te chamas? - perguntou para que ele no deixasse de falar.
- Joe - respondeu num tom sumido, devido  perda de sangue e ao choque, e comeou a fechar os olhos, amparado a ela.
- V l, Joe... Acorda... No podes dormir, agora... Isso mesmo... Abre os olhos. - Sorriu-lhe, enquanto  volta dela reinava um pandemnio.
Estavam a tentar levar os rapazes feridos para uma clareira. O padre ajudava-os, Ralph e os cameramen tambm, e um dos mdicos carregava no peito de um deles; minutos 
depois, ouviu o motor de um helicptero sobre as suas cabeas. S que dos arbustos comearam a disparar contra ele e teve de se afastar no preciso momento em que 
o mdico que pressionava o peito do jovem gritava:
- Merda! - Perdera-o.
- De onde s, Joe?
- Miami. - Era um mero sussurro.
Miami. ptimo. - Tinha lgrimas nos olhos e um n na garganta, sentia-se agoniada e tinha as pernas ensopadas com o sangue dele, mas continuava a ampar-lo. o operador 
de rdio sentado ao seu lado dava ordens ao helicptero para que voltasse a partir. Estava demasiado quente por aquelas bandas.
- Uma ova... - chegou-lhes uma voz. - Quantos tm a? - A voz era firme e forte e no iria a lado nenhum sem os feridos.
- Ainda tenho quatro que precisam muito de ajuda.
E, no preciso momento em que respondeu, ouviu-se outra exploso enorme.
- Merda! - exclamou algum; os mdicos voltaram a correr e algum regressou para falar com o operador de rdio e fazer o relatrio dos feridos.
- Conte com nove. Tenho mais cinco para si, Niner Zulu. Consegue mandar-me rapidamente outro pssaro? Temos aqui uns rapazes que no vo esperar muito mais.
Paxton escutava de olhos fechados, sabendo que o rapaz que tinha no regao era um deles. Tentou chamar a ateno do operador de rdio, mas ele estava demasiado ocupado 
com o telefone e h muito que Ralph se afastara para outro lado com os seus cameramen.
Ests bem? - interessou-se uma voz de passagem e surpreendeu-se ao ouvir-se a si prpria:
- Estamos ptimos. No  verdade, Joe? No .
O jovem estava a mergulhar no sono e ela tocou-lhe na face para o despertar, tentando no olhar para o coto sangrento, que pingava, para o solo ao seu lado. Pensou 
na forma de fazer um torniquete, mas receava piorar as coisas e, momento' depois, apareceu um mdico.
- Ests a portar-te bem meu filho, muito bem. - E" seguida, sorriu a Paxton. ~ Voc tambm. - Apercebeu-se, ento, que o homem que a tranquilizava era o rapaz de 
Savannah e sentiu-se como se fossem amigos de longa data.
- Este  o Joe - replicou, tentando parecer despreocupada mas sem desviar os olhos do brao enquanto o helicptero pairava e conseguia ouvir a voz do piloto no rdio 
ao seu lado.
- Daqui Niner Zulu. Vamos avanar. Mas temos de actuar rapidamente. Empurrem-nos para dentro o mais depressa que puderem para podermos descolar logo.
- Merda! - exclamou algum. Era a palavra de ordem dessa tarde, mas parecia apropriada. pelo que vira  sua volta. - Como  que ele acha que vamos "empurr-los", 
foda-se? - perguntava o operador de rdio.
- No te preocupes - respondeu um dos homens tristemente. - Se ele esperar muito mais, no teremos de o fazer. - Dos segundos cinco, dois j haviam morrido. Restavam 
assim somente sete feridos para transportar e haviam morrido sete ao todo. Fora um dia lgubre, depois de um bom comeo.
No entanto, o helicptero baixou o suficiente de forma a que os mdicos e os tropas colocassem quatro homens a bordo e, em seguida, um segundo helicptero veio buscar 
os restantes. Paxton ficou a observar, enquanto dois dos homens transportavam Joe e viu-se a rezar em voz alta para que ele escapasse  morte.
Ao dar meia volta, avistou, subitamente, dois dos outros por terra, de olhos abertos e sem ver, com os, rapazes, do ARVN junto deles. Afastou-se aos tropees e 
vomitou nos arbustos: Ralph descobriu-a a, um pouco mais tarde, destroada e plida, o uniforme coberto de sangue e at mesmo o cabelo nos stios em que lhe tocara.
- Tudo bem, mida. Vomitei todos os dias durante os seis meses que passei na Coreia. - Suspirou e sentou-se, Um minuto, ao lado, dela.
As coisas haviam acalmado um pouco, mas o toque da morte via-se por todo o lado, s que o bombardeio no parecia to intenso. Ralph estava a pensar regressar a Saigo, 
essa noite, em vez de ficar.
- Hoje, recolhemos bom material - declarou, e Paxton, fitou-o horrorizada.
 como chama a tudo isto: "bom material"? - retorquiu, lembrando-se, subitamente, de Jean-Pierre e da sua perfeita fotografia das "rapariguinhas mortas de mo dada". 
Era algo de partir o corao.
- No fui eu quem comeou esta guerra - ripostou Ralph, visivelmente irritado. - Vim fazer a cobertura. E se conseguir abanar as pessoas, talvez lhe ponham termo. 
Se veio, contudo, para fazer a cobertura de reunies sociais no clube dos oficiais, est no stio errado, pois esta guerra nada tem de belo. E, se quer rir, talvez 
deva esperar at o Bob Hope aparecer no Natal.
- Oh, v-se foder! - Estava cansada, irritada, deprimida e doente com tudo o que vira. - Estamos aqui pelos mesmos motivos.
- Ah, sim? ptimo, porque esta guerra precisa de mais gente como ns. Pessoas que estejam dispostas a contar a verdade sobre o que vem e talvez a morrer por isso. 
Pessoas que no temam a verdade.  por isso que aqui est? - inquiriu, acalorado.
Paxton fitou-o. Ele estava a pression-la, mas gostava das respostas da jovem. Era rija, forte, preocupava-se e tinha coragem. Havia muitas coisas nela que lhe agradavam.
- Sim.  por isso que aqui estou - redarguiu, sem desviar os olhos. - Estou aqui para contar a verdade sobre a merda desta horrvel guerra. Tal como voc.
-  esse o nico motivo? - arriscou Ralph quando os dois se acalmaram um pouco; ela resolveu dizer-lhe o que contara a Jean-Pierre sobre Peter.
- O meu noivo morreu aqui h quase dois meses.
Ralph reflectiu demoradamente e, depois, olhou-a e deu-lhe um conselho que a chocou:
- Esquea-o.
- Como pode dizer uma coisa dessas? - replicou, horrorizada e magoada em memria de Peter.
- Porque, independentemente do motivo que a trouxe aqui, tem de esquec-lo se estiver interessada em fazer um trabalho decente. Ele morreu. No pode ajud-lo. Mas 
pode ajudar outras pessoas como ele, pode ajudar todo um pas atravs de um relato honesto e objectivo. Se apenas deseja ving-lo, ou ater-se  sua recordao, no 
lhe far qualquer bem, nem a si prpria, nem s pessoas para quem veio escrever.
Era bvio que Ralph tinha razo, e ela sabia-o, mas tal no impedia que se sentisse magoada. Esperava que ela crescesse num s dia e esquecesse o jovem que amara 
durante todos os anos de universidade. Mas ele estava certo. Como jornalista, tinha de contar ao mundo o que via e no a histria de Peter. Ele fizera um comentrio 
horrvel, mas ambos sabiam que tinha muito de verdade.
Nessa tarde, seguiram at Hai Ninh, a meio caminho de volta a Saigo e depararam com alguns combates e uma evoluo da situao que interessou a Ralph. E, quando 
estavam prontos para partir, o oficial de comando disse-lhes que era demasiado perigoso regressarem nessa noite. Teriam de esperar at de manh. Dormiram nas trincheiras 
com os homens, e Paxton conservou-se deitada, olhando as estrelas e pensando em Peter. Tambm sentira o mesmo ali? Tivera medo? Achara bonito? Pensara nela? E, afinal, 
o que interessava? Talvez Ralph tivesse razo. Nada disto interessava, exceptuando a verdade e as pessoas que a conheciam.
- Sente-se bem? - quis saber, aproximando-se mais dela e oferecendo-lhe um cigarro, mas Paxton recusou. Estava to cansada e agoniada com o que vira que nem sequer 
tinha jantado. E a comida enlatada, que lhes haviam distribudo, tambm no era muito apetecvel. O arroz e pho, uma sopa de massa, que o ARVN comia, tinham muito 
melhor aspecto.
- Estou ptima.
- No parece.
- Diria o mesmo no seu caso - sorriu Paxton, mas teve de admitir que, mesmo assim, ele estava com melhor ar.
- Desculpe se teve um dia duro. Mas este lugar no  para graas. E  impossvel comprometer ideais ou esquecer porque se est aqui. Quando se personifica, est 
tudo estragado. E, mesmo que a sua viagem tenha comeado assim, no  tarde de mais para mudar de opinio e acalentar um belo e isento objectivo em mente.
"Lembre-se apenas daqueles para quem escreve e a mensagem que pretende transmitir - prosseguiu. - Manter-se- humana. No pode, contudo, transformar isto numa vingana 
pessoal. Alguns dos soldados fazem-no. Os camaradas morrem, eles ficam meio doidos, correm para os arbustos  procura do Victor Charlie e vivem cerca de catorze 
segundos at pisarem uma mina e ficarem sem cabea. Seja qual for a sua misso, nunca pode perder a cabea. Os tipos que sobrevivem aqui no se esquecem disso um 
nico minuto. - Era um bom conselho e ela sabia-o.
- No consigo deixar de pensar naquele rapaz de hoje... o Joe..., de Miami... Nem sequer sei o apelido... Continuo a interrogar-me sobre se ainda estar vivo.
- Quase de certeza - tranquilizou-a Ralph. - Teve sorte. Em Nha Trang, estvamos mesmo ao lado da unidade duzentos e cinquenta e quatro do MDHA. Colocaram-no, provavelmente, 
numa mesa de operaes, quinze minutos aps o recolherem. Voc deve ter contribudo.
Deu-lhe uma palmadinha no brao e tentou acalm-la, mesmo que no fosse essa a verdade. Paxton dera o seu melhor e talvez o mido lhe devesse a vida. Havia tantos, 
e ele assistira  morte e ferimentos de uma longa srie. Decorrido algum tempo, ficava-se exausto e com uma sensao de amargura. Todos aqueles midos transformados 
em pedaos de carne viva. Dava a volta ao estmago. E ficava-se a pensar porque  que uma rapariga to bonita desejava estar ali. Todos eles eram, sem dvida, um 
pouco loucos. E, se no o eram no comeo, tornavam-se depois.
- Sabe que no consigo recordar-me do seu nome como deve ser? - sorriu-lhe. - Sei que o apelido  Andrews. Mas o nome prprio  algo como Pattie ou Patton, certo?
- Paxton - retorquiu, com um arremedo de sorriso. - S no quero que me chame Delta Delta.
- Talvez tenha de o fazer, se no me lembrar de Paxton. - Em seguida, reflectiu uns momentos e soltou uma repentina gargalhada, enquanto se conservavam ali deitados 
na trincheira, lado a lado.
- Porqu? - retorquiu, fitando-o, irritada. -  o meu nome?
- No, gosto do seu nome... mas ocorreu-me um pensamento divertidssimo. Trabalha para o Morning Sun, no  verdade? - Ela confirmou com um aceno de cabea.
Tem algum tio l?
- No propriamente - respondeu, corando, mas ele no se apercebeu. - Um mentor, se assim se pode chamar. o meu... quase sogro desempenha... um cargo bastante elevado 
no jornal. - No queria dizer-lhe que era o dono.
- E o chefe da redaco daqui declarou que estava a receber telexes frenticos de todas as altas entidades do Sun indicando que estava a chegar o sobrinho de algum 
e queriam que o pusesse bem longe de sarilhos e da zona de combate. penso que se referiam a si, Miss Paxton - acrescentou -, e ningum imaginou que se tratasse de 
uma rapariga. Merda... E o que  que eu fiz? Levei-a num s dia para dois dos lugares mais acesos.
- Sinto-me contente que isso tenha acontecido.
- Tambm eu - sorriu e continuaram deitados, ouvindo os disparos de um atirador ocasional. - No conheo a sua escrita. Mas tem um esprito desportivo e coragem. 
O resto vir facilmente.
- Obrigada - agradeceu-lhe, correspondendo ao sorriso.
- Pode acompanhar-me em misses, sempre que quiser. Desde que no conte ao seu tio.
Voltou a sorrir e acabou por passar pelo sono. Pensou em Ed Wilson. S estava no Vietname h dois dias e tinha a sensao de que no o via h anos... a ele, a Gabby, 
So Francisco... ou Peter.


CAPTULO 13

Ralph e Paxton regressaram no dia seguinte a Saigo com a equipa de filmagens, mantendo-se silenciosos durante o percurso. Tornava-se impossvel testemunhar a morte, 
a dor e a perda de homens, sem se sentir afectado.
- Mexe com uma pessoa, no ? - observou Ralph, sentado junto dela. Deixara que o operador de som fosse ao lado do condutor.
-  - retorquiu ela com um aceno de cabea. Continuava a pensar no jovem de Miami. Como seria a vida dele sem um brao? Pior, se no tivesse sobrevivido? E porque 
estavam a lutar ali? Ningum parecia com certezas de nada. Tudo parecia uma loucura.
- Vai receber alguma educao aqui - redarguiu Ralph. - A maioria das pessoas que fica uns tempos, no volta nunca a ser a mesma.
- Porqu? - inquiriu, continuando em busca de respostas.
- No sei... Vem demasiado... Preocupam-se demasiado, enquanto esto aqui... Tornam-se amargas, irritadas e desiludidas. Regressam aos Estados Unidos e as pessoas 
odeiam-nas e tratam-nas como assassinas... Ningum compreende. - prosseguiu- - L, ouvem rdio, param pelos bares, compram carros e andam atrs das mulheres. Esto-se 
nas tintas para o que acontece aqui. Sempre estiveram* E no querem saber. Vietname? Onde fica isso? Quem est interessado? So um bando de idiotas a lutar uns com 
os outros... a lutar uns com os outros e a matar-nos. Mas todos se esquecem disso. Estes rapazes esto a ser abatidos por nada.
Acredita realmente nisso? - Sentia-se magoada ao ouvi-lo falar desta maneira, sobretudo ao pensar em Peter. Era mais fcil acreditar que ele era um heri por morrer 
ali. Mas, at mesmo aos seus olhos, no era essa a verdade.
- Sim. E o mais triste  que todos acreditam - replicou. - Ningum se importa com o que acontece aqui.
Acho que nem sequer compreendem. Nem eu tenho a certeza de compreender. Estamos a tentar salvar o Sul do Norte, como o fizemos na Coreia. No , porm, o mesmo. 
As pessoas do Sul tambm nos combatem. Nem sequer pode afirmar-se quem  Vietcongue ou no. Merda! Na maioria das vezes, penso que todos o so. Basta pensar nos 
midos! A maioria seria capaz de nos fazer explodir o rosto com uma granada, mal nos pe a vista em cima. 
"E esta percepo enlouquece as pessoas - prosseguiu. - Ningum sabe em quem acreditar, quem respeitar, quem est a lutar. Metade dos novatos tm mais respeito pelo 
Charlie do que pelos seus oficiais de comando, os VC lutam mais no duro do que ningum. E o ARVN, o exrcito do Sul,  uma anedota. Entende-me?  tudo uma loucura. 
E, se ficar o tempo suficiente, tambm acabar por enlouquecer. Lembre-se disto quando comear a pensar em ficar. No dia em que deixar de querer apanhar o prximo 
avio para casa dez vezes por dia, estar metida num grande sarilho.
Ralph estava a troar dela, mas tambm lhe dissera algumas verdades importantes e ela sabia. Havia algo de estranhamente fascinante no Vietname, algo que levava 
as pessoas a quererem ficar, algo no ar, nos cheiros, nos sons, no povo, no bizarro contraste entre Saigo e a incrvel beleza do campo, entre a inocncia dos rostos 
e o sofrimento das pessoas. Queria-se acreditar que eram puras, que tudo aquilo as feria e pretendia-se ajud-las. Mas era essa a questo: Poderamos ajud-los e 
salvar-nos? Ou era tudo intil? Ao meio-dia, quando seguiram rumo a Saigo, Paxton ainda no tinha nenhuma das respostas.
Ralph deixou-a no hotel e continuou at  redaco da AP, no Edifcio den. Ao atravessar o trio, ela nem queria acreditar como estava suja. Ainda tinha as roupas 
cobertas de sangue seco, sujidade e suor, e estava com um aspecto horrvel. Cruzou-se com Nigel no caminho e ele observou de cenho franzido.
- Deus do cu! D-me ideia de que teve um dia muito agitado ou ser que se cortou a fazer a barba? - Aquele palavriado irritou-a e ripostou, enquanto tirava o capacete.
- Estivemos em Nha Trang. E houve uma srie de feridos. - A ela pareciam-lhe muitos, e sentiu os olhos cheios de lgrimas no momento em que pronunciou as palavras.
-  para ficar surpreendido? julgo que  por isso que aqui estamos. - Ele era um idiota convencido e toda aquela atitude a aborrecia. - O que vai fazer esta noite, 
ao jantar?
- No sei. Quero trabalhar na minha reportagem. - Dado o seu contrato com o Sun, no tinha prazos reais, mas apenas enviaria material quando o tivesse. Queria, porm, 
mandar-lhes algo muito em breve, mostrar-lhes que tinha ido ali para trabalhar e o fazia com seriedade.
- Talvez venhamos busc-la mais tarde. O Ralph foi para casa ou para a redaco?
- Tenho quase a certeza de que foi para a redaco respondeu num tom exausto.
-  melhor que v dormir um pouco. Parece muito em baixo.
- E estou... Vemo-nos depois. - Na verdade, tinha todas as intenes de escrever sobre o que vira; porm, mal tomou um banho no hotel e se estendeu " apenas por 
um minuto", adormeceu profundamente e, quando acordou, estava escuro e sentia-se a morrer de fome.
Desceu  sala de jantar e no avistou ningum conhecido. E, ao tentar comer, verificou ser incapaz. O prprio sumo de anans, que tanto lhe tinha agradado  chegada, 
sabia-lhe horrivelmente. S conseguia pensar no que se lhe deparara em Nha Trang. Depois de engolir um caldo, um pouco de chao tom e pasta de camaro, voltou ao 
andar de cima e sentou-se a elaborar a reportagem.
Ficou a escrever at s duas da manh e chorou ao tentar descrever o jovem de Miami e o mido de Savannah. Apercebeu-se de que nem sequer sabia como ele se chamava. 
Todavia, nem isso interessava. Ao acabar, recostou-se na cadeira, sentindo-se exausta mas aliviada. Escrever sobre ele, quase se assemelhava a uma catarse.
Tentou descrever a beleza do Vietname, o contraste do que tinha visto, mesmo em to curto espao de tempo, O horror daqueles estropiados, o barulho das ruas, a inacreditvel 
beleza para norte, o verde brilhante, a rica terra verde por um lado e, por outro, todo o pas destroado, em sangue, e os rapazes sangrando com ele. Sangrando por 
ele. ,A pea tinha fora. Sentia-se satisfeita e interrogou-se sobre o que pensariam dela em So Francisco.
Deitou-se s trs da manh e estava na redaco da AP no dia seguinte, s nove, onde se cruzou com Ralph, que tinha um ar fresco e profissional, vestido com uma 
camisa branca lavada e fato de caqui.
_ Onde vai, Delta Delta? - Paxton sorriu involuntariamente e ele pareceu feliz em v-la.
- Quero mandar a minha histria.
- De Nha Trang? - inquiriu, e ela esboou um aceno de concordncia. - A propsito, informei-me. Todos os rapazes que recolheram no outro dia escaparam, excepto um... 
- O corao dela saltou-lhe no peito. - O que no sobreviveu era um rapaz negro do Mississipi. Portanto, o seu deve estar a recuperar.
Paxton sorriu visivelmente aliviada com um brilho meigo no olhar. Era uma boa mida, pensou Ralph. Nmero um, de primeira qualidade. Tinha muito que aprender, mas 
era esperta e gostava dela.
- Nem sempre as coisas so assim - rematou. - Talvez lhe tivesse dado sorte. Agora ir para casa. Que raio de maneira de o conseguir, ficando apenas com um brao, 
mas, em compensao, no regressaria dentro de um saco. - O que vai fazer hoje? - perguntou Ralph.
- Vou procurar sarilhos - respondeu, trocista, e ele riu.
- Cuidado. Nesta cidade no ter dificuldade em encontr-los.
- J reparei. - Quanto mais no fosse, havia Nigel Aue, ou o "ligeiramente" casado Jean-Pierre, que ia encontrar-se com a mulher nesse fim-de-semana.
- Esta noite, a revista Time d uma festa nas instalaes do Continental Palace. Quer ir?
- Claro. - No estava certa de se tratar de algo mais do que um convite de amigo, mas no lhe interessava. Estava longe de procurar romance e todos os contactos 
que fizesse seriam teis.
- Encontramo-nos l - marcou, consultando o relgio era bvio que tinha pressa. - Seis horas?
- ptimo - anuiu.
Passou o resto da tarde a dar mais uma volta por Saig.. E ficou profundamente afectada pelas crianas. Eram to vulnerveis e novinhas e j pareciam to destroadas. 
No entanto, tentavam vender tudo a quem se sentasse nos cafs, desde herona a cigarros e bebidas leves roubadas. Sabia que, mais tarde, escreveria sobre elas. Tratava-se 
de um mundo estranho e muito distante do mundo que conhecia. Todavia, ao olhar em volta, sentia-se contente por ter vindo.
s cinco horas, regressou ao hotel e mudou para um vestido de flores estampado, calou umas sandlias e seguiu a p, pela Tu Do, at ao Continental Palace. Era fcil 
acreditar que, outrora, aquela cidade fora encantadora, no tempo dos Franceses. Ainda o era em muitos aspectos, s que se sentia uma permanente tenso. Mesmo sentadas 
nos cafs, as pessoas tinham conscincia de que o inimigo estava por todo o lado e uma bomba podia rebentar no meio delas a qualquer momento.
Quando chegou ao hotel, atravessou a esplanada e, como habitualmente, avistou Nigel. Estava acompanhado de duas enfermeiras do exrcito; tinha uma delas ao colo 
e a outra metia-lhe os dedos pelo cabelo e ria. Paxton, no pronunciou uma palavra e subiu rapidamente as escadas at  redaco da Time Inc.
Havia bastante gente e Ralph j a esperava, conversando animadamente com o chefe de redaco sobre a iminente Conveno Democrtica, em Chicago. Nesse ano, tinham 
ocorrido tumultos por todo o lado, desde o assassnio de Martin Luther King e a eliminao mais recente de Robert Kenedy. Ralph dedicava-se a terrveis previses.
- Penso que vai haver uma tremenda confuso em Chi cago. - E, ao pronunciar as palavras, avistou Paxton.
Saudou-a com um sorriso caloroso, apresentou-a a todos os presentes e conduziu-a pela sala com modos prticos, mas tratando-a como se fosse uma irmzinha mais nova. 
Paxton sentia-se muito comovida e confessou-lho, enquanto bebia um usque e depois de ter conhecido todos os que ele considerava importantes.
- Falo a srio, Ralph. Se no fosse por si, ainda estaria sentada no meu quarto de hotel.
- Talvez estivesse melhor - retorquiu, bebendo um grande trago de bourbon. - Ontem, senti-me bastante culpado, quando regressmos. Talvez Nha Trang fosse pesado 
demais para um primeiro impacte com o que aqui se passa. 
- No acho - redarguiu, tranquila e fitando-a bem no fundo dos olhos. -  para isso que vim.
- A propsito, eu tinha razo - prosseguiu, com um ligeiro sorriso. - Ontem, fiz uma pequena "investigao", quando voltmos.  voc a pessoa que todos devamos 
levar a festas na embaixada e ao Golden Ghetto. - Este ltimo fora, outrora, um elegante bloco de apartamentos na Rua Gia Long.
- Espero que isso no passe pela cabea de ningum - redarguiu com um sorriso.
- No passar - sorriu em resposta. - Aqui no h tempo para se fazer de baby-sitter. A propsito - acrescentou, fitando-a cautelosamente. - No est interessada 
noutra misso? Vou a Cti Chi fazer uma reportagem nos tneis. Pensei que pudesse interess-la.
- Iria adorar. Outra vez s cinco?
Ralph riu. A jovem parecia to sria e to ansiosa.
- Vou busc-la s oito. Ser muito a tempo. E traga de novo o equipamento de combate.
- No h festas no clube dos oficiais? - replicou Paxton, franzindo o sobrolho. - Os meus amigos de So Francisco vo ficar muito desapontados.
- No se preocupe, Delta Delta. Limite-se a mandar-lhes uns donuts! - retorquiu com uma piscadela de olho. Ela fingiu que ia atac-lo, ele baixou-se e saiu uns minutos 
depois.
Em seguida, falou com mais alguns reprteres, acabou por regressar at a baixo e evitou Nigel, na esplanada. Nesta altura, j ele estava muito embriagado e mostrava-se 
muito amoroso com uma das enfermeiras. Paxton regressou calmamente ao hotel, jantou no quarto e, s dez horas, j tinha adormecido. Na manh seguinte, estava  espera 
de Ralph Johnson no trio, s oito em ponto.
Desta vez, levava uma equipa de filmagens diferente, um co-fotgrafo e um outro motorista. Tinham um jipe cedido pelo exrcito e um jovem fuzileiro a conduzir. Era 
um jovem alto e simptico, de cabelo ruivo e olhos azuis, uma tatuagem de um cowboy no corpo e dizendo-se natural de Montaria.
Paxton tentou reter um sorriso quando ele se apresentou dizendo que se chamava Cowboy. Tinha dezanove anos e estava no Vietname desde o Natal anterior. Faltavam-lhe 
mais seis meses para regressar a casa, mas afirmou que se sentia muito feliz ali. Fora designado temporariamente para a agncia noticiosa e transportava reprteres 
e dignatrios de visita por todo o pas.
- E, enquanto no pisarmos minas, nem formos atingidos, tudo corre bem. - Esboou-lhes um arremedo de sorriso, e Paxton achou que ele era um jovem feliz. Podia ter 
estado no Norte e ter sido atingido como os outros.
A viagem at Cti Chi demorou quarenta e cinco minutos e passaram a maior parte do tempo a conversar sobre cavalos e equitao, at que Ralph e Paxton se puseram 
a falar da reportagem que pretendiam. O reprter fotogrfico que levavam era francs. Chamava-se Yves e era amigo de Jean-Pierre. Conservava-se bastante calado e 
sabia pouco ingls, o que fazia com que parecesse tmido, mas no o era. Ralph j trabalhara com ele e sentia-se satisfeito por o ter na misso desse dia. Era bom, 
calmo e meticuloso, um pouco como Paxton.
- A base de Cti Chi  um lugar interessante - explicou Ralph a Paxxie pelo caminho. -  o quartel-general da Vigsima Quinta Diviso de Infantaria "Tropic Lightening", 
do Havai. Ergueram a base h mais de dois anos sobre os tneis que os vietcongues ali haviam construdo e calcularam que todos estavam selados. Contudo, enganaram-se. 
Segundo parece, os VC continuaram a operar sob os seus ps e s tm tido dores de cabea desde que aqui chegaram.  uma base enorme e fica mesmo do outro lado do 
rio Saigo, como parte do Iron Triangle, onde tivemos os mais acesos combates.
- O que estamos a fazer aqui hoje? - inquiriu, grata por toda e qualquer informao.
- Descobriram uma nova rede de tneis aqui. Achei que daria uma boa histria. Os indivduos que lidam com esta merda chamam-se ratos de tnel e formam um grupo incrvel. 
Rijos e com nervos de ao. No me convenceriam a entrar num desses tneis por nada deste mundo. Os VC tm ali um verdadeiro mundo subterrneo. Tentaram destruir 
o mximo quando, no ano passado, deram cabo de Iron Triangle. Mas no conseguiram.
"No ano passado, chegaram mesmo a encontrar um complexo de hospital na floresta de Than Dien, a norte de Iron Triangle. Os VC so uns homenzinhos surpreendentes. 
- Ralph estava consciente de que havia muito mais do que se detectava  primeira vista, pois tratava-se de um povo esperto, astuto, duro e incrivelmente corajoso, 
que lutaria at  morte contra o ARVN, o exrcito do Sul, e os americanos que os ajudavam.
- Acha que eu poderia descer aos tneis? - perguntou Paxton fascinada, e Ralph abanou a cabea, com uma expresso horrorizada.
- No faa nada disso, Pax.  demasiado arriscado e fico claustrofbico s de pensar nisso. - Quase se arrepiou, mas ela discordava.
- Acho que seria fascinante.
- Acho que voc  louca - ripostou ele.
Percorreram o resto do caminho em silncio. Quando chegaram, sentiu-se impressionada ante o tamanho e a organizao perfeita da base de Cti Chi. Foi muito diferente 
da viagem at  base de Nha Trang que haviam feito dois dias antes, at os conduzirem a uma regio por detrs da base, ainda coberta de vegetao. O calor parecia 
erguer-se do meio dos arbustos, havia tropas por todo o lado e as escavadoras derrubavam rvores e arbustos.
- Volte a pr o colete antibalas - instruiu Ralph distraidamente, enquanto dizia algo a Yves e acenava a algum  distncia.
- Porqu? - O calor era sufocante e mais ningum tinha coletes vestidos. A maioria dos homens trabalhava em tronco nu, vestidos apenas com as calas do uniforme 
e botas de combate. Uma srie deles at tirara os capacetes. - Ningum mais os ps.
- Faa como lhe digo - ripostou Ralph. - Eles tambm deviam us-los. Cu Chi  famosa pelos atiradores. - Paxton fez uma careta e obedeceu, colocando o pesado colete, 
e ia a tirar o capacete mas deteve-se ante mais um olhar dele.
 semelhana das tropas, comeara a andar com o creme de sol e o repelente de insectos presos por dentro do capacete. A maioria dos homens tambm trazia ali cigarros, 
cartas de jogar e outras coisas de que necessitavam. Ela reparou que todos conservavam as M-16 perto e a maioria andava com os revlveres .45 enfiados nos cintos. 
 chegada, tinham-na avisado para no transportar armas, mas em poucos dias aprendera que muitas pessoas andavam armadas. Podia comprar-se quase tudo no mercado 
negro. Mas, at agora, no tinha o mnimo desejo de adquirir uma.
E, enquanto Paxton punha o colete, um homem alto e magro aproximou-se dela. Era o homem a quem Ralph acenara. Tinha cabelo louro e olhos claros, um sorriso despreocupado, 
mas a tenso do olhar e um ar permanentemente desconfiado atraioavam os seus modos casuais.
- Ol, Quinn. Parece que mantns os teus homens ocupados.
O capito William Quinn da Vigsima Quinta Diviso de Infantaria apertou a mo a Ralph e a Yves e estendeu uma mo amiga a Paxton.
-  simptico ter-vos aqui - replicou. - Encontrmos uma beleza esta semana, depois de te ter visto, cus! Devemos ter de abrir uma clareira at ao Cansas! - Olhou 
com uma expresso de desculpa para Paxton e apontou para uma rea que tinham estado a limpar.
Era um homem bem-parecido. Tinta trinta e dois anos, frequentara West Point e fizera carreira no exrcito.
Em seguida, fitou Paxton com um sorriso tmido.
- Tambm trabalha para a Associated Press?
Os olhos pareciam trespass-la at ao mais fundo e, por momentos, ela esqueceu o que ele lhe perguntara. Era um homem muito elegante e emanava uma aura de poder, 
de controlo total; mas, por outro lado, havia algo mais, Um leve toque selvagem, de loucura mesmo.
- Eu... no. Sou do Morning Sun, em So Francisco - Bonita cidade. Instalei-me no Presdio uns tempos, antes de vir . para c. - E era a que deixara a mulher, mas 
no o mencionou.
-  a minha nova protge - explicou Ralph com um sorriso. - Faz-me lembrar um pouco quando fui para a Coreia. Embora ache que era menos corajoso do que ela - rematou 
 guisa de elogio, e ela agradeceu-lhe.
- De nada, Delta Delta - troou, enquanto seguiam o capito Quinn at  clareira. Havia ferramentas, equipamento e homens por todo o lado e, se se olhasse para o 
cho, viam-se pequenos orifcios espalhados, que quase no pareciam com tamanho suficiente para alojar uma criana.
- O que  isto, meu Deus? - surpreendeu-se Ralph, ajoelhando no cho e espreitando para o interior de um deles. Por norma, estavam totalmente escondidos e no se 
avistava qualquer entrada; mas Quinn e os seus homens tinham destapado todas as aberturas que conseguiam encontrar e, agora, viam-se os tneis com mais clareza. 
Vislumbravam-se mesmo os tubos de bambu de que eles se serviam para respirar quando andavam naquelas profundezas. - Presumo que depois os alargam.
No entanto, Bill Quinn abanou a cabea.
- Nem sempre. So uma gente surpreendentemente pequena - retorquiu quase respeitoso e com humor. - Levam-nos seis dias a expulsar os piolhos daqui. So muito teimosos.
- Sempre o foram - retorquiu Ralph com um aceno de concordncia.
Bill Quinn mostrou-lhes as redondezas, e Paxton perguntou se podia descer uns centmetros para inspeccionar.
A maioria dos americanos era demasiado corpulenta para caber num stio daqueles, dada a largura dos troncos e dos ombros. Ela era, todavia, elegante e flexvel e 
queria ver o que se encontrava por baixo do solo.
Pediu emprestada a Yves a mquina fotogrfica e a lanterna e foi atrs de um dos pequenos e geis ratos de tnel, um dos homens de Quinn. Decorridos uns minutos, 
faltou-lhe o flego. Estava plida e coberta de sujidade quando reapareceu  superfcie e assustadssima. L em baixo, ainda pairava um cheiro a morte, e o homem 
que descera com ela explicou-lhe que ainda "no os tinham puxado a todos c para fora". Era horrvel pensar nos cadveres dos VC em decomposio. Porm, tudo  volta 
deles o estava. Nha Trang tambm fora assustador  sua maneira, ainda mais devido ao fogo aberto e aos feridos em estado desesperado. Aqui, era tudo mais subtil 
e mais sinistro, embora o tenente lhes garantisse que todos os tneis se encontravam desimpedidos e os nicos VC l em baixo estavam mortos.
- Utilizam ces? - perguntou, ainda impressionada pela experincia, e ele sentiu admirao por ela. Era a primeira americana que se dispusera a descer at l abaixo. 
O prprio Yves, o reprter fotogrfico de Ralph, no se mostrara nada entusiasmado. Ela era, contudo, jovem, esperta e interessada, o que marcava a diferena.
O capito apercebera-se igualmente de que era muito bonita ao v-la soltar a cascata de cabelo louro do capacete. Muito bonita. E sentiu-se como se estivesse em 
Cti Chi h uma eternidade.
- Utilizamos ces - anuiu. - Contudo, perdemos tantos, que tentamos no o fazer. Preferimos usar homens pois disparam para o interior dos tneis, algo que os ces 
no podem fazer. Pelo menos, os nossos rapazes tm uma oportunidade. "Mas no por a alm. " Era um pensamento assustador e sentiu um calafrio a percorrer-lhe a 
espinha quando avanaram e chegaram junto de uma outra abertura, esta rodeada por tubos de respirao em bambu.
- Este aqui era bom - prosseguiu Quinn. - Havia sete homens e uma mulher. Segundo os nossos clculos, permaneceram aqui um ano, talvez mais. - Mesmo debaixo do nariz 
deles. Explicou que saam  noite e provocavam o mximo de estragos que conseguiam na base, desde sabotagem a bombas de plstico, granadas de mo e disparos. - Tivemos 
um grave problema.
Tratava-se de uma importante declarao, e Paxton comeou a tirar apontamentos pela primeira vez. Nessa altura, um sargento aproximou-se de Quinn e informou-o de 
que havia indcios de um atirador com espingarda de mira telescpica, mais  frente. Fitou Paxton, e dirigiu-se novamente a Quinn.
- Quer que eles regressem  base?
Parecia irritado com a presena de jornalistas, e o olhar com que os brindou nada tinha de caloroso nem simptico. Todavia, Bill Quinn no se mostrou preocupado. 
Consultou o relgio e fez qualquer comentrio ao operador de rdio para saber se estava em contacto com os rapazes que andavam a revistar as reas dos arbustos que 
ainda no tinham limpo.
- No. Eles esto ptimos aqui - respondeu Bill Quinn ao sargento e continuou a falar com o operador de rdio, antes de explicar a Ralph que havia um atirador com 
espingarda de mira telescpica, talvez dois, e que tinham motivos para pensar que poderia existir outro tnel mais  frente.
- Talvez tenham oportunidade de ver como os "limpamos" - acrescentou com um sorriso despreocupado para Paxton.
A jovem ainda o desconhecia, mas ele era famoso no Vietname. Ajudado pelos seus homens, descobrira e esvaziara mais tneis do que algum na histria da guerra e, 
por varias vezes, ele prprio tinha descido. Fora ferido quatro vezes, condecorado duas e todos os seus homens o adoravam.
- H que ter algo de loucura para se ser um rato de tnel - afirmava com frequncia e era algo que procurava nos seus colaboradores. Algo de terrivelmente corajoso 
e violento e, no entanto, o autodomnio bastante para cumprir ordens. Tinham de estar preparados para morrer num espao em que mal conseguiam mexer-se. E a prontido 
com que Paxton se dispusera a descer tinha-o intrigado. No entanto, o seu sargento estava muito menos intrigado com ela. Mostrava-se visivelmente irritado, quando 
receberam a confirmao do segundo atirador.
- Agora, levo-os de volta, senhor?
- No me parece, sargento - ripostou Quinn num tom firme. - No me parece que tenham percorrido toda esta distncia para virem almoar. Acho que  isto o que procuram.
A semelhana do chamado Cowboy, o motorista que os trouxera, tambm era do Noroeste e tinha um estilo despreocupado e aparentemente lento, mas os seus homens sabiam 
que podia transformar-se numa cascavel, pronta a atacar de um momento para o outro.
- Apetece-lhe beber qualquer coisa? - perguntou, virando-se para Paxton.
Ela estava a morrer de sede e sentiu-se agradecida com a Coca-Cola gelada que se materializou, como por milagre, de uma arca de gelo. Arranjou outras para Ralph 
e Yves e, pouco depois, mudaram-se para uma tenda numa pequena clareira, a que ele chamava o seu "escritrio". Respondeu-lhes a todas as perguntas e manteve-se em 
contacto com o seu operador de rdio. Depois de mais dois telefonemas, franziu o sobrolho e anunciou-lhes que iria voltar l fora. No lhe agradava o relatrio sobre 
os atiradores.
Tinha uma expresso sria quando prosseguiram caminho e, desta vez, ordenou a Paxton e Ralph que ficassem para trs. Yves estava acocorado nos arbustos a fotografar 
com uma lente de longo alcance algo que lhe despertara interesse.
E, momentos depois de terem continuado a caminhar, notou-se um sbito movimento nos arbustos e ouviu-se uma exploso mesmo na frente, enquanto todos se atiravam 
ao cho, incluindo Paxton.
Bill Quinn avanou a rastejar e o operador de rdio tentava, freneticamente, entrar em contacto com algum.
- Al, Lone Ranger, daqui Tonto... Est a ouvir-me, Lone Ranger? O que tem a?
A voz que respondeu era staccato. E o operador de rdio transmitiu rapidamente a informao ao sargento. Flavi, dois atiradores e seis VC que, segundo parecia, se 
tinham materializado do nada. Quinn estava certo. Eles tinham outro tnel.
Ralph observou-a, quando ela mergulhou por terra,
Paxton sentiu-se subitamente grata por ter conservado o colete e o capacete.
- Escolhemos um belo dia para vir at c - comentou Ralph num sussurro.
- Pelo menos no  uma monotonia - sorriu, tentando no parecer assustada.
- J esteve aqui tempo de mais - replicou acima de todo o rudo.
- Est a tornar-se um caso srio. - E! ao pronunciar as palavras, o sargento reapareceu ao lado deles, com uma expresso irritada para Paxton.
- O capito quer que faam o favor de recuar - explicou assernelhando-se ao ascensorista de um armazm, e os seus modos provocaram de imediato uma reaco negativa 
em Ralph e Paxton.
- Algum motivo para que os membros da imprensa se jam excludos? - inquiriu Ralph bruscamente, procurando com o olhar Yves, que continuava a tirar fotografias com 
a sua lente de longo alcance e parecia satisfeito com os resultados.
- Diria que h um bom motivo, senhor - ripostou o jovem sargento. - Est acompanhado de uma mulher e preferamos que nenhum dos dois apanhasse um tiro, se  que 
no tem objeco. - Expressava-se num sotaque muito nova-iorquino e com modos idnticos. - Acha razovel?
- Por acaso, no - arguiu Ralph sem desviar o olhar, enquanto Paxton se detinha a observar. - No acho que o sexo da pessoa esteja relacionado com o jornalismo. 
Se ela est disposta a arriscar  l com ela, amigo.
No estava a ser duro, mas a trat-la com respeito, e Paxton sentiu-se agradada. Na opinio dele, se estava no Vietname era para cumprir uma misso, o que correspondia 
 verdade. E estava-lhe grata.
- E est disposto a assumir a responsabilidade, se ela for morta? - quase rosnou o sargento de Nova Iorque. A chapa de identificao da farda indicava  nome "Campobello".
- No, no estou - admitiu Ralph sem rodeios. - Ela prpria assumiu essa responsabilidade quando aceitou esta misso, tal como eu... tal como o senhor, sargento.
- Como quiser. - O sargento deu meia volta e rastejou pelos arbustos; momentos depois, ela e Ralph aproximaram-se um pouco mais da aco. Tinham avanado bastante 
e o operador de rdio convocara alguns helicpteros para o local. Os VC disparavam contra eles.
- Lone Ranger... - voltou a chamar. - O que tem  Ouviu-se um grito de satisfao do outro lado.
- Ol, Tonto. Apanhei dois ndios, um deles est ferido... Muito simptico... Obrigado pela ajuda e continue a mandar cartes e cartas.
E, nessa altura, ouviu-se um estrondo. A metralhadora M-60 entrara em aco... duas granadas de mo... e, num abrir e fechar de olhos, percebeu que algum a agarrava. 
Um brao forte prendera-lhe os ombros e estava a ser arrastada para trs por uma fora to poderosa que ignorava o que a atingira.
Ao embater no solo, sentiu algo semelhante a uma enorme exploso. Agora, os VC estavam a lanar granadas de mo e uma delas no lhe acertara por milagre. O operador 
de rdio tinha abandonado o posto, e Ralph mergulhou nos arbustos, quase caindo nos braos do sargento.
No entanto, ela teria sido atingida se Bill Quinn no a tivesse agarrado e arrastado, pondo em risco a prpria vida. Ao ver-se de rosto para baixo no meio da lama, 
com os longos membros dele a tap-la, demorou uns momentos a tomar conscincia do que acontecera.
- Magoei-a? - interessou-se, preocupado.
Paxton abanou a cabea e moveu-se com alguma dificuldade. Ele ordenou-lhe, porm, que mantivesse a cabea baixa, embora as tropas locais tivessem avanado contra 
os vietcongues e os sons dos disparos soassem a uma maior distncia.
- No. Estou ptima.
No entanto, ele tirara-lhe o flego. Limpou a poeira da cara e, depois, sorriu-lhe.
- Parece uma mida que acabou de cair na lama.
- Sinto-me como uma mida que acabou de ser salva. Obrigada - agradeceu-lhe com uma expresso sria.
Bill parecia impvido e sereno, mas era da que lhe vinha a fama e esse o motivo por que as pessoas gostavam dele. Faria tudo pelos seus homens a qualquer preo 
e nunca pedia a ningum que fizesse algo que ele prprio no faria. Era essa a razo por que o amavam e confiavam tanto nele.
- Acho que o Tony tem razo... Devia ter esperado uns dias, antes de os deixar vir at aqui. No percebi que o Ralph ia trazer uma amiga. - Fitou-a com uma expresso 
de desculpa e, depois, ajudou-a lentamente a pr-se em p.
- Ainda bem que viemos. Os tneis so espantosos.
Ele sorriu impressionado com a sua coragem e agradado com aquele fascnio pelos tneis. Era um trabalho de que acabara por gostar, j que tinha de estar ali. Proporcionava-lhe 
um verdadeiro desafio, algum mistrio, muito perigo e tornava-se imprescindvel pensar como eles para os apanhar.
- Gosto do que fao - replicou com um sorriso tranquilo, e ela sentia-se ansiosa por escrever a seu respeito, mas tinha receio de pedir. Este era o terreno de Ralph, 
no o dela, e estava longe de querer aborrecer Quinn ou parecer intrometida.
O sargento deixara bem claro que todos eles eram intrusos. E, agora que tudo se tinha complicado mais, no queria aborrec-lo.
- Tero de voltar depois de ter limpo este. No acreditariam no que se pode encontrar l em baixo - prosseguiu.
Paxton ainda se lembrava do fedor do tnel em que mal entrara.
- Refiro-me a armas - rematou. - A maioria das armas usadas pelos VC so roubadas ou capturadas - explicou. - Peas de artilharia, artigos soviticos, ferramentas 
chinesas, equipamento mdico, manuais...  uma lio. - Encarava aparentemente o material- blico como o mximo desafio. Mas ela quase estava mais interessada nele 
do que na sua actividade. Que gnero de homem perseguia um mundo subterrneo em busca de um inimigo que ningum mais conseguia descobrir, mas cuja presena todos 
conheciam? Que gnero de homem conseguia ganhar uma guerra daquelas ou estava disposto a dar a vida por esse esforo?
- H quanto tempo est no Vietname? - inquiriu num tom calmo, quando foram  procura de Ralph e de Yves. Agora, a aco mudara-se para um local mais  frente, e 
o sargento dedicava-se a controlar tudo, juntamente com os helicpteros. - H umas semanas?
- Seis meses - respondeu, sorrindo. Ela j se sentia como se estivesse ali h muito tempo e s passara menos de uma semana desde a sua chegada.
-  demasiado nova para fazer a cobertura de uma guerra deste tipo - prosseguiu ele. Era uma rapariga corajosa, o que lhe agradava. Na verdade, tudo nela lhe agradava: 
O aspecto, a coragem, a forma como descera, sem hesitar, pelo tnel. Nunca conhecera nenhuma mulher assim. - Lamenta ter vindo?
- No - respondeu, sem desviar o olhar. - Sinto-me contente. - Contente, triste, assustada e, por vezes, feliz. Sabia, que se encontrava no lugar certo  hora certa, 
o que j representava alguma coisa.
Ele preparava-se para lhe dizer quanto a admirava, mas o sargento Campobello reapareceu subitamente e comunicou-lhe que a sua presena era necessria. Os dois atiradores 
tinham sido feridos e capturados, dois dos outros estavam mortos e quatro haviam fugido, supostamente para o interior do tnel. Mas, se os atiradores falassem, talvez 
conseguissem saber a localizao exacta do tnel.
- Tenho de voltar ao trabalho - redarguiu com um sorriso calmo. - Vemo-nos antes de se ir embora.
Em seguida, desapareceu com o sargento Campobello, e ela foi  procura de Ralph e de Yves. Estava coberta de sujidade e quase se assemelhava a um dos homens.
- Foi por pouco - comentou Ralph, fitando-a com um ar desaprovador. - Ter de se manter atenta... ou acabar com os miolos estoirados. - No lhe agradara, por outro 
lado, que ela tivesse descido ao tnel. - Tenha cuidado, Delta Delta. Esta gente no usa cartuchos sem plvora.
- Tenho o mximo cuidado - ripostou. - Atiraram a merda de uma granada para o stio onde me encontrava quase atingiram o operador de rdio. O que esperava que fizesse? 
Que ficasse no parque de estacionamento, enquanto conseguia as reportagens? - explodiu, e ele soltou uma sbita gargalhada.
A jovem era exactamente como ele o fora na sua idade, ansiosa por pr a cabea de fora e conseguir a maior, a melhor e a mais arriscada histria.
- Muito bem, mida. V em frente. Mas depois no venha chorar para o meu ombro se a ferirem.
- No o farei - resmungou entre dentes, sacudindo a poeira, enquanto ele continuava a rir.
- Est com um ar horrvel, sabia? - E, face ao comentrio, tambm ela se ps a rir. Fora um dia interessante e gostava de Bill Quinn, talvez um pouco mais do que 
deveria. Ele regressou algum tempo depois, quando j estavam prontos para partir, agradeceu-lhes terem vindo a Cti Chi e prometeu a Paxton que, da prxima vez, lhe 
mostraria a base. De momento, porem, tinha de os deixar. Estavam ocupados a interrogar os prisioneiros.
- Vemo-nos em Saigo, Ralph. Talvez possamos jantar para a semana.
Ralph esboou um aceno de concordncia, e Quinn ficou a dizer-lhes adeus quando se afastaram. No voltaram a pr os olhos no sargento e, segundo Paxton, talvez tivesse 
sido prefervel. Era bvio que ele os detestava e no tinha desejo de colaborar com a imprensa. No que fosse necessrio. Haviam tido um excelente dia de trabalho 
e, tanto ela como Ralph, obtido boas reportagens.
Yves afirmou que tambm fizera boas fotos. Conseguira uma de qualidade, quando haviam atingido um dos atiradores. Aqui, a noo de qualidade era horrvel. Dois mortos 
e uma rapariga ferida davam uma "excelente" histria, uma fotografia ptima, talvez um prmio por um jornalismo brilhante. Era estranho como se ganhava um prmio 
por assistir  morte das pessoas.
No entanto, ao seguirem rumo a Saigo, s conseguia pensar em Bill Quinn e no seu corpo cobrindo o dela no momento da exploso da granada, no seu enorme poder ao 
proteg-la e na expresso com que a olhara quando ela rolara para o lado.
Sentia-se culpada com esses pensamentos. Ele era um homem casado, e Peter apenas morrera h pouco mais de dois meses. Contudo havia algo naquele homem, uma energia 
inegvel, uma corrente elctrica que a atraa e ela achava irresistivelmente excitante.

CAPTULO 14

Durante a semana seguinte, Paxton no se afastou de Saigo. Escreveu a reportagem do incidente em Cu Chi e umahistria em separado, descrevendo os tneis. O jornal 
estava a publicar os seus artigos com o ttulo "Mensagem do Vietname", por Paxton Andrews. At agora, tinham sado todos e o Sun estava a vend-los, o que significava 
que podiam aparecer em Savannah, impressionando, assim, sem dvida, a me e o irmo. Foi, no entanto, o prprio Ed Wilson a telefonar-lhe, elogiando-a pelo poder 
de anlise e indubitvel coragem.
- No desceste a nenhum desses tneis, pois no, Pax? - Ela sorriu ao escut-lo e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Estava to longe.
- Sinto-me ptima - foi a resposta dada a todas as perguntas dele.
Pediu-lhe que informasse a me que ela estava bem. Ainda no tivera tempo de lhe escrever e sabia que o devia ter feito. Mandou saudades a Gabby, Matt e Mrs. Wilson 
e, depois de ter falado com ele, sentiu saudades durante um dia. Manteve-se, contudo, ocupada a escrever mais um artigo. Alugou um carro, foi at Bien Hoa e sentiu-se 
incrivelmente corajosa e independente. Aos vinte e dois anos, percorrera toda aquela distncia e descobria coisas com que nunca sequer sonhara.
Tambm se sentia fascinada com o mercado negro e, assim, dirigiu-se, uma tarde,  base de Tan Son Nhut, onde chegara para falar com algumas pessoas sobre os roubos 
macios aos Correios e os artigos que eram directamente filtrados para o mercado negro, incluindo uniformes e armas. Quando atravessava, tranquilamente, a base de 
Tan So' Nhut ao pr do Sol, deu por si a observar um homem alto, de uniforme de combate, que seguia na sua frente. Tinha um andar gingo e uma passada que lhe pareciam 
familiar.
No entanto, o sol batia-lhe nos olhos, impedindo-a de ver quem era. De qualquer maneira, conhecia to poucas pessoas em Saigo que no conseguia imaginar de quem 
pudesse tratar-se. E, um minuto depois, ele parou e virou-se para falar com algum. Ao faz-lo, fitou-a e, em seguida, avanou lentamente na sua direco. Era o 
capito William Quinn, de Cu Chi, e tinha um ar to elegante ao aproximar-se que Paxton sentiu, involuntariamente, que o corao lhe batia com mais fora.
- Ol - cumprimentou-a, como se a esperasse. Exibia um sorriso calmo, indicativo de que raramente tinha pressa. Parecia sempre descontrado e despreocupado e emanava, 
todavia, bem do fundo, uma tenso quase elctrica. - O que a traz aqui?... Est com um aspecto muito mais limpo do que na ltima vez que a vi - acrescentou, com 
um sorriso.
Paxton tinha a cara coberta de sujidade quando mergulhara no solo, tapada pelo corpo dele, a fim de evitar a granada de mo. E, agora, tinha um vestido de linho 
branco e calava sandlias vermelhas.
- Obrigada. Ando a escrever um artigo sobre os roubos nos Correios de artigos que reaparecem, misteriosamente, no mercado negro.
- Oh, isso! - replicou com uma expresso intrigada. - Se conseguir solucionar esse problema, recebe a Medalha de Honra do Congresso. No entanto, penso que muita 
gente daqui est interessada em que isso no acontea. Est a falar de dinheiro em grande.
- Estou a perceber. Afastou-se de Cu Chi por algum tempo?
- Apenas para uma rpida entrevista com o general - explicou com um encolher de ombros despreocupado. - Estava a pensar regressar esta noite.
. Fez uma pausa e ela ignorava porqu, mas susteve a respirao,  espera do que se seguiria. No queria interessar-se, mas fazia-o. Sentia-se to atrada por ele 
que quase no dizia coisa com coisa na sua presena. Levava-a a sentir-se terrivelmente jovem e, noutras circunstncias, quase se teria achado tonta.
- Sei que isto  em cima da hora - prosseguiu tranquilamente. - Mas h alguma hiptese de querer comer qual-
quer coisa rpida, antes de eu voltar? No estou com uma pressa por a alm. - Fitou-a bem no fundo dos olhos, e a enorme fora que emanava quase a fez tremer. Ele 
possua uma estranha combinao de firmeza e suavidade a que era difcil resistir.
- Gostava muito - respondeu, e o corao acusou.
Ele pareceu satisfeito e, depois, reflectiu por momentos.
- E que tal se fssemos ao clube de oficiais da base comer um hamburger e um batido de leite? Tem andado a apetecer-me toda a semana - confessou com ar de mido, 
e ela riu.
Acompanhou-a pela base, enquanto conversavam alegremente sobre Saigo e o Caravelle, o hotel em que ela estava hospedada, e a universidade em que estudara. Explicou 
que tinha jogado futebol em West Point, no que era fcil acreditar depois do mergulho que dera naquele dia para a salvar da granada de mo.
Quando esperaram no clube, ouviam-se os Beatles na mquina de discos e muita gente estava a danar. Pairava uma atmosfera familiar americana e sentiu subitamente 
saudades pela segunda vez, desde que chegara. A primeira fora quando falara com o pai de Peter, em So Francisco.
Mandaram vir hamburgers e batatas fritas. Ela bebeu uma Coca-Cola e ele uma cerveja, e ficaram a ver as pessoas que danavam e a ouvir a msica. Aos Beatles seguiu-se 
I Cant Get No Satisfaction, a cano favorita de todos e Proud Mary, que Paxton gostara quando estava em Berkeley.
- Quando se licenciou? - inquiriu ele, enquanto ouviam msica e conversavam. ali parecia mais novo, como se se tivesse liberto da presso e pudesse descontrair-se. 
Paxton deixou de sentir aquela tenso subjacente. E riu ante a pergunta dele.
- No o fiz - redarguiu com um sorriso malicioso. Devia ter-me licenciado em junho, mas desisti.
- Perfeito! - exclamou com um sorriso. - Em perfeita sintonia com toda a sua gerao! - Troava dela com um ar despreocupado e tudo deixara de parecer to dramtico. 
O facto de ter ou no uma licenciatura no tinha a mnima importncia.
Na Primavera passada, fui pressionada por uma srie de acontecimentos e... no sei... Fiquei desiludida...
_ E agora? - insistiu, fitando-a bem de frente. Pouco lhe interessavam os seus tempos de estudante. Estava interessado nela, como adulta. Encontravam-se num mundo 
de adultos cheio de vida real e de premncia e de pessoas que morriam de um momento para o outro, quer tivessem ou no frequentado a universidade.
- Deixou de parecer muito importante.
- O Vietname faz-nos isso - observou num tom enigmtico, saboreando a cerveja, e Paxton tentou desviar a ateno do facto de ele ser to bem-parecido. Afinal, era 
um homem casado. - As coisas com que nos preocupvamos deixam de interessar muito, a casa, o carro, todas as pequenas tretas que dantes eram o nosso mundo. E as 
coisas que se tinham como garantidas interessam muito ... pouco...  com as pessoas que nos preocupamos aqui ... Por elas  que nos mantemos vivos. - No desviou 
os olhos por um s instante. - Por vezes, a ptria parece muito distante e  supostamente por ela que todos lutamos.
- E  por ela que luta? - inquiriu num sussurro.
- J no tenho a certeza. No tenho a certeza da razo por que lutamos aqui, se quer saber a verdade.  a minha quarta vez... e juro-lhe que ignoro porque o fao. 
Supostamente, deveramos estar a conquistar o corao e a mente das pessoas, mas tudo isso  uma treta, Paxton. No estamos a conquistar nada. Elas s vem que lhes 
matamos o Povo e lhes destrumos o pas. E tm razo.
- Ento porque insiste? - retorquiu tristemente. Continuava a querer saber o que levava as pessoas a oferecerem-se como voluntrias para estar ali. Ningum sabia 
realmente porque se encontrava no local,  excepo dos jovens que haviam sido recrutados. Os outros pareciam ignorar o motivo e, se alguma vez o tinham sabido, 
haviam acabado por esquecer.
- Mantenho-me aqui... porque esto a matar rapazes americanos. E, se ficar, talvez possa proteg-los. Talvez tenha feito o que fao o tempo bastante para saber como 
faz-lo um pouco melhor. Ou talvez no - suspirou, acabando de beber a cerveja. - Talvez isso no contribua para a porra de coisa nenhuma.
Era um pensamento desalentado, mas todos o tinham formulado em qualquer altura. Todos, num dado momento, sentiam que a sua actividade de nada servia.
-  uma rapariga corajosa - replicou em seguida, lembrando-se de como se dispusera a descer ao tnel. - Nunca ningum que visitou a base o fez. De qualquer maneira, 
nenhuma mulher. E a maioria dos homens tem um medo de morte, embora no o confesse. - Os olhos emitiam um brilho de admirao.
- Obrigada. Talvez eu seja estpida.
- Talvez todos sejamos - redarguiu suavemente. Perdera mais dois homens, um dia depois de ela se ter ido embora, incluindo o jovem operador de rdio, cujo nome de 
manobra era "Tonto". Mas ocultou-lhe a informao. No eram a altura nem o local indicado para tal e, de qualquer maneira, no interessava.
Saram para o ar quente da noite e passearam durante algum tempo. Pelo menos na base, estavam relativamente a salvo.  excepo de que, at mesmo aqui, havia ocasional 
mente bombas ou atiradores.
- Um dia, agradar-me-ia mostrar-lhe um pouco deste pas.  um bonito lugar, at mesmo agora. - Havia alturas em que realmente o amava.
- Bem gostaria. Na semana passada estive em Bien Hoa. Quero ver mais, mas ainda no sei bem como me movimentar.
- Poderia mostrar-lhe - redarguiu em voz baixa e, em seguida, virou-se na sua direco. - No sei bem o que fazer consigo - acrescentou, com uma expresso confusa. 
- Nunca... Nunca conheci ningum assim. - Paxton sentiu-se elogiada e atrada por ele e tambm no sabia o que responder.
- E a sua mulher? - Decidiu ser franca com ele e queria que ele fosse honesto com ela. Achava-o capaz disso.
- Somos casados h dez anos, desde que me licenciei pela Point. Temos trs filhos. Trs raparigas, curiosamente - sorriu. - Sempre pensei que teria rapazes. E ela 
est farta do exrcito at  ponta dos cabelos. Tambm estava no exrcito, tal como eu, e julguei que soubesse no que se tinha metido, mas no foi esse o caso. Ou 
talvez soubesse e no lhe passasse pela cabea que viria a fartar-se a este ponto. Agora, quer que eu volte para casa, mas ainda no me sinto preparado.
- Ama-a? - inquiriu Paxton fitando-o bem no fundo dos olhos. Desejava saber quem era aquele homem e ele desejava dizer-lhe.
- Amava. j no sei. Encontramo-nos em Tquio algumas vezes por ano, ou em Hong Kong e discutimos o futuro. Quer que arranje um emprego e no estou certo de ser 
capaz. Tenho trinta e dois anos e o que  que se pode oferecer, com os diabos? O facto de se andar a rastejar quatro anos em tneis dos vietcongues? O facto de no 
se ter pisado nenhuma mina? O facto de se ter protegido devidamente os homens a seu cargo? Em que  que isso me tornaria? Um bom director de um acampamento de escuteiros? 
Ignoro. Fui treinado para isto. Acho que est a a resposta - concluiu tristemente. - Sou um assassino treinado.
- Quantos homens salvou desde que est aqui? - replicou Paxton, calmamente. - No  realmente o que faz melhor? Salvar os seus homens de serem mortos pelos outros?
- Talvez - anuiu.
Ela era uma jovem muito perspicaz, o que lhe agradava. Agradava-lhe tambm a inteligncia, a franqueza, a coragem e a beleza dela. Era o plo oposto de Debbie. A 
mulher passava o tempo a queixar-se e lamuriava-se por causa das midas, da casa onde viviam, dos pais dela, dos dele, do Vietname e do salrio, at ele j no poder 
aguentar mais. Desejava algo mais, mas ainda no sabia o qu. Ou no o soubera. At  semana anterior, quando conhecera Paxton.
- Quero que saiba uma coisa - replicou, querendo ser honesto com ela. - Andei com algumas mulheres. Nada de importante. Umas enfermeiras... uma Vaca em Long Binh... 
Uma rapariga de So Francisco uma vez... mas tudo dentro da mxima honestidade. Elas sabiam que eu era casado e se tratava de um mero encontro. Mas... nem sequer 
sei se gosta de mim,... Isto  diferente... Nunca conheci uma mulher assim... - E queria que ela o soubesse.
Paxton sorriu sob a luz em que se encontravam e, sem pensar, estendeu a mo e tocou-lhe na face.
- Obrigada. - Aquele gesto fez com que os olhos dele se enchessem de lgrimas. H tanto tempo que ningum lhe tocava daquela maneira que quase se esquecera de como 
era.
- Acho que estou apaixonado por si. Ser possvel para um homem adulto apaixonar-se por uma jovem num lugar destes e resultar em algo de bom? - No via como e, todavia, 
existia uma intensidade na situao Ah, a sensao de que a vida era o momento presente.
- No sei - respondeu, momentaneamente triste, pensando em Peter. E isto era to diferente. Era algo momentneo, sem promessa de mais nada, sem amanh e provavelmente 
sem futuro.
- Nunca pensei que poderia deixar a minha mulher - replicou honestamente, enquanto passeavam. - E no tenho a certeza de vir a faz-lo. Somos casados h muito tempo 
e amo as minhas filhas.
- Quantas vezes as v? - inquiriu Paxton.
- No muitas. Da ltima vez, ela levou-as a Honolulu, mas foi duro. Agora, somos praticamente estranhos. Esta coisa aqui foi dura para as crianas e para ela, julgo. 
Pelo menos, no corro muitos riscos.
- No foi essa a ideia com que fiquei no outro dia.
Ele encolheu os ombros. Aos seus olhos, no tivera importncia.
- Sabe o que quero dizer - redarguiu. - Cos diabos. Os rapazes sobem nos avies, so abatidos pelo Charlie e, de um momento para o outro, ficam prisioneiros de guerra. 
Na maioria do tempo, estou muito para trs das linhas de combate.
Ambos sabiam que ali no havia linhas claramente definidas. Virou-se para ele, sentindo que tinha uma palavra a dizer-lhe.
- No quero nada. No tem de me fazer promessas No espero que me diga que vai obter um divrcio para que eu ande consigo. Ainda nem sequer nos conhecemos bem Porque 
no aguardamos para ver o que acontece?
- A srio? Nada de promessas? Nem de acordos? Nem...
"Amar-te-ei at morrer"? - replicou, rodeando-lhe suavemente os ombros com o brao. Nessa altura, ela parou, ergueu o rosto na sua direco.
- Promete apenas que no morres.  tudo o que peo. combinado? - perguntou, erguendo os olhos para aquele homem altssimo e de ombros largos.
- Prometo.
- Bom. Ento, tudo bem.
Prosseguiram caminho, rindo e conversando, e passaram por outros casais, que faziam o mesmo. Ela interrogou-se sobre se ele se preocupava que outras pessoas os vissem, 
mas no parecia ser esse o caso e, decorrido algum tempo, parou e soltou u ma gargalhada ante o olhar dela.
- Onde vamos, com mil diabos? Ia jurar que j percorremos esta base de uma ponta  outra.
Paxton riu tambm. Usufrua da companhia dele e achava toda a situao um pouco louca.
- Acho que devia voltar ao hotel - retorquiu.
- Eu sigo-te - anuiu tristemente, pois detestava a ideia de ter de a deixar. - Que tal uma bebida no ltimo piso? - Ambos sentiam que tinham algo a celebrar, mas 
ela ainda no sabia bem o qu.
Paxton sorriu, aprovou a ideia e interrogou-se sobre se poderiam encontrar alguns dos outros jornalistas, mas era-lhe indiferente. No tinha segredos.
Ele foi atrs do carro que ela alugara, um Renault antigo e a cair aos bocados. Estacionou no exterior do hotel e seguiu-a at ao interior, rodeando-lhe o ombro 
com o brao, quando subiram at ao ltimo andar.
Fora uma tarde extraordinria para ambos, e Paxton sentia-se como se tivesse percorrido um longo caminho em pouco tempo. E era mais do que a distncia de So Francisco 
a Saigo. Sentia-se como se a tivessem arrastado de uma outra vida para aquela e ainda no conseguia definir emoes.
Sabia que Bill Quinn a atraa e seria incapaz de se afastar dele nesse momento; e, no entanto, tambm existia o' medo e--- num estranho e remoto lugar no corao 
morava a tristeza. Havia outras pessoas na vida deles: ele ainda tinha a mulher e ela debatia-se com a memria de Peter.
Contudo, agora estavam ali e ela sentiu repentinamente que precisava dele tal como ele precisava dela e talvez isso fosse mais importante.
- Paxton?
Pronunciava o nome cuidadosamente, agora num outro contexto e ela fitou-o com um sorriso tmido.
- Sim?
- Por minutos, ficaste com uma expresso muito sria. Sentes-te bem?
- Sinto - retorquiu com um aceno de cabea. - Estava apenas a pensar.
- No o faas - sorriu.
Roou-lhe depois os cabelos com os lbios, ao chegarem ao ltimo piso. Tom Harc[good estava presente e Jean-Pierre acabara de chegar de Hong Kong, mas estava com 
uma rapariga. E, a um canto, Paxton avistou Ralph, calmamente sentado e a conversar com uma bela eurasitica. Sobressaltou-se ao v-lo. No o encontrara durante 
toda a semana e limitara-se a deixar-lhe uma mensagem na AP nessa manh.
Bill Quinn tambm o vira e conduziu Paxton at junto dele. Ralph apresentou-a  companhia.
- France Tran... Paxton Andrews. - Ela era uma mulher extremamente bonita e, quando falou, Paxton apercebeu-se de que tinha sotaque francs. Devia ter mais ou menos 
a idade de Paxton, vestia um ao dai branco e parecia estar perfeitamente  vontade.
- Ol, France - cumprimentou Bill. - Como est o An?
- ptimo - sorriu, brindando Ralph com um olhar terno. -  um monstrinho.
-  mesmo - concordou Ralph. - Na semana passada, meteu-me uma r dentro das botas. Por sorte, verifiquei antes de as calar.
Ralph riu, e Paxton surpreendeu-se ao descobrir aquela faceta dele, de que nunca suspeitara. No estava muito certa de a quem se referiam, mas deduziu que se tratava 
de uma criana e, obviamente, o filho daquela mulher. No entanto, interrogou-se, de sbito, sobre se ela e Ralph seriam casados.
E conversaram mais uns minutos e, em seguida, ela e Bill sentaram-se. Tentava no parecer perturbada, mas inclinou-se e perguntou:
- Quem ?
- A France? - retorquiu, surpreendido por ela no a conhecer. Ela e Ralph pareciam to ntimos. - Vive com o Ralph. Casou-se com um rapaz da Quadragsima Quinta 
Diviso. O An  o filho deles. - Pareceu ..hesitar e Paxton fitou-o, desejando saber o resto da histria.
- Ele foi morto antes de o beb nascer - prosseguiu Bill. - Agora, deve ter uns dois anos. E h um ano que ela est com o Ralph. Acho que vivem juntos, mas ele  
muito discreto. Em Gia Dinh. - Paxton apenas sabia tratar-se de um subrbio de Saigo.
- So casados?
- No. A me dela era francesa e o pai vietnamita. S lhe falei algumas vezes, mas parece ter ideias muito definidas sobre o casamento de raas diferentes. O exrcito 
fez-lhe a vida dura, quando o Haggerty morreu. No sei bem se lhe deram a penso de viva e tentaram acus-la de ser uma prostituta e de o An no ser filho deles.
- E a famlia dele?
- Nunca os informou que a desposara e acho que a famlia era bastante rgida. De qualquer cidade no interior de Indiana. No a reconhecem, nem ao beb.
- E o Ralph? - inquiriu Paxton, horrorizada. - No casa com ela nem adopta a criana?
Bill sorriu ante a sua ingenuidade. A jovem desejava tudo bem organizado, mas nem sempre as coisas funcionavam assim ali.
- Talvez devesses perguntar-lhe - sugeriu.
- Ela  muito bonita - observou Paxton, que ficara impressionada com a sua bvia gentileza e educao.
- Sim - admitiu Bill. - E inteligente. Mas se ele tentar lev-la para os Estados Unidos, ser considerada igual s Prostitutas que param no Pink Nightclub.
- Basta olhar para ela, Bill. - Parecia exasperada, mas era ingnua e ele sabia-o.
- Talvez te baste a ti, Pax. Outras pessoas no vem o problema assim. Para elas, estar sempre ligada aos que lhes mataram o filho, o noivo ou o irmo. No vai 
ser fcil levar estas jovens no regresso  ptria.
- Mas ela  diferente! - arguiu Paxton em sua defesa, sem motivo nenhum.
- Para eles no . - Ela no queria que fosse verdade, mas sabia que o era e sentia-se triste por aquela mulher, que mal conhecia. Sabia, contudo, que ele tinha 
razo. Nos Estados Unidos, a bela rapariga eurasitica seria uma "prostituta" como as outras.
Nessa noite conversaram durante muito tempo, primeiro sobre a guerra, depois sobre outras coisas, e ele no voltou a mencionar a mulher ou as filhas. Estava h tanto 
tempo no Vietname que comeara a sentir-se preterido por todos. E ficou fascinado com tudo o que ela lhe contou sobre Berkeley.
Acompanhou-a at ao quarto, quando fecharam o bar e deixou-a  porta, sem a pressionar.
- Voltarei a Saigo daqui a uns dias - prometeu calmamente. - Telefono-te antes de vir.
E, sem mais uma palavra, inclinou-se e beijou-a, com suavidade, nos lbios. Depois afastou-se e, quando se foi embora, Paxton desejou pedir-lhe que se mantivesse 
vivo. No entanto, agora nem sequer se atrevia a pensar no perigo que se ocultava nos tneis de Cti Chi.


CAPTULO 15

Bill Quinn regressou a Saigo trs dias mais tarde. Telefonou a Paxton antes de ir e, quando chegou, tinha um ar elegante e impecvel no uniforme militar. Paxton 
esperava-o no trio.
Nas suas palavras tratava-se de um "encontro oficial" e a jovem sorriu ao v-lo avanar na sua direco, com um aspecto muito jovem, alto e bonito.
- Uau! - exclamou ao avist-la.
Paxton soltara o cabelo e optara por um vestido de seda cor-de-rosa que trouxera de casa. Era muito curto, mostrava-lhe as pernas, e ela tentou esquecer que Peter 
sempre o apreciara.
Bill tinha feito reserva num restaurante prximo da embaixada, e ela sentiu-se muito adulta quando ele entrou na sua companhia e os conduziram a uma mesa no canto.
A sala tinha um ambiente francs, estava romanticamente iluminada e havia bouquets de flores perfumados em todas as mesas. Ali tinham finalmente escapado ao cheiro 
a gasolina. E encontravam-se rodeados de americanos em quase todas as mesas.
Paxton falou-lhe numa nova misso em que estivera com Ralph, prximo de Long Binh, e ele franziu o sobrolho enquanto a escutava.
- Acho perigoso. - Parecia francamente preocupado e interrogou-se sobre se agora deveria falar com Ralph.
- Tambm estar aqui o . No sejas pateta, Bill. Estou mais segura do que tu em Cu Chi.
- Uma ova! - exclamou, invadido por uma sensao de proteco e que at ele estranhava. Nunca se preocupava com o que Debbie fazia, nos Estados Unidos. Contudo, 
Debie estava em So Francisco e Paxton era dez anos mais nova e andava por Saigo, em busca de sarilhos.
- Andar  procura de vietcongues em tneis no  propriamente a minha noo de segurana - retorquiu.
Na verdade, forara-se a no pensar no assunto durante toda a semana. E, quando fora a Long Binh com Ralph, este dera-lhe uma lio um tanto severa sobre "no confraternizar 
com as tropas", o que, de incio, a divertira. Acabara, todavia, por perceber que ele falava a srio e ficara surpreendida.
- Como pode fazer uma afirmao dessas? - indagou.
Referia-se a France e ele sabia, mas no se demoveu.
- O meu caso  diferente, Pax. Sou homem. E o Bill Quinn  casado.
- E da? Que importncia tem? A mulher dele est a meio mundo de distncia e ns tambm. E se todos estivermos mortos na prxima semana? Que importncia ter, ento?
No espao de algumas semanas, aprendera a pensar como toda a gente em Saigo.
- E quando ele voltar para ela? - observara Ralph, calmamente. - Como se sentir nessa altura? j teve um desgosto de amor na vida. No chega?
- No posso evit-lo - respondera.
Desviara o olhar, sem querer dar justificaes da sua vida amorosa a Ralph Johnson. Era seu amigo, mas no lhe cabia o direito de lhe indicar com quem podia ou no 
andar.
- Ainda no  tarde de mais para colocar ponto final no assunto. O Vietname , contudo, um lugar estranho. As coisas assumem um carcter de seriedade com excessiva 
rapidez, ou por vezes nunca se tornam srias quando deveriam, pois passamos metade do tempo com o pnico de morrermos e na outra metade vemos tanta gente a morrer 
que nada ou ningum nos interessa. No se envolva con, um soldado daqui, Paxton... Nem sequer com um correspondente. Sair ferida. Temos todos uma ponta de loucura.
Estava a tentar avis-la e falava a srio.
- E o que sou por estar aqui consigo? Tambm  um correspondente - defendeu-se, e ele sorriu. No entanto, ela ainda era muito jovem e no fora tocada pelos horrores 
que os outros tinham como certos.
- Ainda  nova aqui, Pax. No  demasiado tarde. Estou a dizer-lhe que... no se envolva com o Bill. Ele  indivduo fantstico e gosto dele. Mas seja o que for 
que acontea, sair magoada. Para qu expor-se?
- E a France? - retorquiu com inteno de o atacar, mas a expresso do rosto indicou-lhe que tocara num assunto proibido.
- Nada tem a ver com isto - redarguiu. Em seguida, meteu-se num helicptero com uma equipa de reportagem durante as prximas trs horas.
Quando regressou, nenhum deles voltou a abordar a questo e ela tambm no a mencionou a Bill nessa noite. De qualquer maneira, era tarde de mais para eles. Enquanto 
se mantinham sentados e a conversar, ele pegou-lhe na mo e falaram do tipo de coisas que as pessoas falam, quando tudo  novidade e o amor marca presena.
Estavam quase a acabar a mousse de chocolate que tinham encomendado para a sobremesa, quando uma bela rapariga vietnamita, vestida com um ao dai, entrou no restaurante 
e pousou uma braada de flores. Paxton estava a pensar como eram bonitas no preciso momento em que Bill se voltou e a avistou.
Observou-a pelo espao de um segundo, viu-a afastar-se e, depois, sem se deter com reflexes, agarrou em Paxton, arrancou-a  cadeira e puxou-a para baixo da mesa. 
Tapou-a com o corpo de encontro  mesa e, nesse instante, ouviu-se uma tremenda exploso.
Todas as janelas da frente do restaurante voaram em estilhaos e os corpos pareciam revolutear  volta deles. Durante um momento reinou o silncio, depois soaram 
gritos e Paxton divisou uma parede de chamas que explodia  direita deles, ao mesmo tempo que Bill a agarrava e a arrastava pelo cho at onde podiam ver a luz no 
meio da escurido.
Levou-a em segurana para a rua quando as sirenes comearam a fazer-se ouvir e todas as pessoas  volta deles estavam a gritar. Ouviam-se gemidos e gritos de dor 
e ele fez meno de a deixar em segurana na rua e precipitar-se para interior a fim de prestar ajuda, s que ela foi atrs.
Paxton tinha o brao a sangrar devido a um estilhao que lhe rasgara o vestido, mas,  parte disso, sara ilesa da exploso. Tinha as pernas arranhadas e o corpo 
dorido, mas regressou ao interior e ajudou a transportar uma mulher para fora. Ela gritava e no conseguia ver. Tinha o rosto e os braos cobertos de sangue, e Paxton 
viu-se restringida a confort-la, enquanto aguardavam a chegada da ambulncia.
Viu que Bill ajudava um homem a transportar dois homens para o exterior, mas ambos estavam mortos. E, por fim, a Polcia e os paramdicos tomaram a seu cargo a situao.
Era um espectculo horrvel; havia sangue e vidros partidos por todo o lado. Ela tremia dos ps  cabea quando caminharam de volta ao carro e ele parou e a abraou. 
Estavam os dois cobertos de sangue e ela comeou a chorar quando Bill a beijou.
Era uma forma horrvel de se apaixonar, um lugar terrvel para se estar, uma guerra terrvel o que os aproximara.
- O que estamos a fazer aqui? - perguntou ele num tom abalado. E no tanto pelo que vira, mas porque, se as coisas tivessem acontecido de uma outra forma, ela podia 
ter sido morta, sentiu, ainda mais intensamente, que no queria de forma alguma perd-la. - Porque no estamos em qualquer stio vulgar, como Nova Iorque, Maryland 
ou no Texas?
- Porque, se estivssemos - sorriu Paxton por entre as lgrimas -, provavelmente no sabias que existo e estarias com a tua mulher. - Riu e secou as lgrimas, tentando 
esquecer o que tinham visto e pelo que tinham passado. - Ou algo no gnero.
-  um gnio com as palavras, Miss Paxton Andrews - retorquiu, sorrindo tambm.
- Falo sempre verdade.  um dos meus grandes defeitos.
- E virtudes. Acho que no te amava tanto se no fosses assim. Uma das consequncias de se estar neste stio  o dio que se cria a insignificncias.  o que acontece 
sempre que volto aos Estados Unidos, entre misses - explico", quando entraram no carro dele. - j no consigo escutar mentiras, justificaes, as coisas em que 
ningum acredita e todos dizem. De certa maneira, torna-se mais fcil estar aqui.
"Pelo menos  o que acho", pensou relembrando o que tinha acontecido.
- Este tipo de coisas  muito frequente, no ? - inquiriu ela, referindo-se  exploso, e ele esboou um aceno de cabea. - Porque  que, sempre que estou contigo, 
acabo por ficar com o ar de quem andou a arrastar-se numa trincheira? - replicou depois, com um sorriso triste.
- Porque s louca bastante para estares aqui - concluiu, beijando-a de uma forma indicativa de que estava contente por ambos estarem vivos e nada ter acontecido.
Levou-a de volta ao hotel e, sem pronunciarem uma palavra, subiram ao andar de cima. Ele parara no bar para ir buscar uma garrafa de usque e, quando Paxton abriu 
a porta do quarto, pousou-a em cima da mesa e virou-se para a olhar com uma expresso triste e cheia de amor.
- Queres que me v embora, Pax? - quis saber. - Tomara providncias para ficar no Rex, mas desejava estar ali com ela, enquanto pudesse, mas apenas se a jovem tambm 
o desejasse. - Vou-me embora, se o quiseres - rematou.
Paxton abanou a cabea, sorriu e avanou lentamente ao seu encontro. No estava bem certa do que iria fazer. Peter tinha morrido h quatro meses e pensara que lhe 
ficaria ligada para sempre. Mas, subitamente, ele parecia fazer parte de uma outra era, outro mundo, um lugar onde nunca mais estaria, e Bill Quinn era tudo o que 
lhe interessava.
- No quero que te vs embora - pronunciou ternamente.
Ele inclinou-se, envolveu-a nos braos e ela correspondeu com a paixo nascida da perda, do medo e da tristeza. Bill acariciou-a com a intensidade de quem arrisca 
a vida todas as manhs.
Quase tinham morrido nessa noite e talvez morressem no dia seguinte, mas agora, nesse instante, estavam vivos e pertenciam exclusivamente um ao outro.
Ele deitou-se ao lado dela na cama e tirou-lhe a roupa com gestos suaves. O vestido ficara reduzido a tiras de seda devido  exploso e havia sangue no uniforme 
dele; e tudo o que pretendiam era esquecer o passado, a dor e a solido que os unira. Ele sentiu a pele acetinada e soltou um leve gemido.
- Oh, meu Deus, Paxi s to bonita... - sussurrou.
No conseguia parar de a acariciar, abraar e beijar. Ela estendeu os braos num chamamento e quando ele a penetrou havia lgrimas nos olhos dela, no pelo passado 
e pelo que tinham perdido, mas pelo que tinham descoberto juntos.


CAPTULO 16

Trs semanas depois, Paxton fez outra viagem a Cti Chi na companhia de Ralph. Nessa altura, a Conveno Democrtica explodira numa orgia de loucura em Chicago, e 
Harrinian continuava a presidir a conversaes de paz sobre o Vietname, em Paris.
A ironia de toda a situao surgiu como uma piada de mau gosto a Paxton, quando leu o telex na redaco da AP, ao encontrar-se ali com Ralph antes das "tolices das 
cinco". Nada parecia ter sentido,  excepo do que acontecia ali e a vida que agora partilhava com Bill.
Apenas lhe interessava que ele estivesse em segurana e nada acontecesse a qualquer deles. Parecia-lhe um milagre de cada vez que ele vinha, passar a noite com ela 
ao hotel, o que era bastante frequente.
Ralph absteve-se de fazer comentrios sobre o assunto durante a maior parte do caminho at  base de Cti Chi e, por fim, pouco antes de chegarem, virou-se na sua 
direco e fez uma pergunta:
- Isso entre vocs  mesmo a srio, no ?
Paxton esboou um aceno de cabea, pois no desejava adiantar muito em frente do motorista. Ralph no tinha mencionado nomes, mas os boatos circulavam, rapidamente, 
de Saigo para todas as bases. Quem andava a dormir com quem e porqu era um tema popular de conversa. E havia muito de que falar, como doenas venreas e uma srie 
de doenas tropicais.
- Sim. Pode ser - anuiu. -  tudo muito recente e ainda no fizemos planos. H algumas coisas a resolver, se... Se... - " Se durar. " Ralph sabia o que ela pretendia 
dizer. Abanou a cabea com um ar de censura e olhou pela janela.
- So ambos loucos. Mas decerto o sabem.
- Porqu? - Era ainda to ingnua e cheia de esperana; ele deu por isso quando se virou para a olhar.
- Porque sairs magoada, Pax. Todos saem.  impretervel. No preciso soletrar-te. s uma rapariga crescida. Conheces as opes e a maioria no  agradvel.
Ele referia-se a que Bill voltaria para a mulher quando fosse, eventualmente, mandado de barco para casa ou poderia ser morto. Tambm poderia, sem dvida, sobreviver 
e deixar Debbie. Ralph no achava, contudo, esta hiptese muito provvel.
- Passaste tempo de mais aqui. Tornaste-te demasiado cnico.
- Talvez - concordou, acendendo um cigarro. O pior era que acabara, na verdade, por gostar de Ruby Queens, a marca local. - j vi o filme.
- Talvez no tivesses assistido ao final certo. Talvez no te tivesses demorado o suficiente. No sabes tudo.
- Escuta - tentou de novo, por gostar dela. - s esperta, mais esperta do que a maioria. Ests a fazer um excelente trabalho. Escreves muitssimo bem. Poderias mesmo 
vir a ganhar um Pulitzer algum dia.
- Claro - redarguiu, divertida.
- Bom. Talvez no um Pulitzer. No entanto, tens qualidade e sabe-lo. Para que necessitas desta dor de cabea? S chegaste h seis meses. Preserva-te at voltares 
a casa e encontrares o "prncipe encantado" por detrs de uma secretria, algures numa bela e segura cidade como Milwaukee.
- No posso evitar o que aconteceu - vincou, fitando-o, determinada. - Aconteceu. Existe.  impossvel fingir o contrrio. E porque havia de faz-lo?  porque estavam 
onde estamos agora. Isto  real. O resto no passa de uma treta.
- E se o resto  que for real e isto no passar de uma treta?
- Nesse caso, estaria errada. Nunca erraste, Ralph?
No queria mencionar novamente France, mas ele tinha-se envolvido com ela pelas mesmas razes. Ah, era duro, todos se sentiam assustados e as pessoas morriam  sua 
volta. Que melhor antdoto para todos do que apaixonar-se por algum, quer se tivesse ou no essa inteno? Como  que ele no compreendia?
- Deixa-me em paz - acrescentou, virando-se de novo para ele, que apagava o cigarro. - Sei que tens boas intenes. Mas no compreendes.
- Talvez no - retorquiu, tristemente.
E quando os viu juntos, depois, nessa mesma tarde, interrogou-se sobre se ela estaria certa e ele no. Havia, inegavelnente, algo de muito intenso, terno e belo 
entre eles. Tentavam ocult-lo de todos, mas tornava-se difcil. O que sentiam um pelo outro era to forte, em certos aspectos to resico e, em simultneo, to honesto, 
to puro, to apoiado na mtua admirao, ternura e amor que era quase impossvel dissimul-lo.
Tony Campobello, o sargento de Bill, tambm se apercebeu e sentia-se furioso, o que at ela notara. Tratava-a com um mnimo de delicadeza e, nessa tarde, quando 
ela apareceu, dirigiu-se num tom gelado ao superior. Bill limitou-se a um erguer de sobrolho surpreendido.
Quando, todavia, o encontraram uma tarde em Tan Son Nhut, junto aos Correios, Pax no conseguiu resistir a abord-lo, enquanto Bill estava a pagar.
- Lamento... - comeou, mas Tony cortou-lhe a palavra.
- O qu?
- O que sente - respondeu francamente, pois ele no fizera segredo da questo.
- O que sinto nada tem a ver com isto - redarguiu.
- Nesse caso, o que o irrita tanto? - insistiu, fitando-o bem nos olhos, o que era mais fcil do que com Bill, pois Tony era praticamente da sua altura. - Ou ser 
que no gosta de mim?
- Estou-me nas tintas para si. - Estava descontrolado e tinha conscincia disso, mas no se importava. Odiava-a e queria que ela soubesse. -  ele que me preocupa. 
Salvou-me a pele vezes sem conta. Salvou mais homens neste maldito pas do que conseguir contar e est a p-lo em risco, sem mesmo o saber.
Paxton ficou chocada ante aquelas palavras e no compreendeu.
- Como pode fazer uma afirmao dessas? - indignou-se.
Nada fizera para lhe pr a vida em risco e, bem pelo contrrio, queria que ficasse vivo, nem que tal significasse voltar para Debbie. Mas no queria que ele morresse. 
Aquele homem estava louco.
Sabe o que  preciso para se ficar vivo aqui? Tem de se rastejar sobre o ventre diariamente e pensar apenas em si prprio. Se se pensar de mais no camarada do lado 
e no em ns mesmos, -se um homem morto. Acaba tudo num segundo - vincou.
- Sabe no que ele pensa, quando l est? - prosseguiu. - No em ns, nem nele, ou no que faz, no em quem est no tnel ou se h um tipo nos arbustos  nossa espera... 
Pensa em si e pe-se a sorrir. E sabe qual ser a consequncia? Pisar uma mina ou morrer com os miolos estoirados por um atirador. E sabe de quem ser a culpa? 
Sua. Pense nisto na prxima vez em que ele lhe tocar.
No momento em que pronunciou estas palavras, Bill aproximou-se ao encontro deles com as compras e um sorriso nos lbios.
- Ol Tony... j conheces a Paxton, no  verdade? - Conhecia, mas no desejava conhec-la. Algo incomodou Bill no olhar de Paxton quando o sargento respondeu: ",Sim, 
claro", saudou-os e foi-se embora.
Paxton no mencionou uma nica palavra a Bill do que ele acabara de lhe dizer, mas sentiu-se assustada a noite inteira, deitada ao lado de Bill, a pensar no aviso 
do sargento.
Estariam certos? Faria mal em am-lo? Iria destru-los a ambos? Parecia difcil de acreditar, pois todos tinham algum, ainda que por um momento. E embora Ralph 
no parasse de afirmar que ela no tinha direito a amar Bill, vivia com a rapariga eurasitica em Gia Dinh... e ia ter com ela  noite, no era? Mas porque  que 
ningum apoiava a sua relao com Bill? Especialmente o irritado e jovem sargento.
- Estiveste muito calada esta noite - observou Bill, no dia seguinte.
Tinha trs dias de folga, apercebera-se do silncio e vincara-o, mas ela no lhe contou o que Tony dissera. Limitou-se a responder que estava preocupada com uma 
reportagem. Foram passar esse fim-de-semana a Vung Tau, a encantadora cidade costeira, que continuava a ser uma requintada estncia com belas praias.
Paxton pensou que nunca fora to feliz na sua vida. Por vezes, conversavam sobre o futuro, mas o menos que podiam. Nada havia para falar agora,  excepo do tempo 
que partilhavam. E, quando ele regressasse aos Estados Unidos, teria de decidir o que fazer relativamente a Debbie. Ambos deviam regressar mais ou menos na mesma 
altura.
Ela prometera voltar no Natal e ele acabava o tempo de servio um ms depois. Deveria voltar a So Francisco no fim de janeiro e os dois achavam que ele j estivera 
o suficiente no Vietname. Quatro misses bastavam. Ia voltar a casa e esquematizar a sua forma de vida.
- Achas mesmo que conseguias suportar ser noiva de um militar? - perguntou-lhe, na cama, uma noite, em Viing Tau e falava mesmo a srio.
- Acho que sim - sorriu. - Podia escrever para o Stars and Stripes.
- s boa de mais para eles. - Embora dessem informao e toda a gente os lesse.
- Uma ova - replicou, rolando na cama, e ele beijou-a.
Passaram uns dias fantsticos em Vung Tau e voltaram l em Outubro. E, pouco depois, ele viajou at Hong Kong para estar uma semana com Debbie. Fora algo de que 
ele e Paxton haviam falado demoradamente e sentira-se tentado a cancelar. No entanto, Paxton defendia que ele devia ir, embora lhe custasse. Era algo que achava 
que devia a Debbie. Aquela no era uma altura de confronto.
Porm, quando regressou, ficou de mau humor durante semanas. Debbie pressionara-o em relao s suas atitudes e  guerra. Envolvera-se, recentemente, com um grupo 
antiguerra e chamou-lhe assassino. Acrescentou que queria um carro novo e estava farta do exrcito.
Nessa altura, Nixon tinha sido eleito e as notcias que Paxton recebeu de casa foram boas. A me parecia bem, embora ansiosa por v-la no Natal. Gabby escreveu a 
informar que estava outra vez grvida. As suas vidas pareciam seguir o curso normal, mas Paxton era incapaz de se imaginar com eles. Depois de cinco meses no Vietname, 
sentia-se como se estivesse estado a viver noutro planeta.
E ps Bill ao corrente do que pensava, numa noite em que foram jantar fora.
- Sinto-me culpada, s de dizer isto.. Mas no me apetece ir a casa passar o Natal - afirmou.
Queria ficar com ele no Vietname. Aos seus olhos, significava mais do que ir a casa e estar com a famlia, em Savannah. Tratava-se de algo que odiara durante anos 
e agora seria pior. Tornara-se adulta de mais num ano. E era tudo diferente.
Alm disso, um Natal em casa sem Queenie seria verdadeiramente horrvel. E o regresso aos Estados Unidos implicava uma vaga de recordaes dolorosas de, Peter. Embora 
agora pensasse menos no assunto, sentia que uma parte dela o amaria eternamente. As coisas eram diferentes, mas at mesmo Bill o compreendia.
- Nesse caso, porque no passas o Natal aqui? - sugeriu.
Sabia que devia t-la encorajado a ir para casa, mas sentia-se egosta e no queria faz-lo. Seria o ltimo perodo calmo, antes que ele regressasse a casa no ms 
seguinte e tentasse imaginar o que faria quanto a Debbie.
- Falas a srio? - retorquiu Paxton, fitando-o, desconfiada.
- Claro.
- Ento, est combinado! - exclamou, inclinando-se e beijando-o.
Regressaram ao hotel e fizeram amor durante o resto da noite. E, de manh, Paxton enviou um telex para o Sun: "No posso ir a casa em Dezembro como planeado. Grandes 
reportagens aqui. Regresso 15 janeiro. Por favor, avisem famlia em Savannah. Paxton Andrews."
Sabia que causaria uma certa agitao, mas era-lhe indiferente. Queria estar com Bill e talvez este fosse o seu primeiro e ltimo Natal. Se ele resolvesse pr fim 
a esse caso, pelo menos restar-lhes-ia isto. Encarava a realidade de uma forma muito filosfica. Mas tinha de ser assim, quando se vivia em perigo constante.
Na vspera de Natal, foram juntos  igreja e, na manh seguinte, acordaram nos braos um do outro. Ele comprara-lhe uma camisola nos Correios e uma bonita pulseira 
de ouro em Hong Kong quando estivera l com Debbie, em Outubro. Tinha um nico e pequeno diamante e ele prprio a ps no brao dela, beijando-a.
Paxton tinha-lhe comprado um bonito relgio nos Correios, alguns livros que sabia agradarem-lhe e que mandara vir dos Estados Unidos e uma roupa interior divertida 
que descobrira no mercado negro. Era o melhor de que podiam dispor, dadas as circunstncias. Mas a pulseira que ele lhe oferecera era especial e gravadas, por dentro, 
havia as iniciais dos dois e Natal 68.
O primeiro de muitos - observou com um sorriso enigmtico, beijando-a.
Nessa tarde, foram ao espectculo de Natal de Martha Raye e todos gostaram. Bob Hope estava em Da Nang nesse dia, sendo aplaudido por dez mil soldados, homens e 
mulheres. Ann-Margret foi o xito do show, embora Paxton, achasse que a exibio de smbolos sexuais apenas servisse para provocar os homens. Mas eles adoraram. 
E, no final do espectculo, o general Abrams pregou a Medalha de Servio Civil na camisa de Hope e a assistncia prodigalizou-lhe uma estrondosa ovao.
Paxton e Bill encontraram Tony Campobello no show de Martha Raye e Ralph estava a fazer a cobertura para a Associated Press. Levara consigo France e o seu filho 
An, que era uma criana adorvel e se parecia com ela.
Bill e Paxton trocaram alguns dedos de conversa com France e, depois, prosseguiram caminho. E no voltaram a v-los depois disso. Havia um mar de gente. E tambm 
no puseram mais os olhos em Tony ou qualquer dos homens de Bill. Ele denotara uma frieza ostensiva ao deparar com o seu capito e Paxton. Ainda no ultrapassara 
os seus sentimentos em relao a ela e no se esforava por ser simptico. No era, porm, importante. Dentro de um ms, ela e Bill regressariam a casa. Falavam 
muitas vezes de como seria estranho estarem na mesma cidade e separados.
. - No ser por muito tempo - repetia ele, mas Paxton interrogava-se constantemente sobre o que aconteceria quando voltasse a ver as filhas e estivesse, de facto 
em casa. Tinha a estranha sensao de que ele no estaria pronto para as deixar, apesar das suas palavras no calor da paixo.
Passaram uma tranquila vspera de Ano Novo no clube dos oficiais e foram tomar uma bebida ao bar do ltimo piso. Depois, fizeram amor no quarto dela e comearam 
o ano com ternura e paixo.
Na manh seguinte, ainda se encontravam nos braos um do outro, beijando-se e sussurrando palavras de amor. Dormiram quase toda a tarde e  noite ele teve de voltar 
a Cuchiar para se apresentar ao servio. Bill voltaria a Saigo dali a dois dias e ela tinha de escrever mais um artigo para o sun.
A sua coluna, "Mensagem do Vietname" estava a ter muito sucesso e muitos leitores escreviam cartas favorveis, algumas das quais lhe eram enviadas para Saigo. Proporcionava 
s pessoas um relato honesto do que ali se passava. E a sua honestidade e integridade pareciam reflectir-se na escrita.
Ed Wilson estava muito satisfeito e colhia agora todos os louros de ter sido o primeiro a mand-la para o Vietname. Sentia, bizarramente, que vingara o seu filho 
e que Peter no morrera em vo. Ela fora at l para contar a histria dele e a de meio milho de rapazes semelhantes. Paxton sentia-se comovida pelas cartas que 
recebia em resposta  sua coluna. Algumas vezes, tentava responder-lhes, mas na maior parte do tempo estava demasiado ocupada.
O artigo que tinha de escrever no dia seguinte referia-se aos pedintes de rua de Saigo e havia uma outra pea que se referia a Hue. E ainda uma outra sobre Martha 
Raye e o espectculo de Bob Hope.
Passou uns dias preenchidssimos e ainda estava sentada  mquina de escrever s oito horas na noite em que Bill deveria chegar. Estava atrasado, mas ela sabia que, 
por vezes, se tornava difcil escapar. E quando Tony Campobello sabia que ia encontrar-se com ela, fazia frequentemente o impossvel para o deter. Era um jogo a 
que gostava de se dedicar e Bill mostrava-se paciente, mas a constante atitude hostil do sargento continuava a irritar a jovem.
s dez horas, voltou a consultar o relgio e sentiu-se ligeiramente preocupada, mas sabia que na qualidade de oficial no comando das operaes tornava-se muitas 
vezes impossvel planear as deslocaes. Sobretudo nos ltimos tempos. Havia tanto que fazer antes de partir dali a trs semanas e estava a tentar treinar um colega 
acabado de chegar dos Estados Unidos, o que Paxxie sabia no ser fcil.
s onze horas, olhou de novo para o relgio e comeou percorrer o quarto de um lado para o outro. E  meia-noite estava seriamente preocupada. Resolveu descer  
recepo e indicou  telefonista onde estaria, se Bill lhe telefonasse. Pensou que ele talvez tivesse encontrado algum conhecido  entrada e pudesse estar no bar, 
o que acontecera uma ou duas vezes.
No viu, contudo, ningum ali nessa noite, nem mesmo Nigel. E sabia que Ralph viajara com France e An para passar o fim-de-semana de Ano Novo em Hau Bon, com familiares 
dela.
Deambulou, ao acaso, no trio durante muito tempo e ele continuou sem aparecer. No podia fazer mais nada. Era demasiado tarde para tentar telefonar para a unidade. 
Voltou ao quarto e ficou a p a maior parte da noite, interrogando-se sobre se teria surgido algum problema que o impedisse de viajar, mas parecia-lhe pouco provvel.
Por fim, adormeceu s quatro da manh e acordou de novo ao alvorecer. Ele continuava sem dar sinal. Esperara que pudesse aparecer enquanto ela estava a dormir e 
meter-se na cama ao seu lado, pois tinha a chave e fizera isso mais do que uma vez, quando conseguia escapar-se inesperadamente e surpreend-la.
No entanto, no houve nenhuma surpresa nessa noite. A outra metade da cama estava vazia quando acordou e, s sete e meia da manh, foi at  redaco da AP. Verificou 
os telexes para ver se acontecera algo durante a noite, mas, para alm de uma bomba de plstico que explodira num bar e de um combate de rua em Cholon, tudo estivera 
calmo.
Sabia que Ralph devia ter voltado tarde na noite anterior e telefonou-lhe, assim, da redaco da AP uma hora mais tarde,
- Sei que parece uma estupidez... - Sentia-se idiota por lhe telefonar, mas no tinha mais ningum com quem falar - Mas o Bill no apareceu na noite passada. Tenho 
a certeza de que no aconteceu nada de mal, mas...
- Cus, Pax! - exclamou, virando-se na cama com um gemido. - Queres que lhes telefone?
_ Sim.
- Porque no o fazes? Tens as mesmas credenciais do que eu, com mil diabos!
- Uma ova. Toda a gente sabe que ando com o Bill .
Apesar da prudncia inicial, tornara-se um dos segredos mais divulgados de Saigo.
- E da?
- Da, no me agrada o papel de namorada intrometida. S quero saber se ele est okay e, depois, aparea quando aparecer, tudo bem - redarguiu.
Nunca lhe ocorrera que pudesse estar com outra mulher, A sua relao no era nada desse gnero e estavam to apaixonados que a questo de uma terceira pessoa nunca 
surgira entre eles.
- Okay, okay, eu telefono. O que queres saber?
- Se a base de Cu Chi ainda est de p, no foi atacada e o Bill est bem.
- Escuta, mida - retorquiu, sentando-se na cama e sorrindo a France. Estava em simultneo feliz e preocupado com ela. Acabara de lhe confessar, na noite anterior, 
que estava grvida e queria ter o filho dele. - Se a base de Cu Chi tiver ido pelos ares, estamos todos numa grande merda. Aquele lugar  maior do que Nova Iorque, 
raios!
- Deixa-te de piadas, Johnson, e telefona-lhes.
- Okay, okay, vou telefonar.
Desligou e inclinou-se para beijar France, que continuava deitada ao lado dele.
- Ela est bem? - interessou-se France. Tambm gostava de Paxton e, embora no a conhecesse bem, sempre sentira uma muda afinidade com ela.
- Est ptima. S que o tempo voa e comea a ficar nervosa. Acontece a todos antes do regresso a casa. Todos eles me pem doido.
- E tu? - perguntou-lhe num tom quase triste, depois das notcias da noite anterior. - Quando regressas a casa, amor?
- Nunca. Excepto se fores comigo.
Contudo, ela respondeu que nunca o faria e falava a srio. Era demasiado orgulhosa para ser tratada como uma prostituta nos Estados Unidos. Ficaria em Saigo e am-lo-ia 
para sempre.
Ralph sentou-se na beira da cama e telefonou para Cu Chi. Tinha um ou dois contactos na base, mas o mais importante era Bill e pediu que o ligassem directamente 
 unidade. Atendeu-o um jovem que ele no conhecia, que se mostrou evasivo quando perguntou por Bill e o passou a outras pessoas, sem obter resultados.
Interrogou-se, subitamente, sobre se os instintos de Paxton bateriam certo e se se passava algo de errado. Nesse momento, teve uma ideia e pediu para falar com o 
sargento Campobello.
Seguiu-se uma longa pausa, pediram-lhe que aguardasse e deixaram-no pendurado. E Tony s atendeu quase dez minutos depois. Ralph tivera a esperteza de no desligar. 
Nessa altura, j estava convencido de que Paxton tinha razo e havia qualquer problema.
- Tony? - perguntou Ralph, como se fossem velhos amigos, o que no era o caso. Tony no gostava dele, porque apresentara Paxton a Bill, e Campobello era um indivduo 
de ressentimentos. - Fala o Ralph Johnson, AP em Saigo.
- Sei muito bem quem fala - retorquiu num tom spero e frio, desinteressado do telefonema. - O que deseja?
- Eu... Ns,... interrogamo-nos particularmente sobre se aconteceu algo ontem... Quero dizer... - "Merda. Se fosse outra pessoa, podia ter-lhe perguntado sem rodeios 
se o Bill estava bem." No queria, contudo, que Campobello percebesse que estava a telefonar por causa de Paxton. E sentia-se uma criana s voltas com um problema. 
- Ouvimos alguns boatos de que tiveram sarilhos por a. Est tudo okay?
Seguiu-se uma pausa interminvel e depois:
- Acho que pode chamar-lhe assim. S tivemos uma baixa durante todo o fim-de-semana. S uma. Bastante bom, hem? - A voz era, todavia, rude e amarga.
- ptimo.
Ralph no sabia muito bem como continuar, mas Tony resolveu a questo.
O nico problema  que foi... - Quase rugiu quando pronunciou as palavras "o nosso comandante". - Lembra-se dele? Um indivduo robusto e alto. O Bill Quinn.
 "Oh, meu Deus!", pensou Ralph, sem pinga de sangue. "Como irei dizer-lhe, raios?"
- Eu... Cus... Como  que aconteceu? - A voz de Ralph era um sussurro e teve a sensao de que Tony chorava do outro lado da linha.
- Como  que aconteceu? Muito simples. Apaixonou-se por essa cabra h uns meses e deixou de ser cauteloso. Comeou a apaixonar-se pela porra do mundo e quis fazer 
de "prncipe encantado"... Sir Galaaz... Quer saber como aconteceu, mister? Os nossos rapazes estavam todos cagados por terem de descer a um buraco ontem e sabe 
quem foi? isso mesmo, o capito. julgou que conseguiria balear o tipo do outro lado, porque sempre o fez.
"E sabe que mais, mister? - prosseguiu. - Depois de quatro misses aqui, enganou-se. Era grande de mais para o buraco, demasiado lento, demasiado velho, tinha a 
cabea demasiado cheia de outras merdas, porque ia voltar para casa com ela dentro de dias para dizer provavelmente  mulher e s filhas que fossem lixar-se, e o 
pequeno Charlie, do outro lado do buraco, estoirou-lhe os miolos.
Enquanto o ouvia, Ralph sentia-se estonteado pela raiva, a tristeza, a amargura e a ironia do que acontecera. Faltavam-lhe menos de duas semanas para se ir embora 
e tinham-no morto. E acontecera o mesmo a milhares de outros. Mas este, no. Bill Quinn era um homem to fantstico. E estava to apaixonado por Paxton.
- Conseguiu a sua histria, Mister Johnson? - inquiriu Tony amargamente, sem dissimular o choro. - Tomou apontamentos ou gostaria de vir at aqui e examinar o corpo? 
Ele s ser enviado para casa amanh  tarde. E acho que agora no voltar com a namorada - concluiu.
No era o primeiro homem que se apaixonara durante a estada ali, nem era o primeiro que enganara a mulher, mas o sargento mostrara-se sempre contra. E sempre havia 
feito esta previso. Assistira a repetidos envolvimentos de homens com as mulheres dali, a tal ponto que se tornavam descuidados.
Estava convencido de que Bill morrera por esse motivo e nada o faria mudar de opinio. Na sua cabea, Paxton Andrews matara Bill Quinn e ponto final.
- Isto vai mat-la - comentou Ralph mais para si prprio do que para Campobello. E, do outro lado da linha, Tony limpou os olhos com a manga.
- Espero que sim. Bem o merece.
- No acredita nisso a srio, pois no?
- Acredito, sim - respondeu num tom frio. - Ela matou o meu capito.
- Ele era um homem adulto!
Ralph achava que era uma questo de honra defend-la frente quele homem e estava a ficar irritado. Ela no matara ningum. Se algo fizera, tinha sido magoar-se. 
Apostara nele e perdera. Tal como j lhe acontecera uma vez. No entanto, a guerra era mesmo assim. Se se ficasse preso a algum, a um co, um soldado, ou uma criana, 
corria-se o risco de perder.
- Ele fez as suas opes, Campobello, tal como ela. E sabia o que estava a fazer. O facto de ter sido baleado ontem, deve-se, certamente, a uma grande astcia do 
outro. No acredito que o Bill Quinn tenha sido descuidado.
O capito era demasiado rpido, demasiado perspicaz e sabia bem de mais o que estava a fazer. Havia muita verdade nisto, mas Tony Campobello no queria ouvir.
- Tretas. Ele nunca teria descido quele buraco.
- Ento, porque o fez? - pressionou-o Ralph.
- Talvez para provar algo... Talvez porque estava a pensar nela...
- No era assim to sentimental, idiota ou mesmo corajoso. - Embora todos os generais dissessem, e o prprio Bill o tivesse afirmado, que para se ser um rato de 
tnel era necessrio um pouco de loucura.
- Ele estava loucamente apaixonado por ela.
- Sim, estava - concordou Ralph, deferente para com ambos. - Mas era algo muito pessoal que no me parece que deixasse interferir com nada. No acredito pura e simplesmente 
nisso. E se tem a sua opinio sobre o assunto, Campobello, sugiro que a enterre desde j. Se gostava mesmo dele, porque  que no guarda para si essas suas ideias? 
A rapariga vai ficar destruda bastante para no precisar de o ouvir, se por acaso os vossos caminhos se cruzarem, o que espero que no acontea.
- Tambm o espero.
- Faa-me um favor, em memria dele. Se alguma vez a encontrar, seja um cavalheiro e cale-se.
- V-se foder, mister - cuspiu Tony Campobello ao telefone, com uma voz cheia de lgrimas. - Essa cabra matou o meu capito.
Assemelhava-se a uma criana, de p ao lado da me morta e desejando matar todos os que se aproximassem dela. E, quando pousou o telefone minutos depois, Ralph conservou-se 
sentado durante muito tempo, olhando, infeliz, atravs da janela. Como, diabo, iria dar-lhe a notcia?
France estivera a ouvir tudo e, quando ele se levantou para se vestir, aproximou-se e ps-lhe a mo em cima do ombro.
- Lamento pelo teu amigo. - Tinha um maravilhoso sotaque francs, um toque suave, um corao sbio e ele virou-se e abraou-a. - Lamento pelos dois - concluiu.
- Tambm eu. H muito que tentei avis-los.
- Porqu? - inquiriu, suavemente.
Porque achei que estavam errados - O preo  demasiado alto, quando se perde algum - aqui. Tentei passar-lhes a mensagem. Mas no me escutaram.
- Talvez no pudessem - comentou.
No fundo, ela sabia mais do que ele. Ficou a observ-lo enquanto ele se vestia. Uma hora mais tarde, Ralph estava no Caravelle, a bater  porta do quarto de Paxton 
com um olhar sombrio. Mas, quando Paxton abriu a porta, estava vestida com calas de ganga, uma camisa de Bill, calara as botas de combate e emanava uma beleza 
quase dolorosa.
- Disseram alguma coisa? - perguntou, nervosa, recuando para lhe dar entrada. Fizera a cama e, embora no tivesse jantado na noite anterior, no tomara o pequeno-almoo 
nessa manh.
- Sim - respondeu num tom despreocupado, entrando e olhando em volta. Queria, desesperadamente, evitar aquele momento.
- Ento? - perguntou Paxton, e ele sentou-se pesada mente numa cadeira. A mesma cadeira em que Bill se sentara tantas vezes. - O que raio disseram?
O que disseram? Como havia de lho dizer? Fizera-o milhares de vezes antes, mas, de sbito, no conseguia faz-lo uma vez mais, no conseguia, ou achava que morreria.
Tinha trinta e nove anos, vira, ouvira, cheirara e escrevera mais sobre a morte do que desejaria ver numa centena de vidas. Tapou o rosto com as mos e, depois, 
fitou-a. S lhe restava dizer-lhe.
- Foi morto ontem, Pax. - A voz assemelhou-se ao troar de um tambor no quarto e, por um momento, ela julgou que ia desmaiar. E s conseguia ver o rosto de Ed Wilson 
quando viera dar-lhe a notcia sobre Peter e o som do seu prprio corao destroando-se em mil pedaos. Desta vez, deixou-se cair na cama e fitou-o, negando-se 
a acreditar.
- No foi.
- Foi - insistiu Ralph, com um aceno de cabea. - Desceu a um dos tneis e o Charlie apanhou-o. Foi rpido. No sofreu. O resto no tem importncia. - Ignorava se 
era ou no verdade, mas sentia que lhe devia isso. Estendeu-lhe a mo do stio onde estava sentado, mas a jovem limitava-se a fit-lo e no a agarrou.
- Posso v-lo?
Hesitou ao pensar nas palavras de Tony sobre como Charlie estoirara os miolos de Bill.
- No me parece sensato. Vo envi-lo para casa, amanh.
- Duas semanas mais cedo - observou, quase sem pensar.
Continuava sentada com o olhar perdido no vazio, muito plida, sentindo que nada mais havia no mundo para ela. Tinha vinte e trs anos e perdera os dois nicos homens 
que amara em prol daquela horrvel guerra e, agora, achava que a sua prpria vida terminara.
Eu tinha avisado que isto podia acontecer, Pax.  o risco que todos corremos aqui. Podia ter sido um de ns dois esta tarde... Foi ele. Podia ter sido qualquer pessoa.
- Mas no foi - replicou.
Em seguida, as lgrimas comearam a correr-lhe, devagar pelas faces, e Ralph aproximou-se da cama, sentou-se ao lado dela e abraou-a, enquanto ela chorou durante 
o que se assemelhou a horas, presa de um desgosto, ribombando impiedoso como uma trovoada.
- Lamento tanto... Lamento tanto... - balbuciou.
Ela encontrava-se, contudo, para l das palavras, para l do raciocnio, para l do conforto., No lhe restava nada. Nada tinha. Perdera-o. Ele desaparecera. Era 
uma recordao. E dele apenas ficara com a pulseira que lhe tinha dado no Natal- Fitou-a com uma expresso vazia e apercebeu-se, subitamente, de que o exrcito enviaria 
todos os seus objectos pessoais para Debbie, em So Francisco. Os livros que lhe oferecera com dedicatria, as bugigangas, as fotografias que tinham tirado um ao 
outro em Vung Tau, as cartas.
- Oh, meu Deus... No podem fazer isso... - Ralph julgou que ela ainda estava a chor-lo, mas, depois, ela explicou-lhe o que estava a pensar. - Temos de det-los 
declarou.
- J aconteceu antes com outros indivduos, Pax. Ela ter de compreender que ele estava numa zona de guerra. Esteve aqui durante muito tempo. As pessoas mudam.
- Mas no  justo. Porque haver ela de viver com isso, agora? - redarguiu, pensando na me, quando o pai morreu com a outra mulher. - E as filhas! No podemos det-los?
- No sei.
Ralph reflectiu uns momentos e admirou-a por ela ter pensado numa coisa daquelas, mas ignorava como actuar. O exrcito era bastante circunspecto no que se referia 
a mandar os objectos de uma pessoa para casa. Enviavam tudo, desde a roupa interior aos postais, o que provava que tinha boas razes para se preocupar.
- Com quem podemos falar?
Ocorreu-lhes em simultneo o mesmo homem, e Ralph quase gemeu s de pensar nele, mas Paxton pronunciou o nome em voz alta:
- Campobello.
- Cus! No tenho a certeza de que fizesse a porra de nada por mim, Pax.
- Ento, telefonarei... No... Vou falar com ele. Tambm deve estar desfeito.. - Era uma afirmao suave para as circunstncias, e Ralph no queria dizer-lhe nesta 
altura que o tipo a odiava at ao mais fundo das entranhas e a responsabilizava pela morte de Bill.
- Porque no deixas que eu me encarregue do assunto, Pax?
Ela assoou-se e a voz tremeu-lhe novamente, quando respondeu:
- Devo-o ao Bill. Vou meter-me no carro.
- Merda. Tambm vou.
Paxton no fazia ideia daquilo em que estava a meter-se, mas todos os esforos dele para a dissuadir revelaram-se inteis. E a misso de poupar Debbie ao conhecimento 
da relao parecia incutir-lhe nova vida e um melhor controlo do desgosto, enquanto Ralph a conduzia no carro at Cti Chi.
Todavia, quando chegaram, ele no estava preparado para o choque de encontrar Campobello quase aps a chegada e para o facto de este quase ter atacado Paxton fisicamente, 
at Ralph o agarrar pelos ombros e abanar.
- Por amor de Deus, homem! Pare com isso! No v o estado em que ela est?
- Bem pode estar! - gritou, com as lgrimas a correrem-lhe pela face; ela conservou-se encostada ao carro, a tremer incontrolavelmente, ante o que ele acabara de 
dizer-lhe. Era ainda mais do que comunicara a Ralph antes, ao telefone, mas com maior veneno ainda. - Gostaria de ver como ele est?
- Por favor... - soluou, caindo de joelhos e comeando a vomitar, enquanto Campobello empalidecia e a observava. - Pare, por favor... Eu amava-o.
De sbito, no lugar onde se encontravam, com os recrutas de p  distncia, assistindo  cena mas sem saberem o que se passava, reinou o silncio. Campobello mantinha-se 
de p e a tremer nas mos de Ralph, e Paxton levantou-se, fitando-o com uma expresso de dio declarado.
- Amava-o. No compreende? - retorquiu tranquilamente, e agora tambm ele soluava.
- Tambm eu. Teria morrido por ele. Salvou-me a vida num desses malditos buracos... e desta vez no pude ajud-lo.
Ningum podia, homem - replicou Ralph, largando-o. - j ningum pode. Acontece ou no. Pense em todos os tipos que so to cuidadosos e pifam um dia antes de regressarem 
a casa, e nos outros que so descuidados e andam sempre bbedos, sem ficarem com um arranho.  destino. O fado. Deus. Chame-lhe o que quiser. S que esse dio por 
todos no resolver nada - concluiu.
Campobello tambm o sabia, mas era exactamente isso o que o enlouquecia. Queria ter algum a quem culpar, algum sobre quem despejar a raiva. Um nmero demasiado 
dos seus homens tinha morrido, e agora o capito que ele amava, o homem que lhe salvara a vida, que fora seu amigo, rira e bebera com ele, desaparecera, e algum 
tinha de ser culpado. E ele queria desesperadamente responsabilizar Paxton.
Ralph explicou-lhe com calma o objectivo daquela ida, e Campobello pareceu sobressaltado.
- Pode ajudar-nos, homem? Ela tem razo. Todas essas coisas no devem chegar s mos da mulher.
O sargento fitou-a enraivecido e de novo cheio de veneno; ela estava novamente em p, parecendo abalada, mas determinada.
- Tem medo de ser apanhada?  isso? - perguntou-lhe.
- No - respondeu, abanando a cabea. - Tenho medo de a magoar e s filhas. Ele amava-as. Estvamos a falar em casar. Agora, no h nenhum motivo para que algum 
o saiba.
E, embora no lhe devesse explicaes, falou-lhe do pai.
- Ele morreu acompanhado de outra mulher no avio - prosseguiu -, e a minha me teve de viver com isso para o resto da vida. Um dia o meu irmo contou-me tudo e 
sempre me interroguei porqu. Todos o fizemos. No caso do meu pai, eu de certo modo sabia, mas no estava certo. No precisvamos de o saber. Nem elas. Basta terem 
de lidar com o facto de que morreu... Gostaria de ter as minhas coisas de volta.
- Como, por exemplo? - Parecia desconfiado e era visvel que continuava a querer odi-la.
- Trs livros de poesia em que escrevi algumas coisas e um mao de fotografias e cartas. O resto no tem importncia. - Em seguida, pareceu embaraada. - Comprei-lhe 
uma roupa interior engraada para o Natal e ele tinha, algures, uma madeixa do meu cabelo. Acho que so as nicas coisas que interessam.
- Porque  que est, realmente, a fazer isto? - quis saber, aproximando-se mais dela e incapaz de acreditar em que no existia nenhum outro motivo.
- J respondi porqu. O que aconteceu  demasiado doloroso para todos ns. Ela no precisa de conhecer a nossa relao.
E, por um instante, por um mero instante, ele acreditou que ela era boa pessoa, o que ainda o magoava mais. Magoava-o ainda mais pensar que Bill Quinn a tinha amado 
verdadeiramente, que talvez tivesse morrido por ela ou, mesmo que assim no fosse, poderia ter sido. Estavam todos cansados, confusos e esgotados e h demasiado 
tempo que se encontravam ali. Quinn e Campobello, Ralph e at mesmo Paxton.
- Vai regressar a casa depois disto? - inquiriu, quase esquecido da presena de Ralph, e os olhos dela voltaram a encher-se de lgrimas.
- Ignoro - respondeu com um vago encolher de ombros. - Acho que sim.
- Vou passar em revista as coisas dele. Espere aqui - replicou com um aceno de cabea.
Ausentou-se durante meia hora. Paxton chorava, Ralph fumava Ruby Queens e, por fim, o sargento regressou com um pequeno embrulho.
- Tirei os livros, as fotografias, as cartas e a roupa interior. No consegui encontrar o cabelo, mas como no est l,  irrelevante. - Ela interrogou-se sobre 
se o teria com ele quando morreu, mas no quis expressar a ideia, com medo de enraivecer Campobello ainda mais.
- Obrigada - agradeceu num sussurro, tentando controlar-se e recebendo o pequeno embrulho das mos dele. Tudo parecia to pattico, agora. Restava to pouco do enorme 
amor que lhe dedicara. Restava to pouco das esperanas e sonhos de ambos.  semelhana das cidades que o exrcito tinha de incendiar para afugentar os VC, deixando 
somente um rasto de cascalho e cinzas.
Ficou a observ-los quando caminharam de volta ao carro e, em seguida, chamou-a.
- Ei... - No queria pronunciar o nome dela, e Paxton virou-se, fitando o homem que tanto a odiara, que pensava que ela tinha morto Bill.
- Lamento - redarguiu, com lbios trmulos.
Paxton no tinha a certeza se ele lamentava t-la tratado com tanta rudeza ou a morte de Bill, mas, de qualquer maneira, ela tambm lamentava as duas coisas.
- Tambm eu - respondeu ao entrar no carro, e ele continuou a observ-los quando deixaram a base e iniciaram o caminho de regresso a Saigo.


CAPTULO 17

- Tens de ir para casa, mida - declarou Ralph, de p no quarto dela no Caravelle.
Paxton estava de novo sentada na cama, desta vez com um ar de desafio e os braos cruzados. Nixon prestara juramento na semana anterior, h um ms que Bill tinha 
morrido e j passara um ms desde que deveria ter regressado.
- Aqui no h mais nada - insistiu. - Os seis meses chegaram ao fim. O jornal espera-te. O Bill no voltar. E os telexes que chegam  minha redaco esto a pr-me 
louco, Pax. Querem-te de volta, Pax. Ests aqui h sete meses. Chegou a hora de regressar.
- Porqu? H anos que ests aqui.
-  diferente. Fui destacado para c e no tenho ningum  minha espera. Ningum quer saber de mim. Os meus pais morreram, h dez anos que no vejo a minha irm 
e vivo aqui com a mulher que amo e vai ter um filho meu. Tenho motivos para ficar, o que no  o teu caso - prosseguiu. - E comeas a enlouquecer. Pareces-te com 
aqueles tipos que estiveram tempo de mais nos tneis. Vai para casa, apanhar ar e, se gostas assim tanto disto, deixa que te mandem outra vez ou arranja algum que 
o faa. Mas, se no te afastares rapidamente, acabars por cometer qualquer estupidez.
Paxton j acompanhara Nigel e Jean-Pierre em duas misses, e Ralph apercebia-se pela sua escrita de que ela estava demasiado perturbada para fazer qualquer bem a 
si prpria ou aos outros.
- Vai-te embora, antes que me veja obrigado a telefonar-lhes para que venham buscar-te - concluiu.
Sabia tambm que ela no prestava ateno ao que comia e tinha uma tal disenteria que andava com febres baixas. Estava com um aspecto horrvel, desde a morte de 
Bill. Sofria, mas esforava-se ao mximo por ocultar o seu desgosto. Era como estar morta e no o admitir.
- Ests disposta a mostrares-te sensata? Posso mandar-te para casa? Ou tenho de lhes telefonar para que venham buscar-te? No hesitaro, sabes? O teu patro em So 
Francisco est a ficar bastante descontrolado. Quer que telefonemos ao embaixador para que ele te expulse se no concordares em pores-te a mexer daqui para fora?
- Okay, okay. Vou para casa. Ganhaste.
- Meu Deus! - exclamou com um suspiro de alvio.
Andava extremamente preocupado com ela. E encontrara Campobello uma vez nos Correios e tambm ele no parecia muito bem. Todos haviam sentido o desgosto.
- Quando, ento? - quis saber. - Amanh est bem?
- Porqu tanta pressa?
Queria mais tempo. No queria partir. Talvez porque Bill tinha morrido aqui. Ficar em Saigo assemelhava-se a ficar com ele, no quarto que tinham partilhado, prximo 
dos restaurantes que haviam frequentado.
- Porque no? - retorquiu Ralph. - Arranjarei bilhete para amanh de manh. H um "Pssaro da Liberdade" que sa daqui, algures, antes do meio-dia. E quero que vs 
nele.
- Queres ver-te livre de mim - replicou por entre lgrimas.
. Odiava deix-lo e s pessoas que conhecera, at mesmo os fumos e a loucura de Saigo.
- Tenho cimes dessa treta que escreves, mida - troou. - Nunca conseguirei ganhar o meu Pulitzer, se ficares por aqui.
- Virs ver-me a So Francisco? - perguntou num tom triste.
-  o lugar eleito? - quis saber, agora mais descontrado por ela ter concordado em partir na manh seguinte.
- Acho que sim. No sei. Ficarei por l, se me derem emprego no jornal.
Ralph dirigiu-lhe um sorriso de admirao. Nos ltimos sete meses, passara a gostar dela como se fosse uma irm mais nova e ia sentir-lhe muito a falta.
- Seriam estpidos, se no o fizessem.  uma reprter de gritos, minha senhora.
- Vindas de ti, essas palavras significam muito - retorquiu com uma voz cheia de respeito e amizade. - Vou ter saudades, cus! jantamos esta noite?
- Claro.
Apareceu sozinho, tendo deixado France em casa com An, com o frequentemente o fazia. Na maior parte das vezes, desagradava-lhe v-la com os outros reprteres. E, 
nessa noite, queria estar sozinho com Paxton. 
- Ficars bem? - perguntou-lhe com uma expresso sria, depois de beberem o segundo usque.
- Acho que sim - redarguiu, olhando para o interior do copo, como se ele contivesse todas as respostas. - No sei. - Ergueu os olhos na sua direco. - Algum volta 
a ser o mesmo, quando sai daqui?
_ No - confessou honestamente.
- S que alguns disfaram melhor. Mas talvez no tenhas ficado aqui o tempo suficiente. Talvez continues a ser a mesma.
_ No o creio - discordou.
Ralph tambm receava por ela que assim fosse.
- Talvez essa reaco seja por causa do Bill - sugeriu, esperanado.
Tinha visto pessoas destroadas por causa do Vietname. As drogas, os VC, o perigo, a doena, os ferimentos e as coisas estranhas que perturbavam a mente. Era to 
bonito e, por outro lado, a presena americana estava to errada. Para a maioria das pessoas era tremendamente confuso. Esperava, todavia, que ela no tivesse permanecido 
o tempo bastante para ficar envenenada ou haver criado uma paixo inesquecvel.
- Ser bom ir para casa - replicou. - H vida depois de se ter ido ao fundo. - Sorriu, mas ela no correspondeu.
- Faria bem a toda a gente ir para casa. Talvez a ti tambm, um dia - observou ternamente. - Ficaria muito contente. Vai ser to duro para mim regressar. Como se 
comea a contar s pessoas o que se viu por aqui?
- A tua famlia sabe do Bill? - inquiriu.
Paxton abanou a cabea. No contara a ningum. Estava a espera de saber como Bill reagiria frente a Debbie. E talvez, afinal, acabasse por nunca a ter deixado. Fora 
sempre uma possibilidade entre eles.
- Acho que agora no vou dizer-lhes.  intil.
Ralph concordou com um aceno de cabea. Havia muita coisa que ningum contava sobre Saigo.
Ficaram a beber at s quatro da manh e ele voltou mais tarde para a levar ao aeroporto. Paxton tinha a mesma mochila que trouxera  chegada, a mesma mala, a mesma 
dor no corao, s que agora era consideravelmente maior. Perdera dois homens no Vietname. E, no entanto, apesar de tudo, acabara por amar o pas.
- Faz um favor a ti prpria, Pax - declarou Ralph com um sorriso triste, quando se despediram. - Esquece este lugar o mais rapidamente possvel. Caso contrrio, 
acabar por matar-te.
Uma parte dela suspeitava que ele tinha razo, mas a outra parte segredava-lhe que no se desligasse. Porque no o queria.
- Cuida de ti, Ralph - retorquiu, abraando-o com fora. - Sabes que gosto mesmo de ti.
Quando a largou, tinha lgrimas nos olhos e a ltima coisa que lhe disse, antes de ela subir a bordo foi:
Tambm eu, Delta Delta.


CAPTULO 18

Aterrou no aeroporto de Oakland, aps um voo de dezassete horas, num avio que tinha sido fretado pela World Airways. Falara com alguns militares de regresso, mas 
quase todos estavam to exaustos, destroados e assustados por voltar, que no desejavam conversar com ningum, nem mesmo com uma bonita loura como Paxxie.
Todos tinham esperado e sonhado com aquele dia durante tanto tempo que agora se tornava aterrador voltar para casa.
O que iriam dizer? Como se explica a algum o que se sentiu ao matar um homem? Como se explica o que foi matar um homem frente a frente, enfiando-lhe uma baioneta 
nas entranhas, ou atingir um atirador no rosto e verificar que se tratava de uma mulher? Como se explica que um mido de nove anos tinha lanado uma granada de mo 
e morto o nosso melhor amigo e nos havamos precipitado para os arbustos, arrastado o mido c para fora e dado cabo dele?
Como se diz tudo isto? Ou como se fala do pr do Sol nas montanhas, do verde do Vietname, dos sons, dos cheiros e das pessoas, da jovem que nem o nosso nome conseguia 
pronunciar mas se tinha a certeza de amar?
Nenhum deles tinha resposta a estas perguntas. Esse o motivo por que a maioria regressava a casa em silncio.
E quando Paxton desceu do avio de saia e blusa, com 1 cabelo apanhado numa banana e calada com as sandlias vermelhas agora estragadas, tornava-se difcil acreditar 
que estava em casa.
Deixara de ter essa sensao relativamente quele local. A casa era Saigo e um quarto no Caravelle. Ou seria ali na casa que partilhara outrora com Peter, em Berkeley? 
Ou na casa dos Wilson? Ou na casa da me, em Savannah?
S quando desceu do avio tomou conscincia de que se sentia aptrida, e um jovem, que estava ao seu lado, fitou-a, abanando a cabea.
- Que estranho regressar do Vietname - sussurrou E ela sabia o significado daquelas palavras, pois estivera com ele.
Ed Wilson tinha mandado uma limusina busc-la e, sentada no banco de trs, reflectiu durante todo o caminho at ao jornal. No estava, contudo, preparada para a 
recepo que a aguardava.
Sentiu-se como um heri em terra estrangeira, quando os editores e gente que no conhecia lhe apertaram a mo e a felicitaram pelo magnfico trabalho que fizera 
em Saigo. Ficou boquiaberta, no tinha ideia do que pretendiam dizer, e as lgrimas corriam-lhe pelas faces quando lhes agradeceu.
Por fim, viu-se a ss com Ed Wilson. Ele fitou-a com um olhar demorado e grave e apercebeu-se de que Paxton sofrera terrivelmente. Tinha mudado. Estava magra e plida, 
mas, para alm disso, havia algo na expresso dos olhos que o assustava. Algo de triste, maduro e sbio. Vira alguns homens morrerem. Estivera no campo de batalha.
- Passaste uns tempos difceis - comentou sem fazer perguntas, e a jovem tentou sorrir, ao mesmo tempo que esboava um aceno de concordncia.
- Sinto-me contente por ter ido - retorquiu.
E falava verdade. Por Bill, por Ralph e por si prpria. Porque, estranhamente, achava que o devia a Peter e ao seu pas.
- Gostava que fosses descansar um pouco para casa e depois voltasses e escrevesses sobre o que quisesses. Fizeste um trabalho fantstico e gostaramos de contar 
com a tua colaborao assinada - declarou Wilson.
Sentiu-se emocionada, satisfeita e com vontade de aceder, mas ainda sentia um aperto no corao ao pensar na coluna que escrevera de Saigo.
- E a "Mensagem do Vietname"? Passar a pertencer a outra pessoa?
Ele abanou a cabea e sorriu, consciente de que todos os jornalistas eram assim. As suas colunas eram como se fossem filhos.
- O Nixon est a prometer diminuir a intensidade da guerra. E, de momento, acho que podemos contentar com os relatrios sobre Saigo enviados pela redaco da Associated 
Press no local.
- Tm pessoas fantsticas l - redarguiu Paxton, pensando em Ralph, mas Ed Wilson dirigia-lhe um sorriso orgulhoso.
E tu s uma delas, Paxton - elogiou com honestidade. Surpreendeste-me extraordinariamente. No sabia que tinhas fibra. julguei que voltarias um ms depois, horrorizada 
com o que viras.
- De incio, fiquei horrorizada, mas pelo menos senti que estava a fazer qualquer coisa de til.
- Sem dvida que estavas. E, nas ltimas semanas, julguei que nunca mais regressarias a So Francisco - replicou, franzindo o sobrolho. - A que se deveu a demora?
Por um minuto, ignorou o que responder-lhe.
"O homem por quem me apaixonei foi morto... outro ... "
- Eu... Uma pessoa acaba por se envolver. No  fcil deixar tudo e vir embora.
- Acho que no. Bom, agora descansa e volta daqui a umas semanas, quando te sentires pronta.
Interrogou-se sobre dali a quanto tempo o estaria e consultou o relgio, lembrando-se de que ainda tinha de procurar um quarto de hotel. No entanto, o jornal tambm 
se encarregara disso.
- Reservmos-te uma suite no Fairmont. A Marjorie queria que ficasses l em casa mas achei que precisas de descansar e agora te tornaste bastante independente.
E dissera igualmente a Marjorie que, se ela tivesse trazido algumas doenas do Vietname, no as queriam no quarto de hspedes.
Tinham-lhe arranjado tambm um carro e motorista, e os Wilson esperavam-na para jantar. No entanto, a hora do jantar significava quinze horas de diferena de horrio 
para ela, e Paxton mal conseguia manter os olhos abertos  mesa. Foi um encontro comovedor para todos e quase se sentiu como se esperassem que lhes explicasse porque 
 que Peter morrera, s que ela no tinha respostas para lhes dar, mas apenas mais perguntas.
Gabby conversou despreocupadamente durante toda a refeio sobre como Marjie estava esperta, o pequeno Peter transbordava de energia e a maravilha da nova casa em 
que viviam agora. Explicou que tinham as paredes forradas com papel Brunschwig, reposteiros azuis no quarto e, por duas vezes durante o jantar, Paxton sentia-se 
to cansada e confusa que lhe chamou, acidentalmente, Debbie.
Era como se no lhe fosse possvel aguentar aquilo tudo. Era demasiado, e as vidas deles, nos ltimos sete meses, haviam diferido em muito da sua. Mais do que uma 
vez, teve de engolir as lgrimas e a premncia de lhes dizer que no conseguia aguentar mais. Tinha saudades dos sons, dos cheiros, do seu quarto no Caravelle, de 
Peter... de Bill... Tinha a cabea a andar  roda, quando os deixou.
Quando regressou ao hotel, deitou-se em cima da cama e ficou acordada horas a fio, sentindo-se vulnervel, cansada e abalada. Por fim, adormeceu quando o Sol nasceu 
e, duas horas mais tarde, a telefonista acordou-a. Tinha de se levantar, tomar duche e mudar de roupa, a fim de apanhar o avio para Savannah.
E ali as coisas ainda foram piores. Trouxera a roupa errada. No tinha nada para dizer a ningum. E sentiu-se incapaz de lidar com a Liga Jnior, o clube de bridege 
da me e o almoo que lhe foi oferecido pelas Filhas da Guerra Civil.
Todos se mostravam interessados em saber coisas sobre o Vietname, mas no era verdade.
Nada queriam saber do cheiro ftido da morte, do rapaz de Miami que ficara sem um brao ou dos mendigos mutilados que rastejavam pela esplanada do Hotel Continental 
Palace ao fim da tarde. Nada queriam saber das doenas venreas, das drogas, dos rapazes que morriam s mos dos vietcongues, nem dos velhos e crianas que eram 
alvejados. No queriam saber como se ficava com o corao despedaado e, contudo, se aprendia a amar tudo aquilo.
Apenas conseguiu transmitir a todos que lamentava muito estar to cansada, to doente, to magra, to totalmente incapaz de pronunciar palavra. Eles apenas queriam 
um simples filme de guerra, com pipocas, sem ossos, nem sangue ou estilhaos de bombas, nem bocados de carne espalhados, jovens que eram mortos ou um pas moribundo.
Paxton nunca se tinha sentido to s como em Savannah Nunca estivera com to mau aspecto, nem sentira tanto a falta de Queenie. Sabia, contudo, que tambm no poderia 
ter contado aquilo a Queenie. Estava s e era uma estranha. Era impossvel falar com quem quer que fosse, excepto com algum que l estivesse estado.
Saiu com algumas amigas a quem lamentara ter telefonado, quando conheceu um rapaz num bar, uma noite. Comearam a falar e encontrou, por fim, algum com quem podia 
relacionar-se. Falaram de Ben Suc e Cu Chi, Nha Trang, Bien Hoa, Long Binh, Hue e Vung Tau, onde ela e Bill tinham passado o seu primeiro fim-de-semana. Assemelhava-se 
a uma linguagem secreta entre velhos amigos e foi a nica noite agradvel que passou durante as duas semanas, em Savannah. Trocaram um firme aperto de mo e, nessa 
noite, ao regressar a casa, sentiu-se menos s.
Experimentou igualmente alguma dificuldade em falar com a me. Ela pensava que Paxton ainda sofria por Peter. No entanto, havia muito mais do que isso. Sofria pela 
sua juventude perdida, por um pas que nunca mais veria, dois homens que amara e uma parte de si que eles tinham levado.
O irmo atribuiu tudo a simples cansao. Por fim, vestida com alguma roupa nova que parecia mais adequada, do que as botas de combate, que mesmo assim levou consigo, 
Paxton apanhou o avio de volta a So Francisco.
Comeou a trabalhar, empenhadamente, no Sun. Alojaram-na num hotel durante vrias semanas, at descobrir um pequeno apartamento. Todas as noites prometia que telefonaria 
a Gabby e conclua que no era capaz. Nada tinha a dizer-lhe, no queria ver a sua casa nova nem os reposteiros, alm de que Matt lhe parecia enfadonho, pedante 
e todos lhe pareciam artificiais. E to totalmente insignificantes. Os dias em que existira uma proximidade tinham acabado. As pessoas que nessa altura amara tinham 
desaparecido. No restava ningum. E ia ao ponto de odiar o que estava a escrever para o jornal.
Devido ao que vira no Vietname, tinham-na destacado para a cobertura de acontecimentos polticos locais e aborrecia-se de morte. Mr. Wilson incitava-a a que voltasse 
a estudar e acabasse a licenciatura em Berkeley. No conseguia imaginar-se a faz-lo e tudo lhe parecia extremamente cansativo e intil.
Estava sempre cansada e,  noite, detestava voltar a casa. Tinha vinte e trs anos e sentia-se como se a sua vida tivesse chegado ao fim e as nicas pessoas com 
quem podia falar fossem as que tinham estado l.
De vez em quando conhecia algum que estivera no Vietname e caam, subitamente, nos braos um do outro, falavam durante horas a fio e, depois, afastavam-se, e tudo 
ficava reduzido ao silncio.
Tinha sempre presente que, no Vietname, as pessoas continuavam a lutar, ganhavam, perdiam e morriam. E sentia-se como se estivesse a perder tudo por no estar l. 
At tudo terminar, apenas queria estar em Saigo. Um dia tentou explicar tudo isto ao editor, mas ele limitou-se a sorrir e a elogi-la pelo bom trabalho que executava 
com as incumbncias locais.
Paxton continuava a ler o que acontecia no Vietname, interrogando-se sobre o que fariam Ralph e os outros. Porque  que eles ainda se mantinham por l? Porque  
que ela tivera de regressar? O que fizera de mal para merecer aquilo?
Contrariamente s promessas que ouvira como todo o povo americano, os ataques pareciam aumentar e as baixas tambm.
E, em Maio, trs meses aps ter regressado, no conseguiu aguentar mais. Nessa altura, Peter tinha morrido h mais de um ano e ela assistira  cerimnia fnebre, 
junto ao seu tmulo.
O pior de tudo residia em que se sentia to morta com o ele estava. Pelo menos, ele e Bill tinham vivido e morrido, vindo e desaparecido, mas ela andava a vegetar, 
a escrever sobre coisas que no lhe interessavam, sentindo que andava a desperdiar a vida.
Por fim, no dia 1 de junho, pouco antes de Nixon se avistar com Thieu, para aceder retirar vinte e cinco mil homens do Vietname, ela tomou uma deciso. Entrou no 
gabinete de Ed Wilson, sem nunca se ter sentido to bem como nos ltimos meses e muito confiante. Pediu-lhe para voltar a escrever a sua Coluna e vincou-lhe delicadamente 
que, se no a mandassem de novo para Saigo, algum mais o faria. Ele ficou horrorizado. E, por momentos, interrogou-se sobre se a carga no teria sido demasiada 
e ela no estaria um tanto louca.
- Por amor de Deus! O que te leva a querer regressar? hoje em dia, os nossos rapazes fariam tudo para o evitar,
Paxton! - exclamou. - Porqu?
- Porque preciso de estar l - tentou explicar desesperadamente. - Porque, aqui, sou intil. Porque ningum compreende exactamente o que acontece por l, excepto 
talvez as pessoas que o sabem.
- E tu compreendes? - redarguiu num tom cptico, ao ouvi-la falar assim.
- No, mas vi. Sei o que se passa. Ningum tem de mo explicar. E sou incapaz de ficar aqui, a falar de carros, dos reposteiros, bebs e churrascos, sabendo o que 
est a acontecer por l. Tenho de estar l, Mister Wilson.
Parecia-lhe uma loucura, mas ela tinha idade bastante para tomar as suas decises e era indubitvel de que a sua coluna fora rendvel para o jornal. Haviam recebido 
uma srie de queixas quando parara, mas mais ningum quisera ir para Saigo.
- O que acha a tua famlia?
- Ainda no a informei.
- E se te matarem? - inquiriu de chofre.
- Foi o destino - respondeu, tranquilamente. - Como ao Peter.
Ele esboou um aceno de concordncia. Partilhava da mesma opinio, embora soubesse que Marjorie ainda no o conseguira. Continuava revoltada com o destino ante a 
injustia. E ele sabia que no era justo. Mas... acontecera...
- Quanto tempo queres ficar em Saigo desta vez, Paxton?
- No sei... - Reflectiu algum tempo, mantendo-se sentada. - Talvez um ano. Algo do gnero. De momento, prefiro deixar a questo em aberto. - E sorriu-lhe jovialmente, 
pela primeira vez desde h quatro meses. - Inform-lo-ei quando no conseguir aguentar mais. Ou quando a guerra acabar.
- Tens a certeza de que queres fazer isto, Paxton? - insistiu, fitando-a longa e gravemente.
Quando ela respondeu com um aceno de cabea, decidiu que tinha de satisfazer a sua prpria curiosidade. No a imaginava a querer voltar para o Vietname.
- Envolveste-te com algum? - acrescentou.
A jovem sabia o que ele pretendia implicar, mas abanou a cabea.
- Apenas amigos, alguns outros lunticos como eu respondeu, pensando em Ralph e nos outros -, que precisam de assistir a tudo at ao final, como eu.
- Espero que acabe depressa - replicou, tristemente aps o que mencionou um ordenado que a surpreendeu. - Podes ficar no mesmo hotel, ou num melhor, se houver. Faz 
o que quiseres, enquanto te conservares por l, Paxton. Tens carta branca.
Levantou-se, beijou-a e ela agradeceu. Quando saiu do gabinete dele, os olhos brilhavam-lhe.
Algum foi aumentado - observou uma das editoras, quando Paxton passou junto deles.
- Podes apostar - anuiu, virando-se com um sorriso. - Voltaram a dar-me a minha coluna e estou de partida para Saigo.
- Merda! - exclamou a rapariga, abanando a cabea.
Tratava-se de algo que os outros no compreendiam.
Ao regressar  secretria, Paxton redigiu um telegrama dirigido a Ralph Johnson, para a redaco da AP, Edifcio den, Saigo: "Regresso a casa, mal consiga um voo. 
Prepara-te. Beijos, Delta Delta."
Mandou o telegrama, foi para casa fazer as malas e telefonou  me e a Gabby. A me ficou atemorizada, mas intimamente pouco surpreendida. E Gabby chorou, porque 
o seu terceiro filho nasceria a qualquer momento.
No entanto, Paxton tinha agora a sua prpria vida e, dois dias mais tarde, encontrava-se a bordo de um avio com destino a Saigo.


CAPTULO 19

Desta vez, a chegada de Paxton a Tan Son Nhut pareceu-lhe um regresso a casa, e observou a base familiar com mais calor do que sentira quando voltara a Savannah.
Aqui, sentiu-se imediatamente em casa e sabia que agira bem quando um txi a conduziu ao longo da Tu Do, at ao Caravelle, onde tinha vivido no ano anterior. Era 
estranho pensar que estivera longe cinco meses e, agora, se sentia finalmente em casa. Sentira-se entorpecida quando partira, mas agora ganhara vida ao voltar.
Largou as malas no hotel e deu instrues ao motorista para que a levasse ao Edifcio den na praa. Sorriu ao passarem junto  Esttua do Fuzileiro. Estava ansiosa 
por ver Ralph.
E, quando entrou, ele estava na redaco, parecendo agitado, aps ter feito a cobertura de uma misso de combate. De costas para ela, queixava-se da porcaria de 
motorista que tinham. Paxton avanou sem rudo por detrs e tocou-lhe no ombro. Ao avist-la, esboou um sorriso de lado a lado e acolheu-a nos braos.
- Delta Delta... No acredito... tarada de mida! O que raio ests a fazer aqui, quando podias estar de cu bem instalado em So Francisco?
- Ah, sim? Quem disse? Fiz a cobertura de todos os acontecimentos chatos que eles tinham e, se tiver de assistir a mais qualquer outro encontro poltico ou greve, 
vomito.
- Bem-vinda - declarou tranquilamente, parecendo de facto satisfeito por v-la.
- Obrigada - agradeceu, enquanto os olhos de ambos se encontravam e fixavam.
Tinham atravessado tempos duros e ela devia-lhe tudo o que sabia sobre o Vietname.
- Cansada de mais para uma bebida? A propsito, quando voltaste?
, - H cerca de duas horas. E no, no estou. Ignoro que raio de hora  para mim, nem quero saber. - Sentia-se contentssima por v-lo.
- A esplanada do Continental Palace? - perguntou rindo. Ainda se lembrava de como ela ficara horrorizada  chegada, quando Jean-Pierre a levara at l.
Paxton perguntou por ele, enquanto voltavam a Percorrer a Tu Do.
- Como  que ele est?
- Bebe demasiado, como de costume. A mulher acabou por deix-lo. Cansou-se de esperar que ele voltasse da guerra. Mas acho que no foi novidade para ele. - Observava-a, 
de vez em quando, enquanto seguiam viagem. Estava to feliz com a presena de Paxton. Agora, era quase como famlia aos seus olhos, e ela sentia o mesmo em relao 
a ele.
- E a France?
- Est ptima. - Por momentos, pareceu estranho. - Espera o beb para Setembro.
Paxton fitou-o demorada e atentamente, interrogando-se sobre o que sentiria a este respeito. De incio, ficara perturbado. Dada a incerteza em que viviam, achava 
que no deviam ter um filho ilegtimo.
- Tentei dissuadi-la da ideia de ter o beb - prosseguiu. - Mas ela quer o filho desesperadamente, portanto... Voil. - Encolheu involuntariamente os ombros com 
um sorriso. - Acho que vou ser pai.
Ainda no se casara com ela, mas estava a pensar seriamente em faz-lo com a chegada do beb e ainda andava a tentar convenc-la.
- Que tal pelos Estados Unidos? - quis saber, consciente de que no ia l h tanto tempo que comeava a parecer-lhe um pas estranho.
- Bizarro - respondeu Paxton com honestidade. - De incio, detestei. Agora, as pessoas so to diferentes ou, pelo menos, assim me pareceram. Esto debruadas sobre 
si prprias e nas tintas para o que se passa.  como se isto no existisse, salvo para as pessoas que c estiveram. No querem que exista e, portanto, assim .
- Interroguei-me a esse respeito. - Nessa altura, tinham chegado ao Continental Palace, e Paxton apercebeu-se de que se esquecera do calor insuportvel de Saigo. 
Oferecia um enorme contraste com a gelada So Francisco. Mas nem sequer isso tinha importncia. Estava meramente satisfeita por estar ali com o imenso rudo, o cheiro 
familiar a flores, fruta e gasolina.
Subiram as escadas devagar, e Paxton interrogou-se sobre se encontrariam Nigel. Transmitiu o pensamento a Ralph e, por momentos, ele pareceu distante, aps o que 
a fitou com uma expresso estranha.
- Foi morto em Bien Hoa, h dois meses. Uma idiotice. Um carro explodiu... Era uma pequena bomba colocada pelos VC... uma coisa estpida, que o matou.
Muitos deles morriam por coisas estpidas como Peter e uma imensidade de outros. At mesmo os que morriam em combate, tambm parecia estpido, analisado  distncia... 
como Bill. Mas tentou no pensar nisso agora e limitar-se a usufruir da companhia de Ralph.
- Que infelicidade! - lamentou, embora nunca tivesse, realmente, gostado de Nigel. - Andas a trabalhar muito?
- Demasiado - respondeu, com um sorriso feliz. - Mas adoro. Vai ser divertido voltarmos a trabalhar juntos. Quando queres comear? Tenho andado a adiar uma viagem 
a Da Nang, at encontrar algum que me acompanhe.
- Adorava. - Nunca estivera em Da Nang e sempre hesitara por causa de Peter. Ignorava como se sentiria por estar onde ele fora morto. Mas desta vez estava pronta.
- ptimo. Vou preparar tudo. Que tal se te arrastar comigo depois de amanh?
- Ficarei  espera - sorriu-lhe; em seguida, ele consultou o relgio.
Tinha de voltar para junto de France, pois ultimamente no gostava muito de deix-la sozinha. No andava a sentir-se bem e An era um mido traquinas.
- Queres que te leve ao Caravelle? - inquiriu, levantando-se, mas ela sorriu e abanou a cabea.
- Irei a p, se conseguir manter-me acordada o tempo bastante. E, se no me sentir com foras, posso apanhar um riquex. No h problema.
Ralph inclinou-se e beijou-a na face.
- Bem vinda - repetiu. - Sinto-me contente.
- Tambm eu - retorquiu, abraando-o com fora.
- D saudades minhas  France. Vejo-te amanh nas "tolices das cinco". Ainda continuam? - riu ante a ideia e pensando em todos os correspondentes que voltaria a 
ver.
Isto era, realmente, estar em casa, mas enquadrava-a num cenrio um tanto assustador. Agora, ela era um deles, dos duros, uma das pessoas que pertenciam aqui, at 
a guerra acabar.
Ficou a acenar a Ralph e fechou os olhos, enquanto sorvia a bebida em pequenos goles, sentada na esplanada. A mesa ao lado estava ocupada por um boina-verde com 
uma rapariga vietnamita. Ele usava o fato de camuflagem e o leno vermelho, branco e azul de que todos eles se orgulhavam tanto.
Paxton optara por um thom xay, o sumo de anans a que se habituara, pois sabia que, se bebesse qualquer coisa alcolica, cairia por terra; quando pousou o copo e 
olhou em volta, estremeceu. Era como num sonho. Regressara e, encontrava-se, subitamente, rodeada pelos mesmos rostos familiares. Mas esta parte do sonho no era 
assim to fcil.
De incio, no soube o que dizer, no ia sequer pronunciar palavra, mas ele tinha parado, fitava-a e parecia pouco  vontade e nervoso. Era Tony Campobello, o primeiro-sargento 
de Bill Quinn.
- Julguei que se tinha ido embora - retorquiu com uma expresso de estranheza, como se tambm se sentisse confuso com o sonho.
- E fui - replicou, hesitante, interrogando-se sobre se ele voltaria a atac-la verbalmente e, desta vez, Ralph no estava presente para a proteger. - Acabei de 
regressar. Na verdade, hoje.
- Oh! - exclamou com um aceno de cabea. - Que tal os Estados Unidos?
Mantinha-se de p, pouco  vontade, conversando com ela, de uniforme, e Paxton ignorava o que fazer, s que voltar a v-lo recordava-lhe Bill e era doloroso para 
ambos. De certa forma, os trs ainda continuavam unidos, embora Bill j tivesse morrido h seis meses.
- Foi esquisito regressar a casa - respondeu-lhe honestamente. - Ningum entende o que se passa aqui.
-  a opinio geral. Partimos daqui como heris e, ao regressar a casa, tratam-nos como condenados.
- So tempos estranhos - retorquiu num tom- calmo, interrogando-se sobre se deveria convid-lo a sentar-se e a fazer-lhe companhia.
Ele parecia nervoso e agitado. No era alto, mas emanava robustez e uma fora tranquila que sempre a impressionara. E sabia que Bill gostava dele e o respeitava, 
embora ela nunca tivesse tido um entendimento brilhante com ele.
- Ainda est em Cu Chi? - inquiriu, pois no lhe ocorria mais nenhuma pergunta.
- Estou na minha quarta misso - explicou num tom entre o orgulho e a timidez, como era hbito entre todos eles. - O Bill sempre disse que ser rato de tnel implicava 
loucura e acho que ele tinha razo.
- Ou muita coragem, ou as duas coisas - redarguiu ela suavemente, voltando a pensar em Bill.
Nesse momento, o olhar cruzou-se com o de Tony e no pronunciou palavra, mas ele sabia o que estava a passar-se na sua cabea.
- Ele era o mximo - elogiou num tom admirativo e, depois, acrescentou, novamente pouco  vontade: - Devo-lhe desculpas.
- No, no deve.
No queria voltar a tocar no assunto. Fora uma poca horrvel que queria afastar da memria... quando Bill morrera e Ralph viera contar-lhe... Sabia que era incapaz 
de passar outra vez por tudo aquilo e ergueu, tristemente, os olhos para Tony.
- Compreendo. Estvamos ambos perturbados - rematou ela.
- Sim, mas fez algo de muito especial. Reflecti nisso durante muito tempo e sempre desejei dizer-lhe o que pensei- Levou-me a compreender porque  que ele deve t-la 
amado. E amava mesmo, sabe?
Paxton sorriu tristemente ante a recordao e questionou-se sobre o que o impressionara.
- Tambm eu o amava. E acho que voc tambm. Esse o motivo por que nos passmos um bocado quando...
- Sim. Mas, quando veio buscar as coisas que lhe tinha dado para que a mulher no as recebesse, fiquei impressionado. A maioria das mulheres no o faria. Ter-se-iam 
estado nas tintas ou deixado que ela descobrisse, achando que j no era importante. Montes de indivduos tm mulheres no local, mas, que eu saiba, nenhuma foi buscar 
as provas a fim de evitar que chegassem  mo da esposa. As midas representavam o mundo aos olhos dele.
Tinha os olhos cheios de lgrimas, e ela teve de engolir as dela.
- E aquilo que me contou nesse dia sobre o seu pai... prosseguiu. - No precisava de o ter feito. - Deu um passo na sua direco e ela pousou o copo vazio. - Apenas 
queria dizer-lhe que lamento. Perguntei por si uma vez ao tipo da AP, mas ele informou-me que regressara a So Francisco. Surpreende-me que me fale, depois de tudo 
o que lhe disse - concluiu e estendeu-lhe a mo.
- Estvamos todos sob muita presso. Mas obrigada, Tony. - Apertou-lhe a mo e era fria, firme e forte, tal como a dele, ao mesmo tempo que os olhos a trespassavam 
como balas. - Obrigada. - Comeava a entender porque  que Bill gostava dele. Era directo e sincero, embora muito temperamental. - Quer sentar-se? - convidou, apontando 
para a cadeira que Ralph deixara vaga.
No entanto, Tony abanou a cabea, pois continuava a sentir-se pouco  vontade na sua presena.
- Tenho um encontro com uma pessoa dentro de minutos - justificou-se, ao mesmo tempo que os olhos pareciam dirigir-lhe mil perguntas. - O que a fez regressar a Saigo?
- A minha segunda misso - sorriu, e ele soltou uma gargalhada.
 corajosa. A maioria das pessoas anseia por sair daqui.
Foi o que senti relativamente a So Francisco.
 natural de l? - interessou-se com bvia curiosidade, pois Bill Quinn contara-lhe muito pouco a respeito dela.
-  onde fica o jornal para que trabalho e onde frequentei a universidade durante quatro anos, em Berkeley. Mas sou de Savannah.
- Merda! - exclamou, parecendo impressionado - Passei l uma semana h uns anos,, depois de fazer o treino bsico na Jrgia. Essa gente  muito rgida. Julguei que 
iam expulsar-me da cidade, por ter ido danar. Sou de Nova Iorque. As coisas so um pouco mais animadas no Norte.
Paxton riu ante aquela descrio de Savannah.
- Acertou em cheio no alvo - comentou. -  por isso que no vivo em Savannah... mais ou menos... Tenho dificuldade em discutir esse assunto com a minha me.
- Ela deve estar excitadssima por ter vindo para Saigo - retorquiu, enquanto ela tentava adivinhar-lhe a idade. Na verdade, Tony tinha trinta anos.
_ No propriamente - confessou Paxton, referindo-se  me -, mas no lhe restava alternativa. No consegui aguentar mais. Tinha de sair de So Francisco e regressar 
ao Vietname.
- Porqu? - De certa forma, no compreendia. Ela era uma rapariga bonita, jovem, tinha obviamente um bom emprego e podia ter ido para qualquer outro lado que no 
o Vietname. Por que raio estaria aqui?
- Ainda no sei - respondeu-lhe honestamente. - No conheo a resposta. Algo por resolver, presumo. Apenas senti que pertencia aqui. Fui incapaz de aguentar as trivialidades 
l de casa, os carros novos, os antigos empregos, os reposteiros novos de que as pessoas falam, enquanto h gente a ser morta pelos VC. No consegui, pura e simplesmente.
Tony levou a mo ao bon no que tomou por uma saudao.
- De onde venho, chamam-lhes pazza. Doidos. Desaparafusados. - Fez uma careta nova-iorquina, e ela riu; depois, levantou-se.
Comeava a sentir-se cansada. Havia nove horas de diferena horria para ela e, subitamente, mal conseguia ter-se de p.
- Parece estoirada - comentou, quando ela se ergueu.
Deteve-se a observ-la, como que tentando decidir algo a seu respeito,. e ela tentava no ficar nervosa. Continuava a pensar quando ele lhe gritara h seis meses 
e como a odiara nessa altura e durante todo o tempo em que andara com Bill.
Porm, essa poca perdia-se na distncia, e era intil continuar a repisar o assunto. Dava a sensao de que ele queria estabelecer uma espcie de trguas. No valia 
a pena qualquer vendetta com algum. E sabia que Bill teria gostado que fossem amigos e, ainda que o sargento lhe parecesse um pouco estranho, estava disposta a 
esquecer. No to estranho quanto intenso e, ocasionalmente, muito nervoso. Mas quem no o era em Saigo?
- Posso oferecer-lhe boleia at ao seu hotel? Tenho um jipe roubado, l fora. Arranjei-o no aeroporto - retorquiu friamente, e ela riu.
- Na verdade, estava a pensar ir a p. - Mas agora sentia-se cansada s de pensar em faz-lo. - Importa-se? - Ele abanou a cabea. - Estou no Caravelle, mesmo ao 
fundo da rua.
_  ptimo - replicou,  guisa de conversa. - jantei uma vez no ltimo piso. A comida  muito fresca - acrescentou, rindo quando ela o fitou com uma expresso de 
estranheza ante o comentrio.
- Eu sei. Parece ridculo - prosseguiu. - A minha famlia  de merceeiros por atacado. Passei toda a minha vida a ouvir se os legumes so ou no frescos em todos 
os stios em que comemos. Detestava a conversa, quando era mido. "Que se lixem os legumes!", costumava pensar. Depois, , quando cresci, descobri que  uma maldio 
de famlia, torna-se uma obsesso.
Paxton tambm ria e estava to cansada que quase desejou que fossem amigos. Era to estranho regressar e encontr-lo novamente, conversarem depois de toda a hostilidade 
e raiva durante todo o tempo em que convivera com Bill. Talvez ele se sentisse meramente ciumento. Tinham-na informado de que alguns subalternos adquiriam um estranho 
sentido de posse quanto aos seus capites.
- Recordar-me-ei dessa questo dos legumes, se voltar a jantar l - prometeu, dirigindo-lhe um sorriso cansado-
- Faa isso. - Nesse momento, tinham parado diante do Caravelle e ele ajudou-a a sair. - Est meia a dormir, cus! - Ela mal conseguia manter os olhos abertos. - 
Vai ficar bem?
- Desde que consiga chegar  minha cama, ficarei ptima. Obrigada pela boleia, sargento.
- Sempre s ordens, Miss Andrews - replicou com uma saudao.
Paxton lembrou-se de ter pensado que se sentia surpreendida por ele se recordar do nome dela, passado todo aquele tempo. Em seguida, foi buscar as malas  recepo, 
entrou no quarto, deixou-se cair na cama sem tirar a roupa e acordou, vinte horas depois, com o sol da tarde entrando pela janela.
E lembrou-se de ter conversado com o sargento na esplanada, na noite anterior. Pelo espao de um minuto, conservou-se sentada a pensar que devia ter estado a sonhar.


CAPTULO 20

Paxton manteve-se acordada durante duas horas, desfez as malas, tomou banho, desceu ao andar inferior para comer, voltou para a cama e dormiu at de manh.
Ralph tinha-lhe deixado uma mensagem na recepo a indicar que viria busc-la s sete horas da manh seguinte, E, no outro dia, s seis, sorriu ao observar o romper 
do Sol. Estava um tempo bonito e escaldante quando vestiu um uniforme e uma camisola interior de caqui e apertou os atacadores das botas. Eram as mesmas que Ralph 
lhe tinha oferecido quando chegara pela primeira vez a Saigo, um ano atrs.
Desta vez, no receava estar ali. Parecia-lhe que tudo estava bem. E, quando desceu, sentia-se perfeitamente  vontade na- sua prpria pele e confiante sobre o que 
estava a fazer.
Ralph foi, como sempre, pontual e vinha acompanhado de Bertie, um velho reprter fotogrfico ingls, um indivduo extraordinrio com quem Paxton trabalhara e gostara. 
Contou anedotas enquanto saam da cidade e Paxton sorriu, ao mesmo tempo que olhava para Ralph e se servia de uma chvena de caf do termo.
Nessa altura, o Sol j se recortava claramente no cu, as ruas quase fumegavam e subsistia por todo o lado o mesmo cheiro intenso a gasolina, flores e fruta, o mesmo 
fumo que parecia pairar sobre eles, e o mesmo verde nas colinas quando saram da cidade, a mesma terra vermelha que provocava o desejo de se estender a mo e apert-la 
por entre os dedos... os mesmos mendigos, os mesmos rfos, os mesmos feridos e mutilados.
O mesmo pas que ela amava ao ponto de no conseguir abandon-lo. Na noite anterior, Ralph deixara no hotel uma mensagem de que a sua misso a Da Nang mudara, mas 
que iria busc-la  mesma hora, na manh seguinte, e viajariam at um outro local.
- Apercebeste-te de que nem sequer sei para onde vamos hoje? - perguntou Paxton. - J que falamos de confiana, qual  a misso? - dirigiu-se a Ralph, enquanto o 
reprter fotogrfico conversava com o motorista.
Ralph interrogara-se quanto  sensatez de a levar e desejara telefonar-lhe a altas horas na noite anterior, mas nessa altura era tarde de mais. Tencionara dar-lhe 
uma alternativa antes de partirem; porm, na excitao de sair em reportagem com ela, esquecera-se de lhe dizer. 
- Hoje, vamos a Cu Chi - respondeu, consultando nervosamente o relgio. - No entanto, ouve bem... No h problema. Se quiseres, voltamos para trs. No s obrigada 
a vir nesta misso. O mais estpido de tudo  que no voltei l nos ltimos seis meses. E ontem, apareceram-me subitamente com uma histria interessante.
Da ltima vez que l tinham estado fora tudo bastante difcil. "E se aquele luntico ainda estivesse por l?", pensou.
- Sinto-me mal com isto, Pax - comeou a explicar. - Devia ter cancelado o compromisso contigo, quando me mudaram de Da Nang para Cu Chi.
- No, no devias. Talvez precise de enfrentar isto.
- Queres voltar  cidade, Pax? - inquiriu suavemente.
Ela abanou a cabea devagar e, durante muito tempo, ficou a olhar l para fora. Bill estava morto h seis meses, Peter h quinze. As coisas eram mesmo assim por 
aqueles lados. Era impossvel ficar afastado dos lugares em que haviam sido feridos ou dos lugares em que haviam estado.
Havia demasiadas recordaes dolorosas. Peter fora morto em Da Nang, Bill em Cu Chi. No podia esconder-se eternamente. Tinha de prosseguir caminho, continuar a 
viver.
- Estarei bem - garantiu num tom calmo.
Lembrava-se com demasiada nitidez da ltima vez que l haviam estado, para ir buscar as cartas que ela escrevera a Bill
, no dia anterior a enviarem o corpo para Debbie, em So Francisco, E o facto recordou-lhe o encontro com Tony Campobello na esplanada. Respirou fundo, bebeu mais 
um gole de caf e fitou novamente Ralph.
- No vais acreditar quem vi ontem na esplanada do Continental Palace depois de teres ido embora - replicou.
- O Ho Chi Minh - redarguiu, despreocupado.
Sentia-se muito feliz por Paxton estar de volta a Saigo a fazer uma reportagem com ele. Da mesma forma que quisera que ela abandonasse Saigo em seu beneficio, 
estava satisfeitssimo com aquela opo dela em querer voltar. Podia ver com os seus prprios olhos que os Estados Unidos lhe tinham feito bem e estava pronta para 
desempenhar de novo o trabalho que todos amavam to apaixonadamente; e no poderia ir-se embora sem que a guerra no Vietname acabasse.
- Estive com o Tony Campobello - retorquiu.
O primeiro-sargento do Bill. - Podia falar novamente de Bill. Durante os cinco meses nos Estados Unidos no falara dele com ningum, porque ningum o conhecia.
- Esse luntico? O que te fez? Atirou-te a bebida  cara? - Recordava-se bem de mais do ltimo encontro que tinham tido em Cu Chi e fora tudo menos agradvel, quando 
ele lhe gritara, e Paxton chorara por Bill, apertando com fora o pequeno mao de cartas.
- De facto, no vais acreditar - respondeu, ela prpria com uma expresso incrdula. - Foi quase simptico. Contrado e nervoso, mas... - Hesitou, recuando at  
ltima vez que o vira, seis meses antes. Desculpou-se pelo nosso ltimo encontro.
Ralph fitou-a demorada e atentamente por um instante, antes de comentar:
- Houve, ento, uma mudana. julguei que o filho da me ia tentar matar-te. Tinha-o corrido a pontap se ele tentasse o que quer que fosse, mas, por momentos, julguei 
que se passara para o outro lado.
Paxton olhou para fora, enquanto reflectia nas palavras.
- Julgo que nos aconteceu a todos - declarou.
Contudo, nada houvera de loucura no seu caso. Ficara apenas com o corao despedaado com a perda de Bill apenas Campobello perdera o controlo. No entanto, segundo 
Ralph dizia, os ratos de tnel eram todos assim. Viviam com os nervos  flor da pele, em demasiado stress e demasiado risco. E acabava, eventualmente, por acontecer 
a todos. Iam-se abaixo. Quem poderia censur-los?
Chegaram  base, atravessaram o porto principal, Ralph informou que pretendia falar com o novo comandante da Vigsima Quinta Diviso e Paxton seguiu-o at ao interior.
Era um homem simptico e explicou que tinham descoberto recentemente uma rede de tneis completamente nova. Havia um arsenal de bombas, quartis-generais, "gabinetes". 
Sem que o soubessem, os homens de Cti Chi tinham estado uma vez mais a viver numa aldeia subterrnea.
Mostrou-lhes fotografias e diagramas e, depois, chamou um ajudante para os acompanhar numa visita s instalaes e convidou-os a voltar e a visit-lo novamente, 
caso tivessem mais perguntas.
E, ao pronunciar as palavras, brindou Paxton com um olhar apreciativo. Ignorava de quem se tratava quando se avistaram, mas sabia que era uma rapariga de gritos, 
quer estivesse ou no em combate e pensou que Ralph tinha uma sorte danada.
Visitaram depois a parte das traseiras da base, e Paxton sentiu um aperto no corao ao observar o local em que Bill tinha vivido e trabalhado. A visita revelava-se 
muito dolorosa. E Ralph fez essa leitura no rosto dela, quando seguiram at ao mesmo stio em que haviam ido com Bill e lamentou, subitamente, t-la trazido.
- Desculpa, Pax. No devia ter-te exposto a isto. Pura e simplesmente, no pensei.
- Tudo bem - acalmou-o, tocando-lhe ao de leve no brao, e reajustou a mochila. Trazia alguns apontamentos l dentro, bem como o termo e uma caixa de primeiros socorros. 
A semelhana dos soldados, continuava a transportar o creme de proteco e o repelente de insectos no capacete.
Estou ptima - garantiu, quando saram novamente do jipe.
No entanto, mentia. Estava triste e a pensar nele quando chocou, repentinamente, com algum que quase a deitou ao cho mas ainda a apanhou antes da queda.
- Merda... - pronunciou a voz, no momento em que ela tropeou; depois, o indivduo apanhou-a. Ao virar-se, viu que se tratava de Tony Campobello.
- Ol - cumprimentou timidamente e tentando readquirir a compostura.
Ralph j estava a falar com outra pessoa e o reprter fotogrfico colocava outro rolo na mquina.
- No era minha inteno derrub-la... Lamento...
E acrescentou com um sorriso, que lhe iluminou os olhos negros como ties. - Nos ltimos dias, parece que lhe tenho repetido muito esta frase. Chegou bem a casa, 
na outra noite? Estava to cansada que julguei que no conseguisse.
Paxton estava, agora, familiarizada com o seu sotaque nova-iorquino e quase conseguia perceber porque  que Bill gostava dele. Era nervoso e tenso, mas tambm inteligente, 
rpido e perspicaz; alm de que se preocupava extraordinariamente com as pessoas que o rodeavam e tudo o que lhes acontecia.
- Dormi cerca de vinte horas depois de o ter deixado - explicou. - E nem sequer me dei ao trabalho de tirar a roupa.
- Parecia exausta - sorriu, observando a dor reflectida nos olhos dela.
Aquele regresso tornava-se muito difcil para Paxton, e ele sabia-o. Tambm para ele o era. Para onde quer que fosse, deparava com a memria dos homens que tinha 
amado e perdido. Para ele, existiam fantasmas por todo o lado e igualmente para todos os que ficavam muito tempo no Vietname. Tambm havia boas recordaes, mas 
havia muitas tristes.
- Como esto hoje os legumes por aqui? - sorriu-lhe, desanuviando o ambiente.
Trocaram um olhar significativo de que ambos sentiam a falta de Bill e, pelo espao de um louco momento, invadiu-a o desejo de estender a mo e tocar-lhe.
- Bastante frescos - riu, ficando surpreendido por ela se lembrar dos pormenores da conversa, aps o que o rosto voltou a ensombrar-se. - E os atiradores tambm. 
Terno' de estar atentos a leste. O cenrio est animado. um do, meus rapazes ficou ferido no brao, h umas horas. Nada de grave, felizmente. Mesmo assim, teve muita 
sorte. Mantenham-se bem para trs, quando espreitarem para dentro dos tneis.
Ouvira falar do motivo que os trouxera at ali e o oficial no comando instrura-o para que lhes prestasse o mximo de colaborao. - Terei cuidado, obrigado - retorquiu 
Ralph virando-se irritado para ela.
O calor bulia-lhe com os nervos e no lhe agradava nada saber que os VC estavam to acesos nesse dia. No quisera arrast-la para uma misso difcil. Apenas quisera 
incentiv-la com  uma nova informao.
- Vens comigo, Delta Delta, ou tencionas ficar para a a falar o dia todo?
- J vou.
- Rasteirinha, okay? O Charlie anda por a.
- Assim me disseram. - Olhou para Tony e, depois, afastou-se com Ralph.
Apresentaram-na ao tenente que ocupara o lugar de Bill e sentiu de novo aperto no corao, mas tentou concentrar-se no trabalho. Ralph falou das fotos que queria 
que o fotgrafo fizesse e exps o ngulo da histria a Paxton. Estavam rodeados de homens e as pessoas movimentavam-se rapidamente; algumas dirigiram-se para o meio 
dos arbustos para se entenderem com os VC que sabiam estarem l.
- Era de pensar que quando transformaram o Iron Triangle num parque de estacionamento do outro lado do rio, tudo ficara solucionado, cus! - murmurou Ralph a um 
dos homens, mas ele limitou-se a encolher os ombros. j sabia que no havia forma de os deter.
- No h hiptese de nos livrarmos destes tipos. Podemos queim-los, tir-los c para fora, matar os filhos da me, mas o Charlie continua a aparecer.
-  mesmo - concordou Ralph com um aceno de cabea, e Paxton agachou-se; seguiu Bertie por detrs de alguns arbustos elevados para l da clareira. Ele queria tirar 
algumas fotografias da troca de tiros com o atirador, antes de regressar e investigar o tnel e, por qualquer razo, Paxton seguiu-o, convicta de que se encontrava 
na peugada de uma histria interessante.
. Nessa altura, Ralph estava ocupado com qualquer outra coisa e havia meia dzia de soldados  volta deles e um na frente a tentar ver o que conseguia descobrir. 
E no momento
em que Paxton se ajoelhou no meio dos arbustos, um operador de rdio aproximou-se por detrs dela.
- Est okay?
- Estou ptima.
- Era suposto estar aqui7
- Ignorava que tinham lugares especiais para a imprensa.
No entanto, mal pronunciou as palavras, uma exploso de fogo sibilou prximo. Sem dizerem nada mais, ela e o operador de rdio atiraram-se para o cho, os braos 
dele a cobrirem-na e os capacetes tocando-se, ao mesmo tempo que comiam a poeira onde se deitavam.
- J que pensei nisso - retorquiu ela num sussurro, enquanto esperavam -, talvez devessem ter lugares especiais. Foi por pouco.
Fez-lhe lembrar aquela altura em que Bill a tinha salvo da granada, quase no mesmo lugar. As balas passaram a rasar. Quando voltaram a ajoelhar-se, o operador de 
rdio verificou que Bertie levara um tiro em cheio no corao e jazia ao lado dele.
- Oh, foda-se... - Procurou a pulsao, mas no a encontrou, no momento em que soaram mais tiros e uma dzia de soldados passou junto deles, empunhando as M- 16 
e disparando contra o que pensavam serem mais dois atiradores.
- Ponha-se a andar - gritou o operador de rdio a Paxton. - Volte para trs.
Porm, quando ela se moveu, voltaram a abrir fogo sobre eles de um ngulo diferente, e ele tapou-a com o corpo, ao mesmo tempo que pedia freneticamente ajuda. Havia 
mais do que dois atiradores nas proximidades.
- Me Ganso... Me Ganso... Fala Peter Pan... Responda... Estamos na clareira e esto a alvejar-nos... Tenho uma visita e uma Delta Delta aqui... Afaste-os para 
a poder levar..
- Estamos a ouvi-lo, Peter Pan... Daqui Me Ganso.
Era o operador na base, e preparavam-se para dar instrues a algumas das tropas para que tentassem dispersar os atiradores, mas no era tarefa fcil.
- Restam-nos duas opes - explicou o operador de rdio, quase esmagando Paxton com o peso do corpo. - Podemos desatar a correr por onde viemos ou seguir em frente 
at s rvores, o que  um caminho mais curto.
Era, contudo, onde os atiradores se encontravam e uma alternativa muito mais perigosa para eles, e ignorava o que fazer relativamente a Paxton.
Tratava-se de um jovem mais ou menos da sua idade, do Maine, e a ltima coisa que queria era que a matassem e as culpas recassem sobre ele por ter feito o movimento 
errado, impulsionado pelo momento.
- Voto a favor das rvores - replicou ela calmamente, quando mais disparos explodiram prximo dos seus joelhos. - Na verdade - acrescentou, afastando-se dele e rolando 
no solo -, acho que devamos mover-nos rapidamente.
No prprio momento em que pronunciou as palavras, mergulhou para diante, ele seguiu-a e o lugar em que haviam estado foi atingido por uma granada. Os VC no estavam 
decididamente, a brincar.
Paxton no pensou duas vezes enquanto corria. E, ao aproximarem-se das rvores, mergulhou na sua direco e ficou deitada, ofegante, por terra, enquanto o operador 
de rdio deslizava para o seu lado. Nesse preciso momento, os M-60 abriram fogo e ouviu-se uma tremenda exploso.
- A matana do porco! - explicou o operador de rdio e, depois, voltou a contactar com a base.
- Fala Me Ganso - respondeu a base. - Onde est a sua Delta Delta, com mil raios?
- Comigo - respondeu, dirigindo um sorriso a Paxton, e ela sentiu vontade de rir.
Tudo isto era uma loucura. Os VC estavam a tentar mat-la e os seus continuavam a chamar-lhe uma "boneca donut".
- Alguns ferimentos? - A voz do outro lado parecia preocupada.
- Ela est ptima - informou o operador de rdio, examinando-a o melhor que podia. - Conseguem tirar-nos daqui?
- Estamos a tentar. Eles so mais do que pensvamos. _ Eram sempre, e em Cti Chi no cessavam, aparentemente de se infiltrar. Conheciam demasiado bem o velho sistema 
dos tneis, e a recente descoberta da nova rede provava que estavam sempre a aumentar. Independentemente do que se fazia, dava a sensao de que Charlie se lhes 
adiantava e saa vencedor.
- Devemos ser capazes de os tirar da dentro de minutos, Peter Pan - prosseguiu a voz. - Mantenham-se sentados.
Ouviu-se uma nova vaga de disparos e a "Me Gansos anunciou que um dos atiradores estava ferido e fora capturado. O operador de rdio indicou a Paxton que no sasse 
do seu lugar, enquanto ele ia at  frente ver se podia ajud-los.
- Volto j - anunciou.
No entanto, mal ele se afastou, Paxton ouviu tiros atrs dela e no sabia para onde se dirigir. A nica alternativa parecia ser a de seguir o operador de rdio; 
de sbito, viu-se outra vez no meio do fogo e avistou um jovem estendido ao seu lado. As costas tinham sido abertas, a cabea fora atingida, e Paxton verificou tratar-se 
do jovem do Maine, com o rdio ao lado dele.
Aproximou-se com a certeza de que ele estava morto; porm, ao estender-se junto dele, verificou que ainda respirava. Estava inconsciente e os outros dois rapazes 
ao lado dele tambm e, em seguida, o fogo prosseguiu.
Ouvia, contudo, as granadas, as M-16 e as M-60. E tirou, instintivamente, o rdio das mos do rapaz, fazendo o que o vira fazer para contactar a base.
- Al, Me Ganso - falou prudentemente para o microfone.
- Escuto... Fala Me Ganso... quem ?
- Delta Delta - respondeu, depois de hesitar somente uma fraco de segundo. - O operador de rdio est gravemente ferido. Tenho mais dois rapazes atingidos aqui.
- Onde est? - perguntou Me Ganso, parecendo em pnico.
- No sei bem. Estamos nos arbustos, e o fogo no est muito longe. Pode haver mais do que atiradores. Conseguem tirar-nos daqui?
Expressava-se num tom firme, mas sentia que as mos lhe tremiam. Um dos rapazes mexera-se e emitiu um gemido, e ela continuava a dizer para si prpria que no devia 
entrar em pnico.
_ Estamos a tentar, Delta Delta... Tem foguetes?
Ia a responder negativamente, mas depois lembrou-se de que tinha um na mochila.
- Sim - replicou.
- Quero saber exactamente onde est Delta Delta. Espere um minuto. No faa nada, sem eu lhe dizer.
- E, quando se afastou do rdio, gritou para algum do outro lado da sala:
- Preciso que algum chame o tenente. Tenho uma mulher com trs tipos feridos e no sabemos onde raio se encontram, pois esto, algures, nos arbustos.
O tenente apareceu a correr segundos depois e, uns minutos mais tarde, algum foi buscar Ralph, que regressou  base e se conservou, nervosamente, a escutar o rdio 
com os outros. Continuavam a tentar afastar os atiradores dos arbustos, mas, nessa altura, algum tinha avistado mais vietcongues e era bvio que estavam a braos 
com uma unidade do NVA ( NVA: Exrcito do V'etname do Norte. - N. da T. ), algures no Norte.
- ptimo. Exactamente o que me fazia falta - gemeu o tenente. - Um exrcito regular de Hani e uma jornalista de So Francisco.
Fechou os olhos por minutos enquanto pensava, dando a sensao de que estava a rezar.
- Consegue tir-la de l, Mac? - inquiriu Ralph, aterrorizado.
- Estou a tentar, Ralph, com mil diabos! Ignoro o que temos por l e no sei como raio ela l foi parar. Mas comea a parecer-me o exrcito inteiro do Vietname do 
Norte.
- Mesmo ao p da base? - retorquiu.
- Parecia difcil de acreditar, mas acontecera. Acontecia por todo o lado. Eles surgiam, mesmo quando se estava a dormir. E degolavam ou roubavam armas, ou no o 
faziam. No entanto, a sua presena era constante e, onde estava, Paxton assistia ao desenrolar da aco. Agora, lanavam granadas uns aos outros e as metralhadoras 
M-60 no paravam.
- Daqui Me Ganso - identificou-se o operador de radio da base. - Est a ouvir-me, Delta Delta?
- Perfeitamente, Me Ganso. Pode mandar-me um transporte, por favor?
Ralph abanou a cabea, desejando no lhe ter pedido para que o acompanhasse naquela misso a Cu Chi.
- Mand-lo-emos a qualquer momento. - E no preciso momento em que pronunciou as palavras, o fogo pareceu afastar-se da base para as profundezas dos arbustos. Estavam, 
finalmente, a obter resultados. - Como vo os feridos?
Paxton tinha examinado todos. Um deles estava, agora, consciente e os outros dois continuavam a respirar.
- Estamos bem, mas com dificuldades. Podem apressar-se?
- D-nos mais dois minutos e pomos um Dustoff a caminho. Tem o foguete?
- Sim.
- Indicamos-lhe quando deve lan-lo, Delta Delta.
Nos minutos seguintes, o combate afastou-se e, quase em simultneo, ela ouviu o motor de um helicptero e avistou o Dustoff  distncia.
- Consegue ver o transporte, Delta Delta? - A voz era calma e ela sentiu os olhos cheios de lgrimas ao avist-lo.
Fora rpido, mas muito, muito assustador. E recordava-lhe de que estava de volta ao Vietname. Aqui no era So Francisco ou Savannah. Aqui as pessoas morriam, ou 
voltavam a casa sem braos ou pernas, cegas, surdas, ou desfiguradas. E, pelo espao de um minuto, julgara que iam apanh-la. No tinha, contudo, tempo de pensar 
nisso agora, mas apenas em como meter os jovens feridos no helicptero.
- Estou a ver o transporte, Me Ganso.
- Lance-nos o foguete, Delta Delta.
Ralph sentia o suor a escorrer-lhe pelo rosto, enquanto escutava na sala de controlo. "Por favor, meu Deus. No deixes que esses idiotas a matem ...
E, entre os contactos com ela, o operador de rdio da base falava, alternadamente, com os soldados nos arbustos e a unidade.
- J a vemos, Delta Delta. Eles vo busc-la.
Em seguida, os homens na sala de controlo ficaram a aguardar, enquanto Paxton se conservava onde estava e o helicptero baixava, at ao ponto exacto em que Bertie 
fora morto. Observou-os a colocarem o corpo no helicptero e, depois, dois homens com uma maca corrram at s rvores, onde ela se encontrava com os trs feridos.
- Est bem?
Fitaram-na quando ela esboou um aceno afirmativo, puseram rapidamente o primeiro homem na maca, voltaram a buscar os outros dois e, em seguida, fizeram-lhe sinal.
- Venha, depressa... - ordenaram.
- Paxton correu pelo meio da enorme nuvem de poeira que eles tinham levantado, pelo meio do vento erguido pelas ps do helicptero e, sem pronunciarem palavra iaram-na 
para o helicptero, que levantou voo e percorreu a curta distncia at  159 Unidade na base, onde tinham uma srie de enfermeiras e homens da corporao a espera.
- Daqui Me Ganso... Fale Dois Um Alfa Bravo. Tm-na a?
- Sim - respondeu o piloto calmamente. - Parece bem. E a por baixo?
- At aqui tudo em ordem.
- Vamos descer, Me Ganso.
Paxton ainda no largara o rdio quando pousaram, e tremia dos ps  cabea. O rdio ainda conservava o sangue do operador de rdio, mas ele estava entregue aos 
cuidados dos mdicos. A jovem deixou que se encarregassem primeiro dos feridos, depois voltou a agradecer ao piloto e saiu, desajeitadamente, do helicptero.
Quase no mesmo momento, sentiu-se agarrada e revolutiada com tanta fora que o capacete lhe caiu da cabea, ao mesmo tempo que o cabelo louro girava  sua volta.
- Que porra estava a fazer ali? - De incio, nem compreendeu de quem se tratava. Ele abanava-a como a uma criana e, por momentos, julgou que fosse bater-lhe. - 
No sabe que podia ter sido morta? Por que raio foi para ali? Toda a porra da rea  restrita!
- Eu.. - E, depois, avistou-o e aos olhos negros chispando de medo. Era Tony Campobello.
- No obedece s regras? Ou acha-se importante de mais? Podia ter sido morta e arrastado todos consigo!
No entanto, ela sentiu-se repentinamente incapaz de aguentar mais, e no ia tolerar aquele comportamento dele. j passara por isto antes e no permitiria que ele 
a fizesse sentir-se uma vez mais culpada. Desta vez, no tivera culpa, nem to pouco quando Bill morrera.
- No me venha com essas merdas! - retorquiu, tambm a gritar e com os olhos verdes to fulminantes como as M-16. - No fiz nada! Ningum ficou ferido por minha 
causa! Tem todo o maldito NVA ali mister! E se os seus homens no conseguem mant-los afastados da base, no grite comigo! S me afastei trs metros de onde supostamente 
deveria estar e comearam a alvejar-me!
- E que raio esperava? Senhoras a servirem ch? Estamos numa zona de guerra! - exclamou.
Os dois mantinham-se a gritar um com o outro, os feridos h muito que tinham sido levados e o helicptero voltara a levantar voo. Continuavam a gritar, e os homens 
que os rodeavam presumiam tratar-se de um desentendimento pessoal e, portanto, no interferiram. E era. Datava de h muito tempo atrs.
Todavia, enquanto gritava com ele, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Eram lgrimas de raiva e de frustrao.
- No grite comigo! - enraiveceu-se. - No tive culpa de que esses rapazes tivessem sido feridos.
- No, mas podia ter tido! - retorquiu, ao mesmo tempo que Ralph e o tenente se aproximavam num jipe e se detinham a v-los gritar e de punhos erguidos.
Ralph emitiu um grunhido furioso.
Tony recuou ante a chegada do tenente e Ralph fitou-o com uma raiva no dissimulada.
- Voltou ao ataque? - replicou.
Tony no tinha, contudo, medo de enfrentar Ralph.
- Ela podia ter ido pelos ares! - redarguiu,  guisa de explicao.
Graas a Deus que tal no aconteceu! - exclamou o tenente. - Era mais velho do que Bill e parecia abalado pelos eventos da manh. - Talvez me tivesse precipitado 
quando convidei a imprensa a observar aquele tnel!
O reprter fotogrfico deles morrera, Paxton, poderia ter tido igual destino e Ralph tinha uma expresso sombria ao contemplar o que acontecera.
- Talvez precisemos de ser um pouco mais cuidadosos - redarguiu Ralph, fitando-a com uma expresso significativa.
- O que  que te levou a avanar at ali cus?
- No sei. O Bertie disse que queria fazer umas fotos rpidas e quis ver o trabalho dele. Acho que muito simplesmente o segui, quando algum abriu fogo contra mim.
- Se no tivesse levado o rdio, jovem senhora, ainda estaria l - observou o tenente num tom respeitoso. - Manteve o sangue-frio e provavelmente salvou a vida desses 
rapazes. - Paxton fitou Tony irritada, ainda a deitar fumo por todos os poros.
- O sargento acha que tentei mat-los - retorquiu.
O tenente sorriu ante as palavras dela. Campobello era um dos seus melhores homens, embora temperamental.
No foi isso o que disse - rosnou. - Disse que quase perdeu a vida. - ... E ele acusara-a de matar Bill... Mas isso fora numa outra altura, era uma outra histria.
- Assim j  mais verdade - comentou Ralph.
Enquanto Tony e Paxton se metiam no jipe com eles, ainda a fulminarem-se com os olhos, Ralph falava ao tenente na possibilidade de levar o corpo de Bertie para Saigo. 
Todos tinham gostado de trabalhar com ele e o seu desaparecimento era uma enorme perda. Outro homem que partira. Outra morte. Era algo difcil de encarar.
- Gostaria de agradecer ao seu operador de rdio da base - declarou Paxton num tom calmo, antes de partirem. E o tenente procedeu s apresentaes. E, ao conhec-lo, 
os olhos da jovem encheram-se, repentinamente, de lgrimas.
- S queria agradecer-lhe... - Ignorava o que acrescentar. Ele salvara-lhe a vida com as transmisses e um comportamento racional.
- Disponha sempre, Delta Delta - retorquiu, num tom arrastado. Tambm era do Sul, mas ela no perguntou de onde. - Lamento t-la metido numa embrulhada.
- Tirou-me dela, o que  mais importante.
Nessa altura, j sabia que os outros jovens estavam bem, Apenas o seu amigo Bertie no estava. E Ralph mostrou-se muito transtornado no caminho de volta a Saigo.
No tinham voltado a ver Tony antes de partirem, mas Ralph continuava furioso com ele e libertou-se de alguma frustrao, gritando com Paxton. Fora um dia duro para 
todos eles, um dia terrvel numa guerra terrvel e nem sequer tinham conseguido a reportagem de que vinham  procura.
Ralph declarou que voltariam noutro dia, mas, por agora, tinha de voltar a Saigo, comunicar o acorrido  AP e tomar algumas disposies.
- O que se passa, afinal? De cada vez que vos vejo juntos, esto a gritar um com o outro, como dois lunticos.
Sentia-se aborrecido com ela, ou, pelo menos, parecia. Mas, na verdade, apanhara um susto de morte e agora sentia-se to aliviado por ela estar bem que a espicaava.
- Ele acusou-me de tentar matar aqueles tipos com o meu descuido.
- Descuidaste-te contigo, o que  pior. Ests aqui para escrever sobre esta guerra e no para seres morta e provar a tua tese. E ignoro qual  o problema dele, mas 
acho que no regula bem.
- E no - confirmou com um olhar rancoroso.
Estava novamente coberta de sujidade e do sangue do operador de rdio. Recordou-se de outras misses em que participara e do motivo por que regressara a Saigo. 
No estava aqui por gostar, mas por saber que era essa a sua obrigao.
Mas uma obrigao para quem? Consigo prpria? Para com o seu pas? O jornal? Ralph? Ou Peter? Ou Bill? Era uma pergunta interessante.
No caminho de regresso a Saigo, no voltaram a pronunciar uma palavra. Fora um dia terrvel para ambos. E at mesmo para Tony, que tinha ido dar um longo passeio, 
espumando e tentando compreender exactamente o que sentia por Paxton.



CAPTULO 21

Ralph continuava irritado com ela quando a viu na redaco da AP no dia seguinte, mas Paxton levou-o a almoar e, depois de umas bebidas, descontraiu-se.
- Idiota! julguei que era o fim, quando estavas deitada nos arbustos com aqueles rapazes. Imaginei que te apanharia a seguir. j estava a imaginar a histria.
- Tambm eu julguei - confessou, bebendo um caf suave. Era um caf forte, suavizado com leite condensado de lata e, h um ano, detestara. Agora, achava-o ptimo.
- Tiveste medo? - sussurrou, e ela sorriu.
- Depois, sim. Na altura, no tenho a certeza... Durante um minuto, comecei a entrar em pnico, interrogando-me sobre o que seria de mim, se me agarrassem e no 
me matassem. Isso ainda me assustava mais.
J acontecera, por mais de uma vez, jornalistas terem sido presos, mas habitualmente libertavam-nos. Os vietnamitas do Norte davam-lhes alguma propaganda sobre a 
qual podiam escrever, mas havia sempre a possibilidade de, na prxima vez, no serem to amistosos. E as histrias de tortura e espancamentos nas mos dos vietnamitas 
eram lendrias.
- Na altura, s conseguia pensar na forma de tirar dali aqueles rapazes, antes que morressem.
- Pobre Bertie! - comentou Ralph, pensando no amigo.
- Era casado? - perguntou Paxton, que no o conhecia to bem, embora sempre tivesse gostado dele.
- No. Tinha uma namorada aqui. Uma rapariga de Cholon, julgo. Acho que no tinha mais ningum. Nem mulher, nem filhos. Telefonei para a embaixada a avisar. Vo 
mandar o corpo, amanh, para Londres.
Paxton esboou um aceno de cabea, pensando na altura em que Bill fora mandado para Debbie. Em seguida, Ralph fitou-a e, por momentos, pareceu muito cansado.
- No te sentes farta de tudo isto? - indagou. - De todas estas mortes, quero dizer. Por vezes, interrogo-me como seria viver num lugar em que as pessoas apenas 
morrem de coisas como cancro ou quedas a praticar esqui.
A jovem sorriu, sabendo ao que ele se referia, embora se tivesse mantido afastada por uns tempos. No entanto, continuava a ser difcil e a causar mgoa. E, contudo, 
nenhum deles parecia capaz de abandonar o local. Sentiam-se incapazes de regressar a casa, deixando as coisas por resolver. Fora o que lhe acontecera, quando voltara. 
Parecia-lhe to errado estar, de novo, em casa, pois, no ntimo, sabia que tudo continuava.
- Claro que me farto. Acontece a todos ns.
- H momentos em que me sinto preocupado... - comentou ele honestamente. Depois da terceira bebida, ficara toldado, o que era raro. No o via embriagado muitas vezes. 
- Estou a pensar que a France vai ter o beb aqui.  um raio de stio para se criar uma criana.
- Podias regressar a casa com eles - sugeriu Paxton num sussurro, mas interrogando-se sobre se ele seria capaz.
Talvez Ralph j tivesse passado ali tempo de mais para poder voltar a sentir-se bem noutro lado. Havia jornalistas assim, que tinham vivido em lugares como a Turquia, 
Arglia e Vietname durante tanto tempo, que seriam incapazes de regressar a Nova Iorque, Chicago e Londres. Por vezes, questionava-se sobre se ele era um deles, 
ou se ela o era.
- Ela recusa-se a voltar comigo. Quer ficar aqui. Sabe como era tudo quando estava casada com o pai do An. O exrcito tratava-a como a um pedao de merda, a famlia 
dele odiava-a. Acha que, se regressar aos Estados Unidos comigo, as pessoas vo apedrej-la na rua e... sabes que mais, Pax? Talvez tenha razo.
- No estou muito certo de que deva arranc-la e estas paragens - prosseguiu. - E este  um lugar triste para se crescer. Se estivssemos nos Estados Unidos, poderia 
fazer muito pelo An. Mas aqui, j fico contente se conseguir mant-lo a salvo, decentemente alimentado e sem problemas.
An era ainda muito pequeno, mas Paxton sabia que havia crianas de cinco anos a venderem herona na rua. Embora An estivesse longe disso, France cuidava muito bem 
do filho e mantinha-o em casa, com ela. Frequentava uma creche francesa catlica, que anteriormente tinha sido muito selectiva, e a me era, em todos os aspectos, 
uma dama. Viviam, porm, num mundo moribundo e era a esse mundo que iam trazer um filho.
- A propsito, como  que ela est? - interessou-se Paxton.
- Gorda - riu. - Est gira.
E Ralph sentia-se excitado com o beb. Nunca tinha sido pai e ia s-lo aos trinta e nove anos; apesar da indiferena que tentava mostrar frente aos amigos, estava 
muito entusiasmado.
Depois, ele regressou  redaco e Paxton foi dar umas braadas  piscina do Hotel Catinat, na Nguyen Hue, voltando ao Caravelle para escrever a sua histria.
Ainda no tinha organizado ideias depois do que acontecera em Cu Chi no dia anterior e ia muito distrada quando atravessou o trio do hotel. Deu um salto quando 
algum lhe tocou no brao e, ao erguer os olhos, surpreendida, deu de caras com Tony.
- Eu... - No sabia o que lhe dizer e questionou-se sobre se ele comearia novamente a gritar com ela, o que parecia ser o seu estilo de conversa favorito. - O que 
o traz aqui?
Desta vez, ao fit-la, ele ficou corado at s orelhas. Era mais fcil lidar com ela quando estava de camisola interior, botas de combate e farda e tinha o bonito 
cabelo louro oculto sob o capacete. No entanto, ali parecia muito bonita e muito feminina e ele sentia-se idiota ao olh-la, arrependido de ter vindo, mas sabia 
que tinha de o fazer.
- Devo-lhe, novamente, desculpas - Os olhos castanho-escuros fixaram os verdes dela e, por momentos, quase pareceu juvenil. - Ontem, no devia ter gritado consigo. 
Eu... eu senti-me cheio de medo por sua causa, depois aliviado ao ver que estava bem e... foi difcil voltar a v-la ali. Trouxe-me recordaes.
Enquanto pronunciava as palavras, tinha os olhos hmidos. Continuava a sentir a falta de Bill Quinn, mais do que a de muitos outros homens, mas tinha a certeza de 
que era esse o caso dela tambm. E no era pessoa para dissimular emoes.
- Tambm deve ter sido difcil para si - rematou.
Paxton esboou um aceno de, concordncia, comovida pela franqueza do que ele dissera., Tornava-se, assim mais fcil para ela falar-lhe.
- No me apercebera de que era esse o nosso destino. Limitei-me a aceitar fazer a viagem e a cobertura e, subitamente, estvamos l e eu apenas conseguia pensar...
Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, abanou a cabea e desviou o rosto.
- Talvez h muito tempo, tivesse tido razo - prosseguiu. - Talvez, quando se tem a cabea demasiado ocupada por algum, se fique magoado ou se magoe os outros...
- Nunca lho devia ter dito. No foi por isso que ele morreu, embora eu tivesse querido culp-la. Queria culp-la, pois estava farto de culpar o Charlie. O Charlie 
matou homens to fantsticos que conheci. E voltou a faz-lo. A culpa foi igualmente do Bill - suspirou. - Nunca devia ter descido quele tnel e sabia-o. Era, contudo, 
uma daquelas pessoas que assume sempre a responsabilidade. Tinha sempre de ser ele e nunca outro e, de todas as outras vezes, sempre teve sorte.
"E, ontem, voc avanou para o perigo - acrescentou. - Tnhamos uma unidade inteira de vietcongues sentados na traseira da base e voc avanou simplesmente. Samo-nos 
bastante bem, dadas as circunstncias. Mas, por momentos, pensei que iam apanh-la e s a ideia ps-me louco.
- Obrigada - agradeceu Paxton com um sorriso. - Por se ter preocupado. - Era fcil no se preocupar. Assistia-se a tantas mortes que deixava de se sentir o que quer 
que fosse por algum. Porque, caso contrrio, morria-se. - Tambm me senti muito assustada no regresso a casa. Quando estava l com aqueles indivduos, nem tempo 
tive para pensar antes de nos virem buscar.
- Foi  tabela - confessou-lhe Tony. Ele e o tenente tinham trocado impresses depois, e o caso podia ter ficado feio. - Tudo podia ter-se decidido para qualquer 
dos lados. - Ainda se sentia mal s com a ideia.
- Tive sorte. Na verdade, ia agora subir ao meu quarto para escrever a reportagem.
- Oh! - exclamou, parecendo desapontado. - Tive de ir buscar uns documentos a MacVee e pensei que talvez... Isto ... no sei... Aceita ir tomar um caf a qualquer 
lado?
Paxton hesitou um minuto sem saber muito bem o que ele queria dela, mas a reportagem podia esperar, e ambos haviam ficado bastante abalados pelo que acontecera. 
Talvez no fosse m ideia ir tomar um caf e fazer as pazes com ele. Apesar do mau feitio aparente, suspeitava que ele era inofensivo.
- Claro. Posso escrever a reportagem mais tarde.
Seguiu-o, e percorreram uma curta distncia at uma esplanada na Tu Do.. Sentaram-se na frente, a fim de observarem o caos, o trnsito e a vida da rua.
- O Ralph afirma que passamos todo o tempo a gritar um com o outro - comentou ela com um sorriso, enquanto bebia o thom xay, e ele riu.
-  verdade, no? - retorquiu, depois, brincalho. Acho que a culpa  minha.
- Pode diz-lo - concordou Paxton. no mesmo tom, e ele descontraiu-se.
- No posso evit-lo. Tenho um temperamento muito italiano.
- Oh, as coisas so como so - retorquiu, sem deixar de rir. - O Ralph acha que  por sermos os dois loucos.
Tambm  possvel. - Ele esboou um sorriso, e Paxton reparou que ele tinha uma expresso agradvel quando se descontraa. - Fica-se assim por estas bandas,
- Isso  um diagnstico ou um aviso?
- Talvez as duas coisas.
Curiosamente, era fcil estar com ele, apesar de toda a angstia por que tinham passado e da dor que ele lhe causara.
-  casado? - inquiriu ela num tom coloquial. Tinha, sem dvida, idade bastante para o ser.  luz do Sol, ela adivinhou-lhe a idade exacta. Tinha exactamente mais 
sete anos do que ela, ou seja trinta.
- No - respondeu, abanando a cabea. - j fui. Divorciei-me, antes de vir para c. Na verdade... - Suspirou e decidiu ser honesto com ela. - Foi mais por isso que 
vim.
A minha mulher e eu casmo-nos quando tnhamos dezoito anos. ramos os dois namorados do liceu. Tivemos uma menina praticamente a seguir. Mais ou menos um ano depois, 
quero dizer. No foi o que nos levou a casar - apressou-se a explicar.
"E ela morreu de leucemia - prosseguiu. - Quase morremos de desgosto. Ela tinha dois anos. Como era possvel que morresse? Como podia Deus fazer-nos tal coisa? - 
Desviou o rosto invadido por aquela recordao dolorosa.
"Em seguida, tivemos um menino - replicou, erguendo os olhos muito brilhantes. -  um mido incrvel. O Joey. Joe. Demos-lhe este nome por causa do meu pai. E o 
curioso  que se parece com ele.
Estava a um milho de quilmetros enquanto falava do filho, e Paxton sentia-se emocionada ante aquelas palavras.
- De qualquer maneira, quando ele tinha dois anos - prosseguiu com uma expresso sombria -, a Barbara, ou seja, a minha mulher, disse-me que queria o divrcio. Isso 
mesmo. Depois de sete anos de casamento, cinco de vivncia anterior, uma filha morta e o pequeno Joey com dois anos, tudo acabava e queria ir embora. Quase morri.
Fitava Paxton com honestidade, quando rematou:
- No sabia se queria mat-la ou matar-me.
- O que aconteceu? Porqu? Ela estava farta?
- No - respondeu, olhando-a amargamente. - Ou talvez a resposta certa seja que sim, estava farta de mim. De qualquer forma, tinha-se apaixonado pelo meu irmo. 
Ele  dois anos mais velho do que eu e sempre foi a estrela da famlia. Tommy, o Maravilhoso, Tommy o Fantstico. O Tommy, que era o melhor nos estudos. Eu dei cabo 
do canastro a trabalhar com o meu pai e salvei-lhe o negcio. O Tommy tornou-se contabilista, foi trabalhar para a cidade e depois frequentou a faculdade de Direito. 
Agora,  advogado.
"Seja l como for - continuou - ela deixou-me, casou com ele e decidi mandar tudo isso para o diabo. o Joey achava-o o mximo e como  que se explica a uma criana 
que o tio passou a ser o pai, e a me  uma pessoa desonesta? E os meus pais pediram-me que no fizesse muito alarido, pois destruiria a famlia - rematou com um 
gesto indefeso, muito ao jeito do seu temperamento italiano.
- Portanto, vim para c. E ainda no voltei a casa.  esta a histria.
Deixou-se ficar a observar o trnsito durante um minuto, enquanto ela absorvia o relato.
- E nunca mais esteve com o Joey? - quis saber, surpreendida com o que ele lhe contara.
- No - respondeu Tony, abanando a cabea e fitando-a. - O que posso dizer-lhe? Que odeio a me?
- E odeia? - perguntou-lhe sem rodeios.
- Dantes, sim. Agora, deixei de saber o que sinto.
 noite, costumava ficar deitado, com tanta raiva que me apetecia mat-la. Em vez disso, saa e matava o Charlie. Mas a verdade  que... ignoro se continuo a estar 
furioso. Talvez ela tivesse agido da melhor maneira. Tiveram mais trs filhos,  feliz, o Tommy ama-a, o Joey parece ptimo nas fotografias e  doido por ele. Portanto, 
quem pode afirmar que erraram? E, na verdade, quase nem consigo lembrar-me das feies dela.
- O dio  algo bizarro - observou Paxton num tom calmo. - Ficamos to ocupados a odiar que, por vezes, nos esquecemos de como tudo comeou. - Tinha acontecido no 
Vietname, noutros lugares, noutras vidas.
-  uma mulher interessante - redarguiu ele, tranquilamente. - Foi o que me impressionou, depois de ter partido. A Barbara nunca teria feito o que voc fez pelo 
Bill, tendo recolhido as cartas e o resto para que no chegassem  mulher. Ela confrontou-me com o facto de andar a dormir com o meu irmo. Mas voc percorreu todo 
aquele caminho para ir buscar as cartas que lhe escrevera para que a mulher nunca viesse a saber e no a magoasse. E nem sequer a conhecia.
- Fi-lo por ele. - "Mas por elas, tambm. " Fizera-o pelas filhas.
- Amava-o muito, no  verdade? - perguntou Tony, incapaz de se conter.
- Muito - confirmou com um aceno de cabea, aps o que se sentiu impelida a saber: - Porque me odiava tanto? Quero dizer, no comeo.
Tony respirou fundo e tentou explicar, tanto para si prprio como para ela.
- No sei... Penso que talvez tivesse medo de si. Que o distrasse e o tornasse desatento. Vi acontecer o mesmo a outros indivduos, que morreram, por estarem a 
olhar embasbacados para a fotografia de qualquer mida, quando pisaram uma mina e os miolos lhes estoiraram.
"Mas, para dizer a verdade, ele no era assim - pronunciou, meditativo. - No sei, talvez muito simplesmente me aborrecesse... Quem sabe? - Voltou a parecer muito 
italiano. - Talvez tivesse cimes. A vida  por vezes, muito mais simples aqui, sem mulheres. - Era verdade. Talvez tambm para as mulheres fosse, por vezes, mais 
fcil sem homens. Por outro lado, havia alturas em que era melhor com eles.
- Ele tinha-o num elevado conceito - garantiu a Tony, como um ltimo presente de Bill.
- E ele amava-a muito - retorquiu Tony, tranquilamente. - Lia-lhe no rosto, sempre que falava de si. Acha que ele teria acabado por deixar a mulher? - perguntou, 
novamente incapaz de se dominar. Interrogara-se depois sobre a questo, e Paxton tambm o fizera.
- Provavelmente, no - redarguiu ela com honestidade, agitando a bebida. - No me parece que desejasse, realmente, abandonar as filhas.  fcil amar algum no calor 
do momento. Aqui,  mais fcil para todos. Ignora-se se se estar vivo na semana seguinte. So inteis as preocupaes sobre se o casamento funcionar, se se gosta 
do emprego ou onde se quer viver. Apenas h que ficar vivo o tempo bastante para passar um fim-de-semana em Viing Tau. Em alguns aspectos,  muito simples.
Havia muito de verdade nas palavras dela, e Tony sabia-o.
- Quanto tempo vai estar aqui, desta vez? - perguntou, curioso acerca dela.
Quanto mais sabia a seu respeito, mais gostava dela, embora, por vezes, o pusesse fora de si. Enlouquecia-o com a sua independncia, a coragem, a recusa de obedecer 
ao que lhe diziam e, contudo, ao mesmo tempo tocava-lhe o corao com a sua decncia, generosidade, calor, honestidade e bondade.
- Tenciono ficar at conseguir - sorriu. - E enquanto continuarem a publicar os meus artigos.
- Consta-me que tm qualidade.
- No sei - comentou, encolhendo os ombros. - Adoro escrever.
Eu nem mesmo cartas gosto de escrever - riu. - Escrevo ao Joey, sempre que posso. Mas  difcil. H tanto tempo que no o vejo.
- No acha que devia voltar um destes dias para o ver?
- Talvez - concordou. Mas a verdade  que isso o assustava. - E talvez o melhor seja deix-lo em paz. O que tenho para lhe dar, agora? O Tommy est a portar-se lindamente. 
E, como o Joey tem o mesmo apelido, todos acham que ele  filho do Tommy. Para que precisa de mim?
- Continua a ser o verdadeiro pai. Como  que ele o trata quando lhe escreve?
- Paizinho - respondeu Tony com a voz embargada. E acrescentou, depois de uma longa pausa: - Talvez v v-lo depois desta misso.
Paxton esboou um aceno de concordncia.
- E o que aconteceu ao negcio de famlia? Os legumes? - interessou-se com um sorriso, a que ele correspondeu.
- O meu pai morreu no ano passado e a minha me vendeu o negcio. Fez bem. E o Tommy tambm a toma a seu cuidado. Ela dividiu o dinheiro entre mim e o Tommy. Quando 
me for embora daqui, poderei fazer algo com ele... No entanto, ainda no me debrucei sobre o assunto - prosseguiu. - Costumava pensar que iria para a Califrnia 
e compraria uma herdade... ou talvez para o vale Napa e compraria uma vinha. Algo no gnero. Gosto de trabalhar com a terra... - Os olhos brilhavam-lhe com a perspectiva. 
-.. . .  a nica coisa que, de facto, gosto no Vietname... Esta rica terra vermelha... e este verde exuberante.
Sorriu para Paxton, sentindo-se um tanto idiota.
- Acho que, no ntimo, continuo a ser um fazendeiro. Talvez o Joey gostasse de me visitar se um dia comprasse um lugar desses - rematou.
- Tenho a certeza de que o faria - anuiu.
E algo nele dizia-lhe que era possvel. No ntimo, era um homem simples, com ideais simples e valores decentes. Mas tambm era inteligente. Se o no fosse, jamais 
teria escapado aos VC nos tneis de Cti Chi. Interrogava-se, porm, sobre o que faria da sua vida quando regressasse aos Estados Unidos. Era bvio que para ele no 
seria simples. E a histria sobre Joey era muito comovente.
- Alguma vez foi casada, Paxton? - inquiriu.
Sentia-se curioso a respeito dela e acabara de contar-lhe toda a histria da sua vida.
- No, nunca.
- Que idade tem?
- Vinte e trs. Vim para aqui logo depois da universidade.
- Porqu?
Paxton falou-lhe, ento, sobre Peter, Gabby, a sua me e George. E de como se sentira distanciada de todos, quando regressara, aps a morte de Bill.
- Ignoro o que faria nos Estados Unidos. E a nica coisa que sei  que ainda no posso voltar.
- Tenha cuidado - avisou-a, enquanto se recostava na cadeira e inalava os vapores de Saigo. - Este lugar provoca habituao. Tal como os militares que aqui v dependentes 
da droga - e havia muitos nessa poca -, h pessoas como ns dependentes de uma maneira muito prpria e nada consegue desintoxicar-nos.
A jovem sabia exactamente o que ele pretendia dizer, mas at esse momento no tinha soluo.
- Acho que temos de permanecer aqui, at o lugar haver abandonado o nosso sistema - replicou, pensando igualmente em Ralph.
- Sim. Ou matar-nos - ripostou Tony, com um aceno de cabea. - Tambm existe essa hiptese e esteve bastante prxima disso, hoje. - E a eventualidade no lhe agradava-
- E voc no? Deve ter estado prximo milhares de vezes. Comeo a pensar que apenas a sorte tem uma palavra a dizer. - Ambos sabiam que era uma verdade. Quantos 
rapazes encontravam a morte um dia antes daquele em que deveriam regressar a casa? Imensos. Acontecia.
- Talvez eu seja um homem de sorte - replicou, encolhendo os ombros. - Pelo menos, at agora. No costumava ter essa opinio, antes de vir para c. - Referia-se, 
novamente,  mulher e, em seguida, tirou uma fotografia da carteira e mostrou um retrato de Joey a Paxton. - Aqui tinha seis anos, mas agora j fez sete.
- Parece-se consigo - sorriu a jovem, ao examinar a fotografia.
- Pobre mido! - riu Tony.
Tambm tinha uma fotografia de Barbara na carteira, mas agora era raro olh-la. E tinham existido outras mulheres desde ento. Enfermeiras. Wacs. Algumas raparigas 
de localidades prximo de Cu Chi.
H dois anos, fora a vez de uma bonita rapariga, quando haviam revistado Ben Stic. Mas nunca se interessara muito por elas. Nunca vivera uma experincia como ela 
tivera com Bill ou Peter. Pelo menos, desde Barbara. E, agora, mal conseguia lembrar-se da emoo. Apenas conhecia o que detectara nos olhos de Bill, uma espcie 
de brilho e paz que, h anos, nada significavam para Tony.
Percorreram, em silncio, o caminho que os separava do hotel na Tu Do, escutando os gritos, as buzinas, os riquexs que passavam velozmente, as bicicletas com as 
campainhas, os guinchos e berros que eram, afinal, a essncia de Saigo. Quando chegaram aos degraus do Caravelle, Tony virou-se e examinou-a com uma expresso grave.
- Obrigado por ter passado esta tarde comigo, Paxton. Sinto-me surpreendido, pois comportei-me como um idiota sempre que a vi.
Ela riu ante a sua honestidade e abanou a cabea.
- No seja idiota agora... - replicou.
Tony desejava dizer-lhe como ela era bonita, na eventualidade de nunca mais a ver, mas no o fez. Havia algo mais que desejava dizer-lhe em vez disso e, ao formular 
a pergunta, sentiu-se estranhamente nervoso.
- No quer jantar um dia destes?
Paxton pareceu sobressaltada pelo espao de um minuto e, depois, esboou um aceno de cabea. No compreendia bem o que se passava, mas sentia que ele necessitava 
fortemente de um amigo.
- Claro. Gostaria muito.
- Telefono-lhe um dia destes.
- Obrigada, Tony.
Apertou-lhe a mo e subiu ao quarto para escrever a histria do que acontecera no dia anterior. Mas, depois de a escrever, sentou-se durante muito tempo, de olhar 
perdido no vazio, pensando no rapazinho, cujo pai o deixara h cinco anos para vir para o Vietname. Ignorava porqu, mas, mesmo sem o conhecer, o corao voou-lhe 
at Joey.


CAPTULO 22

Tony telefonou-lhe na semana seguinte, quando voltou a Saigo e ela tinha sado em reportagem com Ralph e alguns outros indivduos. Mas, quando regressou, telefonou-lhe 
para o nmero que ele tinha deixado. Estava na casa de uns amigos na base de Tan Son Nhut e perguntou-lhe se ela queria ir jantar e, depois, talvez ver um filme 
na base. Paxton achou que poderia ser divertido. H sculos que no via um filme.
Foi busc-la s sete da tarde, e ela apenas tivera tempo de tomar um duche, lavar o cabelo e trocar de roupa quando ele tocou  porta. Em seguida, foram jantar ao 
rs-do-cho do Edifcio den.
Era um bom restaurante francs, frequentado por muitos militares e ningum lhes prestou ateno, enquanto conversavam, riam e trocavam piadas. Agora que se conheciam 
melhor, o jantar processou-se num ambiente descontrado. Ele tinha sentido de humor e, durante a maior parte do tempo, a perspectiva que lhe deu do exrcito levou-a 
a uma atitude de perplexidade.
- Mas porque  que continua a voltar a alistar-se, com mil diabos? - admirou-se.
- No tenho mais nada que fazer. Andei dois anos  noite na universidade. Falo um espanhol fluente. Costumava mudar fraldas bastante bem. - Ele tratara, brilhantemente, 
uma criana moribunda. - Tenho, segundo parece, fortes qualidades de liderana e h quatro anos e meio que sou um rato de tnel. Onde  que isso me leva? Um emprego 
nos esgotos de Nova Iorque? Que mais posso fazer?
- E a sua herdade ou vinha no vale Napa?
- Ainda tenho muito tempo. Alm de que - confessou - detesto abandonar algo a meio. - No entanto, abandonara o filho. Mas, nessa altura, tinha vinte e cinco anos 
e sentia-se completamente indefeso. ~ E voc? - interessou-se. - O que quer ser quando for grande?
- A Dorothy de O Feiticeiro de Oz - respondeu, sem hesitar. - Tenho um fraco por sapatos vermelhos.
- Agora, sei porque gosto de si - replicou com um esboo de sorriso. -  louca! - exclamou, compondo de imediato uma expresso sria. - Quer continuar a trabalhar 
para um jornal, quando voltar?
- Acho que sim. Sempre quis ser jornalista e, de facto, agrada-me.
- Tem sorte. Tambm  uma forma agradvel de ganhar a vida. - Em seguida, ambos se recordaram, subitamente, do que estivera prestes a acontecer-lhe em Cu Chi e soltaram 
uma gargalhada. - No, acho que retiro o que disse. A propsito, com que  que andou ocupada esta semana?
Quando Paxton lhe contou, sentiu-se impressionado com as reportagens que ela cobrira. No tinha medo de se sujar, ser alvejada ou enfrentar o lado horrvel da guerra 
e, embora se assustasse por ela, tambm a respeitava por isso.
Por fim, resolveram esquecer o cinema. Foram, em vez disse, at ao bar do hotel dela e conversaram, horas a fio, sobre eles prprios, o Vietname, Bill, a famlia 
de Tony, a dela, e mesmo Queenie.
- Sinto como se a tivesse conhecido toda a minha vida - declarou ele, num tom admirativo, quando a deixou nessa noite.
Ela irradiava tanto calor e simpatia que se tornava fcil falar-lhe e conhec-la.
- Tambm eu - confessou. - No costumo reagir assim.
No entanto, fizera-lhes bem. Paxton fora ao ponto de lhe confessar a falta de -vontade que tinha com a me. S daquela vez, aps a morte de Peter, existira algo 
de diferente entre elas. No entanto, ao regressar, depois de ter estado no Vietname a me parecera incapaz de restabelecer o contacto. Eram demasiado diferentes 
uma da outra.
- No tinha uma amiga assim desde mido - riu, com  uma expresso feliz. - O tipo de pessoa com quem pode falar-se de tudo. - Fora assim com Barbara, quando eram 
midos. Mas muita gua havia corrido desde essa altura.
- Quando tenciona voltar a Saigo? - inquiriu ela, quando ainda estavam no trio e passava das duas horas, muito depois do recolher obrigatrio.
- Ainda no sei. Telefono-lhe. - Pareceu hesitar e, em seguida, estendeu o brao e tocou-lhe no ombro.
O telefonema chegou dois dias depois. Trocara de turno com algum e voltou a propor o cinema e, desta vez, quase chegaram  base de Tan Son Nhut. Todavia, algum 
fizera explodir um carro na estrada, havia um engarrafamento enorme e, por fim, deram meia volta e regressaram a Saigo.
- O que quer fazer, ento? Radio City Music Hall? Um belo espectculo da Broadway? Um hamburger e um batido no Schrafft's?
- Cale-se! - lamuriou. - Faz-me sentir saudades de casa.
Quer ir danar ao Pink Nightclub?
Vamos antes para o seu apartamento e ficamos a ver televiso e a comer pipocas - retorquiu, trocista e, desta vez, foi ele a lamentar-se.
- Que se lixe! Regressemos ao seu hotel para dar uns dedos de conversa.
Assim fizeram e, desta vez, quando a deixou no trio, puxou-a para um canto escuro e beijou-a. Percorreu-lhe o cabelo com as mos, acariciou a pele acetinada dos 
ombros e quase soltou um gemido, pois doa-lhe pensar nela.
- Isto est a tornar-se difcil! - exclamou com a voz dos Munclikins do Feiticeiro de Oz, ajeitando as calas e forando-a a rir.
- s impossvel - retorquiu, voltando a beij-lo.
- Sou perfeitamente possvel, garanto-te - contraps. - Queres experimentar? - sussurrou-lhe junto ao pescoo e ela soltou uma risada.
- No  suposto fazeres-me rir num momento destes - murmurou, e ele beijou-a sofregamente nos lbios.
- Desculpa... - E, depois, surgido, do nada: - Vamos l para cima, Paxxie.
- Tenho medo... - murmurou ela.
- No tenhas.
Mas tinha. Todos os que amara haviam morrido... E se agora lhe acontecesse o mesmo? No queria fazer-lhe isso, nem a si prpria, nem era pura e simplesmente capaz. 
Tentou explicar-lhe, enquanto se mantinham ali e ele fitou-a meigamente e afastou-lhe o cabelo sedoso e louro, com gestos suaves, dos ombros.
- No temos o controlo de nada, Pax. Est tudo nas estrelas, nas mos de Deus. O que deve acontecer... acontece ... No tens culpa do que aconteceu ao Bill... ou 
ao Petter .. independentemente do que afirmei nessa altura. E o que me acontece tambm no s tu que determinas. Temos de aceitar o que podemos, enquanto podemos 
- continuou. - E amarmo-nos uns aos outros, estarmos presentes uns para os outros enquanto pudermos e, se algo suceder, fazer o melhor que soubermos. No podes esconder-te 
o resto da vida, s por teres receio do que acontecer a algum.
- Mas sinto-me como se os tivesse morto - ripostou tristemente, com lgrimas nos olhos, e ele odiou-se pelas palavras que pronunciara sem, de facto, a conhecer.
- No mataste ningum e sabes isso... apenas tens medo. - Envolveu-a nos braos e apertou-a. - Mas no tenhas, por favor, minha querida. Nunca amei ningum como 
te amo... No fujas de mim... por favor...
Olhou-a depois como nunca olhara antes para qualquer mulher e pronunciou algo que nunca dissera a ningum, mas era verdade e arriscou-se:
- Preciso de ti, minha querida.
Precisavam um do outro e todos precisavam de algum. Tornava-se impossvel defrontarem a brutalidade do que viviam sem terem algum junto de si.
Acompanhou-a ao quarto, pensando nas palavras ditas e mantendo-a agarrada a si. Quando chegaram  porta, atraiu-a de encontro ao corpo, beijou-a demoradamente e, 
quando a largou, fitou-a com um sorriso terno.
- Seja o que for que nos acontea, Paxton... o que quer que decidas... sempre te amarei.
Desceu rapidamente as escadas sem se voltar para trs, enquanto ela ficava a observ-lo.


CAPTULO 23

Na semana seguinte, recebeu um telegrama dos Wilson, em So Francisco. Gabby tivera mais uma menina, e me e filha estavam bem. Tinham-lhe chamado Mathilda. Paxton 
sentia-se feliz por ela, mas tudo parecia to distante e afastado da vida que agora levava.
Durante o resto da semana, choveram telexes sobre uma extraordinria reunio da juventude para um concerto num lugar chamado Woodstock.
Voltara a sair com Tony e, desta vez, tinham ido, finalmente, ao cinema e visto 'Por Favor no Matem as Velhinhas' e ambos haviam adorado. Tambm tinham visto um 
fantstico documentrio sobre os homens que haviam pisado a Lua pela primeira vez h umas semanas e Tony ficou com lgrimas nos olhos.
Em seguida, comeram hamburgers e batidos na base e falaram das respectivas infncias. A dela em Savannah e a dele em Nova Iorque eram como a noite e o dia e, quando 
Paxton tentara explicar-lhe o que eram as Filhas da Guerra Civil, ele recusara acreditar.
- Por favor, Paxton... No me digas que as pessoas ainda se preocupam com coisas desse estilo. A guerra civil? No acredito.
E ela falou-lhe de outras coisas, do pai, de como o acompanhara e das fantsticas manhs de sbado no seu gabinete.
Ele contara-lhe como trabalhava para o pai, todos os Veres, no Bronx, da vida difcil da famlia e de ganhar, eventualmente, algum dinheiro. Como trabalhara duramente, 
sentindo-se um homem quando era uma criana, e como gostara de faz-lo. Como se sentira quando lhe nascera o primeiro filho, a menina, como se sentira quando ela 
estava doente e acabara por morrer. julgara que tambm ele iria morrer. E como nascera, depois, o pequeno Joey, como um pequeno milagre, to saudvel, robusto e 
to diferente.
Fnie de Mel Brooks com Zero Mostel e Gene Wilder. (N. da T.)
- Desconhece a sensao - replicou Tony, de olhos brilhantes, ao recordar-se do dia em que Joey nascera, embora esse tipo de pensamento no lhe ocorresse com muita 
frequncia. -  a coisa melhor do mundo... ter filhos.
E, logo a seguir, quase como se lhe tivesse ocorrido de momento:
- No queres ter filhos um dia, Pax? - Ainda havia algumas coisas que ignorava a respeito dela, mas no muitas. O facto de se conviver num lugar daqueles significava 
ficar-se a par de muita coisa que, em circunstncias normais, nunca se viria a saber.
- Acho que sim. Nunca pensei muito nisso. E, depois, foi-se lembrando aos poucos e acrescentou: No, no  verdade. - Sempre quisera ser honesta com ele. Fazia parte 
da sua natureza. - Acho que com o Peter costumava pensar que, eventualmente, desejaria filhos... Com o Bill era diferente, pois nunca me convenci de que se casaria 
comigo. Portanto, no ficaria muito desapontada, se no fosse esse o caso. Mas o curioso  que sempre me senti muito distante com os filhos dos outros.
-  diferente quando so nossos - garantiu-lhe. - To diferente.  puro milagre,  to difcil de explicar. E sentimo-nos to extraordinariamente ligados ao sabermos 
que a criana  uma parte de ns para sempre.
-  o que sentes, agora, em relao ao Joey? - inquiriu, fitando-o, com ternura, por cima dos batidos.
Tony reflectiu e esboou um aceno de concordncia, aps o que correspondeu ao olhar.
- Sim - respondeu sem ponta de dvida, apesar do que acontecera.
- Ento devias voltar e ir v-lo.
- Sim. Acho que sim - anuiu, num tom rouco.
Nessa noite foram danar, regressaram ao hotel dela e Tony subiu as escadas com o brao a rodear-lhe a cintura, sem esperar que ela o convidasse a entrar, quando 
lhe deu um beijo de despedida.
Dispunha-se a ir embora quando ela lhe puxou, suavemente, a manga. Ao virar-se para a fitar, viu que a porta para o quarto dela estava aberta. No lhe perguntou 
o que isso signficava. No se atreveu. Limitou-se a segui-la, fechou a porta atrs dele, envolveu-a num abrao e beijou-a, como no beijava ningum h anos, se 
 que o fizera alguma vez.
E Paxton correspondeu com a mesma intensidade. Tudo era diferente com ele. O que pensava, o que fazia, o que sentia. Ele levava-a a sentir-se outra vez jovem, velha, 
inacreditavelmente feminina e descontrada. Era como se tivesse nascido para ele, tivesse esperado toda a vida por ele, e Tony sentia o mesmo e expressou-lho, quando 
se mantinham deitados, lado a lado.
- Nunca amei ningum como te amo, Pax. Fazes-me desejar fazer as malas esta mesma noite e fugir contigo, at nos vermos sos e salvos de regresso, para sempre.
No entanto, esse tipo de pensamento ali era perigoso, e ambos o sabiam.
Tony passou a noite com ela e vrias noites depois disso. E, estranhamente, no fim do Vero, era quase como se estivessem casados. Iam juntos para todo o lado quando 
ele tinha folga, e ela consultava-o sobre coisas de que nunca falara com ningum, at mesmo sobre as reportagens em que ia com Ralph.
Tony contava-lhe tudo, excepto o que se referia s suas misses, quando achava que eram perigosas de mais e podiam assust-la.
Ralph foi mesmo ao ponto de ceder na sua posio e, no comeo de Setembro, foram jantar os quatro. Nessa altura, a pobre France estava enorme e Ralph troou do seu 
aspecto; depois, Tony declarou que ela estava lindssima, e Paxton sentiu-se emocionada. No conseguia imaginar-se assim, nem ter um beb dentro dela. Houve um momento 
em que lhe pareceu que o beb dava um pontap na barriga e fascinou-a que France parecesse despreocupada.
- Aquilo no di? - indagou, mais tarde, a ss com Tony. - Tudo parece to enorme e esticado que deve ser horrvel.
- No  horrvel.  maravilhoso, garanto-te. - Voltou a beij-la com suavidade. - Confia em mim.
Nenhum deles falara em casamento ou em terem filhos um do outro, mas ambos sabiam que fazia parte dos planos se alguma vez sassem do Vietname com vida. Tratava-se, 
contudo, de um assunto tabu.
Falavam, em vez disso, em ir a Banguecoque e Comprar presentes de Natal para Joey. E, por fim, a meio de Setembro, ele obteve uma licena de cinco dias, levou-a 
a Hong Kong, comprou-lhe um anel e enfiou-lho no dedo, sem mais explicaes. Era um anel de rubi, com um rubi e um corao de diamantes no centro, e Paxton adorou-o. 
Dizia tudo. Passaram uns dias fantsticos em Hong Kong e ficaram no Hotel Ambassador, como os outros militares e as suas mulheres e namoradas.
Quando regressaram, Paxton soube que Ralph estava em Da Nang, o que ela achou uma estupidez. O beb podia nascer a qualquer momento e j lhe dissera uma vez que 
achava que ele devia estar junto de France. Ralph era, contudo, incapaz de se manter por ali  espera do nascimento.
France tinha o contacto de uma parteira e de um mdico na eventualidade de algo correr mal. Ralph dera-lhe o nmero de telefone de Pax e, de qualquer maneira, estava 
certo de que voltaria de Da Nang pelo menos uma semana antes de ela ter a criana.
Uma noite, Tony e Paxton estavam na cama no Hotel Caravelle, profundamente adormecidos depois de terem feito amor, quando o telefone tocou e Paxton atendeu.
- Hum... sim? - No conseguia imaginar quem seria quela hora. Olhou para o relgio e verificou que eram quatro da manh.
- Paxton? - A voz tinha um sotaque francs e, pelo espao de um minuto, Paxton no a reconheceu. -  a France. - "Oh, meu Deus!", pensou, sentando-se na cama e interrogando-se 
sobre onde estaria Ralph.
- Ests bem?
- Estou ptima.
Paxton quase conseguia ver-lhe o sorriso delicado naquela escurido. France era o tipo de pessoa que nunca se queixava, nunca dificultava as coisas, nunca pretendia 
impor-se. E, contudo, estava a telefonar a Paxton, que mal conhecia, s quatro da manh.
- Lamento muito - acrescentou delicadamente e depois calou-se, enquanto Paxton se interrogava sobre o que estaria a acontecer. No lhe ocorreu que ela pudesse estar 
com dores e a ter contraces. - O Ralph est fora - prosseguiu -, e no consigo contactar a parteira... e o mdico para quem deveria telefonar se... - Voltou subitamente 
a calar-se, e Paxton comeou a entrar em pnico.
- France?... France?... Ests a? - Comeou a premir, freneticamente o boto do telefone, pensando que a chamada cara, e Tony acordou.
- O que se passa? - perguntou, erguendo a cabea. Paxton ps-se a explicar, mas, nesse momento, France voltou a falar, desta vez um pouco mais bruscamente.
- No consigo encontrar o meu mdico, nem a parteira ... e tenho o An comigo... Desculpa incomodar, mas talvez ... se pudesses levar-me ao hospital e ficar com o 
An, at o Ralph voltar para casa... - Deixou novamente de falar e, desta vez Paxton imaginou o que se passava, enquanto Tony a observava.
- Claro. Vou j. Mas tens a certeza de que ests bem? Queres que chame uma ambulncia?
- Oh, no. Claro que no! - retorquiu num tom delicado. - Mas virs depressa?
- Imediatamente. Mas... France... ests a ter o beb?
- Espero que no, at chegarmos ao hospital. Obrigada- repetiu e desligou bruscamente.
Paxton ignorava que ela estava com dores terrveis e j no conseguia andar, quando pousou o auscultador. Esperara demasiado, mas as dores tinham-na invadido muito 
rapidamente. E, no seu quarto de hotel no Caravelle, Paxton j estava a vestir-se e Tony saltara da cama.
Vou levar-te no carro at Gia Dirili. No deve haver muito trnsito a esta hora - ofereceu-se Tony, tambm a vestir-se.
- Onde fica o hospital mais prximo daqui? - indagou ela, tentando pensar, mas sentindo-se aterrorizada. Aquilo era muito mais assustador do que ser alvejada.
- Acho que... No sei. Pergunto na recepo, quando sairmos. Como te pareceu?
J tinha vestido o uniforme, e Paxton enfiara uma blusa e uma saia, calara umas sandlias e estava a escovar o cabelo quando ele lhe dirigiu a pergunta.
- Estranha. De vez em quando calava-se e eu no deixava de pensar que a chamada tinha cado, mas no era o caso.
- Se a memria no me engana, chegou mesmo a hora.
- No me parece que ela tivesse telefonado, se assim no fosse - sorriu Paxton, estendendo a mo para a escova de dentes.
Levaram vinte minutos at Gia Dirili, e, quando chegaram ao edifcio onde Ralph e France viviam, Paxton premiu a campainha do apartamento.
Durante muito tempo no obtiveram resposta, e Paxton interrogou-se sobre se ela teria ido para o hospital sem eles. Mas Tony vincou que havia luz l em cima e, portanto, 
aguardaram, at que por fim ela carregou no boto do intercomunicador. Subiram, apressadamente, as escadas e foram encontr-la, agachada junto  porta da frente, 
com um trilho de gua atrs dela.
France pareceu mortificada ao aperceber-se de que Paxton no estava s, mas Tony actuou como se tudo estivesse normal. Deixou que a rapariga, extraordinariamente 
inchada, se lhe apoiasse no brao, enquanto a ajudava a voltar ao quarto. Ela vestia um roupo e tinha por baixo uma camisa de noite cor-de-rosa. No quarto ao lado 
do dela, Paxton avistara o seu filhinho, An, a dormir tranquilamente.
Fechou a porta do quarto devagar e perguntou a France se tentara telefonar outra vez ao mdico, mas ela limitou-se a abanar a cabea e apoiou-se a Tony. Parecia 
ser-lhe indiferente a quem se agarrava e no estava a prestar ateno a Paxton.
- Tens de vestir-te, France - replicou Paxton calmamente; porm, quando pronunciou as palavras, France emitiu um pequeno grito contra vontade e agarrou-se mais a 
Tony. Ele amparou-a com suavidade e voltou a deit-la na cama, at ao final da contraco.
- Precisamos de tirar-te daqui, France - declarou ele, calmamente. - Vou pegar-te ao colo - acrescentou, mas ela comeou a chorar e agarrou-se-lhe, novamente, emitindo 
um som horrvel.
Estava meio enlouquecida com as dores, que haviam comeado pouco antes da meia-noite. Eram, agora, cinco da manh, e Paxton verificou subitamente que havia sangue 
na cama, o que a assustou. Tentou indic-lo a Tony com um movimento de cabea, mas ele sabia exactamente o que estava a passar-se, muito melhor do que ela, quando 
a fitou com a maior calma.
No vamos a lado nenhum - decidiu, tranquilo. - Arranja-me todas as toalhas que conseguires encontrar e alguns jornais, montes deles.
Enquanto pronunciava as palavras, comeou a desatar os sapatos e Paxton interrogou-se sobre se ele enlouquecera.
Depois disso, tentou deixar France por um momento, mas ela no permitiu que sasse do seu lado e continuou a murmurar:
- Oh., lamento... lamento muito....
Em seguida, as dores fizeram-na contorcer-se de novo, enquanto Paxton a observava. No conseguia imaginar que beleza achava Tony em tudo aquilo. Parecia horrvel 
e intoleravelmente doloroso.
Regressou com todas as toalhas que conseguiu encontrar, um par de lenis lavados e uma pilha de jornais que descobrira na cozinha. Tony indicou-lhe que os pousasse 
e se ajoelhasse ao lado dele. Quando ela obedeceu, deu a volta por trs de France e amparou-a e, desta vez, quando a dor a atacou, ela agarrou com toda a fora na 
mo de Paxton, e Paxton no a largou. As duas mulheres continuaram de mo dada, enquanto France comeava a fazer fora para expulsar o beb.
- Oh, no... Oh, no! - gritava. - O beb est a nascer!
- Eu sei que sim - replicou Tony suavemente, indicando-lhe o que fazer, ao mesmo tempo que, no intervalo das contraces, prendia um dos lenis  volta dele, como 
se fosse um avental.
France continuava a agarrar as mos de Paxton e, quando fez fora, uma e outra vez, Paxton chorou com ela. Depois, Tony disse-lhe que segurasse nas pernas de France, 
enquanto ele lhe prendia os ombros e ela continuava a fazer fora.
Paxton sentiu vontade de fugir, aos gritos. Era incapaz de aguentar v-la a sofrer tanto. De sbito, France deu um ltimo impulso, ouviu-se um pequeno vagido e os 
trs olharam para a cabecinha vermelha que saa de dentro de France.
- Agora tens de fazer fora novamente - indicou Tony. - V l... - Desta vez, surgiram os ombros, e Tony puxou o beb, com suavidade, para fora, segurando-o ao mesmo 
tempo que aparecia o resto do beb de France e de Ralph.
Era uma menina, e Paxton chorava ao contemplar aquele milagre. Tony inclinou-se por um breve segundo e beijou-a. France estava a sorrir. E Paxton observava, surpreendida, 
como Tony atava o cordo umbilical com os atacadores dos sapatos.
- Chama uma ambulncia - pediu, enquanto ela olhava, respeitosa, para France e o homem que amava.
Apetecia-lhe dizer como o achava maravilhoso, mas teria tempo de o fazer mais tarde.
Em vez disso, foi chamar a ambulncia e, antes de eles virem, acordou An. Nessa altura, tinham tapado France, e o mido ficou satisfeito e surpreendido ao avistar 
a irm recm-nascida.
- Ela veio enquanto a mam estava a dormir? - perguntou, e os outros sorriram. - Acordou-te? - dirigiu-se  me. Ficou muito aborrecido por elas terem de ir na ambulncia, 
mas tambm excitado por regressar ao hotel de automvel com Tony, enquanto Paxton seguia para o hospital com France e o beb.
Paxton ainda se sentia esmagada pelo que vira nessa noite, a dor horrvel e insuportvel, seguida do aparecimento do pequeno rosto, empurrado do seu esconderijo 
para o mundo, enquanto a me a incitava alegremente. E agora a menina dormia, tranquila, nos braos da me, e France tinha um ar de plena satisfao.
- Lamento ter dado tanto trabalho - desculpou-se, na ambulncia.
Paxton continuava a agarrar-lhe na mo, presa a um imenso espanto frente ao que presenciara. Tudo aquilo lhe parecia irreal. A guerra era real. A morte quase se 
tornara normal. Mas este milagre do nascimento, esta parte da sua feminilidade, apanhou-a de surpresa.
- Tiveste tanta coragem, France - elogiou Paxton. - Lamento no ter dado uma ajuda maior... No fazia ideia de como ajudar... - Agradeceu a Deus por Tony existir.
- Foste maravilhosa - redarguiu France, sonolenta, e fechou os olhos, sem largar a mo de Paxton.
E Paxton ficou com ela no hospital at a manh j ir adiantada. Quando regressou ao hotel, Tony estava a brincar com An, e os dois pareciam muito felizes. - Por 
sorte, Tony tinha dois dias de folga, o que lhe permitira ficar  espera de Paxton.
- Como est ela? - interessou-se Tony, preocupado. - Tudo em ordem?
- Tudo ptimo - sorriu Paxton, quase timidamente. - A beb  lindssima, e France estava a dar-lhe de mamar, felicssima, quando as deixei. - Ainda no conseguia 
acreditar bem no que tinha visto, mas sentia-se, de certa maneira, mais prxima dele.
Tony fitou-a demoradamente sem pronunciar palavra, preso de igual emoo e, em seguida, sem largar a mo de An, rodeou Paxton com o outro brao e beijou-a.
- Foste muito corajosa na noite passada - replicou. Era uma noite que ambos recordariam para sempre.
Nunca me senti to assustada na minha vida... Meu Deus, Tony!... Como  que as pessoas fazem aquilo?
- Vale a pena! - garantiu sem hesitar.
E agora ela conhecia a verdade. Aquele momento em que a cabea do beb aparecera e ele emitira o primeiro vagido justificara todo o esforo. Paxton sabia que nunca 
o esqueceria.
- , de facto, um milagre, no ? - Tony esboou um aceno de concordncia, aps o que se baixou e colocou An aos ombros.
Ralph apareceu s cinco da tarde. Ao chegar a casa, encontrara o bilhete dela e seguira, a toda a pressa, para o hospital, a fim de ver France e o beb. De certa 
maneira, Paxton sentiu pena dele, pois assistira ao nascimento da criana e ele no. Estava excitadssimo quando chegou ao hotel e insistiu em oferecer-lhes champanhe.
Por fim, foi-se embora, levando An ao colo, agradecendo a ambos e garantindo-lhes que dariam  menina mais ou menos o nome de Paxton. Iria chamar-se Pax Tran Johnson, 
E Pax parecia um nome que se lhe adequava. Significava "paz" em latim.
Nessa noite, quando foram para a cama, Paxton ainda se sentia muito emocionada com o que vira e tinha a cabea cheia com tudo o que acontecera.
- No sei, Tony - sussurrou, enquanto se mantinham deitados no escuro. - No sei se estou preparada para aquilo. - Continuava impressionada pela dor a que assistira. 
Ainda se questionava como  que France aguentara.
No entanto, Tony limitou-se a rir, virou-se para ela e beijou-a.
- No me parece que tenhas de preocupar-te com o assunto por uns tempos. Diria que h outras coisas a que tens de dar prioridade. - Como... sobreviver no Vietname. 
Ambos tinham.
- Sabes ao que me refiro. Cus! Por momentos, pareceu tudo to terrvel!
- Concordo que deve ser bastante difcil - admitiu. - Mas no sei, parece que as mulheres esquecem... Tem de ser, ou no teriam mais filhos. - O facto de haver assistido 
ao nascimento do beb de France fizera-o pensar nas coisas que interessam na vida, as coisas que se abandonava ao vir-se para um lugar como o Vietname e ansiou, 
de sbito, por uma vida diferente. - Gostaria mesmo de voltar a ser pai - confessou nessa noite.
- s bom nesse papel! - retorquiu, tristemente, pensando no momento em que o vira com An.
Quem poderia, todavia, adivinhar se alguma vez teriam essa oportunidade? Quem sabia se algum deles estaria vivo para ter filhos? Aquele fora, todavia, um elo que 
os ligara, um momento especial que ambos tinham partilhado e agora os unia.
- Amo-te, Paxton - sussurrou-lhe no escuro.
- Tambm te amo - asseverou no mesmo tom e adormeceu nos braos dele, sonhando com o beb de France.


CAPTULO 24

Em outubro, teve lugar uma moratria nacional nos Estados Unidos, acompanhada de uma grande manifestao para pr fim  guerra. E ocorreu mais uma em Novembro. E 
a 3 de Novembro, Nixon prometeu terminar a guerra, e as pessoas que o escutaram e acreditaram nele criaram esperanas.
E a 16 de Novembro, a nao foi abalada ante a revelao do que acontecera em My Lai no ano anterior e verificou-se subitamente um imenso protesto no Vietname.
Nos EUA, o tenente Calley foi detido e, no Vietname, os generais interrogaram todos a esse respeito. Os responsveis militares estavam indignados. E verificara-se 
tanta crueldade na guerra do Vietname dos dois lados que este exemplo pareceu de certa maneira enfurecer toda a gente.
Havia fotografias de bebs e crianas que tinham sido mortos a tiro. E, na redaco da AP, da Time, CBS, A13C e N13C, choviam exigncias de reportagens de pesquisa. 
Todos andavam ocupados e a situao originou algumas histrias incrveis.
Ralph e Paxton andavam to afadigados que mal tinham tempo de respirar, e Paxton travava uma imensa luta para poder dispensar tempo bastante a Tony.
Tony puxou alguns cordelinhos, negociou e conseguiram ir a Banguecoque passar o Dia de Aco de Graas. Ficaram no Hotel Montien e passaram quatro dos dias mais 
felizes que Paxton vivera, antes de regressarem a Saigo. Nunca se sentira to prxima de algum.
Eram to amigos quanto amantes e pareciam capazes de nada esconder um do outro. No regresso ao Vietname, no avio, falaram de My Lai e do tenente Calley.
- Conhecia-lo? - Ela sentia-se curiosa sobre o indivduo, e Tony ficou satisfeito por responder negativamente.
- No, mas ouvi histrias do gnero. Nada de oficial, claro. H bastantes militares que despejam a ira nos vietcongues e, por vezes, passam as marcas. Aqui no h 
regras,
Pax, e sabe-lo bem. Alguns dos homens no sabem lidar com a situao. Os colegas so mortos a toda a hora. No vem sada. O melhor amigo pisa uma mina, so incapazes 
de aguentar a tenso e, de repente, enlouquecem e viram-se contra o Charlie.
Assemelhava-se bastante ao que sucedera em My Lai, mas de qualquer maneira, repugnava-os. A guerra fora demasiado longa e demasiado horrvel.
Nesse ano, foi assistir com Tony ao espectculo de Bob Hope no Natal e era estranho recordar que, ainda h um ano, estivera com Bill no espectculo de Martha Raye. 
s que, Ah, um ano no tinha a mesma durao do que em qualquer outro lugar.
Um ano no Vietname era uma vida. Depois, passaram uma noite tranquila no hotel dela e, nessa manh, telefonara para a famlia, em Savannah. No dia seguinte, foram 
fazer uma visita a France e Ralph e compraram presentes para os dois, para An e para a beb.
A pequena Pax desenvolvia-se a olhos vistos sob os cuidados de France, e era bvio que Ralph estava louco com a filha. Parecia-se um pouco com Ralph, mas tambm 
com France. E ele no desistira de convencer France a despos-lo, mas at esse momento ainda no conseguira.
No Dia de Ano Novo, insistiu com Paxton para que o acompanhasse numa misso ao delta do Mekong, mas ela tinha o trabalho atrasado. Nesse dia, Tony estava de servio 
e queria aproveitar o tempo para escrever no seu quarto de hotel.
Em seguida, ela e Tony foram passar dois dias a China Beach, em Da Nang. Quando voltaram, foi procurar Ralph  redaco da AP, para saber se ele ouvira falar da 
destruio de uma base prximo de An Loc, na passagem do Ano Novo.
Aparentemente, ningum sabia onde ele se encontrava, e Paxton voltou no dia seguinte. Nessa altura, j sabiam. E no momento em que Paxton entrou, fez-se um silncio 
de morte. De incio, no se apercebeu, parou e leu os telexes, aps o que foi ver se Ralph estava no gabinete, mas no estava.
A diviso estava vazia e verificava pela chvena de caf limpa que ele ainda no voltara. Tentou decidir se iria ou no esperar e, quando consultou o relgio, reparou 
subitamente neles. Nos outros, que a observavam. Todos sabiam obviamente e todos tinham medo de lhe dar a notcia. Todos a conheciam bem e estavam a par da amizade 
que a unia a Ralph. Por fim, o subchefe de redaco avanou devagar na sua direco. Fez-lhe um sinal de cabea, sem pronunciar palavra e ela seguiu-o, de cenho 
franzido, at ao interior do gabinete.
- O que se passa? Onde est o Ralph? - inquiriu.
Emanava juventude e jovialidade e estava, como sempre, cheia de pressa. Havia umas histrias que queria investigar nesse dia e esperava que Ralph aparecesse depressa. 
E ento, ele informou-a. Ralph fora morto no regresso de My Tho, uma coisa estpida, o jipe passara por cima de uma mina.
Uma coisa estpida... uma coisa estpida... No era sempre uma coisa estpida? Havia alguma maneira inteligente de morrer ali? Com "fogo amigvel", uma bomba de 
plstico no restaurante, ou um obus ou uma mina? Havia algum brilhantismo nisso? Que diferena fazia, no fim?
Ao ouvir as palavras, Paxton, sentou-se e ficou a ouvi-lo, incapaz de acreditar no que acontecera.
Era impossvel. No podia ter acontecido a Ralph. H anos que estava ali. Era demasiado esperto para se deixar matar, demasiado perspicaz, bom de mais, generoso 
e cuidadoso de mais. Tinha trinta e nove anos e acabara de ser pai pela primeira vez. Ningum sabia disso? Ningum o dissera ao tipo que colocara a mina? Ele no... 
tem uma filha... Ele no... Ningum ouviu estas coisas? Ningum se importava?
No conseguia perceber o que correra mal quando, sem uma nica palavra, saiu do gabinete, regressou ao hotel a p, alugou um carro e conduziu at Cu Chi, sem pensar 
duas vezes no perigo que corria.
S queria encontrar Tony e dizer-lhe. E, quando ele a viu a atravessar a base, julgou tratar-se de uma viso. Nem sequer tinha vestida a roupa de combate. Levava 
uma saia cor-de-rosa e uma blusa e sandlias brancas. E foi apenas por mera coincidncia que a viu. Preparava-se, nesse momento, para levar alguns recrutas em manobras. 
Saiu do jipe e ordenou ao cabo que esperasse um minuto, depois do que correu pelo campo e a deteve.
- O que ests a fazer aqui? - indagou, assustadssimo. Por minutos, pensou que algo de mal acontecera, mas ao ver como ela estava vestida, decidiu que no. - Quem 
te trouxe?
- Vim eu - respondeu com uma expresso de desespero. Parecia olhar, freneticamente, em volta  procura de alguma coisa.
- O que se passa contigo, Pax? - insistiu.
Talvez tivesse acontecido alguma coisa., Ela no o olhava de frente, parecia to nervosa e ausente. Vira indivduos assim, logo a seguir  morte de colegas, quase 
em estado de choque e prestes a perderem o juzo por completo. De sbito, adivinhou e agarrou-a. Atraiu-a fortemente de encontro ao corpo, forando-a a olhar para 
ele.
- O que , mida? - Sentia-se satisfeito por ela ter vindo procur-lo, mas no conseguia acreditar na loucura de ter conduzido sozinha at Cu Chi.
Porm, naquele momento, ela estava louca. Olhou-o, subitamente, e faltou-lhe o ar. Havia enormes soluos na garganta que a sufocavam e a impediam de respirar.
- Calma. Respira devagar... V... Assim mesmo... - Outro recruta observava-os, e Tony no queria sequer saber. Apenas conseguia pensar em Paxton, que sufocava e 
soluava nos seus braos. - Conta-me o que aconteceu.
- Ralph... - Foi a nica palavra que conseguiu pronunciar nos primeiros minutos, e ele sentiu como que um murro no estmago.
- Tudo bem... Respira devagar... - Pousou-a com suavidade no cho e sentou-se ao lado dela. - Ests bem... ests bem, Pax... - j passara por isto antes, sabia perfeitamente 
como reagir, a cena repetira-se muitas vezes... e, depois, ela contou-lhe.
- Pisou uma mina, quando voltava do delta, h dois dias. Ningum me disse. - Tinha um rosto inexpressivo e, depois, comeou a soluar, enquanto lhe socava o peito, 
angustiada e presa de uma fria cega. - No... Raios... no! Os filhos-da-me apanharam-no! Depois de todo este tempo... apanharam-no!... - Sentia-se angustiado 
ao ouvi-la, mas para ele tratava-se de uma velha histria.
- A France sabe?
- Ainda no sei. No lhe telefonei.
Merda! Com um filho de um militar e, agora, uma beb recm-nascida, raios! E o que lhe restava fazer em Saigo com dois midos mestios, meio americanos meio asiticos? 
Os pais no podiam ajud-la, no lhes restava nada e ningum mais poderia faz-lo. No lhe faltava mais nada!
Tony abraou novamente Paxton e beijou-a com ternura.
Ouve. Detesto faz-lo, mas preciso de ir. Tenho uma srie de rapazes  espera para seguirmos em manobras. Mal regresse, vou ter contigo ao hotel. Levo-te a v-la. 
E agora, quero que algum te conduza de volta.
Paxton esboou um aceno de concordncia, como uma criana obediente, mal o vendo, e ele foi a correr buscar um praa que no tinha nada para fazer e ordenou-lhe 
que a levasse de regresso a Saigo.
- Tem cuidado! - gritou ela quando se foi embora, e Tony acenou e partiu com os outros.
Durante todo o caminho, Paxton manteve-se muito direita ao lado do rapaz que a conduzia. No pronunciou uma palavra, no lhe perguntou o nome, nem respondeu a nenhuma 
das suas perguntas. Mantinha-se simplesmente sentada a olhar pela janela, pensando em Ralph, France, An. e na beb Paxxie.
Aps regressar ao hotel, dirigiu-se ao quarto e deitou-se. O telefone tocou e no atendeu. Quando chegou s oito da noite, Tony estava histrico; achava que podia 
ter-lhe acontecido alguma coisa, pois o jovem que mandara acompanh-la ainda no voltara.
A tenso comeava a desgastar todos. Estavam ali h demasiado tempo. Ao entrar no quarto, Tony foi encontr-la onde ela estivera a tarde toda, deitada em cima da 
cama, fitando o tecto.
- V l, mida. - Estendeu-se na cama ao lado dela e falou-lhe com ternura: - Escuta. Ele sabia o perigo que corria. Todos sabemos e arriscamos. Ele estava disposto 
a faz-lo.
- Era o melhor reprter que conheci... o melhor amigo que tive... - retorquiu, semelhante a uma mida a empurrar pedras para dentro do rio com o bico do sapato. 
- At te conhecer - prosseguiu, erguendo os olhos para Tony... Mas ele era especial. Era o irmo que George nunca tinha sido.
- Sei disso. Tambm gostava dele. Gostei de muitos indivduos aqui. Alguns tiveram sorte e regressaram a casa, sem problemas, outros no. Se sentisse medo disto, 
h muito que se teria ido embora.
Paxton sabia que era verdade, mas isso no lhe resolvia os problemas. E como iria sentir-lhe a falta, Deus do cu!
- E France? O que vai ser dela, agora?
- Isso  outra histria - retorquiu Tony com uma expresso sombria e consciente de que o futuro no lhe sorria.
Tomou duche, mudou de roupa e decidiram aparecer sem telefonar. France era to delicada que insistira em que tudo corria pelo melhor, mesmo que assim no fosse. 
Serviram-se do jipe de Tony para ir at l.
Tal como na noite em que a beb nascera, demorou muito tempo a responder, mas ele via que as luzes estavam acesas. Por fim, tocaram para outro inquilino que lhes 
gritou pela janela, mas carregou no boto do intercomunicador. Ao chegarem junto  porta, tambm no obtiveram resposta. Insistiram e ouviam msica no interior. 
A rdio e as luzes estavam ligadas, mas no se ouvia qualquer som e, por fim, Tony fitou Paxton com uma expresso preocupada.
- Detesto a ideia, mas tenho a sensao de que se passa qualquer coisa de estranho. Talvez esteja demasiado desgostosa para falar com quem quer que seja. - Contudo, 
os midos tambm no se manifestavam. - Ou talvez me engane e ela tenha sado. Queres voltar mais tarde?
No entanto, Paxton abanou lentamente a cabea, invadida por uma sensao estranha.
- Podemos entrar? - sussurrou.
- Referes-te a arrombar a porta? - retorquiu, parecendo nervoso. - Podemos ser presos.
- Achas que h senhorio?
- Sim, talvez. S que pelo teu lado no sei, mas o meu conhecimento da lngua vietnamita no chega para dizer: "Desculpe, senhor, mas importa-se de me deixar entrar 
neste apartamento. " Espera a. Vou fazer uma tentativa - redarguiu, tirando um canivete do bolso.
Andou s voltas com a fechadura durante algum tempo e estava prestes a desistir quando a porta cedeu repentinamente e se abriu devagar. Em seguida, ambos tiveram 
uma sensao estranha. Haviam desejado entrar, mas, agora que a porta estava aberta, no estavam certos de que deveriam faz-lo. Parecia-lhes uma intromisso.
Tony foi o primeiro a transpor a ombreira e Paxton seguiu-o de perto. Nenhum deles sabia muito bem o que procurava, e ambos se sentiam estpidos quando olharam em 
volta e verificaram que tudo estava limpo, arrumado e em ordem. Tudo estava, obviamente, muito em ordem.
A msica continuava a tocar baixinho. A luz do quarto de An estava acesa e Paxton espreitou para o interior. Mas ele no se encontrava ali, e Tony olhou para o quarto 
principal, aps o que estendeu, instintivamente, o brao para deter Paxton.
- No entres! - apressou-se a ordenar, mas ela foi mais rpida e depois parou.
Tudo parecia, contudo, normal. Estavam somente a dormir. France, vestida com o seu ao dai, um sorriso suave e a beb nos braos com um bonito vestidinho, que algum 
lhe devia ter feito, e o pequeno An, semelhante a um anjo ao lado deles.
Tinha o cabelo penteado e vestia o melhor fato. No entanto, Paxton ainda no compreendera. Queria dizer a Tony que no fizesse barulho para no os acordar, s que 
nada conseguiria voltar a acord-los.
Ele soube mal se aproximou e, depois, inclinou-se um pouco para lhes tocar nos rostos. H bastante tempo que estavam mortos. France tinha-se envenenado e aos filhos, 
mal recebera a notcia da morte de Ralph.
Havia um bilhete em vietnamita e, ao lado, uma carta dirigida a Paxton. Quando ele se ajoelhou e os examinou, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas e comeou a soluar. 
Paxton aproximou-se e ficou de p, ao lado deles. Tambm ela chorava e tocou em cada um deles, como se os abenoasse em silncio.
- Oh, cus, porqu... - sussurrou-lhe. - Porqu?
E An e a beb. A beb que tinham ajudado a dar  luz h apenas trs meses e meio e agora estava morta... Pax... Pax... France desejara estar com ele, dizia no bilhete 
em vietnamita. Desejara que todos estivessem novamente juntos e sabia a vida terrvel que os esperava em Saigo.
- Ela podia ter ido para os Estados Unidos... Podia ter... - prosseguiu Paxton, mas Tony abanou a cabea. Sabia que ela nada podia ter feito em Saigo, sem a proteco 
de Ralph.
Portanto, partira a fim de se lhe reunir e levara os filhos. E todos eles to bonitos, to suaves... to ternos, ali deitados.
Paxton e Tony detiveram-se a observ-los muito tempo e, em seguida, ele foi telefonar  Polcia e, quando eles chegaram, explicou o que julgava ter acontecido e 
o bilhete confirmava.
A carta dirigida a Paxton dizia mais ou menos o mesmo. Voltava a agradecer-lhe e a Tony pelo que tinham feito por eles e, depois, despedia-se e desejava-lhes uma 
vida boa e feliz.
Paxton pousou a carta e acolheu-se a soluar nos braos de Tony. Nunca vira, nem sentira, algo de to terrvel. Ficou a observar, quando levaram os trs. An, embrulhado 
num pequeno pano branco, e a beb ligada  me.
Era superior s suas foras e continuava a soluar quando Tony a levou dali e a conduziu de volta ao hotel, mandando vir um brande para os dois.
- Cus, Tony! Porque  que ela fez aquilo?
- Achou que tinha de o fazer.
Paxton foi invadida por uma sensao de perda como nunca tivera antes. Uma perda aliada a desespero e tristeza e solido, agora que a amiga partira. Interrogava-se 
sobre se alguma vez voltaria a ser a mesma.
Tony sabia que, embora pudesse vir a parec-lo algum dia, talvez isso no correspondesse  realidade. Era uma sensao comum a todos. Pedaos dos seus coraes tinham 
cado h muito, como se fossem leprosos.
E decorreu muito tempo, antes de voltar a sentir-se mais ou menos humana. Janeiro passou semelhante a uma nvoa. Fevereiro tambm. E, por fim, em Maro, quando chegaram 
as mones, comeou lentamente a sentir-se humana. Nessa altura, h quase dois anos que se encontrava no Vietname. E ela e Tony estavam juntos h oito meses que,
naqueles dias, se assemelhava a uma vida. Custava-lhe muito falar de Ralph, France ou das crianas. Conseguia, porm, falar dos outros que havia perdido, sem se 
sentir to completamente devastada. Tony tivera, contudo, razo. Estavam diferentes.
Saam com menos frequncia do que dantes e, com o mau tempo de agora, raramente iam passar um fim-de-semana fora, mesmo quando ele tinha dispensa. Em vez disso, 
enfiavam-se no quarto de hotel dela, conversavam, bebiam, faziam amor e tentavam extrair algum sentido do que viam.
Os artigos de Paxton pareciam, agora, mais fortes, O jornal tinha-lhe escrito h pouco tempo, comunicando que ela estava a ser considerada para um prmio, mas era-lhe 
indiferente. Essas coisas, agora, no lhe interessavam.
Apenas lhe interessava ficar viva, o final da guerra e talvez, um dia, regressar a casa para ver o que restara, se  que restava alguma coisa. Falavam muito de Joey, 
e Paxton incitou-o a que escrevesse mais vezes ao filho.
A misso de Tony terminava em junho e sabia que no ia voltar, mas tambm no sabia o que fazer mais. No queria permanecer no Vietname, mas ignorava se estava pronto 
para regressar a casa.
Paxton no tinha ideia do que ia fazer. Informara o jornal de que tencionava ficar mais um ano, mas no estava escrito em pedra. Poderia sempre ter regressado mais 
cedo ou mais tarde. E ela e Tony nunca falavam de planos futuros. Parecia demasiado arriscado falar disso agora, e ambos comeavam a tornar-se supersticiosos.
Sentiam-se, contudo, mais felizes do que alguma vez o haviam sido, mais prximos e mais fortes. A morte de Ralph, de France e dos midos tinham-na abalado at ao 
mais fundo de si e feito com que se aproximasse mais de Tony.
Agora, tambm ele precisava mais dela. A ideia do regresso a casa assustava-o, embora falasse muito pouco no assunto. De momento, apenas sabiam que fariam mais uma 
viagem a Hong Kong em Maio e, em seguida, teriam de esquematizar o passo seguinte.
Paxton continuava a usar, todos os dias e em todo o lado, o anel de rubi que ele lhe oferecera na ltima vez que l tinham estado. Era a sua ligao com ele. Rubis 
com um corao e Tony comovia-se com a atitude dela.  semelhana de Paxton, no fazia promessas nem exigncias, mas entregara-lhe o corao. Para sempre.
Trs semanas antes de partirem para Hong Kong, com a mono no auge, Tony foi enviado numa misso para uma rea supostamente a fervilhar de VC e que estava assim 
h semanas. Eles gostavam de se infiltrar durante a mono, e os soldados detestavam persegui-los no meio da chuva. Detestavam as chuvas constantes e apanhavam infeces 
por terem sempre os ps molhados.
Estava calor, humidade e um tempo horrvel para onde quer que fossem, mas tinham de continuar a perseguir os VC. Partiram, assim, numa manh de tera-feira e caram 
numa emboscada.
Quinze homens morreram quase de imediato e nove ficaram feridos. Os helicpteros pairavam, mas no conseguiam divisar nada e os avies de movimento do inimigo nada 
detectavam com aquele tempo.
Uma segunda unidade foi enviada para ajudar e mataram mais rapazes. O prprio tenente foi atingido por estilhaos de granada. Reinava uma confuso total, e passaram 
trs dias antes que conseguissem livrar-se e retirar de volta a Cti Chi com os mortos, os feridos e o que ascendia a tremendas baixas.
Regressaram ensopados, aterrorizados e horrorizados pelo que tinham passado. E regressaram sem Tony. Este foi dado como desaparecido em combate.


CAPTULO 25

Foi o prprio tenente quem veio dar-lhe a notcia ao hotel. Paxton j sabia, porm, h muito tempo, quando ele bateu  porta para a informar de que algo acontecera.
H dois dias que o sentira e mal tinha comido ou dormido. Apenas sabia que alguma coisa estava mal, embora ainda ignorasse o qu. E tinha a estranha impresso de 
que ele no estava morto, mas talvez ferido.
Quando o tenente apareceu  porta. Paxton recuou para o interior do quarto com uma expresso horrorizada.
- No... - retorquiu, erguendo a mo, desejando que ele se fosse embora.
Era impossvel que isto estivesse a acontecer-lhe novamente. No podia ser. No deixaria que assim fosse.
Miss Andrews - comeou, pouco  vontade, mantendo-se na ombreira. - Quis vir falar-lhe pessoalmente.
- Onde est o Tony?
Seguiu-se uma pausa infindvel quando os olhares se cruzaram sem se desviar e ele abanou a cabea, com uma expresso desesperada.
- Receio que tenha desaparecido em combate - retorquiu. - No sei dizer-lhe mais do que isto. Ningum o viu, de facto, ser abatido ou cair... mas a confuso era 
total. A mono, os vietcongues, a emboscada. Deram-nos informaes falsas e fomos atacados. Perdemos muitos dos nossos rapazes e receamos que o sargento Campobello 
apenas no tenha sido contado.
"Passmos a rea a pente fino antes de nos virmos embora - prosseguiu -, e no encontrmos o corpo, mas tal no significa que esteja vivo. Apenas sei dizer-lhe neste 
momento que ele desapareceu em combate.
- Pode ter sido feito prisioneiro? - inquiriu.
S de o pensar sentia um n no estmago. Conhecia demasiadas histrias de horror dos vietcongues, sobre a forma como tratavam os prisioneiros, e um militar, que 
conseguira escapar, conversara com ela h uns meses atrs. Mas, pelo menos, no era dado como morto. Pelo menos, havia esperana. Talvez.
-  uma hiptese - respondeu o tenente, sem querer dar falsas esperanas. - Mas no  provvel. Acho que no estavam interessados em levar prisioneiros, mas em causar-nos 
o mximo de baixas. E assim foi - concluiu tristemente, conservando-se junto  ombreira, sem que ela o tivesse convidado a avanar.
O tenente assemelhava-se ao anjo da morte postado ali, e ela no o queria na sua vida nem mais um momento.
- Onde estavam?
Atravessmos os bosques Hobo at Trang Bang e depois subimos rumo a Tay Nitili, muito prximo do Camboja. E foi onde o perdemos.
Paxton deixou-se cair na cadeira, enquanto o ouvia, e ocultou o rosto entre as mos, tentando acreditar que ele morrera, mas no conseguia. Sentia-se incapaz de 
passar outra vez pelo mesmo. No com ele. j fora terrvel com os outros.
Com Tony, porm, vivera algo que nunca experimentara com ningum, uma espcie de confiana, uma estranha simetria, uma cumplicidade sem palavras. Parecia sempre 
saberem o que o outro estava a pensar.
E agora, ela estava a pensar que ele no morrera e ignorava porqu. No sabia o que dizer quele homem, ali parado na ombreira da porta do quarto. Apenas conseguiu 
erguer os olhos na sua direco e, por fim, agradeceu-lhe ter vindo inform-la. Teria sido pior receber a notcia da boca de outra pessoa.
A situao era, contudo, estranha. Das outras vezes, soubera que eles estavam mortos. Podia dar largas ao desgosto, fazer o luto. E, se tivesse tido coragem, poderia 
t-los visto. Mas no estava em causa o que acontecera. Agora, porm, tudo o que conseguiam dizer-lhe era que Tony desaparecera numa tempestade ou algo do gnero. 
Era uma loucura. Talvez ele aparecesse de manh.
Depois de o tenente se ter ido embora, enquanto se mantinha deitada na cama que partilhara com Tony nos ltimos dez meses, invadia-a a mesma sensao de que algum 
viria inform-la que se tratava de um engano e que ele estava ptimo. S que, desta vez, acreditaria.
E sentiu-se assim durante dias. Nem sequer conseguia chorar, pois recusava acreditar que ele estava morto. Continuava a mover-se, como uma morta-viva. Escrevia artigos, 
lia telexes, ia  redaco da AP, redigiu um artigo sobre Saigo e chegou mesmo a participar numa pequena misso.
Quando estava na cidade, assistia s "tolices das cinco". Agora que se encontrava no Saigo h dois anos, todos a conheciam. Era, sem dvida, a correspondente mais 
bonita, uma das mais jovens e, segundo parecia, uma das melhores, como atestava o prmio que lhe tinham enviado do estado da Califrnia.
Paxton no lhe atribuiu, todavia, qualquer importncia e p-lo de lado, como fazia a tudo o mais, e os que a conheciam bem sabiam porqu. Tony desaparecera, mas 
ela morrera. Em Abril.
E, embora continuasse a viver, fazia-o com dificuldade. Tudo o que lhe interessava, deixara de existir. As pessoas que amara tinham desaparecido ou morrido e levado 
o passado com elas. Sem Tony, no tinha presente nem futuro.
A 2 de Maio, o irmo telefonou a inform-la que a me morrera inesperadamente de uma complicao surgida aps uma operao  vescula de que Paxton nem sequer tivera 
conhecimento. George achava que ela deveria ir a casa e ajudar Allison com as disposies necessrias.
Prometeu que lhe telefonaria a dar uma resposta e, nessa noite, foi de carro a Cti Chi falar com o tenente de Tony para saber se tinham descoberto alguma coisa, 
mas no era o caso. Ningum sabia mais do que em Abril. E a famlia de Tony havia sido oficialmente notificada. O primeiro-Sargento Anthony Edward Campobello desaparecera 
em combate.
- O que significa isso, com mil diabos? - ripostou-lhe, sem atender  sua hierarquia ou boas intenes. - Espero por ele aqui? Vou procur-lo? Ajudo-o? Vou para 
casa e fico  espera? O que fao, raios? - quis saber, ao mesmo tempo que as lgrimas lhe saltavam dos olhos pela primeira vez.
No podia continuar a fugir. Ele no ia regressar, talvez nunca mais regressasse, e ela comeava a compreender.
- E se ele ainda est por l, e ferido? - insistiu num fio de voz.
- No me parece - replicou o tenente, num tom suave. - Acho que ele est morto, Paxton. Acho que s no conseguimos encontr-lo. Lamento.
Estendeu o brao e tocou-lhe, mas ela furtou-se para que aquele gesto bondoso no piorasse a dor.
- Quer saber a minha opinio? - prosseguiu. - Acho que devia voltar a casa. Aqui, todos temos os nossos limites. Todos ns. Os mais espertos regressam a casa quando 
os atingem, os outros esperam demasiado. j cumpriu o equivalente a duas misses. No lhe parece bastante? O Tony ia regressar em junho e pensava que o acompanharia. 
Porque  que no volta? juro-lhe que se descobrirmos alguma coisa lhe telefono.
Paxton esboou um aceno de cabea, fitou-o prolongadamente, depois saiu da sala e concluiu que ele tinha razo. Chegara a altura de ir para casa. Talvez para sempre 
desta vez. Sem Tony. Amadurecera no Vietname. Quando chegara era uma jovem, com o corao despedaado pelo rapaz que perdera, em busca de respostas.
E no as descobrira; apenas descobrira perguntas. Tinha vinte e quatro anos, perdera trs homens naquela guerra, quatro se contasse com Ralph, e ainda amigos, colegas, 
e mesmo gente a que no estava ligada, como Nigel. E um pedao de si prpria, que sabia no mais recuperar.
Por outro lado, descobrira uma verdade, um pas que estava moribundo, que outrora fora encantador e agora estava a ser destrudo aos poucos. No entanto, conhecera-o, 
antes disso. E amara Tony, antes de ele ter desaparecido. E, onde quer que ele estivesse, morto ou vivo, no lhe sentiria a falta. Sabia que, tal como ao Vietname, 
o amaria para sempre.


CAPTULO 26

O seu ltimo dia em Saigo passou-lhe como um sonho diante dos olhos e era estranho como, aps ter decidido que partia, lhe restava, de facto, to pouco que fazer.
Nessa tarde, despediu-se de todos na redaco da AP e mal conseguia falar quando se foi embora, pois, ao atravessar a praa s conseguia pensar em Ralph, em France 
e nos dois filhos. Dirigiu-se s "tolices, das cinco" pela ltima vez e, em seguida, foi at  esplanada do Hotel Continental Palace.
E os mendigos que rondavam por l j no a assustavam, mas apenas a deprimiam. Cruzou-se com Jean-Pierre e tambm se despediu dele. Mas no havia mais ningum com 
que se preocupasse. As pessoas que amara tinham desaparecido por motivos vrios.
Sentou-se e tomou uma bebida com Jean-Pierre, mas ele j estava bastante bem bebido e, por qualquer motivo, passou o tempo a falar-lhe de Nigel. H muito que ele 
morrera, e Paxton comeava a interrogar-se sobre se viria a acabar, caso ficasse, como Jean-Pierre, embriagada, confusa, sem objectivos, amarga.
Acontecia com frequncia aos que se mantinham por ali e, por outro lado, os que partiam no mais voltavam a ser os mesmos. Portanto, quem restava? Os que morriam? 
Os que ficavam inclumes depois da sua estada ali? Talvez ningum. Talvez fosse essa a concluso, para tudo isto. A de que ningum ganhava, nem nunca ganharia.
- Voltars? - Ele fitou-a, por instantes, quase sbrio entre duas bebidas, e Paxton abanou a cabea, desta vez com a certeza de que falava a srio.
Por mais difcil que o regresso se revelasse, j no tinha respostas ali, nem to-pouco perguntas. Tinha de voltar a casa e organizar a vida. E uma parte dela sabia 
que continuaria a incit-los quanto ao Tony. Mas talvez o pudesse fazer com mais eficcia de l. Havia outras pessoas nos Estados Unidos que se interessavam pelos 
homens que haviam perdido, quer como prisioneiros de guerra ou desaparecidos em combate.
- Tambm deveria voltar um destes dias - acrescentou Jean-Pierre, quase como se lhe tivesse ocorrido nesse instante.
No entanto e tal como ela, no tinha nada a esper-lo. As pessoas que ela amara tinham morrido Ah,  excepo de Tony e, de momento, tambm ele desaparecera, talvez 
para sempre. E at mesmo nos Estados Unidos nada seria o mesmo. A me morrera. E nada havia que a detivesse em Savannah.
Disse-lhe adeus e desceu a Tu Do at ao hotel. Sentiu um aperto enorme no corao ante os sons e os cheiros e riu quando olhou para a praa e avistou um militar 
a tentar ensinar um bando de garotos de rua a jogar softball ( Softball: Um derivado do basebol, jogado com uma bola maior e mais leve. - N. da T. ).
Em Tan Son Nhut, havia frequentemente jogos de softball e fora a alguns com Bill, mas Tony no apreciava muito esse desporto. Era um homem nervoso e gil de mais; 
gostava de conversar, pensar, discutir e filosofar, em vez de ficar sentado a ver as pessoas a jogar basebol.
Ensinara-lhe tanta coisa enquanto tinham estado ali. Sobre a vida, as pessoas, a guerra, e a cumprir os seus objectivos da melhor maneira possvel, mas essa faceta 
tambm fazia parte da sua personalidade. Lembrava-se, constantemente, de coisas que ele lhe dissera... ideias que haviam partilhado... e na noite em que tinham ajudado 
a fazer nascer a beb de France. Tudo isso se assemelhava, agora, a um sonho.
Atravessou a recepo do Caravelle, recordando-se da primeira vez que ele tinha vindo visit-la e de como se haviam sentido pouco  vontade, aps o difcil comeo. 
E de como tinham acabado por ser to felizes... do tempo maravilhoso passado em Hong Kong.
Continuava a usar o anel de rubi com o corao e sempre o faria. Tal como ainda usava a pulseira de Bill. E mantinha as chapas de identificao de Peter fechadas 
 chave com os seus documentos. Da mesma forma que outros usavam madeixas de cabelo, andavam com um pedacinho do uniforme de algum ou tinham pulseiras de desaparecidos 
em combate con, nomes de pessoas.
Eram tudo relquias de uma poca que lhes provocara tanta dor e ao mesmo tempo lhes oferecera o amor, uma poca que tanto custara e ainda no chegara ao final.
Via-se rodeada de fantasmas, enquanto fazia as malas, deixando alguns livros de lado. Destinava-os a alguns amigos. Pouco levava de precioso, exceptuando as recordaes 
de que ningum a privaria.
Na manh seguinte, apanhou um txi para a base de Tan. Son Nhut e esperou com os outros, a fim de voltar novamente para casa. Havia raparigas vietnamitas chorando 
pelos seus militares, e jovens altos, robustos e saudveis ansiosos por entrar no avio, bem como alguns feridos. Estes no eram, porm, os casos complicados, pois 
via-se-lhes as feridas, uma mo ligada, a falta de um brao, um par de muletas novinhas em folha. Os que regressavam sem marcas visveis constituam os mais difceis. 
As feridas existiam, como as de Paxton, s que no se viam.
Sobrevoaram Saigo em crculo, e ela susteve a respirao ao olhar para baixo.
- Chao ong - sussurrou, quando tomaram o rumo da ptria. - Adeus... Vietname... Adeus... Amei-te realmente...
Ao fechar os olhos, quase sentiu Tony, sentado ao seu lado. Sentia-se a cometer uma traio deixando-o ali, mas todos continuavam a insistir que ele desaparecera, 
e forara-se a acreditar tambm.
De qualquer maneira, no lhe restava alternativa. Tinha de regressar para assistir ao funeral da me. Era, contudo, estranho. No sentia nada por quem quer que fosse. 
No sentia nada de nada, exceptuando uma pedra no corao que fora outrora o lugar onde tinha amado Tony.
Sabia que ainda o amava, sempre o amaria, mas ele levara um pedao dela, como todos o haviam feito.
Fizeram uma nica paragem a meio do percurso e seguiram para So Francisco. No telefonou, todavia, para o jornal ou aos Wilson. Eles sabiam que ela ia voltar. Tinha, 
no entanto, de mudar de avio e continuar para Savannah. Dentro de dias regressaria a So Francisco, a fim de tomar decises sobre o seu emprego no jornal. Mas a 
coluna "Mensagem do Vietname" existira, continuara e terminara agora para sempre.
Eram quatro da tarde quando aterrou em Travis Field, em Savannah, pegou nas malas, fez sinal a um txi e indicou ao motorista o endereo da casa em que crescera.
Ainda tinha a chave e no havia ningum quando chegou. A nova empregada fora-se embora depois da morte da me, pois deixara de haver motivo para a manter. Telefonou 
a George quase a seguir a ter chegado e sentou-se, com um gemido de cansao, na cozinha familiar.
O frigorfico estava vazio e havia, surpreendentemente, muito pouca coisa nos armrios. Mas Paxton no se preocupou. Deixara de se preocupar com o que quer que fosse. 
E o regresso quela casa revelava-se mais doloroso do que tinha esperado. Estar ali representava uma recordao do que existira e deixara de existir e de algumas 
coisas que nunca tinham existido.
Tomou um duche, mudou de roupa e foi ter com George  sala do velrio na baixa da cidade. Enquanto se detinha a observar a me, somente sentiu pena. Pena pela mulher 
infeliz que ela fora, incapaz de prodigalizar amor durante a maior parte da sua vida ou de o receber.
Pelo menos, o pai tinha vivido e amara-a profundamente e talvez outros tambm. E Queenie dera tudo o que tinha para dar ... e Ralph levara uma vida em cheio... e 
at mesmo France ... e Peter e Bill... e Tony... mas aquela mulher somente frequentara os seus clubes e agora tudo chegara ao fim.
- Pareces cansada - sussurrou-lhe George.
O irmo vestia um fato escuro, e Paxton apercebeu-se de que tinha alguns fios de prata no cabelo, que lhe davam um ar muito distinto.
- Acabei de fazer uma viagem de vinte e seis horas - replicou, fitando-o tranquilamente.
George parecia-se tanto com a me. Mal lhe dera um beijo de boas-vindas, mal a abraara, nunca perguntara como se sentia e agora, depois de tudo por que passara, 
mostrava-se surpreendido que estivesse cansada.
- Pareces mais magra.
- Provavelmente estou - sorriu. - As coisas no Vietname podem ser um tanto arriscadas. - "Minas, atiradores, suicdios, indivduos desaparecidos em combate, sabes?", 
pensou.
Mantinham-se a falar tranquilamente junto do caixo da me.
- Como esto a Allison e os midos? - perguntou.
Tinham tido um segundo filho enquanto Paxton estivera ausente, e Paxton sentia-se muito distanciada de tudo isso.
- ptima. S no veio esta noite porque os midos esto doentes. - No interessava. A me nunca viria a saber.
Nessa noite, apareceram pessoas a apresentar condolncias, na sua maioria membros das Filhas da Guerra Civil. E, no dia seguinte, o funeral realizou-se, com pompa 
e circunstncia, na Igreja Episcopal de So Joo e o caixo foi transportado pelos maridos das amigas.
Tudo decorreu de uma forma respeitvel e conveniente, como a me teria desejado. E, em seguida, o nico desejo de Paxton era sair da cidade. Estar ali, na casa vazia, 
deprimia-a. Disse ao irmo que dispusesse da casa, que no lhe interessava minimamente; era incapaz de se imaginar de volta a Savannah.
- A no ser que tu e a Allison queiram mudar-se para l - sugeriu.
- No tem tamanho suficiente para ns - retorquiu delicadamente. - Queres algumas das coisas dela? - Havia alguns colares de prolas, um relgio de diamantes que 
o pai lhe oferecera, vrios pares de brincos, na sua maioria de valor sentimental, mas Paxton no aguentaria pr-se a passar as jias em revista.
- Manda-mas e guarda algumas para a Allison.
- Na verdade - pigarreou o irmo -, ela gostaria de ficar com as roupas da mam e o casaco de peles. - Este tinha uns dez anos e estava tristemente fora de moda; 
Paxton, fitou o irmo com um misto de pena e tristeza, apetecendo--lhe responder que comprasse um casaco novo  mulher, mas absteve-se.
- Por mim tudo bem. - Paxton era um pouco mais alta do que a me e teria odiado a ideia de usar as roupas dela. Nada disso era importante aos seus olhos.
- O que vais fazer agora? - perguntou  irm, que nunca conhecera realmente. Continuava sem entender porque  que ela passara a maior parte dos dois ltimos anos 
no Vietname, embora tivesse ficado surpreendido por ela escrever to bem e com o sucesso obtido pela sua coluna quando tinha sido publicada nos jornais da Jrgia.
- Ainda no sei - replicou, fitando-o com um suspiro.
Interrogava-se sobre o que Tony teria achado do irmo, concluindo, de imediato, que se teriam odiado um ao outro. Tony era demasiado franco e directo, demasiado 
honesto para aguentar a imbecilidade de George.
- Volto amanh a So Francisco - prosseguiu -, e terei de ver o que me propem. De qualquer maneira, acho que, durante uns tempos, e tal como a maioria dos militares 
que regressam do Vietname, serei uma inadaptada. Foi como me senti no ano passado.
- E no tencionas regressar? - inquiriu, fitando-a e interrogando-se sobre quem ela era e se alguma vez a tinha conhecido; Paxton poderia ter respondido que no.
- No me parece. Acho que, agora, terei de ficar por c.
- Nunca cheguei a compreender porque  que partiste... Excepto... bom, aquele rapaz que morreu... Mas isso no era motivo para ires para Saigo.
- Talvez no - anuiu. S que esse facto a mantivera l durante dois anos. A tristeza por causa da guerra, a necessidade de contar como era, a necessidade de permanecer 
por l.
- De qualquer forma, informar-te-ei da minha deciso prometeu.
Deu-lhe as boas-noites e o irmo mal a beijou quando se despediu. E, de manh, quando saiu, Paxton trancou a porta e meteu a chave na caixa do correio. No precisaria 
mais dela e pedira-lhe que mandasse as suas coisas depois de lhe indicar onde ficaria em So Francisco.
Porm, sentia-se como uma cigana quando partiu. Era uma pessoa sem casa, sem razes nem destino demarcado. E, caso o irmo tivesse reflectido, acharia estranho que 
algum que passara uma vida inteira sob um telhado, ficasse, subitamente, to desenraizada. Outros, que regressavam do Vietname, faziam tambm o mesmo. Voltavam, 
mas ignoravam para onde ir ou o que fazer, ou o que aconteceria quando l chegassem.
A sensao ainda no desaparecera quando apanhou o avio para So Francisco e se registou num pequeno hotel. Desta vez no havia uma suite no Hotel Fairmont, nem 
tinha um convite dos Wilson para jantar.
E, depois de meditar no assunto uns dias, resolveu no telefonar a Gabby. Ignorava pura e simplesmente o que lhe dizer. O que poderia contar-lhe... sobre Ralph... 
sobre Bill... sobre Tony?... Como se explicava tudo isso a algum que se mantivera tranquilamente sentado em casa, indo a jantares e jogos de futebol, e ao cinema? 
No se explicava.
Foi visitar Ed Wilson ao jornal e falaram sobre os planos dela. O melhor que ele tinha para lhe oferecer era uma coluna baseada em eventos locais. Em certos aspectos, 
tratava-se de uma cidade pequena e de um jornal pequeno.
_ Hoje em dia o ambiente est mais tranquilo - arguiu. - As pessoas deixaram de querer ouvir falar da guerra, Paxton. Esto cansadas dela. Esto cansadas do barulho, 
das manifestaes, das queixas. Acho que a poca  de calma.
Todavia, enganava-se. No estava a tomar em considerao o impacte dos quatro estudantes mortos e dos quatro feridos pela Guarda Nacional numa manifestao contra 
a guerra, na Universidade Estatal de Kent, no Ohio. E provou-se aquilo em que Paxton, ainda acreditava. Que algumas pessoas continuavam a interessar-se, e o pas 
ainda se ressentia da ferida aberta no Vietname e que ignorava como sarar.
Porm, The New York Times facilitou a deciso. O Morning Sun tratara-a com decncia. E Ed Wilson dera-lhe uma oportunidade em Saigo, quando ela era ainda to verde 
como a paisagem que a rodeava.
S que recebeu uma proposta do Times para ir a Paris fazer a cobertura das conferncias de paz. Queriam que fosse a Nova Iorque primeiro discutir o assunto com eles, 
mas Paxton sentiu-se muito lisonjeada com o salrio e a oferta. Referiram-se de forma muito simptica  coluna que ela escrevera para o Sun e pareciam consider-la 
uma especialista.
Era um tanto difcil acreditar, e ela quase riu como uma criana ao pousar o auscultador. Desejou poder contar a Tony e pensou nele durante toda a noite, comunicando 
silenciosamente com ele, onde quer que estivesse.
Nessa noite, quando adormeceu, sonhou com ele, vendo-o rastejar atravs da selva e de arbustos e escondendo-se em tneis. Ao acordar, sabia que se tratava apenas 
de um sonho. No entanto, continuava com aquela sensao de que ele no estava morto, mas ainda vivia. Questionava-se, por vezes, sobre se isso se deveria a ser incapaz 
de suportar a morte. De qualquer maneira, a sensao era real.
Ed Wilson congratulou-se quando ela lhe falou na oferta do Times. E aliviado. Pressentia que, se ela ficasse, tornar-se-ia um problema.  semelhana de muitos jovens 
que regressavam a casa, parecia ignorar o que fazer de si, ou o que realmente desejava.
Era quase como se o Vietname lhes tivesse sugado as foras, os objectivos e o rumo. Arrancara-lhes a coragem e as entranhas e levara tudo o mais. Ou talvez fosse 
das drogas, pensou. Talvez fosse isso.
No entanto, e independentemente do que pudesse ser, estava contente por ela se ir embora. No era a mesma rapariga e sabia-o. Era amarga, era forte, estava triste 
at ao mais fundo do corao e, numa parte secreta dela, ainda lhe detectava raiva.
Desejou-lhe sorte, e Paxton mandou saudades a Mrs. Wilson e a Gabby. No vira nenhuma delas quando partiu e, de certa maneira, tornava-se um alvio ver-se liberta 
de fingir que continuava a atribuir importncia s mesmas coisas do que elas. A verdade era que no atribua.
Em Nova Iorque, teve vrias entrevistas no Times e instalaram-na num hotel chamado Algonquin. Estava cheio de jornalistas, escritores e dramaturgos, alguns homens 
de negcios, e tratava-se de uma multido interessante que entrava e saa, embora no falasse com ningum.
E agradou-lhe o que o Times tinha a dizer sobre o que pretendiam dela. Queriam a verdade e o que quer que visse em Paris. Queriam as conferncias de paz e uma entrevista 
com  o tenente Calley antes de partir, bem como tudo o mais que conseguisse pensar a respeito do Vietname e do que presenciara por l.
Queriam palavras fortes e o gnero de reportagem que enviara quando partia em misses com Ralph a An Loe e Da Nang, Long Binh e Chu Lai e a outros lugares, que tinham 
acabado por significar tanto aos seus olhos nos ltimos dois anos que ali passara.
Queriam tudo. O passado, o presente e o futuro, at que, finalmente, a guerra chegasse ao fim. Queriam consider-la a sua editora na questo do Vietname, e Paxton 
sabia que no podia ter recebido melhor oferta.
- Quando comeo? - perguntou com uma expresso entusiasmada.
- Amanh - respondeu o editor chefe com um sorriso satisfeito.
Tinham receado que ela no aceitasse a incumbncia. Muitas pessoas sentiam um pnico de morte relativamente a esta questo.
- Porque  que no comea pela pea do Calley na prxima semana? - sugeriu. - Usaremos dois canais apropriados para a fazer chegar l. E, mal acabe, pode apanhar 
o avio para Paris. Que tal lhe parece?
- Maravilhoso. - Se  que poderia chamar-se "maravilhoso" a entrevistar um homem acusado de atrocidades de guerra.
Sentia-se, no entanto, contente por dispor de algum tempo. Havia algo que desejava fazer em Nova Iorque, antes de entrevistar o tenente Calley.
Vagueou durante um dia por Nova Iorque, sentindo-se como quando descobrira Saigo pela primeira vez, investigando novos lugares e cheiros, observando as pessoas, 
o movimento e o trnsito. Comprou algumas roupas de que muito precisava, sobretudo se ia, na verdade, tornar-se uma "autoridade" sobre o Vietname para The New York 
Times.
Por fim, regressou ao hotel e telefonou-lhe. Sentou-se na cama, fechou os olhos, susteve a respirao e rezou uma pequena orao a Tony, esperando que ele no se 
importasse. Achava, porm, que ele no se importaria e sabia que tinha de faz-lo.
Ligou para o servio informativo de Queens, soletrou o nome trs vezes e, por fim, descobriram-no em Great Neck, em Long Island. Thomas Campobello. Rezou para que 
fosse ele. Mas tinha de ser. No haveria, certamente, muitos Thomas Campobellos.
Marcou o nmero, o telefone tocou e, pelo espao de um minuto, julgou que ningum responderia; por fim, uma voz respondeu. Era uma mulher.
- Mistress Campobello, por favor. - Era estranho pensar que, em circunstncias diferentes, este poderia ter sido o seu nome, mas no conseguia pensar nisso agora.
-  a prpria - respondeu uma voz muito nova-iorquina, mas parecia jovem e razoavelmente simptica.
Paxton, sabia que, excepto se fosse a me de Tony, tinha de ser Brbara.
- Mistress Campobello? Brbara Campobello?
- Sim - anuiu, comeando a parecer nervosa. - Quem fala? - Talvez se tratasse de um daqueles falsos inquritos, em que se punham com conversas sujas.
- Sei... Sei que  um telefonema estranho, mas eu... -"Oh, por favor, no desligue, por favor!" - Conheci o seu ex-marido no Vietname. - Seguiu-se uma pausa infindvel, 
e as duas mulheres conservaram-se sentadas, nos respectivos lados da linha, tremendo. - Eu... ramos muito bons amigos e... se algo lhe acontecesse, queria que lhe 
telefonasse... a si e ao Joey.
Era mentira, mas no totalmente. Uma vez, a altas horas da noite, ele pedira-lhe que olhasse pelo filho, se algo acontecesse. S no mencionara o nome da me. No 
entanto, Paxton achava que teria mais hipteses se acrescentasse Mrs. Campobello.
- No pretendo intrometer-me numa altura destas, mas estou casualmente em Nova Iorque e... - Hesitou.
- Como o conheceu? - Quase sussurrava, como se o nome dele fosse proibido.
ramos... - Ignorava o que dizer. Amigos ntimos... e... ele gostava muito do Joey... Tenho a certeza de que o sabe.
- H cinco anos que no o via - retorquiu amargamente, mas Paxton sabia mais do que ela esperava.
- No tinha voltado aos Estados Unidos, Mistress Campobello. Depois do que aconteceu... acho que se sentia incapaz... - Um pouco de culpabilidade no iria mat-la. 
J tinham passado quase seis anos e ela tinha mais trs filhos do irmo de Tony. Que diferena faria, se a ajudasse a chegar a Joey? - Achava que o Joey era muito 
feliz consigo e com o seu marido.
- E  - defendeu-se, e Paxton sentiu que ela estava a perder terreno.
- Ele sabe o que aconteceu ao pai no Vietname?
- Apenas que desapareceu em combate. De vez em quando, costumava escrever ao Joey. Nunca guardmos qualquer segredo. Sempre lhe entreguei as cartas - replicou, tentando 
ilibar-se. - Acho que ficou perturbado quando lhe comunicmos a morte do pai. Qualquer mido ficaria. Mas  muito reservado e no fala muito.
" Quem falaria, se a me casasse com o tio e no se voltasse a ver o pai?", pensou Paxton. Achava, porm, interessante que Mrs. Campobello considerasse a situao 
de desaparecido em combate de Tony como uma declarao incontestvel de que ele morrera no Vietname.
- Posso falar-lhe? - No havia mais nada a dizer. - Importava-se?
- O que quer dizer-lhe?
- Que o pai o amava. Que lamento. Como ele era. Era um dos homens mais corajosos do Vietname. Fazia parte de uma unidade que tinha a designao no oficial de ratos 
de tneis e costumavam descer a esses tneis incrveis que os Vietcongues construam para enganar as nossas tropas e o Exrcito Vietnamita do Sul. Talvez achasse 
tudo isso fascinante e um motivo de orgulho - respondeu Paxton, calmamente.
- Sim.  possvel - replicou Brbara Campobello. E acrescentou: - Tenho de perguntar ao meu marido. Como disse que se chamava?
- Paxton Andrews.
- E conheceu-o no Vietname?  enfermeira ou algo no gnero?
- No. Era correspondente de um jornal em So Francisco. Agora trabalho para The New York Times e, dentro de dias, parto para Washington, Jrgia e Paris.
Debitou tudo isto para a impressionar e conseguiu. Raios, talvez escrevessem uma histria sobre Tony, a sua ex-mulher e o filho...
Paxton acertara no alvo e apenas se interrogava sobre o que  que Tony vira numa mulher provinciana daquelas; porm, s tinha treze anos quando se haviam apaixonado 
e dezoito quando casaram, o que melhorava a situao.
- Posso voltar a telefonar? - pressionou-a Paxton.
- Ns telefonamos. Qual  o seu nmero?
- Estou no Hotel Algonquin, em Manhattan.
- Telefono-lhe esta noite.
- Obrigada - agradeceu e, em seguida, mais suavemente: - Prometo que tentarei no o perturbar... S quero v-lo... pelo Tony, porque prometi.
De certa maneira era verdade, mas tambm ela queria v-lo, pois Joey era uma parte de Tony. E a me do mido detectou-lhe algo na voz e hesitou um longo momento 
antes de perguntar:
- Estava apaixonada por ele?
- Sim, estava - anuiu Paxton, depois de uma pausa ainda maior.
Sentia-se orgulhosa de que assim fosse, mas achava que a mulher no tinha nada a ver com isso. S que, estranhamente, formou-se um elo entre ambas.
- Tambm estive, h muito tempo. Era um bom homem... e um bom pai. Tnhamos uma menina... Morreu... Talvez o Tony lhe tenha contado. Acho que foi o que ps termo 
ao nosso casamento. Ningum teve culpa do que lhe aconteceu. Mas, sempre que olhava para ele, pensava nisso. Ele ficou to destrudo que eu no conseguia esquecer. 
E o Tommy... Bom, fez com que me sentisse melhor.
- Sim, contou - admitiu Paxton, num sussurro.
"Aposto que sim", pensou Paxton, mas tambm suspeitava que existia algo de verdade nas palavras dela. O prprio Tony admitira que estava to minado pelo desgosto 
e, em seguida, to obcecado com Joey depois de ele nascer que fizera mal ao seu casamento.
Portanto, ela no estava completamente errada. Mostrara-se, contudo, insensata na escolha do segundo marido. E a sua falta de tacto impelira Tony para o Vietname 
e privara Joey do pai. Mas quem era ela para emitir juzos? Se Barbara Campobello no tivesse casado com o cunhado, Paxton nunca teria encontrado Tony em Saigo.
- Lamento - repetiu Paxton.
- Sim Eu telefono.
Em seguida, desligou, e Paxton passou o resto da tarde no Metropolitan Museum. Quando regressou ao hotel, havia uma mensagem da me de Joey. Paxton telefonou-lhe 
logo e verificou, surpreendida, que ela a convidava para aparecer na manh seguinte.
Era sbado, e Joey no teria escola. A prpria me de Tony estaria presente e queria conhecer Paxton. Barbara omitiu que o marido estava furioso, mas ela vincara 
que o deviam a Tony e a Joey, mais isto e aquilo, que ela era uma correspondente importante de The New York Times, que talvez armasse um grande sarilho se no a 
deixassem ver o mido, dado ser o ltimo pedido de Tony...
O marido concordara, mas continuava furioso. Todavia, Barbara no se importara. Queria faz-lo. Deu instrues a Paxton de como ir at l. E, na manh seguinte, 
Paxton alugou um carro no hotel e dirigiu-se a Great Neck.
Quando chegou, estavam todos  sua espera. At mesmo Mrs. Campobello, a me, com um vestido preto, e trs meninas com vestidinhos cor-de-rosa. Pareciam enfeites 
de bolo e Paxton quase soltou uma gargalhada ao fit-las. Eram engraadas, mas to estranhas aos seus olhos que ignorava o que dizer. Era tudo um tanto inslito.
Barbara, a sogra e as meninas estavam c fora quando Paxton chegou e avistou, ao longe, um homem alto e bem constitudo, que no se aproximou. quela distncia, 
no conseguia ver se ele se parecia com Tony. E, de qualquer maneira, no parecia ansioso por conhec-la.
Em seguida, Barbara apresentou-a  sogra. E, quando Paxton a fitou, s conseguia ver Tony. Ela comeou a chorar mal Paxton lhe tocou na mo e falava com um marcado 
sotaque italiano.
- Conheceu o meu filho no Vietname? - inquiriu com voz trmula, no tanto da idade como da emoo.
- Conheci, sim - respondeu Paxton, que tambm se esforava por conter as lgrimas, enquanto Barbara se afastava com as filhas. - Era um homem fantstico. Tem razo 
para se orgulhar dele - acrescentou, num sussurro. - Era famoso em todo o Vietname pela sua coragem.
Exagerava um pouco mas no demasiado e sabia que as suas palavras significavam muito para a me de Tony. Depois, sentiu os olhos cheios de lgrimas, estendeu os 
braos e abraou a velha senhora.
- Se ele se foi embora, a culpa  minha... Devia ter impedido, mas no o fiz.
- Seria impossvel - confortou-a Paxton, sabendo o que queria dizer.
Todos haviam sido to culpados, todos eles. Durante anos pensara que era culpada pela morte de Peter... de Bill... e agora de Tony? Matara-os a todos? Ou fora Charlie?
- O Tony no tinha ressentimentos contra ningum - tranquilizou-a Paxton. - Era feliz.
Mrs. Campobello assoou-se e esboou um aceno de cabea, depois do que fitou Paxton, com uma expresso interessada.
- Era namorada dele?
Paxton sorriu ante o termo e confirmou com um aceno.
- Era um homem maravilhoso e amava-o muito.
Interrogou-se, em seguida, porque  que continuaria a falar no passado. Para manterem a sanidade mental, todos continuavam a fingir que sabiam que ele estava morto, 
mas no o sentiam.
-  uma bela rapariga - elogiou a me. - O que estava a fazer por l? - inquiriu entre a curiosidade e a desaprovao.
- Escrevo para um jornal. Foi assim que o conheci. - Depois, sorriu e acrescentou: - No comeo, discutamos muito. - A me sorriu, igualmente, por entre as lgrimas 
ante a confisso.
- Ele tambm discutia comigo. Quando era mido, punha-me doida. - Ia a dizer que no era como o Tommy, mas pensou melhor e calou-se. Deus j a tinha castigado por 
isso, pois Tommy ainda estava ali e Tony no.
Barbara Campobello voltou e fitou Paxton.
- O Joey est l dentro, se quiser falar-lhe.
- Seria ptimo - redarguiu Paxton,  Barbara levou-a at  porta da frente.
Barbara tivera, obviamente, uma boa figura e era dona de um rosto atraente, mas parecia endurecida e um tanto desapontada. Paxton seguiu-a at ao interior da casa. 
L estava ele, sentado no sof, vestido com calas de ganga, uma camisa limpa e um bon de basebol; fitou-a precisamente com a mesma expresso de que acabara por 
gostar tanto no pai.
- Ol - cumprimentou tranquilamente e verificou, surpreendida, que Barbara saa, com discrio, at junto dos outros. - Chamo-me Paxton.
Joey ergueu os olhos na sua direco, e ela sentou-se numa cadeira ao lado dele.
- Conheci o teu pai no Vietname - prosseguiu. - Pediu-me que te visitasse se alguma vez passasse por aqui. E, como estou na cidade, pensei vir at aqui falar contigo.
O mido esboou um aceno de concordncia, interessado nela, parecendo-se tanto com o pai que a assustou.
- Ests a escrever uma histria sobre o meu pap? - perguntou. - Foi o que disse a mam.
Paxton apressou-se, no entanto, a abanar a cabea.
- No, Joey - replicou, pois queria ser honesta com ele, to honesta como fora com Tony. - Estou aqui, porque o amava. E ele amava-te muito... na verdade. - Sorriu 
por entre as lgrimas. - ... Ainda o amo. Ainda s regressei do Vietname h umas semanas e desejei logo visitar-te.
- O que aconteceu? - inquiriu Joey, num tom quase acusador. - Como  que ele morreu?
- Nem sequer tm a certeza de que tenha morrido. Apenas sabem que desapareceu em combate. Isto significa que houve uma batalha, ele perdeu-se e nunca mais voltou.
Pode estar vivo, pode estar morto, pode ter sido ferido e estar prisioneiro dos vietcongues, mas ningum sabe.
- Uau! - exclamou, parecendo excitado e endireitando-se no sof. - Ningum me contou isso! - Tinha oito anos, e Paxton achou que lhe cabia o direito de saber e por 
isso lhe dissera.
- Ningum sabe de nada. Acham que pode estar morto. E h muitas hipteses de que assim seja. Mas a verdade  que no tm certezas.
Joey fitou-a sem desviar o olhar e fez a pergunta mais dificil de todas: 
- Que achas? 
- Que acho? - repetiu, interrogando-se sobre se deveria ser sincera. Em seguida, decidiu-se a faz-lo. - No sei explicar-te porqu e talvez me engane, mas acho 
que ainda est vivo. Sinto-o c dentro... Talvez o amasse tanto que no quero que ele morra. Talvez seja esse o motivo que me leva a sentir assim. Mas sinto.
O mido fez um aceno de cabea, absorvendo as palavras, e aproximou-se um pouco mais.
_ Tens retratos dele? - Paxton teve vontade de bater em si prpria por no as ter trazido. Nem sequer pensara no assunto.
Tenho. No hotel. Mando-te cpias, quando chegar a Paris.
O mido voltou a acenar, satisfeito com a promessa.
- Vais regressar ao Vietname?
- No me parece.
- Deve ter metido muito medo, hem? - redarguiu.
Chegou-se depois um pouco mais, fascinado por ela, pela sua beleza e pelo facto de ter conhecido o pai. No havia ningum com quem pudesse falar dele. A me reagia 
constantemente como se qualquer conversa sobre o pai fosse um crime e, sempre que o mencionava  av, ela chorava e o pap gritava. Paxton era, contudo, uma emissria 
directa do pai, e Joey podia dizer o que lhe apetecesse.
- Muito - sorriu-lhe Paxton. - Mas nem sempre. Tambm tivemos bons momentos. E ele falava muito de ti - acrescentou e, ao ver que o rosto se lhe iluminava, sentiu 
vontade de estender a mo e fazer-lhe uma festa.
- A srio?
- Sim. A toda hora. Costumava mostrar-me a tua fotografia. Queria voltar a casa e fazer-te uma visita. - Mas no tivera oportunidade. Desaparecido aos trinta e um 
anos, havia muita coisa que nunca faria.
- Vens ver-me outra vez? - perguntou Joey num tom esperanado, aproximando-se ainda mais e, por fim, estendendo a mo para lhe tocar no cabelo, que era to liso 
e louro e to diferente do da me.
- Gostava muito, se a tua mam e o teu padrasto no se importarem.
Joey fez uma careta.
- Ele no  o meu padrasto,  meu tio! - sussurrou.
- Eu sei. O teu pai disse-me - respondeu Paxton no mesmo tom.
- Contou-te tudo, hem?! - exclamou e, em seguida, riu-se.
Tinha uma nova amiga e gostava mesmo dela. Paxton passou-lhe a mo pelo cabelo, acariciou-lhe o rosto e tinha-lhe rodeado a cintura com o brao quando a me regressou.
- Foi uma visita ptima - redarguiu Paxton, agradecida por ela no se ter oposto  sua presena. - E vou mandar ao Joey algumas fotografias do pai, quando chegar 
a Paris.
- Isso mesmo - confirmou o mido.
Saram para fora, caminhando devagar e de mos dadas. Agora, era como se pudessem comunicar sem palavras. E, antes de se ir embora, Paxton abraou-o e apertou-o 
de encontro ao corpo.
- Lembra-te de quanto ele te amava - disse.
Joey esboou um aceno com lgrimas nos olhos, e Paxton voltou a apert-lo, recordando-se do que se sentia ao ficar-se sem pai, mas no dissera nada disso ao rapazinho.
- Volto a telefonar-te - prometeu.
- Okay.
Avistou, ento, o padrasto que se mantinha perto, a observ-lo. Era alto e moreno, mas no se parecia nada com o irmo, nem veio ao seu encontro para lhe apertar 
a mo e travar conhecimento. Regressou  garagem e voltou a interessar-se pelo que estava a fazer.
Paxton agradeceu novamente a Barbara Campobello, deu um beijo de despedida  me de Tony, e elas desejaram-lhe boa sorte em Paris, quase como se a conhecessem.
- Mandar-te-ei as fotografias - voltou a prometer a Joey, e ele continuava a dizer-lhe adeus quando dobrou lentamente a esquina, pensando nele e em como era triste 
que nunca viesse a conhecer o pai.
CAPTULO 27

Chegou a Paris num belo dia de Primavera, uma semana depois de ter viajado a Washington para se avistar com entidades oficiais do Pentgono e Fort Berining, a fim 
de entrevistar o tenente Calley.
A entrevista com ele tinha sido breve e, em certos aspectos, muito dolorosa. Ele estava quase a tornar-se um smbolo da guerra e do descontrolo americano, da brutalidade 
e tristeza causadas e, ao pensar em tudo isto mais tarde, Paxton sentiu pena dele, de todos, de tudo o que acontecera.
Paris sarou, contudo, algumas das suas feridas e descobriu um estdio simptico prximo do Sena.  noite, passeava sozinha, pensando em como aquela vida era diferente 
da que levara em Saigo.
Ali tinha uma vida solitria, austera e grave, tendo assistido diariamente s conferncias de paz e entrevistado personalidades como Kissinger e Le Duc Tho.
E, em Saigo, embora tivesse passado momentos difceis, a sua vida revelara-se mais feliz e facilitada do que agora, somente cheia de recordaes de um lugar que 
no mais veria e dos homens que amara.
Enviou as cpias das fotografias a Joey, e ele escreveu-lhe com uma caligrafia cuidada, agradecendo-lhe. De vez em quando, ela mandava-lhe um postal de Paris.
Encontrava-se a par de todas as notcias relacionadas com o Vietname e, em Outubro, as baixas americanas eram menores do que at a. Mesmo assim, teria sido melhor 
saber que tudo acabara.
Mantinha-se em permanente ligao com os conhecimentos que fizera para saber se havia notcias dos desaparecidos em combate, mas nunca obteve qualquer informao 
sobre Tony. Nessa altura, deixara de acalentar esperanas, mas aquela estranha sensao nunca a abandonava. De certa maneira, achava que era porque ele sempre estaria 
vivo na sua mente. Contudo, no final do ano, quase a tinham convencido de que era intil.
Em Novembro, o Times mandou-a novamente de avio a Fort Berming, na Jrgia, para assistir ao julgamento de Calley, e foi tudo muito deprimente, com fotografias horrveis 
e testemunhos assustadores, que levaram finalmente  sua condenao.
Depois do julgamento, foi visitar o irmo e, como sempre, quase nada tinha para lhe dizer, nem sequer se dando ao esforo de se entender com Allison.
Em seguida, viajou at Washington para mais uma entrevista a Kissinger. E avistou-se, depois, com a sua editora em Nova Iorque. Telefonou e fez outra visita a Joey 
e, desta vez, levou o mido a almoar.
Ele acabara de fazer nove anos e ainda se parecia mais com Tony. Levou-o ao Rdio City Music Hall, e antes tiveram um almoo de adultos. Paxton levou-o ao 21 e ele 
mostrou-se excitadssimo quando ergueu os olhos e deparou com todos os avies pendurados junto ao bar.
O chefe de mesa reconhecera-lhe o nome, pois era um dedicado leitor de The New York Times e satisfizeram-lhe todos os caprichos, oferecendo uma mochila a Joey com 
a inscrio "21 ".
-  um lugar fantstico - comentou, admirando-lhe o gosto e ela sorriu. - Achas que o paizinho teria gostado disto?
- Acho que teria adorado. Algumas vezes, costumvamos falar de voltar a Nova Iorque. Ou ir at So Francisco. Era onde eu vivia dantes. Frequentei a universidade 
l.
Joey mostrou-se muito impressionado e pediu-lhe que lhe contasse tudo a esse respeito. Quando estavam a acabar a sobremesa, fitou-a com uma expresso sria.
- O meu pai... o meu outro pai, quero dizer... Sabes, o meu tio...
Paxton esteve prestes a soltar uma gargalhada ante aquela atrapalhao e sabia que Tony tambm teria rido. Na verdade, quase teria gostado.
- ... Ele diz que tudo o que disseste no  verdade... Sobre o meu pai poder estar vivo, porque desapareceu em combate. Diz que provavelmente est morto e tu s 
doida.
- Pode ter razo. De facto, talvez tenha razo nas duas coisas - retorquiu Paxton, tentando sorrir. - No entanto, Joey, a verdade  que ningum sabe - prosseguiu. 
-  assim quando se desaparece em combate. Alguns dos homens que desapareceram foram feitos prisioneiros. Mas nem isso sabemos a respeito dele. Mantenho-me atenta, 
telefono para o Pentgono sempre que posso, mas o nome do teu pai no consta da lista de prisioneiros. E nunca descobriram o corpo prximo do stio em que morreu. 
Portanto, a verdade  que ningum sabe.
Era difcil para ele. Era difcil para todos. Era mortificante no saber o que acontecera.
- Ento, isso quer dizer que ele pode estar vivo, no quer? - inquiriu, parecendo novamente esperanado. No entanto, depois de reflectir mais a fundo no que ouvira, 
ficou outra vez deprimido.
Mas o meu pai... o meu tio... diz que ele est morto. Achas que est, Paxton?
- No - respondeu, abanando a cabea e fitando-o honestamente. - No, Joey.
Pegou-lhe na mo e agarrou-a com firmeza, continuando a pensar quanto ele se parecia com Tony.


CAPTULO 28

Paxton esteve ocupadssima ao longo de 1971 e passou a maior parte do ano em Paris. Continuava a acalentar esperanas relativamente s conferncias de Paris e transmitiu 
essa sensao em muito do que escrevia para o jornal. No entanto, a guerra prosseguia.
E, no Vietname, as tropas comeavam a revoltar-se. Estavam cansadas da guerra e parecia haver mais problemas de insubordinao frente aos oficiais do que quando 
l estivera. Os casos de granadas que atingiam "por engano" os oficiais eram cada vez mais vulgares.
As questes raciais tambm eram agora mais tensas. E, em Fevereiro, o ARVN iniciou operaes rio Laus, destinadas a destruir partes da pista de Ho Chi Minh.
E, sempre que fazia indagaes, em qualquer sector, nunca havia notcias de Tony.
Em Maro, Paxton regressou aos Estados Unidos para o resto do julgamento de Calley e assistiu  sua condenao. E estava em Washington quando se realizou a enorme 
manifestao dos Veteranos do Vietname Contra a Guerra' em que alguns dos homens atiraram as medalhas para os degraus do Capitlio. Escreveu sobre o assunto para 
o Times e, em seguida, regressou de avio a Paris.
Ainda estava em Paris quando o chamado "Dossier do Pentgono" foi tornado pblico por Daniel Ellsberg, em junho. E tambm em julho, quando Nixon anunciou a viagem 
de Kissinger  China. E, quando Thieu foi reeleito presidente do Vietname do Sul, em Outubro de 1971, ainda estava ocupada a fazer a cobertura das conferncias de 
paz. Por fim, em Dezembro, teve a satisfao de escrever que as tropas americanas no Vietname tinham descido para cento e quarenta mil homens, menos de um tero 
do que eram, quando ela l estivera, dezanove meses antes.
E, ao longo desses dezanove meses, no recebera nenhuma notcia sobre Tony Campobello. As provas falavam, agora, por si prprias. Se tivesse sido feito prisioneiro 
ou ficado ferido em qualquer lado, decerto algum j saberia por essa altura. Deixara de poder oferecer mais esperanas a Joey e, contudo, quando ele a interrogava, 
quando falavam ou quando ela lhe telefonava, punha-o sempre a par do que sentia, ou seja, que o pai se encontrava vivo.
Nessa altura, o mido j tinha dez anos e conseguia entender melhor. Falara-lhe do seu prprio pai, o que firmou uma aliana especial entre ambos. Os dois tinham 
crescido rfos de pai.
Para ela, no final de 1971, a vida era interessante mas estranha. Tinha vinte e cinco anos, era muito bonita e extraordinariamente admirada em Paris. Por outro lado, 
era como se uma parte da sua vida no existisse, nem nunca tivesse existido. Vivia em funo do trabalho e de um rapazinho de quem passara a gostar, em Great Neck.
Ele era o nico amor da sua vida. O resto eram recordaes e fotografias que conservava numa mesa da sala de estar. Peter.. Bill... Ralph... France... Pax... An... 
e, sem dvida, Tony. Era uma estranha galeria de pessoas que tinha amado e perdido, num lugar onde sabia que jamais iria regressar e de que, bizarramente, sentia 
saudades.
Sentia saudades do que vivera, das pessoas e do que fora quando todos existiam. Obtivera, contudo, muito sucesso na sua actividade e era muito respeitada. E invadia-a 
um tipo de felicidade estranha. No era felicidade mas satisfao, e continuava a sentir-lhe a falta. Ainda usava o anel de rubi no dedo.
Em 1972, custou-lhe saber a perturbao que reinava no Vietname. As conferncias de paz no haviam produzido resultados. E, em Maro, os vietnamitas do Norte atravessaram 
a zona desmilitarizada com tanques e iniciaram uma marcha para sul pela Auto-estrada Um, num surto de terror.
Em Maio, esta mesma auto-estrada apresentava-se pejada de refugiados e militares. O ARVN do Sul no se comportou  altura das tropas do Norte, os civis eram constantemente 
assassinados, as crianas queimadas e as mulheres morriam. As fotografias que viu, tal como o resto do mundo, sobretudo na revista Times, eram horrveis.
Uma segunda vaga de ataques devastou as Highlands Centrais, com repercusses idnticas no Norte. Por todo o lado, havia pessoas sem ptria e a morrer de fome.
Os Americanos tentavam escapar-se e virar a guerra contra o ARVN, o Exrcito sul-vietnamita, e estavam a perder.
Um terceiro ataque em Abril, prximo da fronteira do Camboja, a norte de Saigo, humedeceu os olhos de Paxton quando leu os relatrios da AP. Trs mil soldados vietnamitas 
invadiram An Loc e conquistaram toda a provncia.
Comeava a tornar-se claro que a "vietnamizao" do Vietname era um gracejo, mas um gracejo de alto custo, e ningum no Vietname se ria.
A meio de Abril, Nixon autorizou o bombardeamento de zonas prximo de Haiphong e Hani e, pela primeira vez em dois anos, Paxton sentiu-se agradecida por no ter 
continuado no Vietname. Comeava a gerar-se a pergunta sobre se algum sobreviveria. E uma carnificina geral no fazia sentido.
Paxton podia ser mais til ali em Paris. Mas tambm se sentia extremamente preocupada com o que aconteceria a Tony, se estivesse prisioneiro ou escondido, algures, 
na regio. Com os permanentes ataques do Exrcito norte-vietnamita, todos os prisioneiros americanos no Vietname encontravam-se em alto risco. Mantinha, contudo, 
a esperana de que, decorridos dois anos, Tony se encontrava entre eles em algum lugar.
A nica coisa que lhe prendeu a ateno aps a queda de Quang Tri, em Maio, foi a priso, em junho, dos cinco homens que haviam assaltado o Edifcio Watergate, em 
Washington.
Nos Estados Unidos, era o assunto do dia e, embora Paxton ainda estivesse em Paris nessa altura, escreveu um editorial com muita graa que o Times publicou e lhe 
valeu muitos comentrios favorveis.
Estava a tornar-se lentamente uma espcie de estrela, mas era um aspecto da sua vida que pouco tomava em considerao. Adorava o seu trabalho, mas em nada lhe interessavam 
os elogios. A sua misso na vida residia em informar, cortar mentiras e silvas com uma espada de verdade, e os seus amigos jornalistas troavam dela e chamavam-lhe 
fantica.
No tinha, porm, qualquer interesse em adquirir fama. E o facto de Kissinger, Nixon e jornalistas influentes de todo o mundo a terem em grande considerao, agradava-lhe, 
embora no achasse de importncia primordial. Apenas lhe interessava que o que escrevia "agitasse a opinio".
O armistcio em Paris ocorreu, finalmente, em Outubro de 1972 como resultado de encontros entre Kissinger e Le Duc Tho, embora poucos o soubessem.
Em 21 de Outubro, os Norte-Vietnamitas aprovaram o plano de paz proposto e, cinco dias depois, o prprio Kissinger prometeu, por parte da Casa Branca, que "a paz 
est  vista". No entanto, o presidente Thieu do Vietname do Sul recusou assinar o acordo e recusou tambm permitir que as tropas do Norte permanecessem no Sul, 
com receio do que pudessem fazer por l.
E, menos de duas semanas depois, o presidente Thieu exigiu sessenta e nove emendas ao acordo que poderia trazer a paz ao Vietname, e Paxton, juntamente com outros 
importantes jornalistas, lamentou. A situao comeava a tornar-se novamente desesperada.
As conferncias pararam e recomearam por todo o ms de Dezembro. Verificaram-se bombardeios americanos a alvos militares e promessas de que menos civis seriam atingidos.
Hani mostrou-se disposta a conferenciar, se os bombardeios parassem. Verificaram-se trguas num nico dia, no Natal. Hani voltou a pronunciar-se. Por fim, em 30 
de Dezembro, os bombardeios pararam novamente e retomaram-se as conversaes.
Bob Hope deslocara-se ao Vietname para ali fazer o seu espectculo de Natal pela ltima vez. Mas, nesse ano, Paxton no pensou nele. Encontrava-se totalmente absorta 
pelas conferncias de paz em Paris e por todas as informaes que pudesse obter de fontes muito elevadas, algumas delas em Washington.
Nesse ano, o ponto alto da poca festiva foi um telefonema de Joey, de Great Neck, na vspera de Natal. O mido estava ptimo, e Paxton sentiu o corao mais quente 
quando ele lhe sussurrou que tinha saudades. Ela era a sua aliada especial, uma amiga especial, o anjo-da-guarda que fora enviado pelo pai, que mal conhecia, para 
o amar e tomar conta dele.
Por fim, a 8 de janeiro de 1973, Kissinger e Le Duc Tho reuniram-se em Paris, no dia anterior ao sexagsimo aniversrio de Nixon. Exactamente uma semana depois, 
constou que o embaixador Ellsworth Bunker, no Saigo, informara o presidente Thieu de que, se ele no assinasse de imediato o acordo de paz, no receberia mais ajuda 
dos EUA.
Como resultado, o cessar-fogo iniciou-se menos de duas semanas depois, a 27 de janeiro, cinco dias depois da morte de Lyndon Johnson. Nixon exigiu que todos os prisioneiros 
de guerra americanos fossem libertos. E prometeu retirar todas as foras americanas do Vietname no prazo de sessenta dias, em Maro.
Paxton escutou as notcias em Paris, incrdula e rezando intimamente para que talvez, talvez quando os prisioneiros fossem libertos, algum soubesse alguma coisa 
sobre Tony. Quanto mais no fosse, que lhe permitissem descansar em paz. Era terrvel aquela ignorncia em que vivia. Mal conseguia aguentar, depois de quase trs 
anos de espera.
Acabara, igualmente, por se aperceber de que o facto de no saber e de nunca abandonar a esperana era excessivamente duro para Joey. O mido ansiava por um pai 
que no estava presente e, com toda a probabilidade, nunca estaria; em vez de se adaptar ao que tinha, por mais falhas que este pudesse ter, o que Paxton sabia agora 
ser a realidade, embora fosse irmo de Tony.
Suspeitava de que albergava ressentimentos contra o mido por ele prprio se sentir culpado e tambm suspeitava de que recebera menos do que pretendia ao prender-se 
a Mrs. Campobello e agora estava consciente disso.
A 5 de Fevereiro de 1973, foi anunciado que 57 597 homens tinham morrido no Vietname, e esse mero pensamento despedaava-lhe o corao e levava-a a pensar em Peter, 
Bill e Tony. Por vezes, sentia dificuldade em separar a mulher da jornalista. Ao ouvir dizer que os primeiros prisioneiros de guerra seriam libertos a 12 de Fevereiro, 
deitou-se na cama a chorar, imaginando o que deveria significar para eles e para as mulheres verem-se finalmente libertos da agonia, da perda, do terror.
Nessa altura estava em Paris, a trabalhar no s nos artigos para o Times, mas num livro que, segundo prometera a si prpria h trs anos, escreveria sobre o Vietname. 
A editora telefonou-lhe de Nova Iorque e pediu-lhe que se metesse num avio militar para Manila.
"Mas porqu? Porqu eu?", queria perguntar. Demorara trs anos at a dor minorar e trs anos a deixar de sonhar com crianas mutiladas vagueando pelas ruas de Saigo. 
E os prisioneiros regressavam a casa, cheios de todo aquele horror. Tinha mesmo de voltar l? A longo prazo, no desejava regressar, no ansiava por aquele verde 
inacreditvel, o cheiro a fumo ao amanhecer. E, agora, queriam que ela revivesse tudo aquilo. Voltasse a despertar recordaes ao olhar para os rostos dos homens 
que tinham estado l.
Os prisioneiros de guerra iriam de avio para Clark Field, nas Filipinas. E tinha dois dias para l chegar.
-  uma ordem ou um pedido? - inquiriu num tom cansado,  meia-noite, hora de Paris. Telefonavam-lhe sempre, antes de sarem da redaco em Nova Iorque.
- Um pouco dos dois - respondeu a editora suavemente, e Paxton suspirou.
Tudo recomeava. A dor. As preces. O desejo de que algum o tivesse visto.
- De acordo - anuiu, depois de uma ligeira pausa. - Irei.
- Obrigada. Ficamos gratos.
No entanto, a editora sabia que ela no recusaria. Era-lhe impossvel manter-se afastada. Nenhum deles conseguia. O Vietname penetrara-os at ao mais fundo, at 
 alma. Era uma dor constante, mesmo quando adormecia... uma tristeza... uma alegria... uma dependncia.


CAPTULO 29

Voou de Paris a Wiesbaden, na Alemanha Ocidental, onde apanhou um avio militar que a depositou em Manila, oito horas antes da chegada dos prisioneiros de guerra.
Enquanto permanecia sentada no meio de mulheres e crianas, a pensar e a tirar apontamentos, observava os rostos  sua volta, os filhos que mal os recordavam e sabia 
quanto tinha sido horrvel para todos. Sabia demasiado bem e continuava a observar e a ouvir.
H j algum tempo que comeara a aceitar a perda de Tony. Independentemente do que sentia no corao, era impossvel que ele ainda estivesse vivo, e na mente, embora 
no no corao, sabia-o. E dissera-o a Joey.
No entanto, todas aquelas mulheres falavam de como haviam sobrevivido de ano para ano, com fotografias, pedaos de notcias, relatos de dois homens que tinham sido 
libertos mais cedo, cinco que haviam escapado h dois anos. Sabiam que os seus homens estavam vivos, pelo menos de tempos a tempos e, tal como eles, tinham sobrevivido. 
O que agora restava deles era, obviamente, outra questo.
Paxton sentia o estmago s voltas enquanto aguardava com elas, desejando no lhes acrescer a dor, o nervosismo, nem aborrec-las. No dirigiu a palavra a nenhuma 
delas, limitando-se a ficar sentada  escuta.
Mais tarde, pediria entrevistas e falaria com os homens. No entanto, agora, apenas desejava manter-se por ali a observar e a escutar. Dizia intimamente que era imparcial, 
que estava ali como jornalista, que no tinha qualquer direito de interferir; porm, quando os homens desceram do avio nessa tarde, soluou quase to alto como 
as mulheres ao verem-nos.
Estavam magros, hesitantes, na sua maioria marcados pelo combate, com olhos congestionados e fungos no cabelo, os ns dos dedos inchados, do tamanho de cebolas, 
devido aos espancamentos, e pernas que pareciam vacilantes e instveis.
 superfcie pareciam bem, mas, se se olhasse para l da mesma, estavam com um aspecto horrvel. Amparavam-se entre si, mas tinham uma expresso orgulhosa; olharam 
em volta e deram vivas. Era uma vitria pela liberdade e independncia, amor e sobrevivncia, que tocava o corao de todos os que os olhavam.
Foi uma tarde emotiva, e Paxton passou quase tanto tempo a chorar como eles. Mas no lhe estava reservado alvio, nem aquele abrao por que haviam esperado sete 
anos. Como  que se sobrevivia numa altura daquelas? Como  que uma pessoa se agarrava  esperana? O que se dizia quando tudo terminava?
E se ela tivesse ficado prisioneira durante uma das misses em que participara com Ralph? Algumas vezes estivera prximo e, sabia-o. E se tivesse ficado prisioneira 
dos vietcongues? Duvidava que pudesse ter sobrevivido e sentia-se maravilhada por aqueles homens o conseguirem.
No dia seguinte, deu incio s entrevistas, falando-lhes aps haverem sido interrogados, falando com as mulheres e, em alguns casos, com os filhos. Um reprter fotogrfico 
juntou-se-lhe para tirar algumas fotografias e, quando estava a chegar ao fim, sentiu-se esgotada.
Em seguida, ao entrevistar um deles, apercebeu-se de que fora um rato de tnel em Cu Chi e tinha sido feito prisioneiro no muito antes de Tony ser considerado como 
desaparecido em combate.
Ao tentar agarrar na caneta, a mo tremia-lhe tanto que no conseguia escrever o que o homem estava a dizer. Mantivera-se prisioneiro durante trs anos, o que lhe 
parecia muito tempo e a ela tambm, mas Tony desaparecera mais ou menos por essa altura, e Paxton ignorava se agora estava vivo ou morto.
- Eu... - A voz tremia-lhe tanto como as mos. - Gostava de lhe perguntar algo em particular. - O homem pareceu subitamente assustado, como se ela fosse fazer-lhe 
qualquer pergunta horrvel e capaz de o desgraar a ele ou  famlia para sempre.
Alguma vez conheceu um primeiro-sargento chamado Tony Campobello, quando estava em Cti Chi? - inquiriu.
O homem brindou-a com um olhar estranho e esboou um aceno afirmativo, interrogando-se sobre se se tratava de qualquer armadilha. Talvez Campobello fosse um agente 
do inimigo.
Porqu?
... porque o amava... Estava nessa altura em Saigo replicou numa voz to baixa e trmula como a dele, inundada pelo reviver de um passado que lhe era excessivamente 
doloroso. - Ele foi dado como desaparecido em combate, logo aps voc ter sido feito prisioneiro... e h trs anos que no existe um relatrio concludente sobre 
ele... julguei... Interroguei-me...
Comeou a chorar e odiou-se por isso. Aquelas pessoas j tinham sofrido demasiado sem o seu desgosto. No entanto, ele estendeu o brao e tocou-lhe na mo com os 
dedos retorcidos. Ela era agora sua irm... sua amiga... E Paxton olhou-o atravs das lgrimas, ao ouvir a resposta.
- Tudo o que posso dizer-lhe  que h dois anos estava vivo. Levaram-no para uma das prises onde estive. Ignoro como se chamava e eu estava muito doente quando 
me puseram l - acrescentou num sussurro, sem que ningum  volta os escutasse.
- Sabe onde era? - perguntou no mesmo tom.
- No... Mas ele estava l. Conheci-o em Cu Chi... No estava l h muito tempo, quando fui apanhado pelos vietcongues... Ele era de fora... Ainda estava vivo quando 
o apanharam.  tudo o que sei. Devia perguntar ao Jordan. Tambm estava l e julgo que o conhecia.
Porm, quando conseguiu falar com Jordan, trs dias depois, ele tinha ms notcias. Tony era um dos trs homens que tinha escapado e Jordan tinha a certeza de que 
os trs haviam sido mortos. Tinham corrido breves rumores de que apenas dois corpos tinham sido recuperados, mas no sabia muito bem e garantiu-lhe que ningum poderia 
ter escapado aos ces deles, s armas, s minas armadilhadas. Decerto teria sido morto. E, nos ltimos dois anos, os seus caminhos nunca se haviam cruzado novamente, 
nem sequer ouvira o nome dele. Garantia-lhe que Tony estava morto. Tinha de estar. Enquanto lhe contava tudo aquilo, chorava e Paxton tambm.
Viveu uma semana terrvel, uma poca brutal em que se viu obrigada a encarar a dor e a morte, a esperana e a tristeza dos seus relatos de brutalidade s mos dos 
Norte-Vietnamitas. Parecia um caminho infindvel, e as mulheres deles eram muito corajosas.
Quando tudo chegou ao fim e regressou a Frana, sentia-se como se estivesse estado na priso com eles. Fora a reportagem mais cansativa que fizera na sua vida e 
jurou que, se voltassem a encarreg-la de uma misso idntica, jamais o faria.
No entanto, a pea que escreveu como resultado de todo aquele trabalho foi, inegavelmente, brilhante e granjeou-lhe o elogio dos superiores. As pessoas comearam 
a afirmar que, um dia, Paxton ganharia o Pulitzer. Ralph costumava atazan-la com isto, mas h anos atrs, quando ela era jovem e verde e Tony tambm. Agora, tinha 
as dolorosas respostas sobre ele. No podia fugir-lhes.
E a 1 de Maro apanhou o avio para Nova Iorque, a fim de visitar o filho dele e passar-lhe as informaes dos dois prisioneiros de guerra: do primeiro que o vira, 
durante um curto espao de tempo, h dois anos, e do segundo que sabia da sua fuga e tinha a certeza de que fora morto pelos vietcongues, ao apanharem-no. E sobre 
tudo o que ouvira na Base da Fora Area de Clark e agora lhe surgia como uma certeza.
Comunicou tudo isto a Joey o mais suavemente que conseguiu, antes de irem almoar. Foram dar um longo passeio por Central Park e, por fim, sentou-se com ele num 
banco e contou-lhe. O mido tinha, agora, onze anos, a mesma idade do que ela quando o pai morrera. Era um rapaz inteligente, e Paxton sabia que iria aguentar.
- Lamento, Joey - replicou, ao mesmo tempo que os olhos voltavam a encher-se-lhe de lgrimas. - Sempre acreditei que, se no o tivessem morto nesse dia, ele conseguiria 
aguentar. Era to duro, to forte, to esperto... to bom...
No entanto, agora desaparecera e os dois tinham de enfrentar a realidade. Sem pronunciar nem mais uma palavra, envolveu-o nos braos, apertou-o de encontro ao corpo, 
e os dois choraram.
- Agora, acreditas? - perguntou-lhe com uma expresso triste, e ela esboou um aceno afirmativo. Tanto para bem dele como para seu prprio bem. Aos vinte e sete 
anos, tinha amado aquele homem durante tanto tempo que era duro abdicar da esperana, mas sabia que tinha de faz-lo.
- Sim, agora acredito, Joey. Tem de ser assim. Ele morreu. - Assemelhava-se a perd-lo de novo, quando ouviu as palavras do homem que sobrevivera em Hani.
- E ento? - inquiriu o mido tristemente, agarrando-lhe na mo.
- No sei... - Sentia-se outra vez perdida. Quase to perdida como trs anos antes. As outras mulheres tinham de novo os maridos em casa e ela no. - Recordamo-lo... 
pensamos nele e sorrimos, nas grandes coisas, nas pequenas coisas... Amamo-lo.
- E tu? - Joey sempre se havia questionado sobre ela e achava que tinha idade bastante para fazer a pergunta. Sabia que estivera  espera do seu pai, mas agora? 
O que faria? O mesmo que sempre fizera. Na mente de Paxton, tudo chegara ao fim. - Achas que vais casar com outra pessoa? - insistiu com um franzir de cenho preocupado. 
Talvez com algum que a impedisse de o ver.
Contudo, Paxton leu-lhe o pensamento e abraou-o com mais fora.
- No, no vou. Excepto se estiveres disposto a crescer rapidamente. Posso esperar, sabes?
- O que vais fazer? Vais continuar em Paris?
Joey sentia saudades quando ela estava l. Havia algo de muito especial entre eles. Era um pouco do que ela partilhara com o pai; porm, dado no ter tido filhos 
seus, era diferente. E Paxton tinha boas notcias.
_ Tudo indica que voltarei a Nova Iorque muito em breve, para trabalhar para o Times aqui. Provavelmente no fim de Maro, aps a retirada das ltimas tropas. No 
falta muito.
O mido pareceu satisfeito. j que no podia ter o pai, pelo menos tinha-a a ela.
- Talvez a tua me nos deixe passar um fim-de-semana juntos em qualquer lado, quando eu voltar. Achas que sim?
- Claro - respondeu, disposto a zelar por isso, desse l por onde desse.
E ambos estavam mais calmos quando foram almoar. mas tristes. Tinham, finalmente, comeado a libertar-se de Tony.


CAPTULO 30

As ltimas tropas americanas saram do Vietname a 29 de Maro de 1973 e, trs anos mais tarde, a 1 de Abril, os ltimos prisioneiros de guerra americanos foram libertados 
em Hani.
No dia anterior, Paxton meteu-se num avio para Nova Iorque, aps ter desistido do seu apartamento em Paris. Decidiu ficar no Algonquin at encontrar apartamento 
e, ao chegar ao jornal no dia seguinte, no conseguiu acreditar quando lhe pediram que se deslocasse a So Francisco, a fim de entrevistar os prisioneiros de guerra, 
no Presdio.
E respondeu que, muito pura e simplesmente, no iria. Tinham de mandar outra pessoa. Acabara de regressar, sentia-se cansada e tinha de procurar apartamento. Tudo 
argumentos pouco slidos, e tanto ela como a editora o sabiam.
Quando a pressionaram, virou-se para a editora e respondeu que no lhe interessava que represlias pudessem exercer, mas no iria, pois era excessivamente doloroso.
Deixaram-na em paz todo esse dia e, s seis da tarde, o, editor chefe telefonou e suplicou-lhe que aceitasse. Por fim, cansada, exausta e irritada, acabou por ceder.
Viajou no dia seguinte, a tempo de apanhar o avio que chegou  Base da Fora Area de Travis. Enquanto se detinha a observar o mesmo cenrio que se lhe deparara 
em Manila h seis semanas, sabia exactamente como iria ser doloroso.
No entanto, desta vez sabia, pelo menos, o que a esperava e preparou-se para o que iria ouvir das mulheres, dos homens e at mesmo das crianas. Durante os dias 
seguintes, foi to mau quanto esperava e ainda mais. O pior aconteceu, porm, quando um dos homens mencionou trs colegas que tinham fugido e a histria tinha um 
toque familiar.
Uma parte dela no queria saber, e a outra indicava-lhe o que tinha a fazer. Comeou a fazer-lhe as mesmas perguntas que dirigira aos outros homens, em Clark, mas, 
desta vez, as respostas foram diferentes. Sim, tinha a certeza de que trs homens haviam escapado. E dois outros tinham conseguido uma fuga com sucesso antes disso.
Achava que todos os outros, que haviam tentado, tinham sido mortos, um grupo de sete, de uma vez, e de quatro de outra. No entanto, alguns haviam conseguido e, dos 
trs a que se referiu, um fora bem sucedido. Dois foram mortos, mas um deles nunca regressara.
- Quem era? - inquiriu com um n na garganta, desejando nunca ter vindo, desejando no recomear a acalentar esperanas. Estava disposta a deix-lo repousar, porque 
no a deixavam? - Sabe quem ele era?
- No tenho a certeza.
Rebuscou na memria, que no era o que fora anteriormente. Tinham-no exposto a tudo. Choques elctricos, tortura, perdera os dois polegares e uma perna quase gangrenaram. 
Como havia de saber quem escapara e vivera, raios? Como podia fazer-lhe isto? No entanto, era o que estava a acontecer, e ela susteve a respirao, esperando a resposta.
- Sei que era da base de Cti Chi... um rato de tnel... - prosseguiu. - ... Mas no estou certo do nome. Talvez me lembre se o ouvir - desculpou-se e ela sentiu-se 
culpada por incit-lo, mas no deixou de o fazer.
- Tony Campobello? - sussurrou.
- Exacto! - exclamou, fitando-a. -  ele! - Parecia boquiaberto, surpreendido por ela saber o nome. - Escapou. Oh... no sei... talvez h dezoito meses... dois anos, 
no estou certo. E sei que ele conseguiu.
- Como sabe? - inquiriu Paxton, sentindo-se desfalecer ao ouvi-lo falar.
- No trouxeram o corpo de volta e... - Parecia levemente atrapalhado. - Um dos guardas contou-me.
- No podia estar a mentir? - retorquiu.
Agora, quase desejava que ele estivesse morto, no queria ser novamente torturada com a esperana, mas era impossvel esquecer o que aquele homem dizia. No podia 
ignor-lo.
- No me parece. Detestavam admitir quando algum escapava e, sempre que o diziam, era provavelmente verdade. E torturaram um dos outros, para ensinar uma lio 
a toda a gente.
- Faz ideia de para onde pode ter ido?
- Lamento, mas no. Sul, suponho, se pudesse... ou talvez esteja escondido, algures, no interior. Como rato de tnel, era provavelmente bastante astuto. Ainda podia 
estar vivo...
Podia... e ento? O que ia dizer a Joey? Que o pai "podia" estar vivo, algures, no interior? Ou que tambm podia estar morto num tnel, numa trincheira, em qualquer 
buraco ou num tronco de rvore?
Agradeceu ao indivduo, sentindo-se atordoada. Quando acabou as entrevistas, apanhou o avio de volta a Nova Iorque, de So Francisco.
Passou os trs dias seguintes fechada no quarto de hotel, sem falar com ningum. Nada havia que pudesse fazer ou dizer. Precisava de pensar. Tinha de analisar o 
que eles haviam declarado. Leu os apontamentos repetidas vezes, mas nada podia fazer. E na segunda-feira tomara uma deciso.
Foi falar com a editora, e esta comeou por ach-la louca. Mas, decorrido algum tempo, Paxton tinha-a convencido. J l estivera antes e conhecia o pas. Haveria 
outros tambm, agora que os militares tinham sado. jornalistas, pessoal mdico, alguns industriais estrangeiros, loucos, oportunistas. Todo o tipo de pessoas. E 
no existia qualquer dvida na sua mente. Tinha de voltar e ficar at obter as respostas, independentemente do tempo que levasse ou do que lhe custasse.
Por fim, concordaram. No tinham alternativa. A alternativa era perderem Paxton ou deixarem-na partir com a sua bno. Portanto, concederam-lhe permisso para tudo 
o que desejasse.
Nesse fim-de-semana, foi dar um longo, longo passeio com Joey. Comunicou-lhe que ia regressar ao Vietname para descobrir o pai ou os seus restos, ou algum que pudesse 
dar-lhe certezas sobre o que, de facto, acontecera. Falou-lhe do prisioneiro de guerra do Presdio e disse-lhe o que ele contara. O mido tinha o direito de saber 
e ela tinha de lhe contar.
- A minha me e o meu pai continuam a achar-te louca - replicou Joey com um sorriso, ele prprio interrogando-se a esse respeito, mas ciente de que gostava dela.
-  tambm o que pensas? ~ redarguiu, igualmente com um sorriso.
- s vezes. Pouco me importa que sejas, Pax.
- Obrigada. Para te falar verdade, tambm acho que sou louca em voltar. Mas penso que s ficarei satisfeita quando tivermos as respostas. Por momentos, julguei que 
as tnhamos - redarguiu, pensando no que ouvira em Clark, da boca de Jordan. - Mas no  assim. Este homem estava to seguro de que ele conseguiu escapar.
- Achas mesmo que ele pode estar vivo? Passaram trs anos desde que foi dado como desaparecido em combate!
Desta vez, o prprio Joey parecia cptico.
- Deixei de saber, Joey.
O mido esboou um aceno de cabea preocupado.
- Quanto tempo pensas ficar por l? - inquiriu.
- No sei. No quero prometer-te nada. Escrevo-te e telefono, se puder. No sei como esto as ligaes telefnicas, agora que os militares se foram embora. No entanto, 
farei o que puder. S voltarei quando tiver as respostas e no antes.
Joey agarrou-lhe na mo e reteve-a com fora na sua.
- No fiques ferida, Pax... No deixes que te acontea nada, como aconteceu ao paizinho.
- No acontecer - prometeu, inclinando-se para o mido, beijando-lhe o cabelo e fazendo-lhe uma festa. - No sou to corajosa como ele.


CAPTULO 31

O avio aterrou no aeroporto de Tan Son Nhut e, do ar, tudo parecia como dantes; porm ao voarem mais baixo, Paxton verificou que havia muito mais crateras do que 
h trs anos.
Em Saigo, as coisas tambm tinham mudado. Viam-se mais crianas nas ruas, mais rfos, mais mestios meio americanos meio asiticos, pedintes e abandonados pelos 
pais que haviam regressado a casa com os militares, deixando-os junto a mes que no os desejavam.
Havia mais drogas nas ruas, mais prostitutas, mais edifcios em runas. Mais caos. E o prprio Hotel Caravelle parecia mais decadente, embora se lembrassem dela 
e fossem muito simpticos.
Desta vez, deram-lhe um outro quarto, o que veio mesmo a calhar. No conseguiria suportar ocupar o mesmo quarto que antes partilhara com Tony.
A redaco da AP estava na mesma e reencontrou alguns rostos conhecidos; e, em alguns aspectos, parecia que nada tinha mudado, s que no era assim. Os soldados 
americanos tinham partido, e esse facto provocara uma modificao subtil.
Comeou por restabelecer os seus contactos e, estranhamente, continuava a sentir-se em casa. No entanto, aquele lugar apresentava-se pleno de recordaes e passara 
tempo de mais no Ocidente.
Era frequente ficar acordada durante a noite, a pensar em Joey. Talvez tambm tudo fosse diferente agora, por estar mais velha. Aos vinte e sete anos, no tinha 
tanta nsia de arriscar a vida como h cinco anos atrs. Tambm estava diferente nesse aspecto.
E o pensamento recuava at Ralph e s misses em que tinham participado. De vez em quando, ia at aos arredores, sozinha, em carros alugados, com um motorista, ou 
um reprter fotogrfico que requisitava na AP e, onde quer que fosse, em todas as cidades, em todos os baldios, em todas as runas, perguntava por Tony.
Ningum o tinha visto. Sentia, contudo, que, se interrogasse bastantes pessoas durante bastante tempo, algum saberia eventualmente notcias dele, caso estivesse 
vivo. Talvez tivesse medo de se expor, talvez estivesse demasiado aleijado, mutilado ou ferido e, nesse caso, ela lev-lo-ia para casa a fim de o curar... Se ele 
estivesse vivo--- o que se mantinha na incerteza.
Ao comear a inteirar-se dos prejuzos causados pelas tropas do Norte e os bombardeamentos dos Americanos antes de terem partido, percebeu como teria sido difcil 
sobreviver e fugir, sem dar nas vistas, para qualquer lado.
At mesmo saber que ele estava morto seria um alvio. Algo. Um pedao de tecido, um osso, cabelos... Qualquer coisa... que tivesse, outrora, pertencido a Tony.
Em Abril, Graham Martin chegou a Saigo, a fim de substituir Ellsworth Bunker como embaixador. E, em junho, o caso Watergate explodiu nos Estados Unidos, para grande 
fascnio de Paxton.
Nesses dias, a poltica parecia complicar-se por todo o lado, e ela aplicava-se na leitura de todos os telexes em Saigo, enquanto continuava a escrever artigos 
e a procurar Tony.
Em julho, o Senado realizou sesses sobre os bombardeamentos no Camboja e que pararam em Agosto. Oito dias depois, Nixon nomeou Kissinger como secretrio de Estado 
em substituio de Rogers. Nesse Vero, o ambiente ficou mais calmo no Vietname. Chovia constantemente, e Paxton continuava a percorrer de carro toda a regio, mostrando 
fotografias dele e perguntando se algum o vira, acabando por ficar de cama com uma pneumonia.
Em Setembro, melhorou e recomeou a busca. E relatava tudo nas cartas que escrevia, semanalmente, a Joey. Tudo comeava a parecer-lhe para l da prpria loucura. 
S que, no Vietname, sempre fora assim.
Continuava a cruzar-se nas ruas com crianas que eram meio americanas e tinham sido abandonadas; dava-lhes sempre todo o dinheiro e comida que podia, mas para eles 
a situao era desesperada. Este era, afinal, o destino que France temera quando se tinha envenenado e aos filhos, depois da morte de Ralph. Era difcil acreditar 
que ela tinha razo, mas quem podia sab-lo? Quem sabia o que quer que fosse? Pessoalmente, Paxton no possua respostas.
Em Outubro, Agnew demitiu-se como vice-presidente de Nixon e, em Novembro, o Congresso ignorou o veto de Nixon da lei destinada a limitar o direito do presidente 
quanto  guerra. No queriam que a mesma situao voltasse a repetir-se. Os Americanos tinham perdido no Vietname, mas desejavam poder pensar duas vezes quanto a 
meter-se outra vez em algo idntico. E o Congresso pretendia manter o controlo do presidente para sempre.
Paxton passou o Natal em Saigo, oito meses aps a sua chegada ali. Dizia para si mesma que regressaria, mal descobrisse algo de concreto, ou um ano depois de haver 
vindo, se nessa altura continuasse sem resposta.
Porm, um dia antes de se completar um ano, algum reconheceu a fotografia de Tony, e o processo reactivou-se. Tratava-se de uma velha camponesa do Norte. Afirmou 
que o tinham encontrado num bosque e dado comida, aps o que fora levado por soldados.
Portanto, havia sido feito novamente prisioneiro, mas levado para onde e por quem e o que acontecera depois? Poupou este relato a Joey. No valia a pena faz-lo. 
Continuou, todavia, a sua busca.
Trs meses mais tarde, em Agosto de 1974, Nixon demitiu-se, Ford tomou-se presidente, o Times pediu-lhe que regressasse, e ela recusou. Estava a escrever excelentes 
artigos do Vietname e, aparentemente, no se interessava por mais nenhum assunto.
Nesse ano, voltou a passar o Natal em Saigo, o segundo desde que voltara. Nessa altura, o irmo deixara, completamente, de dar notcias. E Ed Wilson sentia-se intrigado 
sempre que lia os seus artigos assinados. Os artigos eram brilhantes, mas Paxton parecia obcecada pelo pas at onde viajara quando era uma jovenzinha e que a ferira... 
e a muitos outros to gravemente.
O prprio Joey comeava, ento, a interrogar-se. Talvez ela gostasse do pas e fosse incapaz de enfrentar o facto de que o seu pai estava morto, talvez fosse mesmo 
mais do que um pouco louca, como os seus pais tinham sugerido. H quase dois anos que no a via, mas, curiosamente, segundo confessava por vezes em segredo  av, 
ainda sentia a falta dela. Perguntava a si prprio se ela alguma vez voltaria, mas deixara de ter certezas.
O rapazinho tinha, agora, quase treze anos; h quase cinco anos que o pai desaparecera e h dez que se afastara dele. Era um caminho longo de mais para que algum 
transportasse uma tocha. Mas, aparentemente, Paxton no queria desistir, mesmo que acabasse por morrer. 
E, de vez em quando, algum reconhecia uma das fotografias que mostrava. Mas nunca sabia realmente se falavam verdade, se mentiam, ou queriam uma gorjeta, uma recompensa, 
ou meramente agradar-lhe. Era impossvel adivinhar.
De uma coisa estava, porm, certa e continuava a escrever sobre o assunto no Times: o Vietname do Sul vivia srios problemas. Escrevia sobre as promessas secretas 
dos Americanos quanto a tirarem um milho de pessoas do Vietname do Sul, antes que casse nas mos dos comunistas, o que, obviamente, no tardaria a acontecer. E, 
nessa altura, sabia que teria de regressar e deixar Tony ali, quer estivesse ou no vivo. Nessa altura, teria de regressar e desistir. Entretanto, porm, no o faria.
Em Fevereiro de 1975, a situao agravou-se e, em Maro, mais ainda. Os refugiados do Norte estavam a invadir Saigo e, mais a norte, mais de um milho de refugiados 
fugiu aos comunistas e entrou em Da Nang, quando Hue caiu e os foguetes norte-vietnamitas devassavam a cidade e os civis.
A populao chorava, fugia, caa por terra, sangrava. As crianas perdiam-se e eram esmagadas pela multido. Os soldados americanos receberam ordem de sada e Paxton 
com eles. Os telexes choviam na AP. Informavam que todos tinham de ir embora, desde que Hue fora derrubado. Trs dias depois, as pessoas congestionavam-se em aeroportos, 
cais e praias, tentando sair do Vietname por qualquer meio possvel.
Nos ltimos dias, Paxton esqueceu a sua procura intil e tornou-se, uma vez mais, correspondente.
No domingo de Pscoa, Da Nang caiu em poder dos comunistas e, em Abril, os americanos comearam a fazer as malas para se ir embora e Paxton com eles. Chegara a hora 
da partida. Era somente uma questo de dias, antes que tudo terminasse. O pas que outrora fora to encantador e lhes custara tanto estava prestes a cair e, no ntimo, 
todos o sabiam.
Os americanos que ainda se mantinham em Saigo estavam ansiosos por sair antes da chegada dos comunistas, e os vietnamitas que haviam estado intimamente ligados 
aos americanos receavam ser vtimas de represlias.
Cinquenta mil americanos e vietnamitas conseguiram fugir durante Abril. No entanto, mais de um milho de vietnamitas recebera a promessa de poder partir para os 
EUA e, nas ltimas semanas de Abril, tornou-se bvio que tal era impossvel e muito poucos o- conseguiriam.
Paxton recebeu novo aviso do Times de que devia sair, mas depois de contactar o embaixador, ele prometeu-lhe um lugar no ltimo avio que sasse, independentemente 
do que pudesse acontecer. Com uma mala feita, pronta a partir, continuou a fazer a cobertura da queda de Saigo com a sua mquina fotogrfica. Nessa altura, abandonara 
completamente a busca de Tony. Aceitara, finalmente, o destino. Ele estava morto, e as pessoas do pas que afirmavam t-lo visto haviam mentido. Tinham dito o que 
achavam que ela gostaria de ouvir. E, quando os ltimos dias de Saigo chegaram, sabia que ele tinha de estar morto. Sentia-se to esgotada que j nem conseguia 
pensar nele. Apenas queria regressar aos Estados Unidos, uma cama de lavado, uma cidade segura e visitar Joey.
A 25 de Abril, o presidente Thieu partiu para Taiwan. E, a 28 de Abril, as tropas comunistas defrontaram o Exrcito sul-vietnamita em Newport Bridge, s portas de 
Saigo. Nessa altura, Paxton encontrava-se na embaixada,  espera dos ltimos boletins. Se tivesse de partir, queria ser uma das ltimas a abandonar Saigo.
Sob uma chuva fina, a 29 de Abril, os adidos da embaixada declararam solenemente que a Opo IV ia entrar em aco. Tratava-se da maior evacuao por helicptero 
que constava da histria.
O milho de vietnamitas a quem fora prometido asilo seriam abandonados e s iriam os que os americanos conseguissem fazer sair de helicptero, mas no seriam muitos. 
Durante todo o dia, Paxton assistiu ao incio da operao, enquanto helicpteros transportavam refugiados e americanos at porta-avies que os aguardavam ao largo, 
e os comunistas continuavam a atingir o aeroporto de Saigo.
Ao longo de dezoito horas, a 29 de Abril, segundo Paxton mais tarde relatou, setenta helicpteros americanos transportaram pessoas entre a embaixada e os porta-avies, 
que as aguardavam. Mil americanos e seis mil vietnamitas saram. No o milho que havia recebido esta promessa.
Em redor da cidade, havia autocarros para levar as pessoas at aos terrenos da embaixada, mas gerou-se um tal pnico que os autocarros foram virados, nunca chegaram 
a parte alguma, e as pessoas comearam a correr pelas ruas, aos gritos, histricas, e viam-se, por todo o lado, crianas perdidas e abandonadas.
Paxton tentou sair ao meio-dia, a fim de ajudar algumas pessoas nas ruas. Foi-lhe impossvel chegar onde quer que fosse. No havia hiptese de se movimentar no meio 
da multido frentica.
H horas que os portes da embaixada tinham sido forados e a multido invadira os terrenos da embaixada, tentando abrir caminho  fora at aos helicpteros. Eram 
as pessoas da cidade, do campo, das montanhas, alguns americanos, na maioria, vietnamitas, desesperados por escapar aos comunistas, antes que estes se apoderassem 
do poder.
Ela sabia que tinha de partir em breve e, ao recuar atravs dos terrenos da embaixada, sentiu os braos e o corpo presos quando tentou percorrer o caminho por onde 
viera e at onde sabia que o embaixador estava  espera. Um brao puxou-a, subitamente, e era um homem, um velho vietnamita que a arrastava com ele enquanto ia abrindo 
caminho. Ao tentar libertar-se dele, verificou que o homem estava quase inconsciente.
Cheirava mal, tinha um aspecto horrvel, estava coberto de lama e, quando Paxton lutou para se libertar, ele caiu-lhe de novo nos seus braos. E, em seguida ela 
viu... Era impossvel... No podia ser... Era um cruel gracejo do destino... Perdera, finalmente, o juzo no meio da queda de Saigo.
- No... - No era. Ela apenas desejava que fosse.
O homem disse-lhe qualquer coisa em vietnamita ao mesmo tempo que se endireitava. Paxton estendeu, instintivamente, os braos e ele quase desfaleceu nos seus, mas, 
nessa altura, no lhe restou qualquer dvida. Era Tony.
- Oh, meu Deus!...
As pessoas comprimiam-se  volta deles para subirem para os helicpteros e a maioria no ia conseguir.
- Como chegaste aqui? - perguntou, ainda confusa e boquiaberta, fitando-o e tentando certificar-se de que no tinha sonhado.
Ele voltou a pronunciar algo em vietnamita e, ao ouvi-la, tambm ele soube. No sabia de quem se tratava, mas sabia que era americana e que agora estava a salvo, 
quando ela o conduziu at um dos edifcios.
- Primeiro-sargento Anthony Campobello, Base Cti Chi, Vietname - recitou, enquanto ela o arrastava fisicamente at ao stio onde estavam a carregar os helicpteros.
No podiam esperar mais. E ela tinha a sua histria. No ia ficar ali nem mais um minuto com ele. Tinha de o tirar dali, antes que algum os detesse.
Ele tinha um golpe horrvel no brao e, em seguida, fitou-a estranhamente, e as lgrimas comearam a correr-lhe pelas faces, enquanto ela o levava, o arrastava na 
direco dos helicpteros.
- Anda - gritou-lhe Paxton acima da confuso, ao mesmo tempo que algum tentava colocar-lhe um beb  fora nos braos. No entanto, ela s o levaria a ele. Lutara 
demasiado e tempo de mais por aquele momento. Tinha-o procurado cinco anos, e o filho tambm o esperava.
- Anda, Tony!
Ele estava quase a desfalecer antes de chegarem ao helicptero e tinham de subir uma escada estreita que Paxton no sabia se ia conseguir. Tambm no podia arrast-lo, 
nem havia ningum que a ajudasse.
- Raios... Levanta os ps... Anda, sobe... - gritava-lhe, chorando em simultneo.
E tambm ele chorava de alvio. Levara dois meses a descer do seu esconderijo nos tneis que descobrira e usara at chegar aos arredores de Saigo e tinha conseguido. 
E ela estava ali sem que ele compreendesse como ou porque  que a encontrara. Mas j no interessava. O importante  que acontecera. E estavam juntos, mesmo que 
ele morresse agora.
- Este homem  um prisioneiro de guerra! - gritou a algum que no a ouviu e, depois, um robusto par de braos iou-o, libertando-o da multido e empurrando-o para 
dentro do helicptero.
De sbito e em resultado de um enorme empurro, ela viu-se atrs dele, e foram iados para a segurana e o mar livre. Estavam livres, enquanto o Vietname diminua 
de tamanho atrs deles.
Quando partiram, ainda havia gente que gritava, gente que chorava, gente que suplicava. Ela no podia, contudo, ajud-los mais. Escrevera sobre eles. Estivera ali 
durante sete anos. Fizera tudo o que estava ao seu alcance por eles. E fora demasiado. Custara-lhe demasiado. Tinham morrido demasiados. Mas no Tony.
Fitou-o com uma expresso incrdula, ao homem que tinha nos braos, ferido, cheio de marcas e cicatrizes, quase irreconhecvel. No entanto, era ele e sorriu-lhe 
quando iniciaram a descida para o convs do porta-avies e para a segurana.
- Onde estiveste, com mil raios? - inquiriu com um esgar no rosto coberto de sujidade.
Tinha vivido em tneis que construra, descobrira e usara nos ltimos dois anos e sobrevivera mediante estratagemas e horrores em que ela nem se atreveria a pensar. 
E agora, por puro milagre, por mera sorte ou pela mo de Deus, descobrira-a.
- Tenho andado  tua procura - respondeu meigamente, limpando-lhe a sujidade do rosto. Ele escondera-se num camio cheio de terra e sujidade, que se dirigia  cidade. 
- Tenho andado  tua procura, h muito, muito tempo... - E o Joey, tambm.
- Bem-vindos a casa - acolheu-os uma voz, ao mesmo tempo que algum os ajudava a descer. - Bem-vindos a casa! - exclamavam as vozes, enquanto eram recebidos do helicptero 
para a segurana e Tony chorava, abraado a ela, com a bandeira sobre as suas cabeas. Por fim, sussurrou:
- Amo-te, Delta Delta...
s onze da manh do dia seguinte, a 30 de Abril de 1975, Saigo caiu e os Sul-Vietnamitas renderam-se ao Norte. A batalha que os Americanos tinham travado durante 
tanto tempo chegara ao fim.
Paxton e Tony regressaram a bordo do navio americano Blue Ridge, at ao seu pas, do filho e do mundo que haviam perdido durante tanto tempo. Um mundo que quase 
tinham esquecido. Mas agora o Vietname desaparecera. Era uma memria distante... um pesadelo... um sonho. Para eles e para os demais, acabara finalmente.


 Carla Maria Ferreira dos Mrtires

2000-11-19
